Raparigas como Nós
Capítulo 2
2
— Quero saber todos os pormenores — disse Alice. Estávamos deitadas na minha cama a comer chocolates que trouxera de Madrid.
— Nem sei por onde começar.
— Jura que não o foste procurar.
— Juro. — Entrelaçámos os nossos dedos mindinhos. — Estava simplesmente num parque sentada quando o vi.
— Porra, és a rainha do destino. Só a ti é que estas merdas te acontecem. Numa cidade com não sei quantos milhões de pessoas…
— Três milhões — interrompia-a, corrigindo com precisão esta informação vital nesta história.
— Pronto. Como é que no meio de três milhões de pessoas vocês se encontram?
— Pois, se calhar é o destino e essas tretas de que tu gostas. — Dei uma gargalhada. — Ele também estava lá sentado, e agora vem a parte melhor: estava a ler O Primo Basílio.
— Estava mesmo desocupado, coitado.
— Algo desse género — sorri.
— Porra. — Deu uma gargalhada. — Eu sempre gostei dele. Devias tê-lo visto na passagem de ano, estava miserável. Queria ter-lhe dito qualquer coisa, mas também não sabia o que lhe dizer.
— Ele sabe disso.
— E o que fizeram em Madrid?
— Hum… — Fiquei um pouco a pensar.
— Fora do quarto— acrescentou com um sorriso manhoso.
Falei-lhe sobre Lolla, sobre o estúpido do Caju, sobre a cidade, os museus, os jardins, os palácios, as pessoas, a comida, as conversas que tivera com Afonso, as coisas que ele partilhara comigo. Contei-lhe pormenores de que já nem me lembrava, como quando lhe comprara no mercado uma planta para ele ter em casa. Porque as flores morrem, mas uma planta cresce connosco, torna-se parte da casa e era isso que queria, tornar-me parte da sua vida. Se a planta sobrevivesse à nossa distância, talvez nós também sobrevivêssemos.
— E o Zeca? — perguntei. — Como é que ele está? E a Marisa? Parece que tudo o que aconteceu já foi noutra vida.
— Oh — largou o chocolate e deitou-se na minha almofada —, não sei o que te diga, nunca me senti assim. — Eu sabia, apertei-lhe a mão. — Passámos o verão praticamente juntos, até no bar já fui ajudar algumas vezes, fiquei no teu lugar nos dias mais complicados. E sabias que ele tem uma casa na barragem de Montargil?
— Acho que o Simão me falou de qualquer coisa sobre isso. Já não me lembro muito bem.
— A casa é incrível, tem uma piscina e uma vista para o rio. Passámos lá alguns dias sozinhos e ele cozinha bem. Eu mal sei fazer esparguete. E tem uma mota de água, andámos no rio e até canoagem fomos fazer. Acredita, ias morrer dentro de uma canoa porque até eu tive medo. Mas com ele é tudo tão fácil, percebes? Eu era uma tartaruga com o Ventura, sempre com aquela carapaça em cima de mim.
— Alice… — Precisava de lhe contar neste preciso momento que vira Ventura no festival com outra rapariga. Este segredo não podia continuar a manter-se entre nós. Ela levantou a cabeça e olhou para mim. — Tenho de te contar uma coisa.
— O que é? — perguntou. Engoli em seco sem conseguir dizer nada. — Estás a assustar-me. — Sentou-se na cama muito direita.
— Preciso de te contar uma coisa sobre o Ventura. — Formou-se-me um nó na garganta, a bloquear as palavras que precisava de dizer. Tinha medo da reação dela, que me odiasse, que se sentisse enganada, que se estragasse qualquer coisa entre nós. Mas via-a tão feliz que não conseguia suportar a ideia de não lhe contar toda a verdade agora.
— Eu acho que já sei o que vais dizer… — Não sabia ao certo se ela saberia mesmo.
— Lembras-te quando fui ao Sudoeste com o Afonso?
