Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 10 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 9

9

 

Levantei os olhos do livro que estava a ler no café sujo à beira-mar e vi-o entrar. A primeira coisa em que reparei foi o cabelo despenteado, numa versão dele próprio a que não estava habituada. Meio dourado e comprido, caído no rosto e misturado com a barba. Trazia umas calças pretas, um blusão de pele velho e umas botas castanhas, já não era o surfista de borbulhas na cara de que me lembrava da escola. Tinha um aspeto taciturno, meio fatalista até. Mas o seu sorriso abriu-se quando me viu sentada e era o mesmo de sempre, aquele sorriso que me fazia tremer as pernas como se fossem gelatina e que, obsessivamente, não conseguia afastar do pensamento. Ao fazer a cama de manhã, ao esperar que as torradas saltassem, ao cortar uma maçã sentada no sofá, ao descer a rua para a escola, lá estava ele.

Pousei o livro, meio atrapalhada, e dei um golo na chávena de chá à minha frente. Tinha a garganta seca e áspera como se tivesse acabado de correr uma maratona. Lá fora, o sol já estava praticamente posto e à medida que o céu passava de laranja a roxo e de roxo a azul escuro, o frio instalou-se no café quase vazio. Ouvia-se uma música lenta de fundo e coisas a bater na cozinha, a minha atenção focada em tudo o que me rodeava para retardar o momento em que teria de olhar para ele e confrontar-me com a nossa própria história, se é que se podia chamar de história. Éramos somente dois estranhos que se conheciam desde sempre. Nostalgia, surpresa, alguma covardia e ansiedade explodiram dentro de mim ao vê-lo entrar pela esplanada calmamente como se sempre soubesse onde me encontrar. Se esticasse as mãos, poderia tocar na corrente invisível que nos unia como se tivéssemos voltado atrás no tempo. Ele parou à minha frente de mãos nos bolsos e sorriso no canto da boca. Levantei-me para o cumprimentar, mas ele puxou-me e abraçou-me. De mãos nos meus ombros, soltou uma gargalhada e deu-me um beijo na bochecha, a fugir para a orelha, o que tornou o momento ainda mais constrangedor. Tinha a certeza de que nunca tinha estado tão próxima dele e quase que conseguia sentir o meu eu de catorze anos a dar pulos dento de mim.

Estávamos sentados, um de frente para o outro na mesa gelada da esplanada com o sol a pôr-se no mar em pano de fundo, num silêncio que poderia ter sido embaraçoso, mas que afinal se revelou agradável. Não tínhamos assim grande coisa para dizer um ao outro, pensava eu, ou talvez tivéssemos demasiadas coisas e não sabíamos por onde começar. O seu corpo comportava-se de formas não muito diferentes do meu, percebia que estava ansioso e talvez um pouco desconfortável na minha presença. Ele mexeu-se na cadeira, puxou o cabelo para trás, eu pousei a chávena na mesa, esfreguei as mãos para fazer circular o calor, gestos banais que pareciam ensaiados.

— O que tens feito? — perguntou, quebrando o silêncio. Inclinou-se na mesa e aproximou-se de mim.

— Olha — sorri e encolhi os ombros —, o normal, estou na faculdade. — A memória de vê-lo sorrir para mim ou a gritar-me qualquer coisa do outro lado da escola deixou-me com pele de galinha na nuca. Limitei-me a pousar os braços debaixo da mesa.

— Deixa-me adivinhar. — Fingiu pensar. — Escrita?

— Estás quase lá. — Não consegui não rir. — Ciências da Comunicação.

— Pronto, não estive longe.

— E tu? Curso do quê? — perguntei, intrigada. Ele fora um daqueles rapazes que chumbara de ano em ano até deixar de aparecer na escola.

— Oh, tu sabes. — Voltou a encostar-se na cadeira. — Coisas do mar. Fiz um curso de navegação em Faro nos últimos dois anos.

— Cortaste mesmo as amarras com tudo. — Ri-me com a minha própria insinuação náutica, ele apoiou a cabeça na mão. — E viveste em Faro este tempo todo?

— Vivi no Baleal e depois em Faro, mas vinha a Carcavelos todos os meses. É difícil cortar com isto, não é? Vivemos aqui a nossa vida toda, isto faz parte de nós, eu cresci ali no bar do Zeca. E quando te vais embora acontece uma coisa engraçada, é que deixas de pertencer. Não és de um sítio, nem de outro.

— Como assim?

— Para eles era um alfacinha preso à terra, percebes? Sempre a vir a casa ao fim de semana. E quando estava cá, nunca me sentia em casa porque era sempre temporário.

— Vida de nómada, portanto — respondi com um sorriso.

— E pensei em ti muitas vezes, acreditas?

