Senhorita Aurora
Capítulo 7
“Somewhere in her smile she knows
That I don’t need no other lover
Something in her style that shows me
I don’t want to leave her now
You know I believe and how”
Something – The Beatles
Estávamos sentados em uma mesa grande do café que ficava dentro da companhia de balé. Depois do ensaio, o senhor Evans pediu uma reunião com os quinze principais bailarinos da peça. Achei que seríamos apenas nós e o nosso diretor artístico, mas estavam presentes as duas sub-coreógrafas e, lógico, o assassino da gentileza: o senhor Hunter.
— Como sabem, esse balé é um grande marco na minha carreira e na de todos vocês... Chamei-os aqui, hoje, porque já estamos ensaiando há pouco mais de uma semana e acho que muitos talvez se perguntem, por que temos o privilégio de contar com a presença do Daniel Hunter — Ele apontou para o maestro antes de concluir: — em nossos ensaios.
Privilégio? Meu Deus, me segurei para não rir. Nathy, que estava sentada ao meu lado, me cutucou, e segui a direção em que ela apontava com o olhar.
Engoli em seco.
O senhor Hunter me encarava sem piscar e fazia isso com uma expressão tão fechada, que senti as mãos dele apertarem meu estômago. Soltei o ar devagar, olhei para baixo. Tentei voltar minha atenção para o discurso do senhor Evans.
— Ele não é bailarino, nem um coreógrafo, mas conhece bastante do balé clássico e é um dos maiores gênios da música que já pisaram nesse planeta.
Olhei para ele porque meus nervos se sentiam analisados e tinham razão, já que o maestro continuava me olhando de um jeito nada educado ou natural.
Senti-me uma menina de seis anos, participando das aulas de balé com a professora mais rígida que já tive: a madame Vivan. Ela não admitia erros, não queria saber se éramos crianças ou se sentíamos medo dela. Eu tinha muito, na verdade. E o senhor Hunter me fazia sentir igual à menina tímida do subúrbio do Rio, que, por mais que quisesse, nunca acreditou que chegaria tão longe. Ele me fazia sentir pequena e inadequada.
— Entendeu, Nicole? — Ai, meu Deus, era o senhor Evans e eu não tinha a menor ideia do que ele falava.
— Hum-hum... — Sacudi a cabeça.
— Então, como dizia... ele não está nos ensaios para corrigir a parte técnica, apesar de poder me ajudar quando achar necessário... O senhor Hunter é responsável pela parte da dramaturgia... e acho que vocês já perceberam que ele pode ser até mais exigente do que eu. — Senhor Evans riu e foi seguido por um coro de risadas do grupo.
Eu não ri, porque o maluco do senhor Hunter não desviava os olhos do meu rosto.
— Quer falar algo, meu amigo? Fique à vontade — senhor Evans sugeriu.
Ele respirou fundo, parando de me encarar e me deixando respirar.
— A única coisa que quero que vocês não esqueçam — ele começou com aquela voz que fazia os músculos do meu corpo vibrarem —, é que o balé não é apenas disciplina e perfeição técnica, o balé é contar uma história com os movimentos... sendo assim, o que eu vou exigir durante os meses de ensaio em que ficaremos juntos, é que deem a maior entrega possível de suas emoções, de seus corpos... — E ele voltou a me olhar e completou: — de suas almas. E quero que vocês entreguem tudo isso à minha música, que é na peça a fala dos seus movimentos.
Silêncio. Ele ainda me olhava e minha espinha era percorrida por um milhão de ondas elétricas.
— Vamos arrasar! — senhor Evans falou e todos bateram palmas, menos eu e o senhor Hunter, que continuava me torturando com um par de olhos azuis inquisidores.
Sentia dor nas panturrilhas. Não era uma dor estranha, já que ela sempre acontecia depois de um treino longo. Depois daquele dia no café, quando o maestro foi apresentado, e me encarou querendo tirar minhas roupas com os olhos, nos encontramos apenas nos dois ensaios seguintes.
