Raparigas como Nós
Parte III
Inverno
2005
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
HUMANOS
OceanofPDF.com
1
Estava preparada para passar a passagem de ano em casa com a minha mãe quando, no último momento, decidi ir ter com Marina e Luísa a uma festa organizada por alguém que conhecia alguém que certamente não conhecia ninguém que não quisesse ver. Passara os últimos dias a planar nas memórias de Simão e precisava de arrancar estas raízes que, subitamente, haviam ganhado vida. Antes fossem flores, mas, quando tentamos voltar ao passado, tornam-se ervas daninhas que nos rasgam o coração. Dei beijos de bom ano à minha mãe e às minhas primas, chamei um taxi e saí de casa.
Disse ao taxista que me podia deixar no início da rua, paguei e caminhei a pé à procura da morada. Ouvia música e vozes vindas de janelas abertas, mas a zona estava um pouco deserta. As festas faziam-se lá em baixo, na baía de Cascais e na Marina, não aqui, no meio do nada ao pé do Guincho. Conseguia sentir no ar aquela excitação do bulício da passagem de ano e, um pouco mais à frente, vislumbrei pessoas na rua e andei calmamente até lá. Não era uma casa, antes um mamarracho de três andares, com a música a ressoar e luzes a brilhar de todas as janelas escancaradas. Lá fora, um grupo de miúdos estava à conversa, uns encostados à parede, outros sentados no degrau do passeio, fumavam charros e iam passando de boca em boca. Aproximei-me da rapariga que se encontrava mais próxima de mim.
— Olá, estou à procura da Sílvia. Vim aqui ter com umas amigas…
— Sílvia? Devem estar aqui umas cinco Sílvias — respondeu com um bafo de fumo para cima de mim. Tinha cabelos azuis presos em dois totós tortos.
— Hum, a Sílvia dona da casa? — Escrevera a morada que Luísa me dera num papel, mas nenhuma delas me atendera o telefone. Olhei para a porta e vi uns rapazes cujas caras me eram familiares. — Olha, conheço aqueles ali, por isso estou no sítio certo.
A rapariga olhou-me de cima abaixo com curiosidade, o que me fez rir
— Queres? — perguntou, enquanto me passava o charro.
— Não, obrigada. Só quero mesmo encontrar as minhas amigas.
— Então força — respondeu, revirando os olhos. — Ninguém te está a barrar a entrada.
A casa estava lotada e via, aqui e ali, espalhadas pelo jardim, caras que reconhecia da escola, de Carcavelos e de outras festas. Enviei uma mensagem para as duas a dizer que já tinha chegado e avancei pelo hall de entrada para explorar a casa. Havia luzes de néon presas no teto e um sofá de pele castanho do lado direito, atafulhado de casacos numa pirâmide torta. À minha frente, havia umas escadas e, do lado esquerdo, um cadeirão onde um casal se beijava fervorosamente. Subi as escadas e, já no primeiro andar, deambulei pelo longo corredor que terminava num grande salão transformado em discoteca. Entrei na primeira divisão à esquerda, uma sala com sofás e um tapete de zebra no meio do chão. Numa mesa no canto, dezenas de pessoas aglomeravam-se em volta de uma mesa onde um grupo jogava, talvez póquer. Saí e entrei noutra sala, e depois noutra, e depois noutra. O cenário era idêntico em todas. Sofás, mesas, música e centenas de miúdos que andavam para trás e para a frente a dançar, a beber e a fumar. De Luísa e de Marina, nem sinal. Desisti de procurar por elas no salão, subi ao último andar e entrei numa pequena sala com um sofá vazio. As janelas estavam abertas à minha frente, estiquei as pernas e deixei cair a cabeça para trás. Uns momentos depois, ouvi um magote de vozes a gritar e, lá fora no céu, algures por cima do mar que se estendia pelas janelas, vi fogo de artifício. «Uau, é meia-noite», disse em voz alta. «Bom novo ano para mim.»
