Raparigas como Nós
Capítulo 6
6
Afonso e eu permanecemos abraçados por vários minutos. Sempre que nos encontrávamos, era toda esta montanha-russa de emoções outra vez. Era a expectativa de o ver, a adrenalina das horas a passar, o formigueiro no estômago quando ele aparecia, era química, dopamina, serotonina que me corria pelo sangue e bombardeava o cérebro, espalhava-se pelo meu corpo e queimava-me dos dedos dos pés à ponta dos cabelos. Abraçámo-nos durante tanto tempo à porta de casa com as pessoas a subir e a descer a rua da Misericórdia que comecei a pensar se não teríamos parado no tempo enquanto o mundo continuava a correr à nossa volta. Aparentemente, ele percebeu o mesmo, porque me pousou as mãos nos ombros, olhou para mim como se não me visse há uma eternidade, beijou-me a ponta do nariz e envolveu-me o braço à volta do pescoço. Começámos a descer a rua em direção a lado nenhum, estávamos só a caminhar. Naquele momento, não conseguia sequer imaginar que, dentro de dois dias, ele estaria de partida outra vez. Não queria refletir na hipótese de voltar a estudar e passar mais quatro anos em Madrid. Não queria pensar na quantidade de olás e adeus que iríamos dizer, em todas as coisas que iríamos perder por vivermos em países diferentes, nas contas de telefone, de internet, de bilhetes de avião. Só conseguia pensar que tínhamos dois dias inteiros para nós. Parámos no Largo de Camões e comprámos dois gelados a um velhote com um carrinho.
— A minha mãe quer almoçar connosco no domingo — disse, quando nos sentámos num banco de pedra no largo.
— Se calhar, quer almoçar contigo, não? Ela também mal te vê.
— Não. Ela disse para te levar.
— Espero que não tenha outra bomba para me largar em cima da mesa. Vais trabalhar para a China agora?
— És tão parva. — Tirou um bocado de gelado com o dedo e espetou-mo no nariz. — Ela gosta de ti, sabias? Gosta muito, até.
— E já lhe disseste aquilo que me disseste no outro dia?
— O quê?
— Aquilo da faculdade em Madrid.
— Sim.
— E ela?
— Ela sabe que quero voltar.
— E concorda?
— É a minha vida, não é? Ela não tem de concordar. Só tem de respeitar as minhas escolhas.
— E que escolhas são essas?
— Não vou, nunca, jamais, em tempo algum, colocar um emprego em frente à minha vida porque foi isso que o meu pai fez. E como viste não funcionou muito bem, pois não? — disse com aquele tom seco que normalmente aparecia quando falava sobre o pai. Era o desgosto que sentia e de que provavelmente nem se apercebia, tão focado que andava sempre em tentar desvalorizar a falta que o pai lhe fizera.
— Tens noção de que a tua mãe me vai culpar a mim? — perguntei, levantando as sobrancelhas. Ele deu uma gargalhada.
— Acho que ela te vai agradecer.
— Agradecer porquê?
— Porquê? Deixa cá ver… Bem, porque passei dois anos na merda e ela viu. E se calhar percebeu que isto que existe entre nós, minha menina — apontou para mim e para ele —, é mais do que uma paixoneta.
— Hum. — Dei-lhe um beijo para lamber um pouco de baunilha que caíra no seu queixo. — Se calhar, é porque lhe apresentaste tantas miúdas que ela achou que eu era só mais uma delas.
— Talvez… — Sorriu.
— Mas diz-me uma coisa. — interrompi-o. — Queres voltar, tudo bem. Mas é para estudares cá, certo? Não digas que é por mim ou por nós.
— E se for?
— Não sei, acho que é uma decisão precipitada. Tens de ter uma visão mais a longo prazo. Até porque eu não vou a lado nenhum. Estou aqui e vou lá sempre que der.
— Pareces a minha mãe a falar, foda-se.
— E ela tem razão.
— Mas estás bem assim? — Atirou com o copo do gelado para o caixote do lixo que estava a dois metros de nós. Falhou e o copo caiu no chão, levantou-se, apanhou-o e colocou-o no saco amarelo.
— Assim como?
— Nesta lengalenga de andarmos para lá e para cá, o trabalho, as aulas, as viagens, a passarmos juntos apenas alguns fins de semana por mês.
— Mas já sabíamos que ia ser assim. — disse, interrompendo os seus pensamentos.
— Mas não tem de ser, entendes?
— Entendo, claro que entendo.
— Então qual é que é o problema? Deverias ser a primeira a apoiar-me nisto.
