Raparigas como Nós
Capítulo 5
5
O Verão estava a acabar e, numa manhã de domingo a meio de setembro, deitados na cama dele, Afonso olhava para mim como se pudesse ouvir os meus pensamentos. Tinha o cigarro pendurado nos lábios como James Dean num poster a preto e branco. Tirei-lhe o cigarro da boca, ele grunhiu em protesto.
— Acho que este é um dos hábitos que temos de mudar — disse, dando-lhe um beijo rápido nos lábios e apoiando-me na cama sobre os cotovelos.
— O quê? — Riu-se alto e estendeu o braço por cima da minha cintura, tentando pegar no cigarro que lhe tinha tirado.
— Isto — abanei o cigarro na mão —, fumar na cama.
— Incomoda-te?
— Na verdade, sim. — Tentei fazer uma expressão grave, mas não zangada.
— Porque não me disseste antes?
— Porque não calhou.
Ele ficou sério, mas, de seguida, um sorriso lento apareceu no seu rosto. Enrolou uma perna ao redor do meu corpo e usou o impulso para subir até ficar com os lábios colados nos meus.
— Acabaram-se os cigarros na cama — disse, beijando-me lentamente.
— É assim tão fácil acabar com este hábito? — perguntei, desconfiada.
— É! — disse. — Apenas te quero a ti… É assim. Todos os teus defeitos, as tuas queixas, os teus sorrisos, as tuas gargalhadas, as tuas piadas, o teu sarcasmo idiota, tudo. E se não gostas que fume na cama, eu não fumo na cama.
— Obrigada, vou ter isto em conta quando te pedir coisas mais úteis. — Abracei-o, enrolei as pernas em volta dele e deixei-me cair novamente na cama.
E, no meio desta festança, atravessada pelo sopro sossegado de uma tarde de domingo de setembro, ele interrompeu os beijos e agarrou-me a cara.
— Precisamos de ir a um sítio.
— Tudo bem — respondi, fechando os olhos.
— Mas é agora. — Abanou-me, quase como que para me acordar daquele torpor de amor.
— É domingo, vamos ficar aqui deitados sem fazer nada.
— Tenho um encontro com a minha mãe e quero que vocês se conheçam.
E foi assim que o disse, tudo nele era descontração e calma. Nunca conhecera os pais de nenhum namorado, também nunca tivera um a sério. Apenas houvera Filipe, com quem perdera a virgindade dois anos antes numa festa em casa de um rapaz da turma, toda eu em nervos deitada na cama dos pais dele, ambos pouco conscientes do que estávamos a fazer, mas estava na hora de despachar o assunto. Ele era o meu melhor amigo, benevolente do género que já sabia que iria para enfermagem, mas bastante possessivo do género que eu não podia falar com mais ninguém. E apesar de adorar vê-lo a jogar futebol, de nos beijarmos à porta da minha sala de aula antes de ele ir para a dele e de nos divertirmos muito em grupo, a verdade é que éramos amigos, não estávamos assim tão apaixonados um pelo outro. E os pais dele já me conheciam desde que éramos miúdos, portanto não contava. Agora, Afonso queria que conhecesse a sua mãe e eu queria causar uma boa impressão.
Metemo-nos no carro dele e estacionámos perto do Largo Trindade Coelho onde, na cafetaria do Museu de São Roque, a mãe dele nos esperava. O café estava praticamente cheio quando chegámos. Reparei logo em Laura, a mãe dele, sentada a uma das mesas centrais, com uma revista dobrada e uma chávena de chá. A mesma postura corporal, o mesmo maxilar quadrado e o mesmo sorriso, que abriu, quando nos viu. Em vez de me aproximar logo, deixei-me ficar para trás, com as mãos atrás das costas. Afonso deu um abraço à mãe que, sem nunca desprender de mim o olhar, me piscou o olho e se aproximou de mim.
