Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 38 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 35

“Remember once things you told me

 

And how the tears ran from my eyes

They didn’t fall because it hurt me

I just hate to see you cry”

No Angel – Byrd

 

Entramos no carro sem trocar nenhuma palavra. O silêncio parecia uma extensão de nossas almas.

— Daniel, eu... — queria falar tantas coisas.

— Nicole, não!

A minha voz ficou presa na exigência explícita dele.

— Não fale nada agora, vá para casa, pense com calma. Não vou pedir nada de você, nunca... Eu quis te levar lá, para que você entenda o tamanho do buraco em que eu estou metido, o tamanho de tudo... Eu nem sei se sou capaz de lhe entregar o que você merece.

Ele passou a mão no cabelo.

— Apenas descanse, se concentre na sua estreia e deixa tudo isso no lugar em que deve ficar.

Como assim? O que ele quis dizer com “deixe tudo isso no lugar em que deve ficar”?

— E onde é isso?

O silêncio foi entremeado pelo barulho do pneu contra o asfalto e do meu coração berrando todos os protestos do mundo.

— Você merece algo diferente, Nicole, algo melhor. Eu sempre soube disso.

— Então, você já decidiu por mim?

— Não, eu só não quero que você me diga nada agora, deixe as apresentações terminarem, leve a sua vida adiante e... — Ele respirou profundamente e completou: — e, então, vamos ver o que acontece.

Vamos ver o que acontece? O que eu queria que acontecesse? O que realmente eu queria? Queria que nada disso fosse verdade. Queria que ele me dissesse que era a porra de um vampiro imortal. Queria que essa bosta de morte não existisse. Era isso que eu queria que acontecesse.

Queria que o coração dele estivesse limpo desse peso, que ele fosse capaz de estar comigo sem esse fantasma. Queria tantas coisas que eu nem sabia como começar a numerar ou organizar no meu ficheiro mental. Queria também que existisse aquele troço do Dumbledore, aquele para esquecer as memórias. Queria arrancar dele toda a lembrança ruim e jogar na Penseira. Por esse tipo de genialidade que J. K. Rowling ficou tão famosa. Eu queria a porcaria de uma Penseira, a Varinha das Varinhas ou qualquer outro elemento de magia que tirasse isso tudo dele e que esvaziasse todo medo de dentro de mim. Mas eu não tinha e não disse nada. Respeitei o seu pedido e a minha covardia.

O carro parou na frente do meu prédio.

Antes de descer, eu dei um beijo rápido em seus lábios.

— Obrigada por me contar. — Olhei para ele com vontade de chorar outra vez.

Imaginei Daniel primeiro criança, perdendo a mãe e agora, há anos, sendo acompanhado pela realidade de exames, remédios, o medo, o preconceito e a culpa. E a minha vontade de chorar aumentou.

— Só quis deixar tudo claro, Nicole, sei que não é o jeito mais romântico de se iniciar qualquer coisa, mas para mim, sempre existirão barreiras que serão intransponíveis.

— Eu sei. — Não queria falar mais, mal segurava as lágrimas. Não queria mostrar que ainda estava sofrendo por ele.

— Só não me olhe assim. — Ele percebeu.

— Assim como? — tentei disfarçar.

— Com pena de mim.

— Eu... não estou com pena. — Meu coração afundou um pouco mais.

— Não mesmo?

— Acho que não.

Ele negou com a cabeça.

— Sejamos amigos, ou mesmo que nunca mais nos vejamos, só não mude a maneira que você olha para mim, eu continuo sendo a mesma pessoa que você conheceu — ele falou sem desviar o olhar firme do meu, mas a voz dele saiu fraca.

Não o contestei, porque ele tinha razão. Merda, ele tinha toda a razão, isso parecia mudar tanto as coisas que acho que senti pena dele mesmo.

Não, eu não sentiria isso. Ele, eu, ninguém merecia.

Desci do carro e entrei no hall do meu prédio. Lá dentro, me encolhi no pé da escada e chorei de fazer barulho: confusa, desnorteada e perdida.

Três horas depois, quando eu consegui parar com as lágrimas e organizar as ideias, entrei em casa. Já tinha decidido o que fazer. Mesmo com um lado meu mergulhado na insegurança, eu sabia o que faria e isso diminuiu a dor que apertava tudo dentro de mim.

Nathalia estava jogada no sofá assistindo televisão.

