Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 25 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 15

15

 

Então começaram oficialmente as férias de verão. Depois da morte, todos queríamos viver. Dávamos por nós a dizer coisas como: «Temos de ir ali ou acolá porque o João Tiago já não poderá ir.» Portanto, fomos comprar fatos de banho. Nessa tarde, sentadas naturalmente em frente ao bar, esperava que Simão chegasse, era algo familiar a que me habituara. O próprio desejo tornara-se parte de mim, algo rotineiro, como se não precisasse de pensar muito nisso. Como se lesse as falas de uma peça que já sabia de cor e salteado. Com a areia a escaldar, corremos para a água em bicos de pé onde Simão estava com Nico, Nando e outros rapazes da escola. Continuava com o braço engessado, mas o seu rosto já tinha melhor aspeto. Molharam-nos quando chegámos e Nico atirou Alice para a água, Luísa afastou-se comigo, consciente do meu medo de que me atirassem para o mar, e corremos uns atrás dos outros à beira da água. Simão ficara a observar-nos à distância, vê-lo ao longe a observar os meus passos era o suficiente para sentir uma qualquer reciprocidade.

Mais tarde, Nico desceu do bar, veio sentar-se ao pé de nós e apresentou-nos Zeca, que trabalhava no bar. Era um miúdo alto e esguio, de pele morena e queimada de quem passa muito do seu tempo na praia, o cabelo despenteado e uma trança colorida no meio da sua cabeleira castanha. «O bar é dos pais deles, podem pedir-lhe tudo o que quiserem», disse Nico. O bar abria às dez horas e, na maioria dos dias, já lá estávamos a essa hora. Combinávamos o ponto de encontro à porta da escola e descíamos a pé o caminho até à praia. À medida que a manhã passava, a praia ia enchendo cada vez mais. Íamos almoçar a casa e, pelas três da tarde, descíamos novamente e, por essa altura, a mota de Simão habitualmente já se encontrava no estacionamento do bar, os meus olhos dardejavam sempre nessa direção.

Por vezes, Filipe e outros rapazes da turma iam connosco, sentávamo-nos em círculo na areia, jogávamos à bola ou cartas Uno. Uma tarde, subi ao café para comprar gelados para todos e foi Zeca a atender-me. Sorridente, fez uma conversa sobre gelados e o tempo que demoram a derreter face aos graus que estavam naquele dia. Simão, que estava do outro lado do bar, veio em passo apressado e deu um salto por cima do balcão, encostando-se a Zeca a ouvir a conversa.

— Esses gelados são todos para ti? — perguntou, contando-os em voz alta. — Vais ficar uma baleia.

— Tens tanta piada — respondi. Contei o dinheiro e entreguei um monte de moedas a Zeca, que olhava, ora para ele, ora para mim.

— A sério, depois não cabes nesse biquíni.

— Tu pareces uma lontra e ninguém te diz nada — respondi de forma infantil.

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