Alguém me passou um copo de champanhe para as mãos e brindei com uma série de miúdos que se abraçaram, gritaram felicidades para o novo ano. Sorri para dezenas de pessoas que conhecia de vista mas que, provavelmente, nunca mais iria ver, abracei outras tantas que se aproximaram, de copos na mão, em alegria festiva. E depois desta euforia da meia-noite, os copos e os charros continuaram a passar e eu voltei a sentar-me no sofá, de cara dorida de tanto sorrir para conhecidos e estranhos, ainda com restos do champanhe no meu copo.
Peguei no telemóvel e tinha três mensagens de Luísa. Li a primeira, a dizer que estava ao lado da porta do salão que dava para o jardim, antes de ficar sem bateria. Peguei no casaco e levantei-me para ir procurá-las. Vi alguém do outro lado da sala encostado a uma janela a olhar para mim. No meio das pessoas, e na penumbra, não conseguia perceber muito bem se o conhecia ou não mas avancei para a porta. Ele materializou-se à minha frente e tocou-me no ombro.
— Estás a divertir-te tanto quanto eu? — perguntou, de sorriso constrangedor. Era Simão e tive de me rir perante a improbabilidade do que, afinal, era mais do que provável. A festa estava cheia de gente que conhecia de vista.
— Bem, só vejo gente conhecida, mas que, afinal, não conheço assim tão bem mas sim, estou a divertir-me imenso — respondi de mãos nos bolsos.
— Embora tenhas fugido a sete pés no outro dia. — Deu uma gargalhada. — Agora já me conheces a mim.
Sorri. Tinha fugido porque a nossa conversa fora estupidamente perturbadora.
— E o que é que fazes aqui sozinha — tirou o telemóvel do bolso — às 00h20 do dia 1 de janeiro?
— Poderia perguntar-te o mesmo.
— Eu vim com o pessoal daqui — disse, hesitando. — Vi as tuas amigas lá em baixo e perguntei-lhes por ti. Elas olharam para mim como se tivessem visto um fantasma e disseram que também estavam à tua procura.
— Tiveste mais sorte do que eu, porque não as encontrei. Ia agora ter com elas lá abaixo.
— Desististe cedo de mais. Corri a casa toda, acredita, para ver se te encontrava — disse com uma gargalhada. — Estava a fumar um, hã… cigarro à janela quando te vi aí sentada.
Foi o hã que o tramou. Percebi que continuava a fumar charros, se não tivesse hesitado, talvez tivesse acreditado. Não que isso me incomodasse, mas era a Isabel de catorze anos que continuava chocada.
— Davas um bom detetive. — Puxei o cabelo para trás, para ajeitar o rabo-de-cavalo. — Olha, já estava mesmo de saída.
— Não te podes ir embora! Agora que te encontrei, tens de me aturar. Além disso, as minhas opções eram procurar-te ou ficar com o pessoal e, como te deves lembrar, eles não são as melhores companhias. — Deu uma gargalhada. — Agora sou tua responsabilidade.
Claro que me lembrava. Ele estava a ser o Simão que conhecia, o que fazia piadas e que se metia comigo, que me puxava para ele. E eu estava afogada em memórias desse Simão.
— O meu primeiro mantra para este ano foi exatamente deixar de ter responsabilidades.
— Vamos beber um copo, celebrar o novo ano e ver o nascer do sol. E depois podes ir-te embora.
— Que poético — respondi com um sorriso sarcástico.
— Estou a falar a sério. — Bebeu o resto do copo de um só trago e pousou-o ruidosamente na mesa à minha frente. — Já foste lá fora?
— Onde?
— Ao terraço.
— Nem sabia que esta casa tinha um terraço.
— Não acredito! — Puxou-me as mãos de dentro dos bolsos. — Estás a perder o melhor sítio desta festa.
