Raparigas como Nós
Capítulo 7
7
Quando as férias de Natal chegaram, fui para casa da minha mãe. Precisava de voltar ao conforto da minha casa, de Carcavelos, da minha vida desde sempre, do sair de pijama para ir ter a casa de Alice e sentar-me no seu jardim de gorro e luvas a conversar sobre nada em particular. Os meus contactos com Ventura durante o último ano tinham sido breves, eventualmente fizéramos um acordo tácito de que nunca mais iríamos falar sobre o que acontecera, mas o facto de mal nos vermos também ajudava. Nunca mais saíra com ele e com os amigos, Alice compreendia e respeitava, para não ter de ver, nas suas caras, a piedade simpática. E tinha um medo atroz de ouvir uma referência a Afonso e quebrar-me novamente em cacos. Lembrava-me bem dos dias longos como desertos deitada no sofá em profunda tortura e não queria voltar a eles.
— Como é a passagem de ano? — perguntou-me Alice nessa noite quando fui ter a casa dele.
— Vou passar — respondi com sarcasmo.
— Comigo?
— Não me peças isso — disse-lhe ao fim de uns segundos de silêncio. Porque não o iria fazer. Não iria passar com ela e com Ventura nem iria pedir para ela não o fazer. Nem entendia a obrigação e a pressão de termos de nos divertir nessa noite, como se o mundo fosse acabar ao tocar das doze badaladas.
A minha casa de infância, onde cresci com os meus pais quando ainda estavam juntos e, mais tarde, só com a minha mãe, ficava numa rua vestida de árvores e folhas no chão o ano inteiro e onde me lembrava de andar de bicicleta para cima e para baixo durante todos os fins de semana. Isso não tinha mudado, as árvores e as folhas ainda lá estavam como se fosse sempre outono, mesmo agora no pico do inverno. Contudo, já não lhes via a magia de outrora, a rua das árvores, a rua onde mal se via o céu por cima da folhagem espessa. Agora compreendia que era uma rua que, simplesmente, ninguém limpava. Com o tempo, as folhas mortas transformavam-se em papa pela chuva invernal e, com o calor da primavera, em aglomerados de folhas secas e pastosas que tinham aprendido a sobreviver ao inverno à beira mar. O escuro marítimo fazia-me companhia por cima das luzes da rua e, a caminho de casa, decidi pegar na bicicleta. De gorro na cabeça, cinco camisolas e um cachecol, voltei a percorrer as ruas da minha vida, à minha frente o persistente vapor branco que saía da minha boca. Voltei a passar por casa de Alice e liguei-lhe para se juntar a mim. «Estás doida», disse-me ao telefone, «vais apanhar uma constipação». A verdade é que não apanhei, o meu corpo transformara-se em ferro.
Durante aquelas férias, em casa, saí com Alice, Marina e Luísa, encontrámo-nos com outros amigos da zona, li muito, vi filmes com a minha mãe, e este era um terrível facto da vida: o tempo passa, tudo passa. Até a dor passa. Depois de nos devorar as entranhas, de destruir uma parte da nossa alma, faz as malas e parte para outras paragens. E leva com ela o amor. Então a vida, ou a imitação manhosa que conseguirmos fazer dela, continua como se nada fosse. E tinha chegado a uma estranha paz. Regava as plantas, outrora do meu pai, que a minha mãe continuava a manter e voltava a colocá-las na varanda como, tantas vezes, ele me pedira quando era miúda. Nunca compreendera por que tratava das estúpidas das plantas como se fossem filhos. Era uma tarefa que odiava fazer, mas em que, agora, conseguia tirar algum prazer. Uma atividade quase meditativa onde apenas tinha de me concentrar em mantê-las vivas. Não sabia dos motivos que tinham levado a minha mãe a não se desfazer das plantas do meu pai, mas estes eram os labirintos da vida. Talvez as plantas também a fizessem lembrar da mulher que, um dia, ela foi.
Ela fazia todos os dias o pequeno-almoço para nós e, quando não chovia, comíamos na varanda. Quando o frio se tornava demasiado difícil de suportar, ligava o aquecedor e sentávamo-nos na mesa de madeira da cozinha. Posteriormente, ia para a escola onda dava aulas de Matemática — não agora, porque estávamos em férias —, ocupava-se com reuniões e preparações para o segundo período.
— Gosto de te ver recuperada — disse-me um dia ao pequeno-almoço.
— Não sabia que estava doente. — Revirei os olhos.
— No ano passado, estavas intragável.
— Obrigadinha por mo lembrares.
— Isabel… — Pegou-me na mão. — Já não sabia o que havia de fazer para recuperares a energia, o alento e entusiasmo pela vida em geral.
— Mãe, eu sei, deixa lá… já passou.
— Pode ter passado, mas tudo deixa pequenos buracos cá dentro. — Apontou para o seu peito, — E tens toda a vida pela frente para encheres esses buracos de coisas boas.