Parte da minha decisão era contar a ela e foi o que eu fiz. Naquele momento, eu tentei me isentar ao máximo da emoção. Queria passar segurança para a Nathy.

— Que coisa mais trágica — minha amiga disse no fim do meu relato com a voz embargada.

— Eu só me pergunto como essa possibilidade nunca passou na minha cabeça.

— Eu também não entendo como não me ocorreu.

— Acho que é mais fácil imaginar hipóteses loucas do que uma realidade tão crua.

Ela me abraçou e ficamos um tempo em silêncio. Porém, quando se afastou, minha amiga ainda estava com lágrimas nos olhos.

— Nossa, achei bem mórbido o lance dele te levar no cemitério.

— Acho que na cabeça dele está tudo acabado, acho... que ele tem certeza de que eu não vou topar.

Ela suspirou e pegou na minha mão.

— Pelo menos, ele não foi egoísta, talvez tenha sido melhor mesmo, todo esse quadro horrível que ele quis pintar.

— Como assim? — Eu não entendi de verdade.

— Ele foi sensato em te mostrar a verdade, por mais dura que ela seja. Acho que foi nobre da parte dele fazer isso, porque se fosse feito de um jeito diferente, talvez você ainda considerasse a hipótese de estar com ele.

— Oi? — Eu realmente fiquei confusa.

— Ah, Nicole, ele pode ser louco, completamente traumatizado, mas a atitude dele foi corajosa e honesta. Ele queria acabar com tudo e fez aquilo que, com certeza, assustaria qualquer pessoa inteligente.

— Nathy, eu vou ficar com ele. — Já tinha decidido.

Ela riu sem achar graça.

— Ah, Nicole, claro que você está brincando.

— Como assim? — Eu senti meu coração encolher.

— Ni, ele... você... — Ela franziu o cenho. — você não pode.

— Não posso?

— Como que alguém pode viver em um relacionamento desses, Nicole? É como não querer se molhar e sair sempre em dias de chuva, Por mais apaixonada que você esteja, é claro que você entende que isso seria um absurdo, uma loucura.

A minha boca parou meio aberta e não consegui formar meia palavra.

— Ele sempre será assombrado por esse trauma e você será junto, não existe amor que sobreviva a um clima de horror desses, amiga... Pelo amor de Deus! — ela foi mais enfática.

— Você fala como se eu estivesse assinando a minha sentença de morte.

— Ahhh... e não estaria?

— Você não pode estar falando sério.

— Você é que não pode... Nicole, cai na real, toda vez que vocês transarem, você vai ficar neurótica pensando se foi dessa vez que contraiu a doença e ele ficará neurótico também.

— Eu não acredito que estou ouvindo isso.

— O quê? A verdade?

— Você, por acaso, tem a porra de um atestado garantindo que estará viva, ou inteira, amanhã pela manhã? Porque, pelo que eu saiba, ninguém tem isso.

— Eu sei, Nicole, só que não é por isso que resolvo brincar de roleta-russa depois de fazer sexo.

Levantei do sofá em que estávamos sentadas lado a lado de maneira rude.

— Vou fingir que não ouvi nada disso.

— Se liga, Nicole, ele mesmo sabe que é improvável, impossível, por isso bancou o louco do cemitério.

Eu, que já estava de costas para ela, me virei para dizer:

— Eu amo você, Nathy, mas eu odeio o que você está falando para mim.

— Porque você sabe que eu tenho razão, põe juízo nessa sua cabeça oca e volte a raciocinar.

— Vai à merda! — eu explodi, já tinha sido um dia muito duro, sem todo esse abecedário da moral isenta de sentimentos.

— Não, não vou, vou ligar para a sua mãe, você está precisando de ajuda.

— Se você fizer isso, esquece que eu sou sua amiga, juro que nunca vou te perdoar! — Eu soltei o ar com força pela boca. — Você acha que eu sou uma criança idiota?

— Não, acho que você está abalada e fragilizada demais e acho que esse maluco conseguiu ferrar com o seu emocional, o que é muito legal da parte dele, já que a nossa estreia é daqui dois dias. Aff! — ela bufou. — Se eu encontrasse ele agora, juro que matava esse filho da mãe.

— Eu achei que podia contar com seu apoio, eu estou apaixonada por ele, Nathalia, nunca achei que isso fosse acontecer na minha vida — abri as mãos no ar, nervosa —, mas aconteceu e quero, eu preciso tentar levar isso adiante...