— Sim.
— Vi o Ventura com uma rapariga — disse a medo. Ela não parecera surpreendida, só triste.
— Já imaginava que sim.
— Oh! — Isto apanhou-me de surpresa. — Quis contar-te uma dezena de vezes, desculpa.
— Eu sabia que deverias saber coisas sobre o Ventura pelo Afonso. Coisas que não me contarias para não me magoar. — Apertou-me a mão e houve uma sensação de profundo entendimento entre nós como nunca antes sentira.
— Não te contei porque ele pareceu mesmo arrependido, implorou para não o fazer, que não te queria perder e sabes… — A minha voz soou apreensiva e esperava que ela não pensasse que estava a tentar desculpar-me. — Os idiotas dos amigos faziam tanta pressão, diziam que ele andava de trela como um cão e, enfim, acreditei que ele tivesse cedido por pressão.
— Eu já sabia que ele me traía porque apanhei mensagens no telemóvel dele — disse, placidamente. Fiquei à espera de uma qualquer reação mas ela limitou-se a suspirar.
— Porque não me contaste?
— Porque tive vergonha, sei lá. Porque ele era idiota e, mesmo assim, eu continuava com ele só porque sim, não é que gostasse assim tanto dele, era mais o hábito que outra coisa.
— Eu queria contar-te, mas, ao mesmo tempo, via-te tão vulnerável, sempre tão insegura se estarias à altura dele. Queria que tu percebesses por ti como eras melhor que ele e tinha medo de te fazer sentir ainda mais frágil.
— Tu não acreditas nessas tretas do destino, mas eu acredito — declarou.
— Porquê?
— Porque se não fosse o Ventura, tu não tinhas conhecido o Afonso. E se não fosse o Simão, eu não tinha conhecido o Zeca. E no fim estamos nós, que somos o destino uma da outra. — Apertou-me a mão.
— Sempre — respondi.
— Sabes, suponho que a minha relação com o Zeca deva parecer um tanto surpreendente a muitas pessoas. Um dia, não nos conhecíamos e, no outro, passámos a pior noite das nossas vidas na Ericeira e não nos largámos mais.
— Acho que não — respondi, pensativa. — Estava tudo ali escarrapachado. Lembro-me de vos estar a observar na piscina e de pensar que vocês estavam a apaixonar-se e nem se apercebiam.
— Porque dizes isso?
— Porque estavam ali focados um no outro, a serem vocês próprios. Foi tão óbvio para mim — dei uma gargalhada.
— Mas sabes o que é que é estranho? Quando íamos para a praia antigamente, ele estava lá e eu lembro-me dele. Nunca lhe liguei nenhuma, usava aquela trancinha idiota no cabelo e era meio esquisito. O Simão estava sempre a fazer palhaçadas, mas o Zeca ficava lá no bar, quando vinha para a areia ficava até meio separado dos outros. E se eu soubesse que, alguns anos depois, iria apaixonar-me por ele, será que também tinha gostado dele naquela altura?
— Provavelmente não. Se tu e o Zeca tivessem convivido naquela altura, se calhar nem tinham visto nada um no outro porque eram pessoas diferentes e podiam não ter nada para dar um ao outro. Mas no momento em que se voltaram a encontrar, graças a mim, claro, os planetas estavam todos alinhados, vocês estavam no sítio certo na hora certa, as vossas vidas estavam sintonizadas e aconteceu, apaixonaram-se.
— Achas que o momento certo para ti e para o Afonso foi no passado ou está a ser agora?
— Acho que tínhamos de passar por estes dois anos separados para que as coisas agora se sintonizassem. Mas passo a vida a questionar-me se eu é que apareci no momento certo para ele.
— Porque dizes isso?