Naquela tarde em especial, tinha me entregado ainda mais para o balé. Cada dia era uma nova superação e eu treinava com a certeza de que podia dar algo a mais, sempre. Era um tipo de desafio interno; até onde eu conseguia deixar o balé entrar, quanto mais seria possível me entregar para a dança?
Estava sentada afrouxando as fitas das sapatilhas no chão da sala de ensaio. Todos já haviam saído, apenas o senhor Evans ainda guardava suas coisas.
— Poxa, Nicole! — ele me chamou.
Desviei os olhos das sapatilhas para o meu diretor.
— Hunter esqueceu o celular dele aqui, em cima do piano. — Ele sacudiu a cabeça enquanto pegava o aparelho. — Eu tenho uma reunião, estou superatrasado, você se importaria de deixar na sala dele... Acho que ainda está no prédio.
Fiquei em silêncio, o encarando, sem saber o que dizer e meu diretor explicou:
— A sala nova dele é ao lado da minha, você sabe onde é.
Engoli em seco sentindo o coração disparar. Não queria ir até a sala do senhor Hunter, não queria encontrar com ele e o que era pior, a sós dentro do espaço reduzido de uma sala.
— E então? — Evans esperava minha confirmação.
— Tudo bem, eu levo.
Como eu podia dizer não a um pedido inocente desses?
Tirei as sapatilhas de pontas e me aproximei do meu diretor artístico pegando o aparelho da mão dele.
Ele não sabia que para mim aquele pedido não era inocente.
Saí da sala de ensaio e calcei o tênis com o coração na boca.
Não surta, Nicole, é somente entregar um celular para uma pessoa.
Fui em direção ao andar de baixo, onde ficava a parte administrativa e as salas dos diretores. Passei pelas primeiras portas, a sala do Evans era uma das últimas do corredor. Segurava o celular dele entre os dedos um pouco trêmulos.
— Sua ridícula! — me xinguei em voz baixa.
A tela do celular acendeu com a entrada de uma mensagem, não devia nem mesmo olhar. Era errado. Mas não consegui evitar.
“Não faça nenhuma besteira, sei como esse dia é pesado para você e...”
Isso foi tudo o que apareceu.
Que coisa mais estranha. Sacudi a cabeça e voltei a andar. A mensagem era de uma tal de Jéssica.
O que será que ela quis dizer com o dia de hoje é pesado e não faça nenhuma besteira?
Esqueça essa mensagem e tira o senhor Hunter da cabeça agora.
Passei pela sala do Evans, parei em frente à porta vizinha e li a confirmação.
Daniel Hunter.
Meu coração disparou outra vez. Pisquei lentamente e murmurei:
— Chega!
Levantei o braço decidida e bati na porta três vezes. Para minha surpresa, ela abriu sozinha. Estava apenas encostada.
Meu coração acelerou um pouco mais.
— Senhor Hunter? — Arrisquei colocando metade do rosto para dentro da sala. — O senhor Evans me pediu para... — me detive quando entendi que o maestro não estava ali.
Respirei fundo sem saber se aliviada ou um pouco desapontada. Aliviada, é claro, sua tonta!
Entrei na sala. Seria mais simples do que havia imaginado. Tinha apenas que deixar o celular, sair dali e...
Meus olhos pararam em cima de um livro sobre a mesa: “O diário de Jack, o estripador”.
Meu estômago gelou.
Cruzes! Que leitura.
Deixei o celular com os dedos ridiculamente mais trêmulos. Já ia virar para sair da sala quando outra coisa em cima da mesa chamou a minha atenção.
Saia, saia, saia!
Porém, minhas pernas idiotas não obedeceram. Quem mandava nelas era a curiosidade anormal que sentia por tudo relacionado ao mistério que o senhor Hunter se tornara para mim.