Saímos daquela sala, com ele a puxar-me pela mão, o que foi estranho e épico, atravessámos o corredor e, no fundo, por detrás de umas portadas de vidro, a vista para o mar de Cascais era ridiculamente obscena. As luzes espalhadas pelo terraço davam-lhe uma aura de magia, reforçada pelos almofadões, sofás e mantas. Vi miúdos deitados, gritos e gargalhadas, conversas cruzadas, casais que se beijavam. Descobrimos um sofá vazio e sentámo-nos.
— Como é que descobriste este terraço? — perguntei. Dei um golo no vodca gelado e passei-lhe o copo. — Nem consegui ver que havia uma porta no fundo do corredor apinhado de gente.
— Bem, quando queremos muito encontrar alguém, abrimos todas as portas. — Sorriu.
Era um lugar-comum mas fez o meu estômago contrair-se, virei-me de lado e observei-o melhor. Parecia o mesmo Simão de sempre. O seu cabelo, agora longo, e a barba rasa davam-lhe um ar malicioso, embora tudo no seu corpo gritasse o contrário. O sorriso era delicado e os olhos, verdes claros, à falta de melhor palavra, continuavam lancinantes. Vestia uma camisa de ganga escura e umas calças pretas, tudo muito pouco alinhado, exatamente como me lembrava dele. A sua voz era grave, mas suave, gesticulava com as mãos enquanto falava, tocava-me, ora no joelho, ora no braço, para enfatizar qualquer coisa que estivesse a dizer. Estava a contar uma história sobre outra passagem de ano que passara em Londres com o Nico e os outros rapazes quando eram mais novos.
— Não bebes mais? — perguntou, interrompendo-me deste estado hipnótico em que a sua voz se misturava com as minhas memórias.
— Na verdade, não gosto assim tanto de vodca.
— Podias ter dito, tínhamos ido buscar outra coisa para ti.
— Deixa lá, não me apetece beber nada. — Estava frio na rua e ajeitei melhor o casaco para me aquecer. Ele levantou-se, foi buscar uma manta e colocou-ma nos ombros.
— Então, diz-me lá. — Cruzou os braços encostado ao sofá. — Se não nos tivéssemos encontrado, o que é que estarias a fazer na noite em que todos os seres vivos deste planeta se divertem?
— A diversão é uma regra superestimada. E se eu fosse um monge budista? Estaria a meditar e isso seria a minha diversão.
— Bem, não é uma regra, mas mudanças de ciclos pedem celebrações.
— E eu estava a celebrar — continuei — com dezenas de estranhos simpáticos, porque não encontrei a Luísa nem a Marina e o resto já sabes.
— Mas encontrei-te eu e, por isso, vamos celebrar. — Levantou-se e fez-me sinal para me levantar. — Sem qualquer obrigação de diversão. Vamos só celebrar. Olha para mim, terminei um curso. Não é um motivo para celebrarmos? Já não sou aquele miúdo burro que tu conhecias.
— E o que sugeres? — Continuei sentada. — E acho que nunca foste burro — acrescentei, revirando os olhos.
— Anda lá, vamos a outro sítio. — Puxou-me as mãos para me levantar. — Somos amigos de infância, já merecemos celebrar.
— Ok, faz sentido. — Levantei-me com uma gargalhada. — E que diversão vai ser essa?
— Espera para veres.
Ele deu-me a mão à medida que atravessámos o jardim apinhado e saímos de casa. Ainda estava momentaneamente congelada pelo facto de me ter dado novamente a mão quando, uns metros mais à frente, parámos em frente a uma mota. Ele levantou o banco e deu-me um capacete. A minha reação foi lenta, imaginara muitas vezes que me levava na sua mota, não esta, mas a azul com que entrava a acelerar pelo portão da escola.
— Não, não, não — disse, recuando uns passos. — De maneira nenhuma que me vou sentar numa mota agora.
— Tens medo? — perguntou com um sorriso.
— Está frio e tu bebeste. Não quero morrer hoje. É um dia tramado para se morrer.
— Porquê?
— Porque os hospitais estão cheios de bêbedos e o meu corpo vai lá ficar a apodrecer na morgue até alguém me dar atenção.
Ele deu uma gargalhada.
