Raparigas como Nós
Capítulo 2
2
— Conseguiste, já apaguei da minha cabeça a tua imagem a pisar-me os pés — disse, ainda com a minha boca colada na dele, e tapei a cabeça com a almofada.
— Se essa continuasse a ser a primeira lembrança, acho que era mau sinal. — Puxou-me a almofada e começou a afastar o emaranhado de cabelo do meu rosto.
— Mas não consigo parar de me lembrar do épico pranto no meio da pista — disse, com a voz cortada por gargalhadas, abanei as pernas num gesto teatral e enfiei-me debaixo dos lençóis a rir.
— Está certo. Acho que mereço. — Espreitou por baixo do lençol. — Vais ficar aí escondida?
Talvez fosse. Depois de me ter levado a casa do meu pai, ficámos à porta meio aparvalhados entre beijos. Eu empurrava-o para nos afastarmos, mas ele puxava-me para me beijar e, quando se preparava para se ir embora, era eu que o puxava para ficar, numa guerra entre o que queria e o que deveria fazer. Não me lembrava muito bem de como é que acabáramos por subir, nunca antes fizera tal coisa. Ele não estava tão bêbedo como talvez tivesse tentado dar a entender, disso tinha a certeza. E eu não estava tão à vontade com tudo isto como forçosamente tentava mostrar.
— Acho que vou ficar aqui até ires embora — respondi, com uma gargalhada falsa.
— Embora para onde? — perguntou, enquanto tentava puxar o meu cabelo debaixo da almofada. — Já me estás a expulsar?
— Foi uma coisa sem importância. Podes voltar para casa e resolver tudo com a tua namorada. — Tentei soar desinteressada e madura, como se alguma vez o tivesse sido.
— Ex-namorada. — Inclinou-se, puxou o lençol da minha cabeça e beijou-me.
— Olha… — murmurei, com a sua boca colada na minha.
— Diz. — Tocou-me no rosto e foi um gesto tão banal, tão delicado, que cedi.
— Primeiro comida, depois banho, depois beijos — respondi, levantando-me da cama num salto.
Vi-o olhar para mim ao afastar-me, o que foi estranho. Estava mais habituada ao inverso.
— Traz esse rabo para aqui outra vez — gritou, deitando-se de lado e apoiando a cabeça na mão direita. Vi-o pegar no maço de cigarros no chão ao lado da cama. Acendeu um cigarro e expirou para o tecto.
Deitei-lhe a língua de fora e fechei a porta da casa de banho. Passara a noite com um rapaz de quem pouco ou nada sabia e que, por mais inusitado que tudo parecesse, tinha uma relação com outra rapariga. Pelo menos, até há poucas horas. Onde é que me encaixava naquele cenário? Sempre assumira que nunca seria como as raparigas da escola que passavam os fins de semana a beber cerveja na praia, a sair à noite e a dormir com rapazes diferentes. Não que isso fosse mau, na verdade, invejava-as, era tudo tão pitoresco e, ao mesmo tempo, assustador e fascinante. Mas não conseguia deixar de sentir uma certa aflição, como se tivesse feito algo de muito errado. Sentira-me arrojada na noite anterior, é certo. Quão audaz seria poder dizer que já tinha tido uma noite casual? Sentira-me espontânea, como se fosse outra pessoa. Ou talvez tivesse sido a vontade de corresponder a qualquer coisa que ele pudesse esperar de mim.
Então lembrei-me de que acabara de contribuir para uma traição. Bem, ela também o traíra. Abanei a cabeça para me deixar de ideias parvas, aquele não era um problema meu. Lavei os dentes, passei água na cara e apanhei o cabelo. Saí da casa de banho e encontrei-o deitado na cama, com o braço de fora da janela e o cigarro preso entre os dedos. Tinha um livro meu e estava a folheá-lo.
— Aí estás tu — disse, fechando o livro, e rapidamente levou o cigarro aos lábios. Expirou com força, apagou-o do lado de fora da janela e puxou-me pela cintura.
— Então, vamos comer? — tentei perguntar enquanto me beijava.
— Primeiro quero saber uma coisa — disse, levantando-se da cama de um salto, com as calças caídas ao fundo da cintura. — Colecionas livros?
— Pode dizer-se que sim. — Deixei-me cair novamente na cama. O que é que ele tinha contra livros?
— Anna Karenina, Jane Eyre, Amor de Perdição, Os Maias, Persuasão, O Grande Gatsby, Mulherzinhas, Lolita, Longe da Multidão, Paris é uma Festa… Céus! Nem conheço metade disto. És uma rapariga de clássicos? — Olhou-me de lado e sorriu enquanto ia lendo os títulos dos livros que tinha em montes no chão, na parede em frente à cama. — Pareces a minha mãe.
— A tua mãe deve ser fixe, então.
— E já leste todos?