— Não acredito que estou finalmente a conhecer a rapariga de que tanto ouvi falar nos últimos tempos — disse. Abraçou-me e afastou-se para me olhar melhor.
— Espero que tenha ouvido coisas boas — respondi, alisando a minha T-shirt com as mãos.
— Só ouvi coisas ótimas, mas a irmã dele certamente poderia contar-te mais, porque ele não fala assim tanto comigo. Eu bem tento…
Não sabia o que responder, por isso dei uma gargalhada talvez um pouco fora de contexto. Afonso observava tudo aquilo, sorrindo.
— Bem, vamos sentar-nos? — convidou a mãe dele, afastando-se para nos deixar passar para a mesa que já tinha ocupado.
Afonso já me falara da mãe que vivia numa antiga casa dos avós em Sintra. E contara-me a história simpática de como os seus pais se tinham conhecido na estação de São Bento, no Porto, numa noite em que ambos haviam perdido o comboio e esperavam pelo último do dia, que partia em direção a Lisboa às nove horas. Laura, na altura ainda estudante, fora ao Porto passar uns dias com uma amiga e, cansada de estar sentada na estação, dirigira-se a um café uns metros adiante para comprar qualquer coisa para comer. O café estava cheio e ela vislumbrou um banco ao balcão. Aproximou-se e perguntou à pessoa do lado, um senhor de meia idade que lia uma revista da National Geographic, se o lugar estava vago. Ele sorriu, acenou com a cabeça e ela sentou-se. Uns minutos depois apareceu um jovem, filho do senhor ao seu lado, percebeu ela, e o lugar afinal não estava vago. Passaram aquela hora a conversar, enquanto comiam uma sandes de queijo bafienta e bebiam café, ela sentada e ele de pé. Partiram no mesmo comboio e, quando chegaram a Lisboa, Laura preparava-se para apanhar um táxi para casa quando o senhor da National Geographic se aproximou e lhe entregou um papel com um número de telefone. «O meu filho gostava muito de a voltar a ver», dissera. E ela, embaraçada, sorrira e guardara o papel no bolso. Demorou uma semana a ganhar coragem para telefonar, tinha a certeza que o seu pai não aprovaria sabê-la a telefonar para casa de um rapaz mas era isso ou nunca mais o ver. Assim, pôs a vergonha de lado e lá telefonou. O filho do senhor da National Geographic viria a ser o pai de Afonso. Depois de ter criado a sua empresa de publicidade, casaram e ela tinha, até hoje, uma pequena loja de antiguidades, já que pouco interesse mostrara na empresa do marido. Havia muitas lacunas na história, coisas que Afonso não me contava, mas, após a morte do pai, Laura mudara-se para a casa de Sintra para ficar perto da mãe e ali vivia desde então. Não obstante as poucas conversas que tínhamos tido sobre os seus pais, sabia que não fora uma relação muito feliz e que o pai, mesmo quando ainda era vivo, passava demasiado tempo a viajar e muito pouco em casa. Mas Afonso não gostava de falar nisso, fazia a sua cara de aborrecido, revirava os olhos e quase conseguia ouvi-lo dizer «mas temos mesmo de falar destas coisas deprimentes agora?» E assim continuávamos, com tanto que eu queria saber e tão pouco que ele queria dizer. Nessas alturas, dizia para mim que só nos conhecíamos há três meses, podia parecer muito, mas tinham passado apenas três meses. E isso não era nada para quem falava pouco, como Afonso. Talvez muito para quem abria a boca e deixava sair um vulcão de informação, como eu.
— Meia hora atrasado, meu jovem — disse Laura, colocando o guardanapo de novo no seu colo.
— Apanhámos algum trânsito. — Afonso deu-me a mão por debaixo da mesa. — Sabes como é, ao domingo todos os velhos saem com o carro à rua.
— Mas eu vim de Sintra e já cá estava há meia hora sentada. Ele também se atrasa em tudo contigo? — perguntou diretamente a mim.