Devia. Mas como poderia dizer-lhe que tinha medo de que tomasse uma decisão da sua vida por mim e que mais tarde fosse eu a fonte do seu arrependimento? A ideia de ele voltar era bonita, era perfeita, era tudo o que queria. E a forma como era tão prático nas suas decisões, tão realista e objetivo, era uma das muitas coisas que me apaixonavam nele. Eu sabia que esta não era uma boa forma de viver, talvez se conseguíssemos estar em dois sítios ao mesmo tempo ou viajássemos de cometa para nos deslocarmos em quinze minutos. Só que Afonso ia sempre direto ao assunto, ele podia simplesmente voltar. Para ele nunca havia meio-termo, era tudo ou nada, sem lógica, sem pensar. Queres ir ao Sudoeste? Vamos hoje. Não queres ficar nesta casa? Vamos dormir na praia. Tens medo de barcos? Vou fazer-te entrar num. Não sabes nadar? Vou pôr-te a boiar. E eu gostava disso nele, gostava da sua impetuosidade em tudo na vida. Nunca me dava tempo para pensar em nada, limitava-se a fazer-me confiar nele. Enquanto pensava nisto, tive vontade de rir porque fizera o mesmo, para mim também fora o tudo ou nada, ou juntos aqui ou longe separados. E, na verdade, talvez não tivesse sido assim tão difícil termos tentado estar juntos à distância, talvez se tivesse tido mais tempo para pensar ou se tivesse sido mais flexível. Nunca fora muito boa a lidar com as coisas em pressão, estatelava-me sempre no meio do chão. Mas estaríamos aqui e agora se nunca nos tivéssemos separado? Olhei para Afonso e suspirei, só me restava ser honesta.
— Tenho medo de que, se largares tudo só porque queres estar comigo agora, um dia te venhas a arrepender.
— Arrepender do quê?
— Da escolha que fizeste, da vida que perdeste. A carreira, o curso, a possibilidade de cresceres, o dinheiro, sei lá, tanta coisa. Isto parece tudo muito bonito agora porque estamos apaixonados e só vemos o lado bom das coisas. Mas imagina que voltas e não arranjas emprego? Se calhar, vais ficar tranquilo durante dois, três, seis meses. Depois começas a ficar impaciente. Vais lembrar-te de que em Madrid recebias um bom ordenado e eras respeitado. Agora o dinheiro vai começar a faltar-te. Mas tu optaste por voltar para Lisboa e agora não tens nada. De repente só te resta voltar para a empresa do teu pai, onde sempre te sentiste miserável, e voltar a ser o filho do dono que já morreu e que nem sequer acabou o curso. Vais voltar a passar o dia fechado num gabinete espetacular com paredes de vidro com vista para a ponte Vasco da Gama a tentar provar o teu valor a pessoas que não estão interessadas nisso. E vais lembrar-te de quando estavas em Madrid e trabalhavas numa equipa de criativos e ninguém te revirava os olhos nas reuniões. E vais começar a questionar-te. Será que tomaste a decisão certa? Abandonar tudo e voltar não terá sido um impulso guiado pela paixão do momento? Não teria sido melhor ponderar as várias hipóteses? Se calhar, ter repetido o curso em Madrid não teria sido tão mal pensado. Até porque um curso tirado numa universidade madrilena provavelmente até vai ser atrativo para as empresas de cá. Empresas que até vão querer contratar-te para poderem usufruir da tua experiência numa das melhores agências de publicidade espanholas. Mas isso nunca vai acontecer porque tu deixaste esse emprego para vir para Lisboa atrás de uma rapariga.
— Já acabaste?
— Acho que sim. — Respirei fundo.
— Porra! Tu um dia vais ser mesmo uma escritora, ninguém te vai parar. Porque tens uma imaginação fértil e uma capacidade para visualizar cenários incrível.
— Estás a dar-me razão ou não? — Estava a ter alguma dificuldade em conseguir ler a sua expressão.
— Claro que não — disse com uma gargalhada. — Nunca iria voltar para a empresa do meu pai. Eu adoro o que faço, gosto mesmo. Gosto de imaginar uma campanha, contar uma história, criar uma narrativa de venda. Mas não vivo para isto. Entendes?
— Não sei.