— Oh, não! — Dei uma gargalhada. — A minha coleção ainda é muito embrionária.
— Então, se eu te quiser oferecer um presente, ofereço-te um livro? — Observou um quadro que tinha pendurado na parede com fotografias velhas.
— Não, eu não faço anos tão cedo.
Ele continuou a andar pelo quarto.
A luz, que entrava pelas frinchas da janela, deixada aberta na noite anterior, iluminava a divisão com pequenos raios de sol que, à medida que ele andava, incidiam em partes do corpo dele. Ora no seu maxilar, ora na sua nuca, ora na cintura, ora nos braços, morenos. A sua presença era como uma nova vida no meu quarto, mas, estranhamente, era como se ele sempre ali tivesse estado e o seu corpo encaixasse em cada canto. Eis a parte boa de quando ficava com o meu pai: tinha um quarto enorme com uma casa de banho só para mim e três vezes maior que o de casa da minha mãe, onde sempre vivi. Trouxera grande parte dos meus livros e CDs para casa do meu pai, coisa que a minha mãe tinha agradecido e apoiado porque era menos tralha em casa dela.
Uma das paredes estava, assim, preenchida com uma estante do chão ao tecto e, aos pés da cama, tinha um sofá velho. Mas um sofá! Nunca imaginara ter um sofá no quarto. «Não achas mais prático repetires o ano num liceu em Lisboa?», perguntara a minha mãe tempos antes. «Podes passar mais tempo com o teu pai». Olhara para ela como se fosse a pergunta mais idiota de sempre, como se alguma vez fosse para outra escola sem Alice. Eu sabia que ela me queria preparar para uma nova vida que idealizara para mim, faculdade, morar sozinha, crescer, ser adulta e enfim casar, ter filhos e morrer. A minha mãe era mesmo assim, via tudo preto no branco, o meu pai via a cores. O que diria ele, de férias no Alentejo com a nova mulher e os meus irmãos mais novos, se soubesse que viera para casa dele com um rapaz? Este pensamento fez-me rir. Afonso ondeava para lá e para cá com uma naturalidade inata, como se pertencesse ali. Continuava a vaguear pelo quarto, pegava em livros ao acaso, em discos e CDs, em perfumes, em molduras, ria-se e apontava-me as coisas que lhe chamavam a atenção. Ao fim de uns minutos, deitou-se na cama ao meu lado e enrolou as pernas nas minhas.
— Portanto, é isto que tu fazes. — Não perguntou, afirmou.
— O que é que eu faço?
— Lês. — Alisou-me o cabelo com a mão e prendeu uma madeixa atrás da orelha.
— Eu leio. O que é que tu fazes?
— Hum, eu jogo computador. — Riu-se e escondeu a cabeça no meu braço. — Odeias-me por não ler? — perguntou, fechando um olho como se tivesse medo da resposta.
— Porque é que não lês? — perguntei.
— Sei lá, nunca quis passar o tempo a ler sobre pessoas que não existem e a fazer coisas que nunca fizeram mas que, de alguma forma, terão uma mensagem altamente relevante para nós e que vai mudar a nossa vida — respondeu e voltou a esconder-se debaixo dos meus braços.
— Nunca tinha pensado nisso — disse-lhe, incrédula —, mas os livros trazem sempre experiências pessoais dos escritores, não é como se fossem fábulas com animais ou assim. As personagens podem ser de fantasia, mas as vidas que lemos são reais, os dilemas são reais, os medos, os sentimentos, tudo.
— Prefiro jogar. — Riu-se. — Pelo menos, sou eu que conduzo o jogo.
— Aquele jogo também já está inventado e tu estás a conduzir para onde o criador do jogo quer que tu vás. E isso sim, é num mundo de fantasia com lutas que nunca vais fazer ou a ganhar moedas como o Super Mário. Mas as moedas não caem do céu nem estão nos túneis — respondi, revirando os olhos.
— Estás a querer estragar-me o meu hobby? — perguntou. — E eu não jogo o Super Mário, isso é para crianças. — Atirou-se ao meu pescoço e começou a beijar-me.
Puxou-me para si, abraçou-me, deixei que me abraçasse, que me quisesse porque também já eu o queria.
— Lembro-me de te ver ontem encostada ao balcão — disse, deitando a cabeça na minha barriga.
— Eu também me lembro de te ver encostado ao balcão.
— Não é isso — interrompeu-me. — Estavas segura de ti, confortável, como se não precisasses de mais ninguém para te divertires.
— Eu não preciso de mais ninguém para me divertir. — Ri-me. Não estava a perceber onde é que ele queria chegar.
— Qualquer outra pessoa procuraria uma distração. Oh meu Deus, estou aqui sozinha enquanto a minha amiga está com o namorado… — Não consegui evitar rir com a voz apalermada, talvez imitação da minha. — Mas tu estavas apenas ali, tranquila, a observar as pessoas. — Entrelaçou a sua mão na minha.