— Oh, um bocado, sim — respondi, atrapalhada.
— Agora vão virar-se as duas contra mim, a sério? — Afonso deu uma gargalhada e chamou o empregado da cafetaria.
— E o que é que vocês têm feito? — perguntou-me, enquanto Afonso pedia qualquer coisa para comermos.
— Bem, eu estou a trabalhar numa livraria e isso ocupa-me algum tempo — respondi, não sabendo muito bem o que ela queria saber. — Vou também começar para a semana as aulas.
— Escritora, é verdade… — Sorriu. — O Afonso já me falou sobre isso.
— Oh… — A palavra que me fazia sentir de outro planeta e, ainda por cima, nem sabia se era isso que queria. Odiava quando ele assumia o papel do meu pai, a pôr palavras na minha boca. — Eles precisavam de alguém algumas tardes por semana e eu preciso de dinheiro.
— Sempre motivei o Afonso para trabalhar enquanto estudava. — Começou a remexer na mala. — Alguma vez te mostrou uma fotografia dele em criança? — Estendeu-me uma pequena fotografia desbotada.
— Oh, tão querido — comentei com voz melosa enquanto analisava a fotografia ao pormenor.
— Bem — interrompeu Afonso —, daqui a nada estás a contar-lhe os meus podres, mãe.
— Acho que não ia saber por onde começar — disse, com uma uma risada sonora.
Afonso retirou um cigarro do maço e começou a acendê-lo.
— Não acredito que ainda fumas — disse-lhe a mãe. — Não acredito que o deixas fumar — acrescentou, virando-se para mim.
— Estamos a trabalhar nisso — respondeu, piscando-me o olho.
— Eu sei que achas que ficas a parecer uma estrela de cinema — disse Laura, colocando-lhe uma mão no joelho —, mas não é verdade — acrescentou com um tom de sátira na voz.
Afonso deu uma gargalhada.
— Acho que fico sensacional — disse, colocando o cigarro de lado nos lábios. — Não fico sensacional? — Olhou para mim.
— Não — respondi com voz séria.
— Tudo bem. — Cruzou os braços. — Conspirem contra mim à vontade. Mas eu vou parar. — Abanou a cabeça, sorriu e expirou a fumaça pelas narinas para o outro lado. — Só que não é hoje.
Era interessante ver a dinâmica dele com a mãe. Falavam a mesma língua, tinham as mesmas expressões, riam-se da mesma forma e faziam as mesmas caretas. Conseguia perceber exatamente onde é que Afonso fora buscar o seu olhar felino e via na mãe a beleza que outrora havia apaixonado o pai. Estava absorvida pelas conversas que iam desde o trabalho na empresa à irmã de Afonso e a outros membros da família de que nunca ouvira falar. Volta e meia, falávamos de assuntos corriqueiros e percebia que a mãe dele tentava integrar-me na conversa, contando-me histórias da infância dele.
— Sabias que o Afonso foi expulso da faculdade? — perguntou-me a dada altura.
Ri-me porque ele já me tinha dito que abandonara a universidade dois anos antes, o que não me surpreendera. Expulso era outra história.
— Não conhecia esse teu lado bárbaro — disse, olhando para ele.
— Mãe! — Revirou os olhos. — Não foi bem isso, mas já sei onde é que ela quer chegar. — Recostou-se na cadeira. — Vá, podes contar o que eu sei que queres contar.
— O Afonso juntou-se a um grupo ativista contra as propinas e escreveram nas paredes do edifício. — Sorriu. — Na altura, fiquei fula da vida com ele.
— Não te imaginava tão ativista — disse-lhe.
— O Afonso sempre foi muito intenso nas suas relações. — A mãe dele interrompeu-me.
— Que relações? — perguntei. Mas já ambos me ignoravam.
— Mãe, a sério que queres falar disso?
— Então, só te viraste contra as propinas por causa daquela rapariga.