— Ah! — respondi, surpresa. — Porque é que não disseste nada? — saiu-me involuntariamente.

 

Era uma pergunta descabida, nós não éramos amigos nem conhecidos, talvez dois absolutos estranhos com uma história em comum. Simão fizera parte de uma altura da minha vida em que começava a descobrir o amor e, com ele, revelara-se fascinante, intenso e mágico. Lembrava-me das borboletas no estômago sempre que se aproximava de mim na escola, das cartas que lhe escrevia e os bilhetes que colocava no seu cacifo por baixo da porta. Tinha catorze anos, estava apaixonada pela primeira vez e tudo nele me transportava para uma parte de mim de que já me esquecera. Sabia tudo dele, tanto quanto poderia saber naquela altura, imaginava-o divino, etéreo e celestial. Fora um sentimento que, até conhecer Afonso, acreditava que nunca mais iria viver, presa como estava a uma memória ingénua de um amor que nunca fora recíproco e que, agora, naquele café, conseguia sentir a subir-me pelas pernas, pela barriga, pelo peito, a penetrar na pele e a inflamar-se dentro da minha cabeça. Talvez por ter gostado tão obsessivamente de alguém quando nem sequer sabemos ou temos estrutura emocional para compreender o amor, é que continuara numa procura absurda e incessante por sentir um pouco daquilo que sentia naquela altura. Subitamente lembrei-me de Afonso na noite em que nos conhecemos, de me perguntar se não levava as relações a sério. Como poderia alguma vez ter-lhe explicado que o que procurava era magia, a que estava agora sentada à minha frente, e que sabotava tudo o que não me fizesse sentir assim?

Ele tossiu e voltei ao presente. Enquanto falava, fui juntando as peças deste puzzle que era a sua vida. Conhecera Vitória, a sua última namorada, algures em Maputo, quando lá estivera a trabalhar com crianças, o que foi impressionante e estranho de ouvir. Na minha memória, ele continuava a ser aquele miúdo na praia a fazer surf e a fumar charros com os amigos. «Quando ela quis voltar para Portugal, voltei com ela», disse-me. «E querias voltar?», perguntei. Encolheu os ombros. Vivera com Vitória em Peniche, onde acabara por trabalhar numa escola de surf no Baleal, e ali estava ele, o rapaz de que me lembrava. «Eu queria estudar navegação, sabias?», perguntou-me. Acenei que não. «Mas, para ela, ter um namorado a passar meses no mar não fazia parte da equação.» Era justo, pensei.

— E quando é que acabaram? — perguntei. Não queria soar demasiado inconveniente, mas era a velhinha curiosidade.

— Há um ano e tal. Ela já tinha acabado o curso e recebeu uma proposta para ir trabalhar para a Suécia.

— E aceitou?

— Ela iria sempre aceitar, independentemente de eu concordar ou não.

— E não gostavas de ter ido?

— Eu curtia estar em Maputo, vim embora por ela, deixei a minha família e o curso de navegação. Não ia deixar a minha vida para ir para a Suécia viver a dela. — Sorriu. — Fui para Faro e estive lá até agora.

 

*

 

Tinha as peças deste puzzle de memórias todas encaixadas. Simão saíra do Baleal e tinha-se inscrito no curso de navegação em Faro, que entretanto terminara. Falei-lhe da Universidade, do ano em que estivera parada porque não sabia o que queria fazer e senti que não tinha nada de interessante para falar porque a minha vida resumia-se basicamente a isto.

— Mas continuas a escrever, certo? Lembro-me das tuas cartas.

Mal pronunciou esta frase, calou-se, deixou sair um riso embaraçado e começou a coçar a testa, constrangido. Não tanto quanto eu.

— E agora que acabaste o curso, o que vais fazer? — perguntei, estava perita em desviar assuntos indesejados.

— Agora tenho de fazer um exame, que são três dias no mar. — Captei uma espécie de orgulho nos seus olhos. — E depois posso começar a trabalhar.

— Trabalhar onde? — questionei.

— Em embarcações.

— Como cruzeiros?

— Epá, não é isso. — Deu uma gargalhada. — Embarcações de alto-mar.

Um dia, sei lá, posso vir a ser capitão de um navio.

— Navio de quem?

— Imagina, tens aquelas pessoas que têm barcos pessoais. — disse, sorrindo. — Esses navios não estão sempre atracados num porto. São de turismo, pessoal com dinheiro e coisas do género. Talvez os navios fiquem para a família, fazem férias em zonas paradisíacas, podem ficar atracados nas Caraíbas ou assim. No resto do ano, muitos deles alugam-nos, ou vão para o verão mediterrânico. E todos eles têm as tripulações que trabalham durante todo o ano na embarcação e, quando são alugados, trabalham para as pessoas que os alugam. O que eu estudei foi toda a operação de uma navegação de alto mar. Também posso trabalhar em navios de transporte, de investigação científica, embarcações de qualquer tamanho que façam navegação de alto-mar.