— É o que eu faço porque costumo estar com a Alice, é como se também eu namorasse com o Ventura, sorte a minha…
— Foi isso que me fascinou em ti.
— O facto de eu também namorar com o Ventura? — Sorri.
— Não. — Beliscou-me a barriga. — O facto de sorrires, mais para ti do que para alguém em específico.
— Eu não me estava a rir sozinha. Achas que sou maluca?
— Tu sorris com o corpo, com os olhos, com a boca, não percebes isso? — Largou-me a mão, agarrou-me no rosto e beijou-me. Tão profundamente, como se nunca mais quisesse sair de dentro de mim. As nossas línguas tocaram-se, entrelaçaram-se e reconheceram-se. Fiz um esforço por me afastar.
— Bem, Romeu, já chega de palavras bonitas. Vamos tomar o pequeno-almoço? — Levantei-me da cama, vesti umas calças de ganga e uma T-shirt branca que estava pendurada na cadeira. Olhei ao espelho. Tinha o cabelo num emaranhado e restos de maquilhagem da noite anterior. Fiz um esforço por tentar parecer minimamente apresentável, peguei num batom do cieiro vermelho com cheiro a cereja e passei-o nos lábios, abanei a cabeça para baixo e prendi o cabelo num rabo-de-cavalo. Percebi que me observava, deitado na cama. Apanhei um livro do chão e atirei-o para cima dele.
— Vamos lá, toca a levantar — disse, puxando-o pelas mãos. Ele levantou-se muito a custo, olhou ao espelho e despenteou ainda mais o cabelo.
— Onde é que me vais levar? — perguntou, enquanto calçava os ténis.
— A um sítio onde possamos comer… — olhei para o relógio — às duas da tarde.
— É uma bela hora para se comer.
Com uma mão, borrifei um bocado de perfume no meu pescoço, depois no dele. Peguei nas chaves, na mala e puxei-o porta fora, descemos os três lanços de escada e saímos para a rua. O sol ofuscou-nos os olhos. De costas para a porta do prédio onde o meu pai morava na Rua da Misericórdia, parámos uns segundos. Parecíamos morcegos que tinham estado tanto tempo na escuridão que, à luz do dia, tudo parecia tremendamente turvado. Algures no meio desta adaptação ao dia, ele deu-me a mão. Descemos a rua com as suas varandas senhoriais que espreitavam dos dois lados da estrada, entrecortadas pelos carris dos elétricos que, volta e meia, passavam por nós a todo o vapor, contrastando com a placidez dos peões. Com o calor que se fazia sentir naquele início de verão, passámos para o lado esquerdo e fresco da rua e continuámos a descer, passando por lisboetas e turistas domingueiros que, a passos lentos, passeavam e se demoravam pela sombra. De um lado e de outro, plantas desmaiadas nas varandas, deixando-se cair como que sem disposição para aguentar aquele calor. Sentia-me como elas. Chegámos ao Largo de Camões e virámos à esquerda, na Igreja da Nossa Senhora da Encarnação, para o Largo do Chiado. Atravessámos a estrada a correr, por entre os táxis e os carros que já começavam a arrancar a toda a velocidade ao trocar do semáforo. Parecia um sofrimento atroz soltar a mão dele, mas não conseguia fazer-me de namorada quando ele já tinha uma. O coração batia-me na garganta e ele apertou-me os dedos com força como se me largar também lhe proporcionasse igual sofrimento. Quantas coisas me tinham passado ao lado, perdida em fantasias infantis, e agora estava tudo a acontecer ao mesmo tempo. Gostava da maneira como ele falava, como se ria, como expirava o fumo dos cigarros para o teto. Olhei para ele de passo apressado ao meu lado e tive uma clara e estranha sensação de que tudo nele era feito à minha medida. Gostava das suas mãos, da sua T-shirt horrível com uma banda foleira, dos dentes tortos, da barba e da sua pele áspera, do pescoço moreno com a linha branca de quem apanhava demasiado sol na cara. Soltámos as mãos para passarmos cada um de cada lado de um poste e ele voltou a procurar-me. Os nossos dedos tocaram-se, ele apertou-os com força e puxou-me para si. Eu tirei a mão e empurrei-o para a minha frente, entre risos. Saltámos por entre os quadrados desenhados no chão da calçada com as sombras do arvoredo a pintar o jogo de xadrez plácido da tarde que já ia a meio. O pátio nu, lajeado de pedras e pedrinhas que desenhavam contornos geométricos ao chão, estava apinhado. Os turistas andavam para trás e para a frente e viam-se músicos a tocar no largo, fazendo parar os transeuntes que, descendo ou subindo a Garrett, se deixavam ficar por ali a apreciar os acordes trauteados numa língua que não conheciam, mas cuja melodia os fazia sentir como que parte de nós. A música portuguesa caía sempre bem numa Lisboa que já era quase mais estrangeira do que nossa. Abandonámos o largo e a confusão, metemos pela António Maria Cardoso e continuámos a percorrer a calçada onde prédios de três e quatro andares, separados apenas por uma estreita rua com carris, formavam toda a paisagem suspensa do céu claro que brilhava acima de nós. Puxei-o pelo braço e cortámos à esquerda, descendo aos saltos a escadaria que terminava no Café no Chiado. Atirei-me para uma das cadeiras de frente para o São Carlos e escondi a cara por baixo da sombra melancólica das árvores da rua que tornavam o calor um pouco suportável. Algumas pessoas almoçavam, outras liam, um grupo de miúdas conversava e ria-se alto e bom som, aproveitavam a serenidade daquele domingo quente de Junho.