— Porque o obriguei a mudar a sua vida toda. Se calhar, eu sou a pessoa certa, mas no momento errado. E um dia ele pode aperceber-se disso…
— Deixa-me dizer-te uma coisa, a pessoa certa nunca chega no momento errado. Porque as pessoas certas fazem-nos querer atirar ao ar todos os planos que tínhamos originalmente feito. Quando tu apareceste na vida do Afonso, o quer que seja que ele tinha planeado deixou de fazer sentido. E é isto a lógica do amor. Olha para mim a trabalhar na praia. Alguma vez imaginaste? Claro que não. Porque eu sempre odiei passar a vida suja de areia. E agora tenho areia até nos buracos onde nunca imaginei ter.
Doía-me a barriga de tanto de rir. Ela conseguia falar de uma coisa séria e, no segundo a seguir, acabar com aquele momento piegas com um comentário idiota.
— Como está a Marisa? — perguntei, por fim.
— Ela está bem. Estivemos com ela algumas vezes no verão. Parece que já não sai com eles, acho que aquilo a assustou e a fez mudar de vida.
— E continua estúpida?
— Não sejas assim. — Aquilo fez-me rir, Alice começara realmente a gostar dela. — Começou a trabalhar numa associação, sabias?
— De quê?
— Está a trabalhar com crianças que não têm família.
Por um instante, fiquei emocionada e feliz por ela, por ter encontrado uma forma de viver com as coisas que mais a magoavam e por usar isso para ajudar outras crianças a viver o que ela vivera. Não a odiava, apenas estivera demasiado tempo apegada àquele velho sentimento.
— E o pai do Zeca? — perguntei.
— Olha… morreu.
— Quando? — Fiquei em choque, não imaginara que a doença estivesse tão avançada.
— No início de agosto.
— Porque não me disseste?
— Não valia a pena. Estavas em Madrid, não vinhas para cá de propósito — suspirou. — Foi também tudo muito rápido. O funeral estava cheio de gente, foi comovente, estavam miúdos das escolas de surf, antigos alunos, pessoas que, de alguma forma, tinham crescido por ali e a Câmara Municipal fez-lhe uma homenagem. Pelo contributo que ele deu à terra, à praia e aos miúdos da zona ao longo dos anos.
— Mas gostava de lhe ter dito alguma coisa. — Peguei no telemóvel para lhe enviar uma mensagem.
— Ele sabe que gostarias de ter estado presente, não te preocupes. Foi ele mesmo que me disse para não te dizer porque não ia adiantar de nada.
Comecei a escrever. Nunca sabia o que dizer nestas situações, mas tentei dar-lhe algumas palavras de conforto.
— Houve uma coisa que me incomodou — comentou Alice.
— O quê? — Enviei a mensagem e atirei o telemóvel para o fundo da cama.
— Estava o pessoal todo no funeral, o Nico, o Nando, os irmãos, o Simão também e muita mais gente, amigos deles e miúdos de que me lembro da escola e de ver com eles nas festas…
— Sim…
— Estamos num funeral, certo?
— Sim…
— Estavam todos de fatos pretos e óculos de sol e a dada altura começaram a tirar fotografias em frente a uns carros, disseram que pareciam a máfia.
— Quem?
— O Nico, o Nando, eles… O Simão também. O Zeca ficou incomodado, mas não lhes disse nada.
— Eles tiraram fotografias no funeral do pai do Zeca?
— Não é o facto de terem tirado fotografias que me deixou perplexa. — Virou-se cama e apoiou a cabeça na mão. — É que eles estavam naquela brincadeira como se estivessem numa festa, de braços cruzados a posar para as fotografias com charutos na mão.
— Não sei que diga.
— Foi inacreditável. Felizmente, a família dele não viu porque estavam no parque de estacionamento, mas acho que eles nem sequer se aperceberam de que magoaram o Zeca. Que o momento não era para aquilo.
— Eu acho que eles não se apercebem de muitas das coisas que fazem.
— Às vezes, é como se as drogas lhes tivessem queimado os fusíveis.
— Provavelmente queimaram…
— Ou são só idiotas.
— Isso também.
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