— Hum… — respondi, franzindo a testa. — Sabes que não percebo nada disso, certo? Mas gosto de te ver entusiasmado, parece-me que estás no bom caminho.

— Isto foi o que eu sempre quis fazer, trabalhar no mar — disse. — Eu dizia à minha mãe que queria ser capitão, até tinha uma T-shirt que dizia I wanna be a Captain. — Riu-se da memória. — Ela dizia-me para crescer e procurar um trabalho a sério, mas acho que preciso de o fazer, pelo menos para ter a certeza que já fiz e passei à frente. Para não ficar a pensar nisto a vida toda.

— Achas que não vais gostar?

— Trabalhar num navio de alto-mar é fodido, implica passar cinco ou seis meses no mar sem vir a casa. E acho que é isso que quero, mas, quando chegar lá, posso perceber que, afinal, já não é. E se é para o tentar, tem de ser agora. Mas também gostava de abrir uma escola ou um hostel para desportistas de mar ou fazer campos de férias com miúdos que querem aprender surf. — Suspirou e sorriu. — Sei lá, qualquer coisa assim, estás a ver?

— Sempre te imaginei a fazer isso, se queres que te diga. — Dei-lhe uma palmada no braço, o que foi estranho porque estávamos longe de ter essa proximidade, mas agora já não havia nada a fazer e mais valia continuar a falar. — É algo que podes fazer para o resto da vida porque tem tudo a ver contigo.

— Mas estou farto de dar aulas. — Encostou-se para trás na cadeira. — Foi isso que fiz durante a minha vida toda, até foi isso que fiz em Moçambique. Vivia em Maputo com a minha família, mas depois fui para a Ponta do Ouro fazer um trabalho de voluntariado com crianças em situação de vulnerabilidade social que tinham, pela primeira vez, contato com o surf.

— Isso é incrível — comentei. — Acho que é agora que podes perceber o que é que queres fazer. E, se nunca tentares, nunca vais saber, não é? Gostaste do curso, pelo menos?

— Olha, quando era mais novo dizia que queria estudar as estrelas, o fluxo dos ventos e as correntes marítimas. Navegar é como criar uma estrada no oceano, eu sei que parece chato mas é muito fixe. Mas depois a vida meteu-se pelo meio e, a dada altura, achei que tudo aquilo era demasiado para mim.

— Porque é que seria demasiado?

— Sei lá, sempre fui uma pessoa com pouca capacidade para acreditar em mim — partilhou. Encostou-se novamente na cadeira e cruzou os braços atrás da cabeça. — Há uns meses, fiz o exame final do curso, tive de me preparar durante semanas, estudar livros e calhamaços em que nunca imaginei sequer pegar. Sempre pensei que nunca iria passar porque, até hoje, nunca passei a nada. Nem sequer acabei a escola e tu sabes que nunca fui bom nessas merdas. — Fiz um sorriso, mas ele continuou. — Quando terminei, nem acreditei que tinha passado. Foi a primeira vez que tive sucesso em alguma coisa. Depois apanhei uma bebedeira para celebrar e a coisa não acabou bem.

Dei uma gargalhada.

— Por que razão não irias conseguir, se é algo que realmente queres e gostas? Acho que grande parte do sucesso está em fazermos o que gostamos.

— Tu sabes como sou — disse baixinho. Sabia? — Era péssimo na escola, chumbei a tudo, não percebia o que é que fazia ali. E também ninguém tinha grande interesse em perceber. «Ele não estuda, ele não se aplica, ele isto, ele aquilo…» — Fez um voz carregada de entoação como se estivesse a imitar um professor velho e rabugento.

Simão chumbara de ano em ano, como não me lembrar de quando, a dada altura, acabara no meu? Era curioso que, numa tarde, tinha falado mais com ele do que durante aqueles anos todos em que, miúdos, brincávamos ao gato e ao rato na escola. Contou-me que viera para Portugal aos catorze anos, de Maputo, onde crescera. Já em Portugal, entrara num ensino que em nada se assemelhava ao que tinha tido, não se conseguira integrar e, contrariado, começara a regredir e a chumbar ano após ano. O resto da história já eu sabia.

— Nunca falei disto com muita gente — partilhou. — Naquela altura, acho que tive algum tipo de depressão que ninguém compreendeu. Achas isto demasiado estúpido? — perguntou-me. Acenei negativamente com a cabeça. — Nem eu sabia o que tinha como podes imaginar, tinha quinze ou dezasseis anos…

Fiquei em silêncio porque nunca tínhamos falado da nossa adolescência e ele nunca partilhara este tipo de coisas, nem qualquer outra coisa, comigo.

