Raparigas como Nós
Capítulo 3
3
Foi assim que, quase no fim de julho, Afonso entrou de novo na minha vida. Inicialmente, não contei nada a Alice porque não queria partilhar isto com ninguém. Era como se estivéssemos longe e isolados do resto do mundo, numa cidade onde ninguém nos conhecia e onde podíamos criar uma nova versão de nós mesmos. Recuperámos em menos de dois dias a chama do passado e, ao mesmo tempo, abrimo-nos a novas formas de nos termos, rodeados de pessoas, de locais, de sons e cheiros que não conhecíamos, que nunca fizeram parte de nós, mas que, num instante, se tornaram familiares à medida que nos fomos encaixando no vaivém da vida em Madrid.
Passámos horas de amor violento no quarto do Cibeles, voltando a reconhecer os cantos dos nossos corpos ao som da vida madrilena que passava lá fora. «Os teus cigarros?», perguntara-lhe um dia em que estávamos deitados em cima da cama com a ventoinha do tecto a rodar, as janelas abertas e as cortinas brancas a ondular ao calor. Havia qualquer coisa naquele cenário que não se assemelhava à minha memória. Eram os cigarros, era isso que faltava, pendurados nos seus lábios, a fumaça no ar e aquele cheiro agoniante que, de alguma forma, estava tão enraizado na recordação que tinha dele. «Deixei de fumar no início do ano», disse, sorrindo. Apertei os meus braços ao redor do seu pescoço e beijei-o longamente, rimos e rolámos na cama no meio dos lençóis amarfanhados e caídos pelo chão. Mas havia também saídas constantes, vida nas ruas de dia e de noite, ao ponto de já estar em falta para com Lolla e o plano que fizéramos no centro. Fui obrigada a contar-lhe em parte o que se estava a passar, mas, assim que Afonso regressou ao trabalho, rapidamente voltei à minha rotina e a poder dedicar-me durante o dia às aventuras com Lolla e, então, as noites passaram a ser para ele. Deitávamo-nos tarde e acordávamos cedo. Queríamos viver todas as horas que nos restavam numa consciência muda de que, no final de agosto, iria voltar para casa e ele iria continuar a sua vida em Madrid. Numa sexta-feira à noite levou-me ao Parque de La Bombilla ao cinema drive-in, para uma sessão ao ar livre dentro do carro. Era como estar num filme americano em frente à tela, com o colo cheio de pipocas e copos de refrigerante no tablier. E depois de nos fartarmos de ver filmes dobrados em espanhol no cinema de Lolla, passámos a ir às sessões da meia-noite do Cine Ideal para ver as versões originais.
A meio de agosto, deixei de dormir no Cibeles porque me mudei para a sua pequena casa alugada no bairro da La Latina. Ou seja, peguei na mochila e avisei o centro que já não precisava de pagar mais a minha estadia. Ninguém me questionou, mas Lolla disse-me para lhes assegurar que iria ficar em casa dela, só para não haver problemas. Numa manhã de sábado, Afonso acordou-me de madrugada cheio de planos para o nosso dia. Preparámos uma mala com comida para o dia todo e conduzimos até ao Parque da Serra de Guadarrama. Parámos o carro no estacionamento de Canto Cochino, por fim, e era como estar noutro canto do mundo. Estávamos rodeados de serras e árvores e trilhos de caminhada sob um céu azul sem nuvens.
— Tens noção de que está demasiado calor para caminhadas e corridas, não tens? — perguntei, confusa com o plano dele.
— Calma. — Tirou a mochila da comida do banco de trás do carro. — Vamos ter de fazer um trilho florestal para chegarmos onde te quero levar.
— Um trilho de quanto tempo?
— Pouco. — Riu-se. — Não sejas molengona.
— E vamos onde?
— Tens de esperar para ver.