— Foda-se, é só um emprego, mais nada. Não lhe vejo muito mais do que isso. É só dinheiro para pagar as contas. Não quero viver para trabalhar como o meu pai fez a vida toda. Magoou a minha mãe, magoou-me a mim e à minha irmã, tornou a nossa vida num inferno quando éramos miúdos. Vi a minha mãe chorar tantas vezes que já lhes perdi o rasto. Provavelmente, ela nunca mais esteve com nenhum outro homem porque o meu pai fodeu-lhe a vida toda e ela deixou de conseguir confiar, não sei. Não falamos sobre isso, a minha irmã fala mais com ela sobre essas coisas. Se pensava assim há dois anos? Acho que não. Queria muito sair de lá e vi esta empresa espanhola como uma luz ao fundo do túnel. Queria provar a toda a gente que conseguia muito mais do que aquele emprego oferecido por obrigação. E consegui. Então, se consegui este, vou conseguir outros. E se não conseguir outros tão bons, consigo outra coisa qualquer. Foi preciso ter estado este tempo fora e longe de toda a gente para perceber que dinheiro e carreira não trazem felicidade a ninguém se o nosso coração não estiver alinhado com isso. E o meu coração não está lá, está aqui. Então por que raio estou a perder a minha vida lá?
— E se um dia…?
— E se um dia isto correr mal — ele interrompeu-me —, correu. A vida é mesmo assim. Mas eu não sou homem de ficar a pensar nas hipóteses do que pode ou não acontecer. Eu prefiro arriscar. E, além disso, já fiz um pedido formal para terminar o curso no politécnico aqui em Lisboa e aceitaram-me. Tenho de ir à outra Universidade buscar os meus créditos para entregar na nova mas, à partida, faltam-me dois anos.
— Porque não me disseste?
— Porque já sabia que ias entrar em paranóia, como acabaste de entrar. Preferi dizer-te as coisas devagar e ir sondando o que tu achavas disto. Uma coisa de cada vez.
— Então e agora?
— Agora que esta parte já está resolvida, tenho uma coisa para te mostrar.
Descemos ao Cais do Sodré e apanhámos o elétrico para Belém, já que o carro dele continuava em Madrid. Tinha a cabeça encostada ao seu ombro e ele entrelaçou a sua mão na minha enquanto me contava uma história qualquer sobre uma campanha de uma grande cadeia de pizarias espanholas que fora um fiasco porque o dono insistira numa ideia que todos avisaram que iria correr mal. Levantei-me para olhar para ele porque adorava ouvi-lo falar. Mais do que ouvir, gostava de ver a sua expressão. A forma como os seus olhos se abriam quando estava concentrado a falar sobre qualquer coisa de que gostava e as suas covinhas nas bochechas espreitavam por baixo da barba. Observei a cicatriz que tinha acima do olho, nunca reparara nela.
— O que foi essa cicatriz que tens por cima do olho? — perguntei quando acabou de contar a sua história.
— Foi um acidente quando era miúdo.
— Como foi?
— O meu pai comprou-me uma bicicleta, mas não comprou para a minha irmã porque dizia que ela tinha de merecê-la. Como se fosse normal oferecer uma coisa a um filho e a outro não. Ele disse: «O teu irmão é rapaz e os rapazes andam de bicicleta. Brinca com as bonecas e, quando mereceres, ganhas também uma bicicleta».
— Porquê?
— Porque ele era maldoso. Até parece que dinheiro era coisa que faltava. Mas ele gostava de criar estes castigos imaginários que só tinham lógica na cabeça dele. Depois de ele ir embora, obviamente que a minha irmã começou a andar comigo. Um dia, estávamos os dois a andar, eu a conduzir e ela sentada à frente. Íamos a pedalar a todo o vapor no meio de um descampado que passava pela linha que liga a vila de Sintra à Praia das Maçãs. Como ela ia à minha frente sentada, eu via mal o caminho e não reparei numa pedra enorme que estava mesmo na nossa direção e voámos pelo ar quando a bicicleta bateu na pedra e desmontámo-nos todos. Ela partiu um braço, o nariz e dois dentes da frente. Eu parti a cabeça e abri o olho porque caí de lado. Podia ter ficado cego, acreditas?
— E depois?
— Depois, passou o tal comboio, que é mais uma espécie de elétrico histórico que vai para a praia, e as pessoas saíram para nos acudir. Lembro-me de me sentir meio tonto e estranho, mas a minha preocupação era a bicicleta, que tinha ficado com a roda virada ao contrário. Um senhor apercebeu-se e pegou na bicicleta e começou a endireitar a roda para eu me acalmar. Mas depois olhei para a minha irmã que estava mais à frente e o meu mundo parou. Ela tinha a cara cheia de sangue, o vestido, a boca, tudo. Acho que nunca tinha visto tanto sangue na vida. Devo ter desmaiado entretanto, ou de ver tanto sangue, ou porque tinha cabeça partida. Depois ficámos dois dias no hospital e, quando voltámos para casa, o meu pai não estava lá, mas tínhamos duas bicicletas novas, uma para cada um. Surreal, não é?
