Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 32 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 4

4

 

 

Acordei com o telemóvel a tocar algures no meio do quarto. Levantei-me meio zonza, procurei por ele e descobri-o ligado à corrente. Era Alice.

— Então? — Voltei enfiar-me na cama dentro do edredão.

— Então? Já viste que horas são?

— Que horas são? — perguntei, fechando os olhos.

— São quatro da tarde. Estás a dormir?

— Estava. — Espreguicei-me. — Agora já não, não é?

— Mas onde é que andaste? Disseste-me que ias à festa com elas, mas elas disseram que não te viram e que o Simão andava lá a perguntar por ti. Voltámos atrás no tempo?

— Eu acho que sim. — Dei uma gargalhada. — Foi uma noite bizarra, só cheguei às sete.

— Às sete? — gritou do outro lado. — Onde é que andaste?

— Fui para outra festa — respondi placidamente.

— Com quem?

— Rapaz encontra rapariga e convida-a para ir para outro sítio. — Ri-me. — Rapariga, depois de pensar muito, aceita.

— Não quero ouvir mais nada, levanta-te da cama porque o Ventura vai deixar-me aí.

 

Vesti umas calças de ganga, um camisolão de lã e umas botas. Os gémeos estavam deitados no sofá a ver desenhos animados e Maria João perguntou-me se queria comer. «Vou ter com a Alice», disse-lhe depois de agarrar nos gémeos e os apertar num abraço. Olhei pela janela, chuviscava, enfiei um gorro na cabeça e saí de casa. Eu e Alice gostávamos de andar pelo Chiado desde miúdas, fosse inverno ou verão. Era como quando tínhamos quinze anos, planeávamos as nossas viagens de comboio para Lisboa com toda a pompa e circunstância, lanchávamos na rua Garrett, comíamos croissants de chocolate com sumo de laranja nos armazéns do Chiado, dávamos moedas a todos os artistas de rua com que nos cruzávamos, andávamos de braço dado pelas ruas e, quando as mesadas o permitiam, íamos à loja do Velho comprar calças de ganga. Cheguei antes dela e sentei-me numa mesa ao lado de um grande aquecedor.

— Feliz ano novo — disse-me o empregado quando me trouxe um sumo de laranja. Sorriu para mim. E sim, poderia ser de facto um bom ano, dado que começara de forma inesperada. Lembrei-me do beijo de Simão, viera com anos de atraso, ainda assim, fora mágico, embora não soubesse se estava preparada para fazer ricochete na nossa história. O coração deveria ter a opção de apagar todo o histórico para trás, fazer um reset.

— Quero saber tudo — disse Alice quando se sentou à minha frente. — Onde é que foste e porque é que o Simão perguntou por ti à Luísa?

— Já te acalmaste? Já podes respirar?

— Conta-me.

— Estive com ele. E beijou-me.

— O quê? — gritou, abanando-me o braço. — O Simão?

— Fiquei tão surpreendida como tu.

 

No ano anterior, estava como que em coma profundo, a tentar acordar de uma daquelas experiências de quase morte em que apenas existimos no tempo e no espaço. A dor diminuíra com o tempo, ou eu é que ficara forte o suficiente para aprender a suportar a memória de Afonso sem que me esburacasse o peito. Sempre soubera que estava viva, porque os meus órgãos continuavam a funcionar, mas a sensação de vazio, de corpo dormente, de que um buraco tinha sido aberto no meu peito, durara meses. Houve dias em que sentira aquela dor que vem das entranhas e nos obriga a respirar fundo para termos a certeza de que ainda o conseguimos fazer, aquela dor que aperta o estômago como se mãos invisíveis o tivessem torcido com toda a força, mas tornara-se suportável e acabara por me esquecer dela.

— Portanto — Alice pensava em voz alta, de cotovelos apoiados na mesa e a enumerar com os dedos uma série de ideias —, ele foi a tua maior paixão na escola e agora concretizou-se.

— Ridículo, eu sei — respondi com um sorriso.

— Não é ridículo. É o destino. Exatamente aquilo que tu odeias, mas em que devias começar a acreditar.

— E como é que foi a tua passagem de ano? O que é que fizeram?

— Bem, deixa-me fazer-te um resumo. — Riu-se. — Foi em casa de um dos amigos do Ventura e posso descrever-ta em duas palavras: álcool e sexo.

— Uau, continua tudo igual.

— Ano novo, vida nova, mas para eles é apenas vida igual. A dada altura, disse ao Ventura que me queria ir embora. — Encostou-se para trás na cadeira e cruzou os braços. — Aquilo estava mais para ritual de acasalamento do que para festa.

— Estavam todos a combater para ver quem dava a primeira queca do ano?

— Era algo desse género. Ah! Nem sabes quem lá estava. A Xana. E perguntou-me por ti.

— Ela é fixe, não é? Tenho de lhe enviar uma mensagem.

— Sim, gostei muito dela. Ainda falámos durante imenso tempo.

— E estava mais alguém que eu conheça? — Não sabia se queria saber a resposta, mas também não conseguia deixar de perguntar.

— Olha — Alice agarrou-me na mão —, o Afonso apareceu por lá mas honestamente nem falei com ele, embora tenha estado o tempo todo a olhar para mim. Parecia que queria falar mas faltou-lhe a coragem. — O meu peito apertou-se e o meu coração começou a bater à velocidade da luz.

— Estava sozinho? — perguntei. Lidaria com a dor depois em casa.

— Ele esteve o tempo todo sozinho. Confesso que tive alguma pena dele. Até queria ter-lhe dito qualquer coisa, mas também não sabia o que dizer.

— Não vamos falar disto — respondi. — É um não assunto.

 

Passámos o resto da tarde a falar de coisas banais que haviam acontecido na festa e eu contei-lhe mais pormenores da noite com Simão. Sabia que, em casa, pensaria em Afonso. Podia dar-me ao luxo de, por um momento, me enterrar na cama porque agora sabia que iria sobreviver, era somente uma questão de tempo.

Já em casa, abri a água quente e meti-me na banheira. Não me apetecia comer e, depois de garantir ao meu pai que estava tudo bem, que não estava de ressaca e que só queria dormir, fechei-me no quarto e coloquei os auscultadores nos ouvidos para não ouvir os gémeos a gritar. Precisava de silêncio. Não do silêncio em si, mas do silêncio que a música nos dá. Li um bocado, vi um filme que estava a dar na televisão e adormeci.

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