— Que rapariga? — voltei a perguntar mas parecia que ninguém me ouvia.
— Ela não teve nada que ver com aquilo — grunhiu, irritado. — Na altura, estava genuinamente revoltado com a situação das bolsas.
— E isso justificava teres sido expulso? — reclamou a mãe. Percebi que estava fora da conversa e calei-me.
— Mas porque é que este assunto teve de vir outra vez? Já passaram dois anos, já estou a trabalhar como querias. Porque é que estás sempre a falar nisso?
— Porque tu fazes sempre isso. Há sempre alguma coisa que aparece e tu mudas de ideias ao sabor da corrente, foi por isso que nunca acabaste nenhum curso. Primeiro desististe de Direito ao fim de três meses, depois foste expulso da outra.
Será que ninguém via que eu estava ali?
— Mas eu não preciso de curso nenhum. E tu aproveitas qualquer oportunidade para me chateares com essas merdas.
— Preocupar-me com o teu futuro é chatear-te?
— Não tens de te preocupar com o meu futuro todas as semanas.
— Quando semana sim, semana não, mudas de ideias, tenho de me preocupar.
— Mas desde quando é que eu mudo de ideias?
— Já pagaste a viagem e a casa? — interrompeu-o a mãe de repente.
— Não quero falar sobre isso agora.
— Se não me atendes o telefone e falta pouco mais de uma semana para ires, acho que não tenho outra opção a não ser falar aqui.
Estava completamente atordoada com o rumo da conversa.
— Mãe, já chega.
— Ele ainda não falou contigo? — perguntou-me, virando-se para mim de repente. Pelo menos estava de novo visível no meio desta conversa.
— Hum… — Hesitei. — Não faço ideia do que se está aqui a passar.
— Mãe! — gritou Afonso, falando por cima de mim.
— Meu Deus, ainda não lhe contaste, pois não?
— Ainda não tivemos oportunidade de falar sobre estas coisas e não é aqui que vamos falar. — Bateu com a mão na mesa. Conseguia sentir a tensão entre os dois a aumentar.
— Estás a adiar o inadiável.
Afonso levantou-se da mesa, arrumou a cadeira e colocou as mãos nos meus ombros.
— Acho que nos vamos embora, falamos sobre isto depois.
— Mas o que é que se está a passar, afinal? — perguntei, batendo com a cadeira contra a mesa.
— Querida, o Afonso vai viver para Madrid — disse-me a mãe dele, agarrando-me nas mãos. — Agora já sabes.
Dei dois beijos fugidios na mãe dele e saí aos tropeções atrás de Afonso, as suas mãos a puxar-me por um braço, a minha cabeça num redemoinho de pensamentos confusos. Saímos da cafetaria e parámos à porta do Museu.
— Como assim, vais viver para Madrid? — perguntei.
— Soube de uma agência de publicidade que estava a precisar de alguém fluente em português e candidatei-me — disse-me, com os olhos franzidos do sol e braços cruzados.
— E vais quando?
— Começo dia 1 de outubro. — Faltavam duas semanas.
— E desde quando é que sabes que te vais embora?
— Comecei os testes e as entrevistas antes do verão, muito antes de nos conhecermos e, na verdade, nunca pensei que me fossem chamar. Afinal, como a minha mãe frisou, eu nunca acabei o curso.
Estava sem palavras e comecei a andar, porque ficar parada estava a deixar-me com um formigueiro nas pernas.
— Olha — puxou-me com força e agarrou-me no rosto —, nada vai mudar, isto não vai alterar rigorosamente nada.
— Como é que não vai alterar? Vais morar para outro país.
— Mas tu podes vir comigo — disse, beijando-me.
— Não sejas ridículo. Achas que me posso ir embora? Estou na escola, lembras-te? Sou uma miúda na escola!
— Podes pedir transferência para uma escola de lá ou podes cancelar a matrícula e ir só aos exames. Também são só três disciplinas e já sabes a matéria, não é o fim do mundo — disse em voz baixa. Parecia que estava a falar sozinho, mais para ele do que para mim.