Atenta aos barulhos do corredor e sem pensar muito, avancei alguns passos e abri a agenda. Folheei rapidamente algumas páginas: anotações de horários de reuniões, alguns desenhos de notas musicais, mais registros de compromissos. Até que cheguei onde queria, no dia de hoje. Meu coração batia rápido demais. Se eu fosse pega... Meu Deus!
Tinha apenas uma frase escrita, com a letra mais caprichada do que nas outras anotações:
Meu Deus! O que ele quis dizer com isso? Que coisa mais estranha. Minhas mãos molharam de suor.
A porta da sala abriu de uma vez. Fechei a agenda de maneira tão abrupta que ela caiu no chão. Senhor Hunter parou com a boca meio aberta e ficou me encarando em silêncio.
— Eu... eu... eu... — engoli em seco e prossegui desesperada. — eu vim devolver seu celular.
Ele olhou para a o celular sobre a mesa, e então, para a agenda no chão. Um vinco enorme se formou entre as sobrancelhas negras.
— Você estava mexendo nas minhas coisas? — perguntou em um tom de voz tão frio que gelou meu corpo inteiro.
— Não, eu não e...
— Não minta para mim — ele afirmou sombrio e deu dois passos para dentro da sala.
Eu me encolhi.
— Desculpe, eu não... me desculpe, eu só coloquei seu celular na mesa e então...
— Então resolveu ler a minha agenda. — Senhor Hunter olhou para o caderno caído no chão.
— Não, é só que... — Não tinha o que falar, o que eu podia falar? Ele havia me flagrado. Minhas bochechas arderam de vergonha. Que coisa mais estúpida que eu fui fazer. — Me desculpe.
Assisti o senhor Hunter apanhar a agenda, dar a volta na mesa e sentar.
— Senhorita Aurora — ele respirou três vezes antes de acrescentar: —, está tudo bem, você pode ir.
Abri os olhos, surpresa.
— Mesmo?! Quer dizer, obrigada, senhor, e desculpe, eu não quis ver e...
Virei o corpo aliviada. Graças a Deus, tudo ficaria bem. Ele não era o monstro que todos diziam — concluí e inspirei o ar devagar já com a mão na maçaneta da porta. — Intrigante, sim. Misterioso, com certeza. Continuava mexendo comigo de maneiras inexplicáveis também. Até agora meu coração acelerado e minhas pernas bambas provavam isso. Mas ele não era o monstro que aparentava ser e que...
— Senhorita Aurora — meu diretor chamou e eu me virei para encará-lo.
— No final da próxima semana, quero que você apresente sua variação do terceiro ato.
Escancarei minha boca, não consegui evitar.
— Inteira — ele concluiu e o ar do mundo evaporou.
— Mas... mas... nós ainda estamos ensaiando o segundo ato.
— Nós temos algumas bailarinas que não teriam problema nenhum em apresentar a peça inteira na semana que vem, se eu pedisse. Você tem algum problema com isso? — Ele lançou um olhar desafiador.
— Não — murmurei com a voz falha.
— Que bom! — disse e cruzou as mãos sobre a mesa.
Eu fiquei encarando-o sem conseguir falar nada, nem me mexer. Filho da mãe, essa era a “vingancinha” dele. Com ou sem razão de tentar me castigar, ele devia saber que isso exigiria que eu treinasse muitas horas a mais durante os próximos dias a fim de conseguir atender ao que ele pedia. Ao contrário das outras bailarinas, eu nunca dancei nesse papel antes. Desgraçado!
— Agora você pode ir. — E apontou em direção à porta.
Assenti em silêncio e saí de perto daquele... daquele... Apesar de ele ser um ogro, não me sentia no direito de xingá-lo mentalmente, sabia que tinha errado antes e tinha errado bem feio. Saí de lá com dois problemas para lidar: a certeza de que estava ferrada e que teria que me dobrar em duas nos próximos dias. A minha curiosidade psicótica só aumentava em relação ao maestro.