— Já sei porque é que gostas de vir aqui — disse-me depois de ter ido buscar a ementa. Pegou-me na mão por debaixo da mesa, entrelaçando os dedos nos meus e encostando-se para trás na cadeira. Sentia-me a queimar por dentro.
— Porque é perto de casa e a comida é barata?
— Porque está cheio de livros lá dentro.
— Entaaaão, este é um café histórico e estás numa zona da cidade que faz parte do imaginário da nossa literatura — disse-lhe. — Na verdade, é mais porque é perto de casa e tem esta esplanada à sombra.
— Estás a falar daquele dos poemas que nos obrigavam a ler na escola? — Deu uma gargalhada alta. — Claro que sei que é o Pessoa, estou a meter-me contigo.
— Ele morou ali atrás no Largo, sabias? — Apontei, para a esquerda. — Mas tanto o O Primo Basílio como Os Maias têm muita ação passada aqui nesta zona. Eça de Queiroz, Alexandre Herculano e Almeida Garrett foram grandes figuraças do Chiado, meu amigo.
— A sério? É isso que tu estudas? — Aproximou-se e beijou-me a orelha. Senti o seu hálito quente a raspar-me no pescoço e um arrepio percorreu-me dos pés à cabeça.
— Não sou obrigada a estudar. — Sorri. — Na verdade, gosto muito e, sei lá, às vezes, imagino que posso vir a escrever um dia. Ser escritora, sabes… — Depois de o dizer em voz alta, tive noção que dizer que gostava de ser escritora soava tão estúpido como dizer que gostava de ser astronauta ou malabarista no circo.
— E o que gostavas de escrever?
— Não sei, só sei que é o que mais gosto de fazer. Não tenho nenhuma aptidão especial, nunca mostrei apetências para nenhuma profissão em específico, sempre me senti meio inútil, para dizer a verdade. Se um dia alguém me pagar para ler livros, terei encontrado a profissão de uma vida. Mas como é muito pouco provável que isso aconteça, o mais próximo que me imagino a fazer é talvez jornalismo, que é o que a minha mãe quer que eu faça.
— E tu, queres?
— Não sei, é por isso que não vou este ano para a faculdade. Só quero sentir que estou a fazer a escolha certa. A minha mãe diz-me que o importante é fazer a diferença, mudar alguma coisa. Não o mundo inteiro, é certo. E depois o meu pai diz que é a arte que muda a vida das pessoas.
— Por isso, lês. — Voltou a encostar-se para trás, observando-me.
— Para escrever, tenho de ler.
— Vais escrever sobre mim?
Dei uma gargalhada.
— Essa pergunta é um bocado estranha.
— Então vais escrever sobre mim, tenho a certeza. — Apertou-me a mão debaixo da mesa, esticou-se e deu-me um beijo fugidio nos lábios. — O que é que vamos comer?
Tentei pensar na opção que me daria a menor probabilidade de ficar toda suja de comida ou com coisas nos dentes. Talvez um sumo de laranja com uma tosta de tomate seco. Sim, parecia-me mais seguro. Sem queijo, obviamente. Apesar de ter pedido e repetido esta informação, vi a pasta branca a sair pelo pão. Seria melhor fazer uma cena lunática e pedir uma nova tosta ou tentar tirar o queijo todo e parecer uma anormal? Decidi parecer uma anormal. Estava a fazer uma operação cirúrgica à tosta, a raspar o queijo com a faca e Afonso olhava-me curioso.
— Tens muito jeito para tirar queijo derretido de pão — disse, enfiando uma panqueca quase inteira dentro da boca.
— Devia ter pedido para me fazerem outra, não devia?
— Acho que sim. Mas, entretanto, toma uma panqueca.
— Ou não — disse, sorrindo. — Come lá as tuas panquecas.
— Não quero que passes fome só porque tens medo de queijo.
— Não tenho medo de queijo — respondi, com uma gargalhada.
— Diz ela enquanto esfaqueia o pão.
— Só estou a tentar tirar o queijo.
— Come uma panqueca.
— Não.
— Ainda agora começámos e já estamos a ter uma discussão sobre panquecas e queijo?