— Ok, tens razão quanto ao frio, mas eu bebi apenas dois vodcas e até para Faro já fui de mota. Domino a coisa.
— Espero que não bebas vodca quando vais para Faro.
— Olha — aproximou-se —, as ruas estão vazias, vamos devagar e vais gostar, acredita.
Pensei durante uns segundos. Queria tanto isto que já sentia que me ia arrepender.
— Não te vou levar para lado nenhum estranho, se é isso que estás a pensar. Tenho uns amigos a tocar numa festa num hotel e vamos só invadir a festa para comer.
— Invadir? Posso morrer, ser presa é que não. — Sorri.
Deu-me um casaco acolchoado para vestir por cima do meu, apertou-mo até ao pescoço e deu-me o capacete. Sentei-me na mota, um pouco embaraçada, meti o capacete e agarrei-me às suas costas. Quantas vezes tinha sonhado com isto?
— Podes agarrar-me a cintura, não tenhas medo — disse, olhando para trás. Não conseguia ver o seu rosto, por debaixo do capacete, mas, pelo olhar, percebi que sorria.
— Querias…
E arrancámos. Devagar, como dissera, mas agarrei-me imediatamente à sua cintura. Senti a vibração nas suas costas e percebi que se estava a rir. Fizemos a linha do Guincho com o mar à nossa direita. Fechei os olhos e respirei fundo. Sentia-me como se tivesse sido atirada para uma máquina do tempo, encapsulada numa outra realidade com Simão. Passámos pela marina com música alta e gente a celebrar lá em baixo. Descemos até à baía e continuámos pela vila. As ruas estavam desertas, com exceção de alguns carros e grupos a andar lentamente a pé. Contornámos a rotunda e ele estacionou em frente ao hotel Miragem com as suas janelas iluminadas viradas para o mar.
— Os teus amigos estão a tocar aqui neste hotel de mil estrelas? — perguntei, olhando para cima. — Mas o que é que eles tocam? Harpa?
— Que engraçada. — Estava a arrumar os capacetes.
— Mas vamos entrar? Chegamos e entramos?
— Chegamos e entramos. — Sorriu. O porteiro acenou-lhe e abriu a porta.
— Boa noite, Simão.
Olhei novamente para o meu estranho acompanhante e como tão pouco conhecia dele. Conduziu-me pelo lobby, com luzes douradas e grandes colunas castanhas que seguravam o teto e davam a sensação de termos aterrado num filme de outra época. Lembrava-me de pensar no que ele faria quando não estava na escola, onde iria, onde trabalhariam os seus pais, como seriam as suas férias. Mas nunca imaginara um hotel. Estas questões de dinheiro nunca me tinham passado pela cabeça, mas, curiosamente, ele tinha uma mota colossal aos dezassete anos.
— Olha lá — parei —, mas onde é que vamos e porque é que o porteiro te conhece?
— Porque este hotel é do meu pai e, quando não está em Maputo, é aqui que ele está. Por isso, não vamos invadir festas e não vais ser presa hoje à noite. Vamos só ao salão roubar qualquer coisa do bufete.
— Ahhhhh! Sempre vamos roubar. — Sorri com as mãos atrás das costas.
Entrámos no salão onde centenas de pessoas dançavam ao som de músicas dos anos oitenta ao vivo. A banda vestia fatos brancos inspirados em Elvis Presley, seriam os amigos dele? Olhei em volta, as mulheres usavam vestidos de gala, muitos brilhantes, jóias e dançavam de mãos no ar. Os homens, encostados e sentados a beber líquidos dourados em copos largos e a fumar charutos, vestiam smokings e usavam laços ao pescoço. Simão pegou numa bandeja, encheu-a de queijos, presunto, carnes frias e pãezinhos. Circulou pelo salão a cumprimentar pessoas, a acenar a outras e a sorrir. Uns desejavam-lhe boas entradas, outros abraçavam-no ou davam-lhe palmadas nas costas, todos o conheciam e gostavam dele. Estava de novo no pátio da escola, mas aqui, tudo tinha muito mais pinta.
