Raparigas como Nós
Capítulo 4
4
Também havia aqueles dias em que ele me ignorava, não ia às aulas ou nem sequer o via. E quando Nico não estava bem disposto, conseguia ser dolorosamente desagradável. Um dia, numa aula de inglês em que, mais uma vez, ele recebera um teste com negativa, passara a aula a fazer de mim saco de pancada, a mandar-me para cima da mesa papéis que diziam coisas como: «O Simão odeia-te, não te pode ver à frente. O Simão diz que és uma chata…» No intervalo, chorara dramaticamente na casa de banho com elas a tentar consolar-me. Diziam que os rapazes não falavam uns com os outros e Nico jamais iria saber que Simão gostava de mim.
Mais tarde nesse dia, Nico entrou na aula declarou que Simão andava comigo se eu lhe batesse uma punheta. Depois do choque, respondi que Simão era muita conversa e pouca ação, como se soubesse sequer o que dizia. Na aula de geografia, Simão sentara-se lá fora em frente à minha janela com Nando, Ivo e outros do grupo dele. Alguns rapazes da turma, juntamente com Nico, chamaram-no e disseram coisas como: «Ela ama-te, ela chupa-te a pila». Simão escondera a cara com as mãos, entre risos, e eu alternara entre fúria e alento porque, afinal, era à minha janela que ele estava. Conceitos como bater punhetas ou chupar a pila eram fantasiosos e teóricos. Conhecíamo-los da televisão e das conversas dos rapazes, mas faziam parte do imaginário que era o sexo para nós, ainda a uma grande distância da nossa realidade. Esta brincadeira acabara quando a professora mandara os rapazes sentarem-se, abrira a janela da mesa dela e perguntara a Simão se não tinha nenhuma aula para ir ao invés de estar cá fora a distrair-me da minha.
*
Havia momentos em que acreditava realmente que conhecia Simão. Bom, sabia tudo dele, onde morava, quem eram os amigos, as músicas que ouvia, a data de nascimento, coisas triviais que pescava aqui e ali. Sabia que fazia um pouco de todos os desportos náuticos, que viera de Maputo, que chumbara de ano duas vezes, que não gostava de futebol e, pelo menos desde que o tinha conhecido, nunca o vira com nenhuma rapariga. Sabia tudo dele, mas, de facto, não sabia nada. O que faria aos sábados? Os sábados eram o pior. Aos domingos podia pensar o dia todo que segunda-feira já aí vinha. Mas os sábados duravam dez anos.
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