Revirei os olhos e dei uma trinca. Decididamente não ia conseguir comer aquilo.
— Não gostas de queijo — disse ele. — A informação já está armazenada. Nunca mais me esqueço disto. — E chamou o empregado para pedir outra tosta especificamente sem qualquer tipo de queijo.
— O que é que tu fazes, afinal? — perguntei-lhe. Ainda não percebera o que fazia da vida, além de jogar jogos de computador, decididamente não o Super Mário.
— Não é nada de muito impressionante para se contar. — Assumiu um ar sério. — Trabalho na empresa que era do meu pai, pelo que não gosto muito de falar sobre isto.
— E porque é que não gostas de falar?
— Porque as pessoas assumem imediatamente que não tenho de fazer nada, só porque sou o filho do fundador.
— E não fazes? — perguntei com um sorriso.
— Bem, até faço — disse, assumindo um tom de voz exibicionista. — Estou no departamento criativo e de publicidade. Fazemos campanhas e anúncios, criamos slogans para marcas e assim. Mas não é nada de muito interessante para falar.
— E o teu pai? — perguntei, já antevendo a resposta, dado que falara nele no passado.
— O meu pai morreu há uns anos, mas, mesmo quando era vivo, pouco conviveu comigo e com a minha irmã. Por isso nunca tive uma ligação muito forte com ele. — Deu-me a mão. — Os teus pais estão juntos?
— Não. — Soltei-me rapidamente da mão dele e espreguicei-me na cadeira. — Moro com a minha mãe em Carcavelos. Esta é a casa do meu pai onde ele vive com a nova mulher e os meus dois irmãos mais novos.
— Já vive com esta mulher há muitos anos? — perguntou, franzindo o sobrolho.
— Sim, para aí desde os meus doze anos. — Comecei a fazer contas mentalmente. — Os meus irmãos são gémeos e têm quatro anos. Nasceram pouco depois de ele se ter casado novamente.
— E porque é que se separaram? — perguntou, procurando novamente a minha mão debaixo da mesa. Desisti e deixei-o tocar-me.
— Porque a relação deles era uma merda. Quando era miúda, houve alturas em que achei se odiavam. Gritavam muito e discutiam por coisas que nem entendia muito bem, como o dinheiro. Mas depois seguiam-se os períodos de paixão intensa. Esses eram, sem dúvida, os momentos mais felizes em família, viajávamos imenso por Portugal e passávamos bastante tempo na casa da minha avó no Alentejo. Mas nunca duravam muito… O meu pai vive no mundo da lua e a minha mãe fartou-se da instabilidade que era viver com ele.
— Instabilidade como? — perguntou, interessado, o que me fez passar uma onda de emoção pelo corpo.
— O meu pai pinta e passa grande parte do seu tempo sem emprego e a viajar na sua caravana. São os seus momentos de cultivar o talento, como ele diz.
— Pinta o quê? — perguntou, franzindo a testa. — Quadros e assim?
— Exatamente! — Sorriu ao ouvir a minha explosão. — Quadros. O meu pai acha que é um Van Gogh.
— E agora, o que é que ele faz? Esta casa é fixe.
— Esta casa é da Maria João, a mulher dele, que deve gostar realmente do meu pai porque lhe dá liberdade para ter os seus momentos de cultivo — disse a palavra cultivo com uma entoação sarcástica. — Era uma casa de família ou algo do género. São todos arquitetos, o prédio é da família e os dois últimos andares ficaram para ela. Acho que foi por isso que gostou do meu pai, os dois lá se entendem no meio dos seus desenhos.
— Gostas dela?
— Acho que sim. — Encolhi os ombros. — Damo-nos bem e ela deu-me aquele quarto da casa dela para que me sentisse sempre à vontade para lá ficar quando me apetecesse. Tenho o andar de cima para mim, que, noutra altura, talvez fosse um sótão ou assim. Ela podia nem sequer se ter preocupado comigo, percebes? Imaginei que fosse isso que iria acontecer, mas ela está sempre a dizer que quer que eu sinta que esta também é a minha casa.
— Custou-te quando eles se separaram?
— Claro — disse sem hesitar. — Imaginava que podiam simplesmente fazer as pazes e voltar a ser tudo como era dantes, só nós os três. Mesmo sabendo que isso era impossível porque as coisas do meu pai já não estavam lá em casa. E das outras vezes que ele tinha saído, eu sabia que ele iria sempre voltar porque os seus quadros e as suas latas e os estúpidos dos pincéis continuavam lá. Mas, da última vez, ele levou tudo. E eu soube que nunca mais iríamos ser só nós os três.
— Que merda.
— Pois.