Segui atrás dele consciente dos olhares curiosos que nos fitavam, talvez um misto de curiosidade e choque. De calças de ganga, era impossível passar despercebida na festa antes do Titanic se afundar. E senti que estava prestes a afogar-me porque Simão virou-se para trás, esticou-me a mão e, pela primeira vez em muito tempo, Afonso desapareceu para um canto escondido do meu cérebro, como se nunca tivesse existido. E, no meio de tantos dourados, folhos e brilhantes, a única coisa que via eram os olhos verdes de Simão.
— Espero que não estejas a pensar em levar-me para um quarto de hotel. — Estávamos a olhar um para o outro no espelho do elevador.
— Não sei com que gajos estás habituada a lidar, mas só nos vou levar para o bar, que está vazio, e podemos sentar-nos nos sofás a comer. Quanto a ti não sei, mas eu estou a morrer de fome.
Não respondi, deixei que me visse a sorrir. E, subitamente, parecia que tínhamos ultrapassado o desconforto que sentira no café. Entrámos no bar e ele sentou-se num dos sofás que ficava de frente para uma parede de vidro com vista para o mar. As luzes brilhavam lá fora e o silêncio era absoluto. Só agora me apercebia de como a música, na outra festa, nos tinha protegido do peso do silêncio. Fiquei de pé, a olhar para o mar ao longe.
— Podes sentar-te, Isabel, ninguém te vai prender.
Virei-me para trás e vi que colocara dois pratos cheios de comida no sofá e enchera dois copos de qualquer coisa cor-de-rosa que dançava.
— Obrigada. — Sentei-me. — Grande festa lá em baixo. Só nos enganámos do código de vestuário.
— Até acho que estamos bem elegantes. Podemos seguir da festa para a guerra.
Tirei uma fatia de presunto e enrolei-a na boca.
— Os teus amigos são os da banda à Elvis? São diferentes dos queimadinhos lá da escola. — Mal me saiu da boca, arrependi-me.
— Ah, ah, ah — riu-se, o que me aliviou. — Olha que até são bem queimados, se fumar charros e dar um cheiro aqui e ali for isso. Não te deves lembrar, mas eles eram lá da escola.
— Só me lembro do, hum, do Nico, claro.
— Claro, ninguém se esquece do Nico.
— E lembro-me do Nando e havia aquele alto, o Paulo?
— Sim, continuamos todos a dar-nos. E a Alice? Não a vi lá na festa.
— Ela está noutra festa com o namorado.
— E já não te dás com ela? — perguntou, curioso. — Vocês eram unha com carne.
— Ah, claro que sim. Estamos sempre juntas, só que não me apetecia ir com ela. Preferi ir ter com a Luísa e com a Marina e calhaste-me tu na rifa.
Conversar com ele era mais fácil do que imaginara na minha cabeça. Não era como se nos conhecêssemos desde sempre. Conhecíamo-nos, era um facto, mas agora apercebia-me que não nos conhecíamos de todo. Tínhamos esta memória de quando éramos miúdos, mas nem ele era a fantasia que criara na minha cabeça nem eu era, esperava eu, aquela miúda estranha atrás dele pela escola. Sentia-me à vontade e ouvi-lo falar era como estar num daqueles sonhos em que estamos meio acordados, meio a dormir. Sentimos o corpo embalado e estamos alertas para o que acontece à nossa volta mas não conseguimos abrir os olhos.
— Sabes o que é que se sente quando estás no meio do mar, mesmo no meio do oceano? — perguntou-me, encostando-se no sofá e dobrando uma perna por cima da outra fazendo com que os nossos joelhos se tocassem.
— Imagino que seja um grande ataque de pânico.
