Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 31 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 3

3

 

— E porque é que não me beijaste? — perguntei num acesso de confiança.

— Opá… — Ele esfregou a cara com as mãos.

— Sabes, na altura passei a noite toda a pensar que o ias fazer. Senti-me profundamente idiota. — Ri-me para desvalorizar.

— Escuta, Isabel, eu também queria, acredita, mas não sei. Eu já não ia à escola, estava quase a ir para Maputo e ia ser injusto estar de novo a arrastar-te para a minha vida. Mas, naquela noite, lembrei-me de como me fazias sentir. E estavas diferente, ou se calhar estavas igual, mas eu estava finalmente a ver-te como sempre quiseste que te visse. Falar contigo e estar sentado ao teu lado no comboio, sei lá… aquilo bateu-me de alguma forma, mas eu ia-me embora.

Fiquei calada.

— E a rapariga das argolas? — perguntei de repente. — Quanto tempo estiveste com ela?

— Quem?

— Aquela miúda da escola que estava sempre convosco. — Não queria dizer-lhe que sabia perfeitamente quem ela era. — Vi-vos juntos na praia naquele verão… — Não terminei a frase.

— Ahh… — Ele ficou a pensar. — A Marisa. Não sabia que nos tinhas visto, pensei que tivesses ido de férias com os teus pais ou assim.

— Sabias que deixei de ir à praia para não ter de te ver com ela? É engraçado que, depois, me tenha transformado numa dessas miúdas que odiava naquela altura.

— Não digas isso. — Ele riu-se alto. — Nunca ficaste nada igual. Elas faziam tudo aquilo que era suposto fazer para chamarem a nossa atenção. Eram todas iguais umas às outras, a fumar charros connosco e a beber cerveja na praia.

— Mas tu gostavas dela — repliquei com um sorriso.

— Nem sei se gostava dela, sei lá, era miúdo e ela andava sempre ali atrás de mim e os outros queriam comê-la… — Esfregou o cabelo e ficou calado a olhar para mim. — Foi aquele tipo de coisas que fazemos quando somos putos.

— Lembras-te daquela festa no refeitório? — perguntei. — No final do 9.º ano.

— Aquela espécie de discoteca manhosa?

— Porque te foste embora?

— Não sei — hesitou. — Nunca gostei dessas festas, nem de discotecas.

— Vou dizer uma coisa muito idiota, mas passei a noite toda a imaginar que vinhas ter comigo. E depois estavam todos a gritar para nós, tudo aquilo era tão teatral…

— Era um pouco. — Sorriu, embaraçado. — Já te disse isto, mas, naquela altura, eu não sabia como corresponder a tudo aquilo que me davas. Eras mais nova, eu também não deixava ser um miúdo, toda a gente gozava comigo e, bem, eu acabava por também ir nas brincadeiras.

— Pois…

— Naquela noite — continuou, embalado no assunto, o que me surpreendeu —, eu estava a ver-te com os teus amigos, mas não sei… eu era miúdo, nem sabia muito bem o que devia fazer. Só queria que ninguém me chateasse.

— Depois foste-te embora de repente — encostei-me no sofá — e eu até chorei. — Tapei a cara com as mãos e dei uma gargalhada alta.

— Não fazia ideia — respondeu, muito sério.

— E quando acordei de manhã… — Subitamente caiu-me a ficha e lembrei-me da merda do acidente, do funeral, de toda a gente a cantar Pearl Jam, como se esta memória tivesse ficado lá para trás, escondida na minha mente, algo que inconscientemente esquecera. Agora estava arrependida de me ter rido. — Foi o acidente. — Simão olhou para mim e baixou a cara. — Desculpa, desculpa, não queria falar sobre isto.

— Eu também não falo muito sobre isto. — Respirou fundo. — Na verdade, nunca mais ninguém falou sobre isto, foi uma espécie de pacto que fizemos. Foi uma merda, o João Tiago morreu, eu também podia ter morrido, mas não morri e acho que decidi que ficar a pensar na morte dele não acrescentava nada. Gosto de me lembrar das coisas fixes que fizemos e de como ele era incrível, divertido e um miúdo feliz.

— Pois… — respondi. Não sabia o que dizer.

— Nem sei porque saímos daquela festa estúpida, mas a vida é assim, não sabemos porque fazemos as coisas que fazemos e as consequência que vão vir daí — acrescentou, engolindo o resto do seu copo de um só trago. — Mas fala-me mais sobre o estares a chorar na festa — respondeu, com um sorriso.

— Bom… deixa ver do que me lembro… — Lembrava-me de tudo. — Estava a dançar com o Filipe, lembras-te? Mas ali ainda não éramos namorados, foi só no fim do verão.