Não havia forma de expressar a merda que tinha sido. Dei por mim a pensar que nunca contara esta versão dos acontecimentos a ninguém que não fossem as minhas amigas. Sempre achara dramático falar sobre histórias tristes da vida a pessoas que acabamos de conhecer. Mas sentia-me como se ele compreendesse melhor do que qualquer outra pessoa. Não sabia se era pela forma como me olhava com aqueles olhos que cavavam um buraco no meu peito ou por saber que o seu pai morrera e, de alguma forma, ele vivera mais ou menos uma perda idêntica. Percebi imediatamente a parvoíce que isto era, comparar a morte a um divórcio era estúpido porque estava com o meu pai todas as semanas.
— Acho que tudo isto requer muita coragem — disse, sorrindo.
— O quê?
— Tudo isto. Teres duas casas, aceitares as escolhas do teu pai ao mesmo tempo que apoias a tua mãe. Seguir em frente, é isso. Todos temos de seguir em frente.
— Não me sinto nada corajosa. — Dei uma gargalhada falsa. — As coisas são como são e só tive de me adaptar a elas.
— Não te sentes porque estás a viver isto mas um dia vais olhar para trás e pensar: porra, lidei mesmo bem com a nova vida do meu pai.
— Pareces a minha mãe a falar.
— O que é que ela diz? — perguntou, trocista, encostando-se na cadeira com as mãos atrás da cabeça.
— Quando o meu pai e a Maria João casaram, não quis ir ao casamento. E não é que não gostasse dela, acho que só posso agradecer o facto de o meu pai ter conhecido alguém que não me trata como um empecilho. Mas não queria ir pela minha mãe, porque sentia que estava de alguma forma a traí-la ao celebrar a felicidade do meu pai sem ela. Mas ela disse-me: ele é teu pai e, se não fores, vais arrepender-te. É difícil imaginar isso quando tens treze anos e queres revoltar-te contra o mundo. Mas acredita em mim, vais arrepender-te. E pronto, fui.
— Se calhar, é por isso que dizes que não és uma pessoa de relações. Tens medo que te aconteça o mesmo que aconteceu aos teus pais?
— E o que é que pensas fazer daqui a, sei lá, dez anos? — perguntei, mudando de assunto. Tirei as sandálias e coloquei os pés, descalços, por cima das suas pernas. — Se calhar, psicólogo era uma boa profissão para ti, já que gostas de analisar a fundo a mente das pessoas.
Ele deu uma gargalhada longa e ruidosa e percebi que gostava mesmo muito de o ouvir rir.
— Trabalhar em qualquer coisa, mas nem sei bem no quê. Só sei que quero estar fora da empresa do meu pai em breve e seguir o meu próprio caminho sem ver toda a gente a revirar-me os olhos em cada reunião — disse, encolhendo os ombros.
— Sabias que o Feng Shui ajuda na vida das pessoas?
— Hã?
— E fazer ioga melhora a energia.
— Estás a falar do quê, rapariga?
— Estou a ajudar-te a arrumares as ideias no sítio. Disseste que querias trabalhar em qualquer coisa, mas não sabes no quê.
— Mas ela está tão engraçada. — Puxou-me por um braço, agarrou-me na cara e beijou-me.
— Achas que já esgotámos todos os assuntos?
— És doida! Ainda nem começámos a falar sobre as coisas realmente importantes.
— Que coisas?
— Ora bem… — Fingiu pensar sobre o assunto. — Coisas como o facto de Veneza estar a afundar? Ou de as cabras terem pupilas retangulares? Ou de as batatas, as maçãs e as cebolas terem o mesmo sabor se as comermos com o nariz tapado? Ou de os Estados Unidos serem mesmo ao lado da Rússia?
— A Rússia? Está do outro lado do mapa — respondi.
— Porque tu estás a visualizar o mapa na horizontal. Eu posso não saber nada de literatura, minha menina, mas a terra é redonda, sabias?
— A sério? — respondi com sarcasmo. — Nunca me tinha apercebido disso.
— Quando vês o globo, vês que, na verdade, a Rússia está mesmo ao lado do Alaska, quase se podiam tocar. Mas nós vivemos aqui no canto da Europa, então não temos essa perceção, porque nos visualizamos no mapa como estando no centro. América para a esquerda, Ásia e Rússia para a direita. Mas, na verdade, eles estão bem perto uns dos outros.
— Por acaso… acho que nunca tinha pensado nisso — disse, surpreendida por ele ser um poço de informações estranhas.
— Uma vez, tive uma discussão com o Ventura porque comentávamos se, para ir a Nova Iorque, os chineses tinham de passar pela Europa. E eu disse que não porque fazem a volta ao contrário. O Ventura disse que sim porque as rotas têm de ser todas no mesmo sentido, como na estrada. Mas isto não me fez sentido nenhum.
— Quem diria… — comentei, sorrindo.
— O quê?
— Que tinhas tanto jeito para falar sobre factos totalmente aleatórios.
— Estava a provar-te como temos tantos assuntos sobre os quais falar.
— Agora quero falar sobre ti — disse.