Hoje é o dia que a morte se apaixonou por mim, mais uma vez.
O que ele quis dizer com isso?
Sentada no café principal da Academia, enquanto esperava por Nathy, tinha acabado de fazer uma pesquisa enorme no celular sobre o maestro. Duas semanas após o encontro vergonhoso na sala dele, eu tinha certeza de que a frase naquela agenda era de verdade: o maestro era o crush da morte. Por causa dele ou junto a ele, eu sempre me sentia morta.
Na primeira semana, ensaiei dobrado a fim de apresentar a variação do terceiro ato que ele exigira e fiquei morta de cansaço.
No dia em que deveria apresentar a dança em sala, pelo menos era o que eu imaginava que aconteceria, o maestro entrou, não cumprimentou ninguém, colocou a pasta dele sobre a mesa lateral e caminhou em minha direção.
— Você está pronta para apresentar a variação do terceiro ato? — perguntou baixinho, com os olhos cravados nos meus.
— Sim — respondi e ergui o queixo, orgulhosa, tentando disfarçar o quanto a proximidade dele mexia comigo.
— Ótimo — ele respondeu sucinto —, assim quando Evans começar a ensaiar o terceiro ato, você estará adiantada.
Virou as costas e saiu. Encarei-o incrédula com as mãos na cintura. Sentia o meu corpo inteiro dolorido por causa das horas a mais que estive ensaiando e aquele desgraçado não iria pedir para eu dançar?! E, então, dali em diante, fiquei morta de raiva.
E foi assim até o último ensaio junto ao maestro naquela tarde de sexta-feira, quando ele me matou de calor, de nervoso e de um milhão de sensações descontroladas.
— Senhorita Aurora — senhor Hunter me chamou no final do ensaio —, eu quero falar com você. Por favor, espere todos saírem. — E aí eu comecei a morrer.
Quando ficamos a sós, ele cruzou os braços sobre o peito e disse:
— Eu quero uma reação diferente sua quando estiver dançando com seu príncipe. — E deu alguns passos se aproximando.
Meu coração acelerou enquanto o maestro se aproximava cada vez mais.
— Quero que você olhe para ele assim — pediu e apontou com a cabeça em minha direção.
Minha garganta secou.
— Assim... assim como? — me esforcei para perguntar e baixei o olhar sem graça.
Os dedos dele erguerem o meu queixo. O senhor Hunter estava tão próximo que eu sentia a respiração dele no meu rosto.
— Assim — explicou ele, me encarando com intensidade. O polegar deslizou pelo meu queixo desenhando a linha do maxilar. — Assim — murmurou baixinho —, olhe para ele desse jeito que você está me olhando agora.
O que ele quis dizer com isso? Ele percebia o quanto mexia comigo?
Nossas respirações estavam aceleradas. Hunter ainda me olhava intensamente. E quando achei que ele fosse me beijar ou me matar, o maestro se afastou de uma vez, virou as costas, pegou a pasta dele e saiu. Simplesmente saiu sem dizer mais nada.
— Oi... e aí? — Nathy acabara de sentar à minha frente e eu voltei para o café.
— O que o senhor grosseria Hunter queria com você? — perguntou e se recostou na cadeira.
Senti o coração disparar ao lembrar o que aconteceu, a maneira como ele me olhou e tocou no meu rosto.
— Nada de mais, me pediu para interagir com Ivo de uma maneira diferente — omiti. Não queria falar sobre o que tinha acontecido, ainda me sentia abalada demais.
— Cruz credo — Nathy rebateu —, três semanas e ele faz questão de não cumprimentar ninguém e de se dirigir a todos só pelo nome dos personagens na hora de rugir as suas grosserias. — Ela levantou a mão para chamar a garçonete. — Sabe o que mais me irrita? O que esse cara entende de balé, para opinar com tanta propriedade?