— Estou a lembrar-me agora disso, sim…

— Ele passava o tempo todo a perguntar-me se ainda pensava em ti.

— E pensavas?

— Não. — Sorri. — Depois de te ver com a das argolas, sei lá, mudou tudo. Acho que cresci e deixei de ser aquela miúda que escrevia…. — Calei-me.

— Gostava muito das tuas cartas. — Terminou o que eu ia dizer e sorriu.

 

Não sei precisar quanto tempo ficámos no sofá a falar. A dada altura deitara-me e esticara as pernas. Em momento algum ele fizera algum movimento e isso fazia-me sentir como se estivesse novamente na escola com toda esta tensão, mas nada a acontecer. Quando o Sol já começara a nascer, ele levantou-se e foi pôr um CD a tocar.

— Temos de dançar.

— Não tenho jeito nenhum para isso — respondi, fazendo força para não me levantar do sofá.

— É para compensar aquela festa em que não dançámos porque eu era um miúdo parvo e me fui embora. Para compensar teres chorado.

— Não devia ter contado isso — observei, sem me mexer no sofá.

— Isabel, do que é que tens medo?

Levantei-me e aproximámo-nos lentamente. Virei a cara e ele colocou uma mão nas minhas costas. Foi fácil perceber que se sentia tão nervoso como eu. A sua mão tremia na minha pele.

— Quem não tem jeito nenhum para isto sou eu — disse, com uma gargalhada.

— Ainda bem.

— Ainda bem? — Virou a cara para me olhar, enquanto nos movíamos lentamente ao som de Why Georgia de John Mayer, nem sequer dançávamos. — Gostas de me ver fazer figuras para te impressionar?

— Estás a tentar impressionar-me?

— Não está a funcionar, eu sei. — Rodou-me, apoiou-me no seu braço e baixou-me com um sorriso. — Este é o único passo tipo filme de cinema que consigo fazer. — Puxou-me para cima num impulso e pus os braços ao redor do seu pescoço. O bar tornara-se alaranjado à medida que os primeiros raios de sol entravam pelas janelas espelhadas.

— E por ter sido tão mau é que foi bom.

— Ai sim?

— Todas estas coisas devem ser mesmo um pouco desajeitadas.

— Acabaste de me descrever — respondeu, com uma gargalhada sonora por cima de Mayer.

— Então é porque estás no bom caminho. — Encostei a cabeça no seu ombro.

O bar desapareceu, regressara à outra festa em que ele nunca me convidara para dançar. Conseguia sentir o seu coração enquanto dançávamos o que significava que, se calhar, também sentia o meu. Então ele afastou-se, olhou para mim fixamente e beijou-me. E era o beijo com que sonhara em adolescente no meu quarto a olhar para os posters do David Charvet, a saudade que sentira durante todo este tempo a rasgar-me a pele. Beijámo-nos lentamente, de pé no meio do bar, mas, quando a música acabou, a magia quebrou e voltei ao presente em que tudo aquilo era demasiado confuso. Olhei para ele, mexi no cabelo e afastei-me até ao sofá para ver as horas no seu telefone cima da mesa.

— Bem, já é quase de manhã Se calhar vou para casa.

— Isabel, não vais fugir novamente, pois não? Quero voltar a ver-te.

— Claro — disse desajeitada. — Tens um papel? Eu dou-te o meu número.

Ele tirou um guardanapo e foi buscar uma caneta atrás do balcão. Rabisquei o meu número.

— Como é que vais para casa? — perguntou, enquanto descíamos no elevador.

— Apanho um táxi na estação.

De frente para o espelho do elevador, ele deu-me a mão e sorriu enquanto olhava para mim no reflexo. Escondi a cara no seu casaco.

— Anda, eu levo-te a casa. Onde moras agora?

— Não, a sério — disse-lhe enquanto apertava o casaco. — Acho que já tive a minha dose diária de motas por hoje.

— Não acredito que tens mesmo medo. — Puxou-me para me abraçar. — Ou então não me queres dizer onde moras. Tens medo que te apareça à janela a meio da noite?

— Devias tê-lo feito há uns anos.

— Acho que ainda posso ir a tempo. — Ele parou um táxi na rua e abriu a porta. — Posso ligar-te amanhã?

— Acho que sim — respondi a entrar no táxi. — Mas se não responder é porque, na verdade, não costumo atender o telefone a tipos que gostam de miúdas de argolas. Que mau gosto. — Sorri e fechei a porta.

 

Paguei uma fortuna ao taxista e fui para casa do meu pai. «Bom dia, só te esperava na hora de almoço», disse-me, quando entrei pela porta, «mas já percebi que ainda é boa noite para ti», sorriu. Pedi-lhe para avisar a minha mãe que estava lá porque ficara sem bateria, deitei-me na cama de barriga para baixo e apaguei.

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