— O que é que queres saber?
— Tudo?
— Acho que temos o resto da vida para falar sobre isso, não?
Fiquei em silêncio e comecei a tamborilar com os dedos na mesa. Isto soava demasiado estúpido na minha cabeça. Conhecíamo-nos há menos de vinte e quatro horas. E vinte e quatro horas era absolutamente ridículo. Eu sempre achara palermas as pessoas que em três dias já se amavam. Então, como é que isto estava a acontecer comigo? Sentia-me uma fraude numa comédia romântica idiota, como a vilã de uma história que todos querem ver pelas costas. Senti que estava de novo a agarrar-me como louca às coisas, queria-o mas nem sequer o conhecia.
— Em que estás a pensar? — perguntou, enquanto metia uma garfada de ovos mexidos na boca, interrompendo-me dos meus pensamentos.
— Na tua namorada, acho eu — respondi com expressão séria e arrependi-me imediatamente de o ter feito.
— Tudo bem. Queres conversar sobre ontem à noite? Vamos conversar. — Afastou o prato, poisou os cotovelos na mesa e ficou calado a olhar para baixo, massajando com as mãos a nuca. Dei-lhe toques com os dedos do pé e quando, finalmente, ele ergueu os olhos para mim, disse-lhe o que já me tinha passado tantas vezes pela cabeça naquela manhã
— Tu tens uma relação com outra pessoa e eu não quero, de forma alguma, contribuir para o seu fim — disse, a medo.
— Como é que achas que a minha relação com a Madalena pode continuar depois disto tudo? — perguntou, exasperado, sussurrando para que ninguém nos ouvisse.
— Não é isso — interrompi. — Estaríamos aqui agora se isso não tivesse acontecido? Isto — apontei para nós os dois com os dedos — não foi uma causa, foi a consequência, entendes? E pareceu-me que estavas genuinamente triste e, acredita, não fico chateada ou coisa que o valha. — Menti. — Eu estava ali e aconteceu.
Ele respirou fundo e espreguiçou-se. Talvez para dar algum tempo antes de responder.
— Ouve, aquilo não aconteceu porque fiquei infeliz ou algo parecido. — Começou a mexer no cabelo, percebi que estava embaraçado. — Sei lá, estava um pouco bêbedo, se é que me posso desculpar com isso. Foi apenas uma lágrima devido ao choque porque me senti idiota por, depois de tudo o que fiz por ela, ainda levar com esta merda. Não é como se estivesse desatado a chorar. Se calhar, sou um gajo emocional e não sabia. — Tentou rir-se mas não estava a ter piada. Não me ri de volta.
— E isso não é a mesma coisa? — perguntei, encostando-me para trás na cadeira, de forma a poder olhá-lo nos olhos.
— Olha, ontem à noite, quando te vi, nunca tinha sentido nada assim. — Olhou-me diretamente nos olhos, obrigando-me a afastar o olhar. — Não sou tão bom com palavras como tu deves ser… — fez uma pausa para pensar — Mas lembras-te de te ter dito como pensar noutra pessoa já era traição?
— Sim.
— Para de roer as unhas. — Nem me apercebi que o estava a fazer.
— Continua.
— Quando estávamos encostados ao balcão, só me apetecia tocar-te e, por momentos, nem sequer me lembrei que a Madalena existia. Foi como se ela se tivesse eclipsado da minha cabeça. — Suspirou. — Conheço-te há meia dúzia de horas, mas parece que te conheço desde sempre. Nunca me senti assim e parece-me que isto é uma coisa boa de se sentir.
Fiquei gelada por dentro e, depois, senti que, de repente, estava a suar em bica. Isto não fazia sentido nenhum. Não comigo: sempre o pé descalço, nunca o sapatinho de cristal.
— Eras feliz com a Madalena? — perguntei.
— Acho que sim, nunca quantifiquei a felicidade. Acho que estava apenas acomodado à presença dela.
— E agora? — perguntei.
— Agora quero estar contigo.
— E a Madalena? — voltei a questionar.
Fomos interrompidos pelo telefone dele, que começou a tocar.
— Falámos nela, aqui está ela. — Esticou o telefone na direção do meu rosto e vi o seu nome escrito no visor. Voltou a arrumá-lo no bolso.
— Acho que devias atender, saber o que ela tem para dizer, eventualmente tem alguma explicação para te dar.
— Não tenho nada para falar com ela.
— A sério? Acho que não podes simplesmente ignorar — disse-lhe, quase involuntariamente.
— O que é que queres que eu faça? — perguntou, cruzando os braços.
— Que lhe ligues, que lhe dês a oportunidade de falar.
— Eu não acredito que estás a dizer isso. — Deu uma gargalhada. — Há duas horas, estávamos deitados na cama e agora queres que eu fale com a minha ex-namorada?
Não, de facto não queria que ele falasse com ela, quem é que eu queria enganar?
