Raparigas como Nós
Capítulo 6
6
O tempo passa, mesmo quando parece impossível. Para mim, cada segundo doeu como se me estivessem a espetar alfinetes em todo o corpo. Os últimos meses surgiam desfocados na minha memória, lembrava-me de alternar entre horas deitada no sofá a ver televisão até de madrugada e dias em que quase nem saía da cama porque só queria dormir. Alice foi a Madrid com Ventura e com alguns dos amigos deles para visitar Afonso e passar férias, o que foi mórbido e angustiante ao mesmo tempo. Eu queria saber tudo ao pormenor, sabendo de antemão que era melhor não saber. Tentava chorar, queria gritar, mas deixei de ter energia até para isso. Depois dos primeiros meses em que tudo me fazia chorar, foi como se as lágrimas simplesmente se tivessem esgotado. Estive muito tempo sem ir a casa do meu pai, as memórias de Afonso estavam por todo o lado. Na minha cama, nas almofadas, nas cortinas que ele prendia para fumar à janela, na T-shirt dele que ficou pendurada no roupeiro. No Natal, quando tive de ir, três meses depois de Afonso ter ido embora, vi-o em todo o lado. Lembrava-me do cheiro dos seus cigarros malditos, do som da sua gargalhada, da forma como se encostava nas minhas almofadas. Em cada canto havia qualquer coisa dele, um livro que tirara do lugar, o último disco que ouvira no gira-discos do meu pai, restos de um perfume dele na casa de banho do meu quarto, maços de cigarro vazios no parapeito da janela, recados colados na parede em post-its amarelos. Até a caligrafia dele me agoniava. Tudo se tinha desmoronado, mas ali, tudo estava igual, como se ele fosse tocar à campainha a qualquer momento e entrar pela porta. E já estava à espera do momento em que ia começar a esquecer. O único consolo que temos quando nos partem o coração é o tempo e a certeza de que um dia todo aquele sofrimento irá acabar. Ainda assim, sentava-me na cama com as mãos cruzadas nas pernas ao pé do telefone, à espera da única chamada que me podia voltar a fazer feliz, mesmo sabendo que ele nunca o iria fazer. Dizia para mim própria que controlava tudo, mas durante todo aquele tempo foi a memória dele que me controlou. E eu deixei, porque a fatalidade do que restava dele fazia-me sentir, ainda assim, mais viva do que alguma vez me sentira.
É curioso como são os desígnios da vida. O ano sabático que eu e Alice tirámos relevara-se certeiro porque a minha capacidade de concentração andava pelas horas da morte. Faltei às aulas até ao ponto em que fui obrigada a cancelar a matrícula e candidatar-me somente aos exames nacionais. Também perdi o trabalho na livraria porque deixei de aparecer. Todos tentavam tirar-me de casa, mas o problema não era não me apetecer ver ninguém, não queria era que ninguém me visse. Não queria sair com Alice e Ventura, não queria saber como andava a vida de Marina e de Luísa na universidade e, embora me sentisse uma amiga miserável focada na minha insignificância, não me apetecia falar com ninguém. Não conseguia voltar a fazer o que sempre fizera porque não conseguia aceitar que a minha vida teria de continuar como se ele nunca tivesse feito parte dela. «Daqui a uns tempos vais olhar para trás e perceber que toda esta clausura de dor teria sido mais bem suportada se tentasses voltar à tua vida», dissera-me a minha mãe e eu sabia que tinha razão. Num dia particularmente apático, vi uma aranha a passear na minha janela e matei-a imediatamente. Depois de a ver esborrachada contra o parapeito, perguntei-me se a sua vida era mais importante do que a minha, já que a tinha espalmado com o dedo sem pensar duas vezes. Mas e se ela, afinal, tivesse um qualquer papel a desempenhar no seu mundo de aranhas? Talvez fosse uma peça fundamental na natureza. Já eu andava a arrastar-me havia meses e não contribuía com nada para o mundo, estava a suicidar-me lentamente dia após dia. Então percebi que estava exausta, esgotada de me sentir triste. E foi como se tivesse purgado algo que me pusera doente nos últimos meses.