— Eu tinha más notas, não me adaptava à escola e faltar às aulas e ir para a praia era o meu escape — continuou. — Talvez também tenha conhecido os amigos errados, o que não ajudou. Mas os professores diziam: tu só não tens positiva porque não te esforças, és preguiçoso. Foda-se, eu esforçava-me, tentava perceber as coisas e estudar da forma como me diziam. Mas ia para casa e chorava durante horas porque não conseguia perceber nada daquela merda. E depois tinha negativas e deixei de ir às aulas porque não fazia lá nada. A minha mãe não compreendia o que se passava comigo, tentava ajudar-me, mas na escola todos me faziam sentir que simplesmente não valia nada. Era o palhacinho que fazia toda a gente rir. Pelo menos era bom nisso.

Engoli em seco e continuei em silêncio. Sentia as pernas a tremer debaixo da mesa porque falar daquele período da minha vida em que ele fora o mundo para mim ainda me deixava sem fôlego.

— E naquela altura, a pior altura da minha vida, a altura em que me senti a maior merda, em que sentia que não valia nada — continuou —, apareceste tu. E eu podia não valer nada, mas tu fazias-me sentir que realmente valia alguma coisa. Para ti. Sinto-me privilegiado por te ter tido na minha vida porque a mudaste… me mudaste.

— O que estás a querer dizer? — perguntei, interrompendo-o.

— Toda a nossa história, as brincadeiras, o facto de andares atrás de mim todos os dias, as cartas que me escrevias, os bilhetes no cacifo… — riu-se, constrangido. — Foda-se, eu não sabia como lidar com isso, eras uma miúda mais nova e eu não sabia como agir. Mas tudo isso significou o mundo para mim e salvou-me na fase em que mais precisei. Eu sei que isto soa estúpido. — Respirou fundo e esfregou a cara com as mãos. — Podes não acreditar mas guardava tudo porque me fazias sentir especial, mesmo que, na altura, eu não soubesse como te responder a tudo aquilo. Estava longe de ter a estrutura emocional que tu já tinhas. Ainda tenho tudo guardado, todas as cartas, os bilhetes, os poemas que me escrevias, porque me fazem lembrar um período da minha vida em que podia ser a maior merda, mas pelo menos valia alguma coisa para alguém.

 

Não sabia o que dizer. Jamais me passara pela cabeça que, algures na nossa adolescência, pudesse ter tido este tipo de impacto na vida de Simão. Ele tivera na minha, isso eu sabia, talvez esse impacto ainda se fizesse sentir. Continuava numa procura incessante por sentir com alguém o mesmo que tinha sentido com ele, com a mesma força, a mesma intensidade, a mesma obsessão. Mas se, aos catorze anos, me tivessem dito que estava a mudar a vida de Simão, tê-lo-ia compreendido? Se soubesse o que ele, na sua vida real, passava, teria agido da mesma forma? O amor faz-nos perder a perceção das coisas, tudo ganha uma proporção inexplicável, eu escrevia cartas, postais e poemas a Simão numa busca desesperada pela sua atenção, ele era o início e o fim dos meus dias, era magia, alquimia, uma ânsia que não sabia como expressar, era sentir tudo de maneira desproporcional. Simão deu cor à minha vida numa fase em que todas as raparigas precisam de amarelo, vermelho e verde à sua volta, mesmo sem o corresponder, mesmo sem me colorir de volta. E, sem se aperceber, torna-me na pessoa que era hoje. Como poderia imaginar que também dava cor aos seus dias tão cinzentos quando para mim, só para mim, ele irradiava e brilhava?

 

*

 

Disse-lhe que tinha de me ir embora, saí do café a correr, peguei na bicicleta, ainda a tempo de o ver sair atrás de mim, confuso com a forma como me tinha evaporado na noite, e vim para casa. Atirei com os casacos para o chão, deixei as botas no meio do corredor e abri todos os meus armários. Espalhei tudo no chão do quarto, virei tudo do avesso mas, por fim, encontrei o que procurava, os diários de 1999 e 2000. Precisava de ler a nossa história, ou a história que tinha criado para nós. Precisava de entender o que vivera e o que me escapara daquele Simão que pensava conhecer tão bem. Regressei à escola de Carcavelos, à minha adolescência e ao 9.º ano quando, em turmas diferentes, tudo girava à nossa volta. Ou eu assim o fazia girar. Deitei-me a ler e, subitamente, já era de manhã. Mas já não era eu agora, a duas semanas de fazer dezanove anos. Era eu de novo com catorze.

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