— Acho que é o mínimo que podes fazer.
Ele olhou-me durante uns segundos.
— Que fique bem claro que só o faço por ti — finalizou. Pegou no telefone, levantou-se e afastou-se uns metros para falar.
Terminei o sumo e fingi que não estava a ouvi-lo falar do outro lado da estrada encostado à parede do teatro. Não ouvia tudo, na verdade, só conseguia ouvir fragmentos de frases que ele ia dizendo ao telefone. Ouvi-o rir e, por um instante, senti uma onda de terror e solidão, mas tinha de afastar a sensação que me azedava a boca. Levantei-me para ir à casa de banho e vi-o olhar de relance para mim, com o telefone no ouvido. Os nossos olhos cruzaram-se. Senti que havia qualquer coisa entre nós que não existia há um minuto. Fiquei à espera de algum sinal, que me sorrisse, qualquer coisa, mas ele baixou a cabeça e continuou a falar. Percorri as mesas e as pessoas que se encontravam na esplanada, entrei e fechei a porta da casa de banho atrás de mim. Encostei-me à porta de madeira vermelha a olhar para a minha imagem no espelho. Questionei-me se seria ciúme. Não, o que estava a sentir não era ciúme, porque era óbvia a ausência de paixão de Afonso em relação a ela. Era bonita, é verdade, e isto é um paradoxo parvo porque pensava nela como fisicamente perfeita mas tinha uma clara consciência dos seus defeitos, ainda que não a conhecesse minimamente. Via-a como as raparigas da minha escola, de argolas e calças de ganga justas, a serem tudo aquilo que eu imaginava que queria ser.
Sentei-me na sanita e apoiei a cabeça nos joelhos. Porque é que ele tinha de se ter atravessado no meu caminho? E, pior, porque é que passara a noite e a manhã a ser idiota e sarcástica, a fingir-me mais madura do que era realmente? Observei-me ao espelho, algumas madeixas do meu cabelo estavam soltas do rabo-de-cavalo, de tal modo que parecia que tinha posto os dedos numa tomada. O que, se calhar, até devia ter feito, talvez acalmasse a angústia que se atravessava na minha garganta. A máscara de pestanas estava alojada debaixo dos olhos e os restos de base da noite anterior ainda brilhavam na minha pele pálida. Passou-me pela cabeça que gostava de ser morena. Madalena tinha aquele tom de pele saudável de quem parecia passar o ano na praia. Olhei para mim, com as olheiras visíveis pela noite mal dormida. Se calhar podia fazer algum solário, pensei. «Respira e para com esta merda», disse para mim mesma ao espelho. Eu nem sequer queria ser igual a ela, não queria ser igual a ninguém. Alisei o cabelo com as mãos, voltei a prendê-lo num rabo-de-cavalo e limpei os restos de rímel e base com os dedos molhados.
Quando saí para a esplanada, vi-o sentado. Estava encostado na cadeira e tinha a cabeça pendida para trás, deixando que o pouco sol que espreitava por entre as árvores pousasse no seu rosto. Era por isso que era moreno, estava sempre com a cara ao sol. Fingi tossir para o acordar do seu silêncio.
— Aí estás tu — disse, sorrindo. Levantou-se, aproximou a sua cadeira da minha e voltou a sentar-se na mesma posição em que estava.
— Aqui estou eu — respondi. Não conseguia arriscar perguntar coisa alguma. Encostei-me para trás e fechei os olhos, com o sol a bater-me no rosto.
— Então? — Puxou-me a perna. — O que é que vamos fazer agora?
— O quê? — Abri os olhos e fixei-o. Estava sentado direito, inclinado para mim.
— Isso pergunto eu. — Riu-se. — Lembro-me perfeitamente de teres dito comida, banho e beijos. A primeira parte já está.
— E a Madalena? Estavas a rir-te… — Saiu-me involuntariamente da boca.
— O que é que haveria de fazer? Chorar? — Fez uma careta e revirou os olhos o que me fez rir.
— Não sei.
Ele respirou fundo e massajou a barba rala com a mão esquerda.
— A Madalena pediu-me desculpa, disse que tinha cometido um erro, que não queria que nada daquilo tivesse acontecido. E eu ri-me. Porque estou mais do que agradecido por aquilo, ontem à noite, ter acontecido.
Não respondi.
— Acabou. Acabou mesmo. — Puxou-me na cadeira e fez-me aproximar dele.
— Acabou como? — perguntei, escondendo o rosto no seu pescoço.
Ele esborrachou-me nos seus braços, apertou-me contra o seu peito e pressionou os seus lábios nos meus.
— Assim — disse, com a sua boca colada na minha.
— Não sei… — respondi, ainda colada a ele.
Ele afastou-se e olhou-me de sobrolho franzido.
— Duvidas de mim?
— Totalmente.
— Não tens confiança em mim?
— Nenhuma.
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