— Provavelmente ficou de consciência pesada porque vocês caíram por estarem a andar os dois na mesma bicicleta.
— Sim, mas nem sequer nos foi ver ao hospital. Mandou a secretária comprar as bicicletas.
— Que merda.
— Mete merda nisso. Mas sobrevivi para contar a história.
Saímos do elétrico e Afonso foi à churrasqueira ao pé de casa comprar o nosso jantar. Fiquei cá fora sentada nas escadas do prédio e telefonei a Alice para ver se ela queria vir até cá com Zeca depois do jantar. Vi um carro estacionado que quase que podia jurar que era o carro de Afonso, mas o dele estava em Madrid, porque viera de avião. Por isso, não podia ser, algum vizinho tinha um carro igual, curiosamente também com amolgadelas como o dele. Afonso saiu da churrasqueira, pegou-me pelo braço e fez-me entrar no prédio.
— Aquele carro era igual ao teu — disse quando entrámos no elevador.
— Hum, hum. — Cheirou o saco. — Sente só o cheirinho. — Tirou uma batata frita do saco e fez-me abrir a boca.
— Não há nada como frango com batatas a uma sexta-feira à noite.
— E porque estamos a celebrar ainda trouxe outra coisa.
— Ai sim? — Mostrou-me uma caixa de gelado de chocolate. — Queres engordar-me?
— Sim, para depois te comer.
Ele abriu a porta de casa e entrámos. Pousei a minha mala na mesa da cozinha e arrumei o gelado no congelador. Tirei o frango e as batatas do saco e coloquei-os dentro do forno para que se mantivessem quentes mais tempo. Afonso estava encostado à porta da sala com cara de quem fizera alguma. Sorri e aproximei-me dele. «Vais ficar a olhar para mim, é?», perguntei. Ele encolheu os ombros. Quando finalmente entrei na sala, estaquei. Havia malas por todo o lado e, em cima da mesa, estava a planta que lhe dera, viva e grande.
— O que é que aconteceu? — perguntei, sem saber muito bem como articular o que achava que queria perguntar.
— Não aconteceu nada — disse com um sorriso de orelha a orelha. — Não estás a ver nada aqui que te agrade?
— Vejo ali a amiga planta cheia de saúde.
— Sobreviveu, vês? Como nós.
— E o que são estas malas todas?
— São as minhas coisas. Estão de volta a casa — sorriu —, como eu.
— Aquele era o teu carro lá fora?
— Sim, senhora.
— Não vieste de avião?
— Evidentemente que não.
— E estas são as tuas malas todas?
— Sim, senhora.
— Com tudo o que tinhas em Madrid?
— Isso mesmo.
— Isso significa que…
— Significa que voltei.
— Já não voltas para Madrid?
— Só quando quisermos ir passear.
— E o teu trabalho?
— Despedi-me.
— Quando?
— Na semana passada.
— E podias fazer isso?
— Bem… — Ele encostou-se à parede e puxou-me para ele. — Há tanta coisa que eu poderia e deveria fazer, mas nenhuma delas era o que eu queria fazer… voltar para cá. Por isso, olha, voltei.
Abracei-o com força. Olhei para ele e voltei a abraçá-lo. Porque era o máximo que conseguia fazer sem me desmanchar no meio do chão. Ele deu uma gargalhada alta e beijou as lágrimas que acabaram por cair dos meus olhos. Envolveu-me o rosto com as mãos e beijou-me. Beijou-me com tanta força que me questionei se ele também não estava prestes a desmanchar-se como eu. Deitou-me no sofá, colámo-nos um ao outro com as palmas das mãos juntas. A minha cabeça caiu para trás quando senti os seus lábios a tocarem na minha pele da barriga. E quando olhou para mim, sabia exatamente que os seus desejos estavam a acontecer aqui e agora. Estaria pronta para ter, finalmente, uma vida a sério com ele? Uma onde vou para as aulas durante o dia e ele vai fazer o quer que seja que vai fazer e, de seguida, encontramo-nos e jantamos e vamos ao cinema e saímos, almoçamos nas Universidades de cada um ou vou ter com ele ao trabalho quando começar a trabalhar e dormimos aqui? Era isto não era? A vida, aquela que sempre imaginara que iria ter com ele. Só podia ser porque ele olhava para mim como se eu fosse a única coisa que lhe importasse e eu sabia que estava a olhar exatamente assim. Porque ele era, então sim, era isto.
Estávamos os dois enrolados um no outro no chão da sala, meio vestidos, meio despidos.
— E agora? — perguntei, por fim.
— Agora vamos tomar um banho e jantar antes que os teus amigos cheguem.
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