— Eu não aguentei e acabei de fazer uma pesquisa pela internet. — Se ela soubesse quanto tempo gastava pensando nesse cara e tudo o que vinha acontecendo, talvez ficasse preocupada. Bom, eu estava.
Ela abriu mais os olhos perguntando com a expressão: e aí?
— Ele é um monstro.
— É claro que é.
— Não, não de verdade, um gênio, um ser desses que a gente acha que só existem em filmes... Quer ver?
Ela concordou.
Abri a internet no celular e a pesquisa saltou, não tinha fechado o ícone. Comecei a ler:
— Daniel Elton Hunter, nasceu em 1989, em Londres. Cresceu na casa da família em North York. Aos quatro anos, tocou o piano pela primeira vez, desafiando a todos que lhe assistiam a não acreditar. Aos seis, já tocava como se soubesse desde antes de nascer. Aos nove, compôs sua primeira sinfonia. Aos doze, se apresentava pelos palcos do mundo aclamado como um novo gênio da música. Formou-se na escola real de música, em Londres; e, aos vinte anos, já era um dos maiores maestros do mundo contemporâneo. A música e a arte o acompanharam dentro e fora de casa. Filho de pai desconhecido, perdeu a mãe aos seis anos e foi criado pela tia e madrinha: a senhora Olívia Scodelario.
— A Olívia Scodelario? — perguntou Nathy e parou com a boca meio aberta.
— Sim, ela mesma!
A garçonete chegou e pedimos dois cafés e duas quiches com salada. Iríamos sair de lá direto para a estação de trem com destino a Oxford, onde o pai da Nathy, que era professor de Física, morava.
— Meu Deus! — Minha amiga suspirou. — Ele é sobrinho de uma das maiores bailarinas da Inglaterra, uma das mais influentes diretoras artísticas da Companhia de Ballet?
— Sim... mas ela se aposentou há três anos. — Eu disfarcei. Tinha a sensação de estar presa na arena dos Jogos Vorazes. Era isso que a imagem do Daniel Hunter fazia em meus sentidos. Sentidos loucos.
— A mulher é endeusada por todos lá dentro — Nathy afirmou parecendo meio chocada.
— Eu sei.
— Então é por isso que acham que ele entende... quer dizer, que ele entende tanto de balé.
— É provável, continuo, quer ouvir?
Não esperei a resposta e prossegui:
— Hunter é convidado frequentemente para ser jurado dos principais prêmios de música e balé ao redor do mundo. Apesar do forte vínculo familiar e grande conhecimento artístico com o balé clássico, o maestro nunca participou ativamente do cenário da dança, recusando sempre os inúmeros convites que surgem para ele reger os principais balés do mundo. Assim ele mantém os fãs da modalidade ansiosos por uma junção do seu genial talento com a música em um clássico da dança.
Nathy massageou o pescoço com as mãos, ela só fazia isso quando ficava nervosa.
— Ah, meu Deus, estamos tão ferradas, ele é tipo... filho da Olívia Scodelario?
— Sim.
— Por que ninguém nunca comentou conosco? Será que todos são tão alienados como nós duas?
— Acho que não. — Eu ri sem achar muita graça. — Acredito que todo mundo imagina que todos sabem e aí... ninguém comenta o óbvio.
— Bom, para mim não era nada óbvio.
— Nem para mim. — Encolhi os ombros e tentei esticar as pernas, senti um puxão na panturrilha e devo ter feito uma careta de dor.
— Dolorida?
— Um pouco.
— Trocamos massagem na casa do meu pai.
— Fechado.
Apesar de contarmos com seções diárias de massagem e fisioterapia dentro do balé, às vezes, isso parecia não ser o suficiente para diminuir o desconforto do corpo.
Os pratos chegaram e comemos por um tempo em silêncio.
— Você ainda acha que o conhece de algum lugar? — Nathy perguntou depois de dar uma garfada na salada.
