Raparigas como Nós

Helena Magalhães · Capítulo 12 de 59

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Raparigas como Nós

Capítulo 2

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Não sabia precisar ao certo a primeira vez que o vira. Não houvera um dia ou um clique. Ele, simplesmente, estava lá como se sempre tivesse estado, uma presença regular que, a dada altura, se tornara o centro dos meus dias. E naquela altura, toda a nossa vida girava em torno da escola e das crises adolescentes. Aqueles dias eram uma epopeia dramática que terminava com longas descrições no meu diário numa auto-análise de tudo o que vivera. Eu era uma miúda magricela, lembrava-me de os rapazes da turma me chamarem de esqueleto e abre-latas porque usava aparelho nos dentes. Consolava-me em pensar que era uma miúda comum, nem bonita nem feia, nem com grandes notas, mas também não era um zero à esquerda. Não tinha notas tão boas quanto os meus pais desejavam, é certo, e talvez esse fosse o maior dos desapontamentos, mas, embora não houvesse em mim nenhuma aptidão especial, também não era das piores. A minha balança não pendia com grande satisfação nem para a beleza nem para o mérito, mas pendia, sem dúvida, para a criatividade artística e, pelo menos, tinha algo de que o meu pai se orgulhava.

Alice, Marina e Luísa eram as minhas melhores amigas numa turma com vários grupos onde todos nos dávamos curiosamente bem. Naquele ano, três alunos reprovados haviam sido inseridos na nossa turma, um deles era Nico, o melhor amigo de Simão. Marina era a melhor aluna e, já naquela altura, era claro que iria ser médica, nascera com a tal aptidão que a minha mãe tanto queria que eu tivesse para qualquer coisa. Talvez, aos catorze anos, ainda não se sinta a pressão dos pares, porque não me lembrava de ter grandes preocupações por não ser a melhor em nada em particular. Mesmo com o meu corte de cabelo estranho e o aparelho colorido nos dentes, nunca me sentira diferente nem olhado ao espelho e questionado se era estranha. Éramos miúdos banais que passavam as tardes entre a praia de Carcavelos, o cinema e o centro comercial Plim e faziam tempo até chegar sexta-feira, desejada pelas matinés no Estoril que abriam das oito à meia-noite para os adolescentes da linha. Alice e eu trocávamos bilhetes durante as aulas, porque não estávamos sentadas juntas, e partilhávamos as nossas frustrações infantis em longas cartas que trocávamos durante os intervalos. Vestíamo-nos de igual, ouvíamos as mesmas músicas e arrastávamos as outras para planos que, habitualmente, não queriam fazer, mas acabavam sempre por ceder. Entre esses planos incluíam-se os passeios até à porta do prédio de Simão, onde obrigava uma delas a colocar alguma das minhas cartas na caixa do correio. Não sabia se ele as lia, ou aos poemas que lhe deixava no cacifo. Não sabia se mostrava aos amigos, se atirava para o lixo, mas sabia que gostava de as receber, mesmo que nunca me respondesse.

Simão tinha dezassete anos e era o típico miúdo problemático, embora eu não imaginasse que isso o incomodasse. Fumava charros nas traseiras dos pavilhões, faltava às aulas para ir para a praia fazer surf com os amigos e fazia cavalinhos com a mota azul no meio da escola, deixando todas as funcionárias aos gritos. E embora fosse, aos olhos de toda a gente, uma alma perdida sem grande futuro pela frente, a mim afigurava-se enigmático, transcendente e magistral. O seu cabelo era loiro, com aquele típico corte de cabelo tigela dos anos noventa, tinha olhos verdes e era alto, ou assim me parecia, porque, sem o conhecer, já o colocara num pedestal inalcançável.

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