Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 39 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 11

11

 

Acordei a sentir-me uma merda. Doía-me a cabeça, tinha os olhos pesados, a boca seca e o corpo feito num oito. Olhei à minha volta, estava no quarto de Simão. Observei o meu corpo, um braço negro e as pernas esfoladas em várias zonas. Olhei para o relógio e o meu coração quase parou, eram onze da manhã, deveria estar a trabalhar. Tentei levantar-me mas o meu corpo não colaborou. Simão apareceu com um copo de água e uma banana. Bebi tudo de um só trago e em três dentadas comi a banana.

— Sentes-te bem? — perguntou. Abriu a janela para o ar entrar e, talvez, apagar aquele cheiro a álcool, suor e qualquer coisa mais. Sentou-se na cama ao meu lado.

— Sinto-me como se tivesse sido atropelada por um camião — respondi, atirando com a casca da banana para a mesa de cabeceira.

— Quase que foste mesmo. Tiveste uma trip do caraças.

— Foi a Marisa? — perguntei. Lembrava-me de algumas coisas da noite anterior e tinha a certeza que ela estaria metida nisto.

— Ela colocou molly no teu copo quando foste à casa de banho.

— Molly? — perguntei, confusa.

— Uma espécie de irmã mais nova do ecstasy.

— Porque é que ela iria fazer isso?

— Porque é a merda de uma idiota e achou que ia ter piada ver-te a tripar.

— E vocês andam assim com essas coisas no bolso e colocam nos copos de qualquer pessoa? — Senti-me estúpida, mas nem tinha energia para me chatear com isto.

— Queres mesmo falar sobre isto agora? — Deitou-se ao meu lado na cama.

— Bem, quero perceber esta merda toda.

— Perceber o quê? — Colocou um braço por cima da minha cintura.

— Perceber isto. — Apontei para mim própria em círculos. — Perceber-vos. Perceber o que é que vocês fazem porque, sejamos honestos, não é algo de que falemos muito.

Não sabia se queria saber ou perceber. Parecia-me que saber me iria dar mais trabalho do que continuar na ignorância. Mas também já não era possível voltar a colocar o génio de novo dentro da lâmpada. Ele olhou para mim. Respirou fundo como que a ganhar balanço. Mas revirou os olhos e começámos a rir.

— A molly é MD, é uma espécie de estimulante que se pode misturar na água ou nas bebidas — começou a dizer. — Faz-te sentir poderoso, desinibido, sei lá, ficas com uma perceção diferente do que te rodeia, das cores, dos sons, das luzes. Tu ontem andavas louca a pedir óculos de sol, dizias que as luzes te estavam a cegar. Mas foi a tua primeira e pode tornar-se assustador quando não se está à espera, que foi o teu caso. Eu, quando tomo, sinto como se a música estivesse a sair de dentro de mim, como se me conectasse com aquilo que estou a ouvir, então é fixe para curtir uma festa.

— Não foi a minha primeira vez — interrompi-o. — Foi a minha única vez. Até porque tenho medo destas coisas e tu também devias ter — acrescentei. Mas não era o momento para falar do assunto que estava sempre a pairar no ar como um grande elefante cor-de-rosa no meio de toda a gente. Parecia que já ninguém se lembrava do acidente, do amigo deles que morrera e das consequências das suas decisões, dado que todos continuavam a tomar drogas e a conduzir e andar por este mundo como se fossem deuses do universo.

— Não tens que ter medo e nunca vou deixar que faças nada que não queiras — disse, beijando-me a mão.

— O que é que eu fiz? — perguntei. Não me lembrava de nada de óculos de sol. Lembrava-me de querer abraçar toda a gente e de cair na rua no meio da água. Ele sorriu durante um nanossegundo. Como as pessoas fazem quando as coisas não têm graça nenhuma e estão a hesitar contar, mas também não conseguem deixar de o fazer.

— Andavas agarrada às pessoas, dizias que o pessoal era fixe e te sentias mal por nunca lhes teres dito isso. Toda a gente se estava a rir porque foi, de certo modo, engraçado mas, na verdade, não achei piada nenhuma. Tive vontade de dar um murro na Marisa, foda-se, só me apetecia bater-lhe, nem te consigo explicar. Senti-me impotente e responsável por toda aquela merda que estavas a sentir — explicou. — Sentes-te mesmo bem?

— Sinto-me estranha. Estou cansada, tenho uma moinha na cabeça e dói-me o corpo, mas isso acho que é porque caí — respondi, tocando nos joelhos.

— Disseste que eras um barco. Se calhar é porque queres finalmente andar de barco comigo.

— Que mais coisas vocês fazem? — perguntei para mudar de assunto. — Já percebi que é muito mais do que charros e os comprimidinhos na carteira.

Ele olhou para mim surpreendido e eu tentei não parecer demasiado tolerante nem excessivamente satisfeita comigo mesma por saber falar a linguagem dele. Porque estas coisas incomodavam-me e estava a fazer das tripas coração para falar de tudo de forma despreocupada.

— Epá… eles tomam todo o tipo de drogas — respondeu, hesitante.

— Conta-me — respondi com firmeza. — Acho que neste momento tenho o direito de saber. Nunca te chateei com isto, sempre te dei espaço para fazeres o que te apetecesse. Mesmo que não compreenda.

— Eu já experimentei de tudo, menos heroína. — Respirou fundo. — Alguns deles fazem isso. Ninguém se injeta, se é o que estás a pensar, isso é o fim da linha. O pessoal prefere cheirar coca e tomar pastilhas ou LSD. Alguns fumam crack porque é mais barato do que a cocaína.

— Qual é a diferença? — interrompi-o. Tudo isto era demasiado confuso.