— Quem?
— O senhor Hunter — ela respondeu como se fosse óbvio.
— Não, foi só uma impressão passageira.
Eu menti, era uma impressão que não passava, já que o maestro vinha ocupando muito os meus pensamentos e a força deles acabara de evocar a figura do senhor Hunter. Engoli em seco ao vê-lo se sentar em uma das mesas do café. Senti minhas bochechas arderem dessa vez, por raiva.
— O que foi? — Nathy percebeu minha cara.
— Você viu a Marie hoje, durante o ensaio? — perguntei sem esconder a irritação.
— Não... Por quê?
— Ela faltou se jogar em cima do senhor Hunter, aliás, ela tem feito isso bastante nos ensaios... e agora eles estão aqui... tomando um cafezinho. — Olhei discretamente em direção à mesa que eles ocupavam.
— Nada diferente do que ela faz com todos os bailarinos que gostam de mulher.
O senhor Evans se juntou a eles e acenou em minha direção, eu retribuí o cumprimento e Nathy também. Movida por um impulso idiota, eu acenei e dei um sorriso tímido para Daniel Hunter, que franziu o cenho e ignorou o cumprimento.
— Ele é nosso diretor, pelo amor de Deus! — rebati ainda mais irritada com a grosseria do maestro. — Ela não tem limites?
— Acho que é por isso mesmo que ela está tão entusiasmada... porque aparentemente ele não dá a menor atenção para ela... e, sinceramente, com todo aquele cabelo na cara, me dá arrepios só de imaginar um beijo nele. Não consigo nem pensar... essa moda de homens com barbas. — Ela torceu os lábios antes de acrescentar: — Ele levou a coisa a sério.
Só que eu imaginei o beijo do senhor Hunter com a Marie e senti ciúmes. Que coisa mais estúpida de se sentir.
Bufei e afastei a cena da minha cabeça, enquanto mexia na salada quase intocada no prato.
— Você devia sair com alguém. Desde que acabou com o Richard, não esteve com mais ninguém. — Nathy deu um gole no suco.
O Richard foi meu primeiro e único namorado, ficamos juntos por quatro meses. Quase um ano atrás, eu tinha dezessete e ele vinte e cinco. O problema era que por ser professor universitário, ele tinha uma agenda cheia, mas muito certinha; e eu por ser bailarina, tinha uma agenda cheia e esse era o único adjetivo que cabia ali. Quando ele podia me ver, eu não podia e vice-versa. Nós ainda éramos bons amigos. Nos víamos sempre que possível.
— É, você deve estar certa — concordei e arregalei os olhos, Marie estava debruçada sobre a mesa sorrindo de um jeito absurdo, como se o homem de barba fosse feito de chocolate e waffle.
— Vai ter uma festa incrível do College de medicina hoje, vamos? — Minha amiga me encarou com os olhos brilhando, alheia ao meu ciúme.
— Não sei, estou tão…
— Ah, pare com isso, vai. Vamos aproveitar que temos três dias inteiros de descanso e nos divertir... vamos dançar como garotas normais, encher a cara e fumar um...
— Nem pensar, a última vez que você me convenceu “a fumar um” passei dois dias sem sentir as pernas direito.
Nathalia gargalhou.
— Que exagero. — Ela me cutucou com o ombro. — Vamos, vai? Aquele gatinho do último ano vai estar lá... e quem sabe você não conhece alguém por lá.
Essa era a Nathy, sempre de olho em alguém e como tinha um rosto que completava mil personagens clássicos e corpo de bailarina, sempre tinham muitos de olho nela também.
— Está bem, querida, eu vou.
— Ahhh... — Ela me abraçou, comemorando com uma dancinha. — O que seria da minha vida sem você?
— Não sei o que seria de mim — respondi e vi que o senhor Hunter agora olhava para mim, daquele jeito que fazia tudo no mundo passar mais devagar.