Eu e Alice fizemos dezoito anos, demos uma festa temática dos anos setenta, fui para a Serra da Estrela com os pais dela e vimos neve, ajudei-a a organizar uma festa surpresa para Ventura e arrumei a sete chaves o que acontecera no Sudoeste. Preparei-me para os exames nacionais, arranjei um trabalho de verão num café e fui passar duas semanas de férias na casa do avô de Marina, na Nazaré. No fim do verão, em casa do meu pai, arranquei os post-its da parede, esvaziei o perfume dele na sanita, atirei com tudo o que era dele para o lixo e cortei o cordão umbilical que ainda me prendia às memórias do que tínhamos vivido. Voltei a pensar nele quando entrei na Universidade. O que diria se soubesse que escolhera Ciências da Comunicação porque me poderá abrir portas para várias áreas? Ter-me-ia dito que tomara a decisão correta? Ou sentir-se-ia desiludido por não ter apostado tudo na escrita? Alice entrou em História e, valha-nos isso, entrámos na mesma universidade. Era estranho pensar que chegara viva a setembro, tinha passado exatamente um ano desde que Afonso fora embora. Meses antes, mal acreditava que poderia sobreviver a tamanha dor, por mais abstrata que fosse e, acima de tudo, incompreensível aos olhos dos outros, exagerada até. Aquele verão, outrora uma memória angustiante, parecia-me agora tê-lo vivido noutra vida. Fui morar com o meu pai, ao contrário do que sempre imaginara fazer, para estar mais perto da Universidade e a minha mãe mostrou-se surpreendentemente satisfeita com a minha decisão. A minha vida foi lentamente ganhando novas camadas e Afonso deixou, por fim, de preencher todas as gavetas da minha cabeça.
As noites estavam a chegar cada vez mais cedo, mas os dias pareciam-me maiores, uma vez que só tinha aulas de manhã. Abracei todas as mudanças com entusiasmo, as salas de aula que pareciam auditórios com cadeiras em círculo, o palanque no meio onde os professores se posicionavam como se fossem dar um espetáculo, e havia dias que parecia que assim iria ser, as pessoas mais velhas nos corredores, o facto de estar constantemente a ser chamada de caloira e a obrigação subjacente em responder. Numa manhã, estava com Alice e outras raparigas do meu curso na fila do bar quando um grupo de rapazes trajados entrou de rompante. De capa pendurada aos ombros, imaginei-os suados e pegajosos debaixo daquele aparato todo. «Caloiros, pega-monstro na parede!», gritaram. À nossa volta, dezenas de miúdos, atiraram-se contra a parede como se tivessem recebido um choque de uma pulseira eletrónica invisível. Nós ficámos onde estávamos, alheias àquele circo. «Não são caloiras?», perguntou um deles, usava um bastão enquanto andava e batia-o vigorosamente no chão, uma forma de gritar o seu poder fálico. «Sim, e então?», respondeu uma miúda do meu curso. «Então porque é que não estão a fazer o que mandámos?», perguntou o fulano do bastão, o seu tom de voz era tão petulante que aquilo foi o suficiente para me tirar a paciência. «Isto não é uma ditadura e somos livres de fazer o que nos apetecer», respondi com um encolher de ombros. Ele olhou-nos de cima abaixo, tal era o desdém perante a nossa rebelião. «Vocês são anti-praxes, vocês vão sofrer», declarou, virando-nos costas. Umas raparigas mais velhas que estavam na fila à nossa frente deram uma gargalhada ruidosa. «Ouçam», disse uma delas, «ignorem porque são os idiotas da Tuna». E por idiotas percebi que se referiam ao facto de tocarem pandeiretas, cavaquinhos e acordeões enquanto dançavam e cantavam músicas populares a toda a hora e em qualquer lado, com a benesse de poderem fazer o que bem entendiam, como faltar às aulas. Ocorreu-me que poderia simplesmente entrar para a Tuna, dado que a minha mãe me chateava constantemente para entrar em alguma atividade universitária, e tocar pandeireta parecia-me absolutamente plausível, fácil e uma arte que não me ocuparia demasiado tempo. Arrastei Alice para um ensaio de apuração de novos membros e, cinco minutos depois, percebemos que a Tuna não era para nós. Não tínhamos o espírito militante de quem vivia dentro de um traje e gostava de entrar pelo bar a cantar sobre o boémio sonhador e a donzela à janela. Verdade seja dita, também não me imaginava a vestir assim todos os dias, saia e casaco como uma beata de setenta anos, como se a Universidade fosse o funeral das nossas jovens vidas.
Uma manhã, enquanto me arranjava para ir para as aulas e procurava umas botas do inverno passado, encontrei uma fotografia dentro de um livro que atirara para um canto. Ali estávamos, eu e Afonso, sentados no chão da sala de um amigo dele com alguns copos a mais. Lembrava-me dessa noite, tínhamos jantado com os amigos dele e jogávamos um jogo qualquer quando um deles, que andava a tirar fotografias com uma Polaroid, nos fotografou. Fitei a fotografia na minha mão, Afonso sorria enquanto olhava para mim, que tapava o rosto com as mãos. Tentei lembrar-me da gargalhada dele e não consegui. E foi neste instante que percebi que aquela dor exagerada e mórbida tinha acalmado por fim.
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