— O crack é cocaína, mas na sua versão fumada, que atinge o cérebro muito mais rápido e de forma mais intensa. As sensações são mais imediatas do que cheirar, em que vais partindo lentamente…

— E quais são as sensações?

— Nem dá para explicar porque nunca experimentaste. É como ter um orgasmo, o teu corpo inteiro vibra por dentro, sentes todas as tuas camadas a ganhar vida e com uma energia fora do normal, um estado de felicidade incrível. Mas também tem o seu lado mau. Não podes fumar e ir trabalhar porque te vais sentir na merda, vazia e deprimida. É como se depois de um pico intenso de felicidade o teu corpo se esvaziasse.

— Então porque é que fazes isso, se depois te sentes uma merda? — perguntei.

— Porque há formas de compensar depois isso, sei lá — disse com um suspiro. — É por isso que o pessoal fuma charros vinte vezes por dia. Quanto mais fumarem, acredita, maior está a ser a ressaca.

— Então fumam para anular os efeitos de depressão que essas merdas causam? — Achava tudo completamente absurdo. — Que mais?

— Depois há os que gostam de pastilhas, como valium, efedrina, xanax e por aí fora, mas isso já não é a minha praia. A única coisa que ainda gosto de fazer, muito de vez em quando e só em momentos específicos, é LSD. Não te assustes, se tomar duas vezes por ano, é muito.

— Porquê?

— Porque é uma viagem, sei lá, é sempre incógnito. É um alucinogénio e sais daqui e entras num universo alternativo, tudo fica diferente e dá para viajar e esquecer tudo o resto.

— E as pastilhas são tipo comprimidos da farmácia? Eu lembro-me que havia miúdos que tinham isso na escola.

— Eu só fiz misturas de comprimidos uma ou duas vezes, é demasiado perigoso e estúpido.

— Como assim? — interrompi-o novamente. Tinha tantas questões que nem sabia por onde começar.

— Tomam estimulantes e tranquilizantes ao mesmo tempo e podes imaginar as sensações que isso provoca no corpo, mas é também uma guerra no organismo e pode correr mal.

— E qual é o objetivo disso? Ficares maluco? — perguntei, revirando os olhos.

— Está relacionado com o estado de espírito. Se estás numa festa e queres mesmo abstrair-te das merdas e curtir, tomas mais estimulantes, como a efedrina que dá adrenalina. Se estás em casa e queres relaxar, tomas mais tranquilizantes e ficas tranquila. De uma forma ou de outra, ficas sempre nas nuvens…

— E de que é que gostas mais? — perguntei, tentando perceber, afinal, o que é que ele fazia quando não estava comigo.

— Crack, mas é viciante para caralho e quanto mais fumares, mais vais querer. Eu só fumo de forma ocasional, mas alguns deles fumam mais vezes. — Puxou-me para baixo na cama e abraçou-me. — Acredita, neste momento só fumo charros de vez em quando e nem tenho qualquer vontade de fazer mais nada. És tu a minha droga.

Fingi que acreditava. Era mais fácil.

 

Passei o resto do sábado em casa deitada no sofá a ver filmes. Disse à minha mãe que caíra a tentar aprender a andar de mota e levei um sermão infernal sobre as motas estarem interditas. Domingo fui trabalhar cedo. Ainda me doía o corpo, tinha os joelhos quase em carne viva mas queria sair de casa, voltar à minha vida e esquecer aquela noite.

— Estás bem? — perguntou-me Zeca quando me viu descer as escadas da praia a coxear. — Deste uma valente queda. — Olhou para as minhas pernas.

— E ainda nem viste o meu braço — respondi, tirando o braço de dentro da manga da camisola. Virei-o para que ele visse a nódoa negra quase preta que ia desde o ombro até ao cotovelo. — Pelos vistos caí no meio da água porque achava que era um barco.

— Olha — começou, hesitante —, quero pedir-te desculpa pelo que aconteceu.

— Mas não tiveste culpa de nada — interrompi-o e voltei a vestir a manga da camisola porque a manhã estava nublada. Pelo menos, não teria muito trabalho.

— Escuta, ela está arrependida de o ter feito. — Eu duvidava que ela estivesse arrependida, mas ele nem sabia da missa a metade. — Ela disse que te queria ver mais liberta e integrada no grupo.

— Mas… — Tentei falar, mas ele colocou-me uma mão à frente da boca.

— Deixa-me explicar-te — pediu. — Eu sei que ela não é uma miúda fácil e por vezes tem atitudes de merda como esta, mas as intenções dela são boas. Ela só não consegue relacionar-se com as pessoas da melhor forma e tem ideias como esta. Na altura, acredita que vão ser geniais, mas normalmente acabam sempre por sair o contrário.

— Está bem — respondi a olhar para o mar. Ele parecia estar a transbordar, como se ao dizer-me tudo isto fosse ficar mais leve. Talvez ela é que o estivesse a afogar e ele nem se conseguisse aperceber disso.

— Acho que ela pensou que te ias divertir e que toda a gente ia passar um bom bocado a ver aquilo bater-te, mas não parou para medir as consequências que uma pastilha poderia ter numa pessoa que nunca experimentou e, acima de tudo, com álcool.

— Ouve, a sério — acabei por dizer —, não foi assim tão mau. Sim, estou toda partida porque caí no meio da estrada enquanto corria como um foguete e fiquei com a cabeça feita num oito, mas já passou. Se quero voltar a experimentar? Não, obrigada. Mas também não foi o fim do mundo…

— Ela depois vai pedir-te desculpa pessoalmente.

— A sério, não é preciso. — Na verdade, não tinha a menor vontade em vê-la ou falar com ela ou lembrar-me da sua existência.

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