Alice ia passar o dia com Ventura, pelo que peguei na bicicleta e fui à praia da nossa zona, a mais popular da linha. Era uma praia grande com um extenso areal de mais de um quilómetro e, mesmo quando a maré subia, continuava a haver areia suficiente para toda a gente. Quer para os veraneantes nos meses de calor, quer para os passeios invernais como agora, onde, mesmo com temperaturas quase negativas, continuava a ter pessoas. Casais a passear com cães, miúdos a andar de bicicleta e de skate no paredão, crianças a correr na areia com pesados casacos de penas a protegê-las no frio, pequenos pontos pretos na água a fazer surf… Parei a bicicleta no paredão e observei-os na água. «Podia ser eu», pensei, «nesta nova vida podia fazer surf». Mas para isso tinha de aprender a nadar e, provavelmente, isso nunca iria acontecer. Atira-se uma criança para a água e ela, instintivamente, consegue flutuar. Nós, adultos, já estamos carregados de medos e eu, seguramente, iria ao fundo. Prendi a bicicleta na grade, tirei a minha mala e o livro do cesto e sentei-me no bar. Estava em obras e a ficar moderno, mas na minha memória continuava o mesmo bar de sempre. Lembrava-me como se fosse ontem da sua construção em madeira escura e as pranchas alinhadas na areia. Olhei para o rapaz ao balcão e tive um rasgo de memória, lembrava-me bem dele, o que era estranho, tinha a certeza de que não se lembraria de mim. Chamava-se Zeca e era um dos amigos de Simão, dos tempos em que vinha para aqui para o ver no mar, porque, aos catorze anos, isto era o suficiente para me contentar.
— Sabes quem vi no bar da praia? — perguntei a Alice nessa noite depois do jantar. Estávamos no meu quarto, sentadas no computador, a ver umas fotografias numa rede social onde toda a gente parecia estar.
— Hum… — respondeu. — Olha aqui, lembras-te deste gajo que era lá da escola?
— O dos bichos da seda?
— Porra, sim. — Deu uma gargalhada. — Quando ele tinha aulas com a nossa turma e ninguém se sentava ao lado dele porque tinha sempre uma caixa com bichos da seda.
— Mas queres saber quem vi ou não? — Saí do computador e fui deitar-me na cama. Ela virou-se na cadeira e colocou os braços atrás da cabeça.
— Diz lá, vá.
— O Zeca, lembras-te? Que trabalhava no bar.
— O da trancinha no cabelo? — Era verdade, ele usava uma trança esquisita caída atrás.
— Sim, mas já não tem trança. E sabes quem é que apareceu depois? O Nico que era da nossa turma.
— Não me digas que…
— Não, não o vi.
*
Mas ia ver, só que ainda não sabia. Desde que saíra da escola, raramente via alguém da nossa adolescência e imaginava que era assim com toda a gente, ainda que, por vezes, fosse demasiado cruel. Passávamos anos com miúdos que, de repente, deixávamos de ver. Entrávamos num novo mundo com novas pessoas, era como se a vida nos obrigasse a fazer o luto dos anos passados. E, no final de contas, éramos todos passageiros. A velha vila de Carcavelos parecia-me agora deserta das gentes que lhe tinham dado vida. Como se tivéssemos sido nós a geração mais importante, aquela que era inesquecível, insubstituível, a que deixara marcas, ainda que invisíveis. Mas, antes de nós, outros miúdos viveram nas mesmas ruas e fizeram o mesmo que nós. Lembrava-me de passar as férias no parque e na praia, de descer as terras de bicicleta ou, quando chovia, de nos revezarmos na casa de alguém a ouvir música e a ver filmes. Os miúdos de hoje deviam estar em casa a jogar computador, a falar nos chats e a fumar charros.
Uns dias depois do Natal, numa inércia temporária porque Alice ainda estava em casa dos avós, peguei na bicicleta e passei à porta da nossa antiga escola. Não sabia dizer o que lá fora fazer, provavelmente estaria toda a gente de férias e, mesmo que visse alguém, quem é que se lembraria de mais uma antiga aluna no meio de tantas outras? Parei a bicicleta e observei uns miúdos ao portão, pareciam tão novos, tão vivos, como se esta escola lhes transmitisse a mesma carga de emoção que me lembrava de sentir. Vi uma professora sair, lembrava-me dela e das suas aulas de História. Eventualmente, lembrar-se-ia de Alice, uma fervorosa participante das suas aulas, de mim talvez não, não fora a sua maior fã. Tive uma súbita vontade de a abordar para lhe dizer que a sua aluna favorita estava a tirar uma licenciatura em História e, em breve, estaria apta a debater, com ela, os interesses sociais, económicos e políticos de cada época.
Se não estivesse tão focada a imaginar diálogos que nunca iriam acontecer, não teria sido apanhada de surpresa quando o vi.
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