— Mas tu estás a ouvir-te? Isto é de doidos. Desde quando é que tu sabias disto?
— Contactaram-me para me informar que tinha sido aceite há umas semanas.
— E porque é que não me disseste?
Ele deu uma gargalhada triste.
— O que é que querias que eu dissesse? Para não nos aproximarmos porque havia a possibilidade de me ir embora? Achas que as coisas são assim? Eu nem sequer sabia se queria aceitar ou não…
— Acho, Afonso! — Falei mais alto do que tencionava e baixei novamente a voz. — Acho que, se soubesse que me ia embora, to teria dito logo no início. — Ele puxou-me para ele. Contorci-me e tentei afastar-me.
— Eu disse-te que não queria ficar na empresa do meu pai — disse, abraçando-me com força. — Não quero viver para sempre na sombra do que ele construiu. E quero que te orgulhes de mim.
— Mas eu tenho orgulho em ti, achas que não tenho?
— Tu vais escrever, vais contar tantas histórias que precisam de ser contadas, vais ser a melhor, acredita, mesmo que ainda não tenhas visto que o que está dentro de ti é o amor à vida e tudo o que há para contar a partir daí. E eu não quero ser sempre aquele que nunca acabou o curso e trabalha na empresa do pai.
— Afonso, já estás a divagar — disse, tocando-lhe no rosto e alisando-lhe o cabelo para trás da orelha. — Tu tens o mundo à tua frente e podes ser tudo aquilo que quiseres, com ou sem curso. Aqui ou em Madrid. — Respirei fundo. — Mas eu não posso ir atrás de ti. A minha vida é aqui.
— A nossa vida! — disse, escondendo o rosto no meu cabelo. — Madrid é mesmo aqui ao lado, podes ir lá ter comigo.
Afastei-me. Sentia as lágrimas a caírem-me lentamente.
— Eu tenho aulas a que sou obrigada a assistir e trabalho no resto do tempo. — Limpei o nariz com o braço. — Quando é que é suposto ir a Madrid? Nas férias? E o que é que digo aos meus pais? Isto é de doidos.
— Então eu venho cá — respondeu, voltando a abraçar-me
— Afonso — afastei-me do seu abraço e olhei-o nos olhos —, eu não acredito em relações à distância. Isso é tudo uma merda. Só vamos estar a adiar uma coisa que vai acabar por acontecer e vai ser ainda mais difícil.
— O quê?
— Nós! A distância, tudo.
— Mas nada vai mudar, porra! Podemos falar todos os dias ao telefone — gritou. Ele abriu a mão e senti que ia pegar na minha. Era suposto ele pegar na minha mão, mas voltou a baixar o braço.
— Vamos magoar-nos e… — Nem tive forças para continuar a falar.
E foi então que senti aquele sabor a fel do fim. Aquela sensação de que nada mais ia voltar a ser como era. À nossa volta, tudo continuava igual. O sol continuava a brilhar, as árvores continuavam sossegadas, as pessoas passavam por nós alheias à nossa existência, tão concentradas nas suas vidas, o céu continuava da mesma cor, um azul-claro sereno de setembro. Os ruídos à nossa volta continuavam os de sempre, umas crianças a brincar na calçada, três senhoras que se riam sentadas num banco, as rodas dos carros a girar em direção ao Chiado. Mas olhei para ele e soube, naquele instante, que nunca mais o ia voltar a ver. Era isso que ia mudar.
— E então? Nós aguentamos — disse-me, descrente.
— Eu não aguento.
— Vou ter um emprego em Madrid, mas a minha vida vai continuar a ser contigo. — Agarrou-me com tanta força, que pensei que me sufocava.
