Raparigas como Nós
Capítulo 9
9
Passara os últimos dias a tentar descobrir o momento exato em que tudo mudou. Porque não foi quando cheguei à praia e Alice me deu a notícia. Fora muito antes. O momento que determinou que Simão iria partir aos vinte e dois anos fora algures lá atrás e eu precisava desesperadamente de saber. Passei horas a martirizar-me com a ideia de que esse momento poderia ter sido quando lhe escrevera aquela carta de despedida ou quando me cruzara com Afonso no meio de Madrid. Mas a vida é feita de uma infinidade de momentos que se condicionam uns aos outros e basta uma pequena alteração num deles para que tudo o resto mude por completo. E não havia nada que eu pudesse ter feito porque nós não controlamos nada. É a vida que controla tudo ou o destino, o universo, Deus. O que lhe quisermos chamar.
Provavelmente esse momento já teria sido determinado ainda antes de nos conhecermos. Se calhar fora quando a mãe decidira vir para Portugal. Ou quando os pais se separaram. Ou quando ele conhecera os amigos na escola. Ou quando começara a trabalhar na praia com Zeca. Ou quando voltara de Faro. Ou quando nascera. Ou qualquer outro sem fim de momentos que conduziram a este. E eu não poderia ter mudado nenhum deles porque fui apenas um de uma infinidade de momentos que se entrelaçaram uns nos outros. Mesmo que ele tivesse ficado em Maputo ou nunca tivesse entrado na minha escola ou nunca tivesse conhecido os amigos ou nunca se tivesse cruzado comigo, se calhar iriam existir outros momentos que iriam resultar exatamente no dia de hoje.
E como seria a minha vida se nunca o tivesse conhecido? Se nunca me tivesse apaixonado por ele? Se nunca lhe tivesse escrito poemas e cartas infantis de amor? Teria crescido a ser a rapariga que era? Ter-me-ia apaixonado por Afonso quando o conhecera porque vê-lo chorar no Tunnel fora inesperado, fascinante e bizarro e este sentimento de ser meio estranha, e um pouco intensa, já me era familiar? E estaria agora a estudar comunicação porque não havia nada mais para mim além de escrever e gostava de imaginar que um dia iria receber o meu Pulitzer e agradecer a Simão por me ter feito escrever poemas aos catorze anos? Como seria a versão de mim mesma sem o momento em que a vida de Simão se cruzara com a minha?
Não sabia.
Nunca iria saber.
Nós nunca sabemos.
Mas sabia que iria amá-lo para sempre porque ele me fizera conhecer o amor. Apesar de tudo o que o meu coração passara, não trocaria o que vivera por nada deste mundo. Não trocaria a dor de perder Afonso porque me fizera reencontrar Simão. Não trocaria a mágoa de perder aquele rapazinho das minhas memórias porque me fizera conhecer a pessoa real que ele era. E estava-lhe grata por isso, por tudo o que me fizera viver, por tudo o que me fizera conhecer, por tudo o que me fizera sentir.
Nunca há maneira de saber aquilo que nos espera. Afonso estava aqui, os seus braços estavam ao meu redor. Olhei para Alice e para Luísa. Ainda tinham os olhos brilhantes, nem queria imaginar no estado em que estariam os meus, e senti um injeção de afeto por elas. sabia que, independentemente da imprevisibilidade da vida, teríamos sempre este laço entre nós, éramos umas para as outras em qualquer situação. E sabia que podia enfrentar qualquer coisa porque acabara de ficar sem metade do meu coração e, ainda assim, sobrevivera.
— Queres conduzir? — perguntou Afonso com um sorriso. Abriu-me a porta do lado do condutor.
— Não tens medo de que te destrua o carro todo?
— É só um carro. — Encolheu os ombros. — E já tem tantas amolgadelas. Mais uma menos uma.
— Eu não acredito, tu não confias mesmo em mim.
— Vá, vá — disse com uma gargalhada. — Vamos beber um copo? Acho que precisamos.
— Nós vamos, então, no teu carro. — Puxei Alice e Luísa pelos braços. — Tu vais no carro do Zeca.
Estava a conduzir pela marginal, já tinha a carta de condução e conduzir era quase tão bom como estar no meio do mar a boiar. Era a sensação de liberdade, de colocar o pé no pedal e ir onde quisesse. Abri a janela, deixei que o vento gelado me batesse na cara e respirei fundo o cheiro a praia, a mar, a Simão, a mim, a passado, a presente, a futuro. Estava a deslizar sobre o planeta, a dizer olá a esta nova versão de mim sem uma parte do seu coração a que teria de me habituar. A despedir-me do meu eu de ontem. Não sabia o que iria encontrar do outro lado ou o que iria acontecer, não sabia quem iria ser agora. Não sabia o que este momento estaria a desencadear para o meu futuro. Só o iria saber quando lá chegasse.
— Sabes uma coisa? — perguntou Alice do banco de trás. — Nestes momentos, é difícil imaginar que o universo é enorme e somos apenas três pontinhos minúsculos.
— Pois é. E é estranho pensar que as pessoas do carro da frente estão na sua vida e não acabaram de se despedir do Simão. E que, para elas, nada mudou porque o mundo subitamente ficou diferente e não consigo imaginar que os outros não o sintam também. — Olhei para ela, estava a sorrir. Luísa, sentada ao meu lado, apertou-me o braço.
— Vamos ser sempre assim, não vamos? — perguntou Luísa.
— Espero que sim — respondi.
— Acho que devíamos telefonar um dia destes à Marisa para beber um copo connosco — comentou Alice de forma casual.
— Porquê?
— Porque ela é, sei lá… uma rapariga como nós.
E nesse momento eu soube. Soube que não precisava de tentar agarrar nada com as minhas mãos. A vida encarrega-se de nos levar para onde temos de ir.
Saudade, onde escondes o teu olhar de tristeza
Perdido na imensidão do mar?
Procuro-te sem te saber presente
Vejo-te sem te ver realmente
Mas não te encontro em nenhum lugar.
Olho o céu com esperança de ver
A mesma estrela que tu na escuridão
Tenho medo de adormecer
De te perder nas minhas memórias
De me encontrar na solidão.
Pergunto-me o que sonhas
Se há sentimento nesse olhar sombrio
Tento entrar no teu mundo
Tento descobrir quem és
No teu coração vazio
O teu nome queima-me a língua
Mas deixo-te para não me perder
E se um dia pensares em mim
Quando não me conseguires encontrar
É à tua porta que a saudade irá bater.
Isabel
1999
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