— Sim, isso também. — Riu-se, esfregando o joelho e tocou ao de leve no meu. — Mas é uma paz que é completamente difícil de explicar. É o silêncio, sabes? O silêncio é gritante porque não se ouve nada. E então parece que ouves o silêncio por cima do som das ondas. E há zonas em que a água é totalmente transparente e consegues ver metros e metros e metros para baixo. Um infinito abaixo de ti. Estamos habituados a imaginar a altura acima de nós, mas não temos a noção da profundidade do oceano. Vês milhares de peixes, corais, plantas, cores e luzes, é incrível. E simplesmente ficas ali.
— Como assim? — interrompi-o. — Ficas ali como?
— Ficas ali. Estás no barco, vês o mar, as horas passam e é como se fosses um ponto minúsculo. Consegues sentir o peso do universo, da insignificância, do nada. Foi a coisa mais difícil que fiz na vida, vinte e um dias no meio do oceano até chegar às Caraíbas. Pensei que me ia levar à loucura.
— E porque fizeste isso? — perguntei, profundamente emocionada com este lado tão pequeno e frágil dele. Era como voltar a conhecê-lo.
— Porque queria fazê-lo, meter-me num barco e ir para o oceano sem pensar em mais nada. Conheci o capitão da embarcação em Faro, bebemos uns copos, era um velhote americano do mais castiço que vi na vida. E decidi ir com eles, acho que a vida no mar é mesmo assim.
— Mas vinte e um dias porquê?
— Porque apanhámos tempestades, tivemos dias em que andávamos muito devagar, até que chegámos a Porto Rico. Dali fomos para a Jamaica, era onde eu queria ficar. A mulher dele trabalhava na Flórida e ele seguiu para lá depois.
— Se foi tão difícil, porque é que queres trabalhar nisso?
— Porque quando estás ali e parece que não aguentas mais e que o teu corpo vai ceder ou a tua cabeça vai rebentar, percebes que aguentas. E vês a tripulação a fazer exatamente o mesmo todos os dias, acordar às cinco da manhã e a trabalhar até às dez da noite, e tens aí a receita para a loucura. — Deu uma gargalhada. — Mas vês a tua vida toda de outra perspetiva porque estás simplesmente ali, contigo. És levado até ao limite da sanidade e consegues sentir tudo o que se passa no teu corpo, até respirar é diferente. Sabes o que fiz nesses dias? Li muito, jogávamos também alguns jogos nas pausas, era tudo gente mais velha habituada a estar no meio do mar. À noite, deitávamo-nos a fumar e a conversar. Ah! — gritou. — E a cantar. Aquele pessoal canta muito, mesmo muito.
— E depois ficaste na Jamaica sozinho? — perguntei porque me sentia estupidamente insignificante por não ter experiências de vida minimamente espantosas para partilhar.
— Bem, quando cheguei, fui telefonar à minha mãe para dizer que estava vivo e hoje em dia percebo que foi a coisa mais egoísta que fiz, porque na altura não parei sequer para pensar como ela iria ficar.
— A tua mãe esteve vinte e um dias sem saber de ti?
— Pois — riu-se —, foi exatamente isso. Na altura não pensei como ela iria ficar. — Encolheu os ombros. — Mas andei depois pela Jamaica, conheci algumas pessoas, viajei lá dentro, estive lá um mês e voltei para Portugal.
— E ficaste lá sozinho?
— Quando viajas sozinha nem te passa pela cabeça a quantidade de pessoas que conheces e as amizades que fazes. Como não estás com mais ninguém, ficas mais aberta aos outros. Conheci pessoal do surf, viajámos dentro da Jamaica, fomos de Kingston até Port Kaiser.
Passámos a noite a rir e a conversar. Ele deixou as experiências de vida para outra altura e falámos sobre coisas que nos lembrávamos do tempo da escola. Contou-me histórias, fez perguntas, falou-me de alguns dos seus amigos da escola e do que faziam hoje em dia e perguntou-me sobre a faculdade e Alice.
— Lembras-te daquela vez que fomos sair à noite? — perguntou-me, interrompendo-me dos meus pensamentos.
— Foi a única vez que saímos, é difícil não me lembrar — respondi com um sorriso
— Estive quase para te beijar nessa noite — rematou.
A minha respiração parou bruscamente.
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