— A tua vida vai estar em Madrid e eu vou estar aqui — disse-lhe num esforço para não atirar tudo ao ar e ir embora com ele, o que era ridículo, porque mais rapidamente a minha mãe me algemava ao corrimão das escadas de casa. — E quero que te concentres nela sem estares a pensar no que deixaste aqui.
— Mas eu não vou deixar nada — disse, baixando os braços, como que desistindo —, apenas não vamos estar juntos todos os dias…
— A tua mãe disse que tens tendência para desistir das coisas e eu não quero que desistas desta oportunidade. — Dei-lhe a mão. — Quero que te concentres nela e, se tivermos de ficar juntos, vamos voltar a ver-nos.
— Isto é o fim? — perguntou, prendendo-me a mão.
— Não é o fim da rua, é apenas um cruzamento no nosso caminho. — Soltei lentamente a minha mão da dele e virei-lhe as costas. — Desculpa, preciso de me ir embora. Não consigo mais…
Comecei vagarosamente a descer a rua de forma teatral. Verdade seja dita, queria que viesse atrás de mim. Alguns metros mais adiante, parei e virei-me para trás. Ele continuava no mesmo sítio, com os ombros descaídos, os olhos no chão e uma posição de derrota que me mortificou a alma. Corri para ele, abracei-o com toda a minha força e beijei-lhe os lábios. Beijei-lhe o queixo, as bochechas, o nariz, os olhos, o pescoço, as orelhas. Queria senti-lo, cheirá-lo, prová-lo e absorvê-lo mais uma vez. Queria prendê-lo comigo para sempre. Queria bater-lhe por ter entrado na minha vida. Queria deixar tudo e ir-me embora. Queria gritar-lhe para ficar. Queria implorar-lhe, agarrar-me às suas pernas e suplicar para não se ir embora. Mas como é que alguma vez poderia fazer isso? Como dizer a alguém para desistir dos seus sonhos? Tão estúpido era ele ficar como eu pensar em ir com ele. Amá-lo era libertá-lo para construir o seu caminho. Com cada movimento que fazia para me separar dele, quase conseguia ouvir o meu coração rasgar-se. E quase conseguia sentir o seu coração a cair no chão ao lado do meu.
— Amo-te, Afonso — disse-lhe, com a boca colada na dele —, mas não consigo suportar uma despedida.
Não esperei para ouvir a resposta, virei-me de costas e comecei a descer o largo em direção a casa do meu pai. Não me voltei a virar uma única vez. Enquanto descia a rua, as lágrimas teimavam em cair, não obstante as pessoas que se fixavam a olhar para mim num misto de curiosidade, aflição e preocupação. Como era possível ser ainda o mesmo dia? Meia dúzia de horas antes, estávamos deitados na cama a falar sobre nada em especial. Estaquei no meio do passeio e olhei para cima. Como é que as pessoas conseguiam andar na rua calmamente sem terem qualquer consciência do que estava a acontecer à minha vida? Às vezes, o nosso mundo é de tal forma abalado que é difícil imaginar que mais ninguém tenha sentido o abanão. Era indescritível a tristeza que tomava conta de mim por ver que tudo continuava a correr como era suposto, independentemente da forma como me sentia. As pessoas continuavam a apressar-se para chegar onde tinham de ir, os carros continuavam a andar, os semáforos continuavam a trocar de vermelho para verde, à minha volta continuavam os ruídos de sempre, os miúdos a jogar à bola lá em cima no largo, os cães a correr atrás deles. Ninguém é suficientemente especial para fazer o mundo parar.
*
Não falei com ninguém e desliguei o telemóvel durante o resto dos dias. O dia 1 chegou e, deitada na minha cama, conseguia imaginá-lo no seu novo emprego, na sua nova vida em Madrid, uma cidade que nunca conhecera e que, subitamente, me parecia tão distante e detestável. Nessa noite, liguei-o, finalmente. Tinha uma mensagem dele, enviada uns minutos depois de nos termos despedido à porta da cafetaria.
Também te amo. Para sempre, dizia.
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