Se ele me tivesse avisado, provavelmente ter-me-ia recusado a sair do carro. Caminhámos durante mais de meia hora, com ele a puxar-me pelos braços e, sempre que parava, a agarrar-me às cavalitas para me levar a trote pela estrada de floresta para o meio de nenhures. Mas acabámos por chegar e, quando parei para observar o que me rodeava e o que ele imaginara para nós, senti uma onda de emoção. Estávamos rodeados de pedaços de rio no meio das serras onde se podia simplesmente deitar e apanhar banhos de sol. Era como estarmos sozinhos no mundo, a tomar banho no meio da serra, a descansar à sombra das árvores ou deitados ao sol nos declives.
— Isto é a charca verde. — Pousou a mochila na sombra. — É o mais perto de praia que os madrilenos têm, tanto que lhe chamam a playa de la sierra de Madrid.
— Praia da serra?
— Pois, é o que isto é. — Riu-se. — Esta zona onde estamos é a Pedriza. Quanto mais para o interior do parque nos metermos, menos gente vamos encontrar.
— Mas aqui não está ninguém.
— Porque viemos mesmo cá para dentro. Todos estes bocados de água são chamadas de charcas e são as águas do rio Manzanares.
— É fria?
— É gelada mesmo.
— E é funda?
— Podemos procurar uma charca com menos profundidade.
Acenei com a cabeça e comecei a procurar o protetor solar na mochila. Subitamente, caiu-me a ficha.
— Não me avisaste onde vínhamos, não trouxe fato de banho.
— Não está aqui ninguém. — Fez um sorriso ardiloso, puxou-me para ele, afastou-me o cabelo do pescoço e beijou-me.
Mergulhámos nus na água vezes sem conta, outras vezes ficámos apenas sentados com a água até à cintura, comigo encostada ao seu peito e ele falou-me das coisas do seu trabalho, da vida em Madrid, dos seus colegas, da mãe. Contei-lhe sobre os últimos dois anos de modo geral, da faculdade, de Alice estar apaixonada por Zeca, falei-lhe de como ele era espantoso e de como, se o conhecesse, iria gostar dele. Evitámos falar do futuro a todo o custo, mesmo que agosto parecesse estar a passar a uma velocidade desumana. Era como se estivéssemos a viver numa cápsula do tempo, falávamos do passado, de nós, de coisas que fizéramos um sem o outro, dos nossos amigos. Mas nunca do que iria acontecer quando me fosse embora. A dada altura, fez-me voltar a boiar sem medo porque tinha pé naquela zona do charca e voltei a sentir aquela paixão ferrada e a vontade de o apertar para que nem um bocado dele me escapasse das mãos. Comemos sandes, queijo para ele, jámon para mim, frutas, bebemos água com limão e petiscámos batatas fritas durante o dia. O sol já estava a descer e o céu a ficar laranja quando, num último mergulho no rio, nos encostámos aos beijos. Era um comboio difícil de abrandar, estávamos absurdamente apaixonados ou talvez tivéssemos apenas um desejo desgovernado de nunca pararmos de nos tocar. Não falámos, não parámos sequer para pensar e pareceu-me uma altura tão boa como outra qualquer para me perder com ele.
E subitamente percebi, era como se tudo tivesse ficado claro como a água do rio. Simão podia ter sido o meu primeiro amor, intenso, obsessivo e maravilhoso, duas vezes. Provavelmente iria gostar dele para o resto da vida, iria ficar na minha gaveta e ser uma memória a que iria gostar de voltar. Ele tornara a minha adolescência mágica, mudara-me, tornara-me na rapariga que era hoje. Mas Afonso era um amor bonito, saudável, arrebatador, sem cobranças nem esforço. E eu sabia que havia dois tipos de amor. Um era aquele a quem continuamos a comparar todas as pessoas que vamos conhecendo ao longo da vida. Era o que sempre fizera, comparava todas os rapazes a Simão. O outro tipo de amor era aquele que Afonso me dera, aquele onde deixamos de fazer comparações porque tudo para trás deixa de ter relevância.
OceanofPDF.com