Ela sacudiu a cabeça.

— Ele despejar esse balde de merda na sua cabeça, dois dias antes da estreia, é inacreditável.

— Ele me fez o favor de contar tudo porque o silêncio dele e todo o resto era o que estava acabando comigo. Agora, eu entendo que tudo tem um motivo. Eu não quero desistir sem tentar, eu nunca fiz isso e não vai ser agora. Ele é muito importante para mim e... só queria contar com seu apoio, mesmo você acreditando que eu estou errada, queria que você me dissesse que quer me ver feliz.

— É isso mesmo que quero, te ver feliz e não correndo atrás de exames e psicólogos para segurar o peso da história dele... Aliás — ela arregalou os olhos —, vocês se beijaram... Será?

— Não seja ridícula, beijo na boca nunca transmitiu HIV.

— Sim, eu sei que não... Nicole, porra... eu só não quero ver você dentro de uma relação que já começa com a foice da morte na sua cabeça.

Mordi os lábios por dentro para não chorar.

— Muito obrigada, se existisse um prêmio para a maior cagada que melhores amigas podem fazer, tenha certeza de que você venceria o primeiro, o segundo e terceiro lugares.

Ela ficou me olhando com os olhos estreitos e a boca entreaberta enquanto negava com a cabeça. Esse era o código universal da Nathalia de “Você que se dane então, eu não vou falar mais nada!”. Naquele momento, dei graças a Deus por isso e entrei no quarto batendo a porta atrás de mim.

 

Horas depois, Nathy entrou no quarto. Eu não tinha parado de passar e repassar toda a minha conversa com Daniel e reafirmar várias vezes minha decisão. Era quase um mantra que começava com “qualquer doença é pequena demais” e terminava com “eu vou provar para ele que podemos tentar encontrar a nossa felicidade juntos”.

Nathalia abaixou ao lado da minha cama. Somente a luz do abajur estava acesa, mas eu consegui ver os olhos inchados dela. Nathy esteve chorando. A pergunta era: Quem não esteve? Alguém no mundo não chorou, hoje?

— Eu sinto muito — Nathy disse e segurou minha mão.

Senti o meu peito encher de ar. Pelo menos, os aliens que abduziram minha melhor amiga tiveram compaixão e devolveram ela para mim.

— Eu também.

— Desculpe a minha reação, eu... só me preocupo com você, eu não queria que fosse assim.

— Eu também não, mas é... e acho que, se quero tentar de verdade qualquer coisa com ele, tenho que tentar olhar isso como uma situação normal... ou o mais normal possível.

— Eu sei. — Ela mexeu no meu cabelo. — Eu fiz uma pesquisa enorme na internet agora há pouco... e descobri muitas coisas que eu nem imaginava sobre o HIV atualmente, mas acho que você já deve ter pesquisado também, né? — Ela pegou na minha mão.

— Sim, pesquisei bastante.

— Mas sabe o que eu acho que pode ser uma boa — ela disse pegando o celular do bolso —, vou ligar para o Paul, ele está se formando em medicina... na verdade, está se especializando em infectologia... Ele deve conhecer bem mais do assunto do que eu, você e a internet.

Neguei com a cabeça.

— Oi, gato. Tudo bem?

Continuei agitando a cabeça numa negação ignorada pela Nathalia.

— Meu amor, tem uma amiga que está enfrentando a maior barra.

— Nathalia, não — pedi em voz baixa.

Não queria conversar com o Paul sobre isso, não naquele momento.

Ela colocou o telefone no viva-voz.

— Então, é uma amiga que você não conhece.

Suspirei aliviada e a Nathy prosseguiu:

— Ela se apaixonou por um cara que vive com HIV e está arrasada... Eu queria ouvir do melhor médico da Inglaterra o que ele tem a dizer sobre isso... e ah, a Ni está ouvindo a gente.

— Oi, Nicole — Paul cumprimentou e comecei a roer as unhas. Entendi que estava com medo daquela conversa. Apesar de ter lido coisas que me deixaram mais segura, era diferente ouvir de um médico.

— Oi, Paul — retribuí o cumprimento.

— Bom, o que vocês querem saber? — ele perguntou.

— Tudo — minha amiga disse e se sentou ao meu lado, segurando minha mão com força.

— Vou falar o que acho que sua amiga precisa saber, ok?

— Ok — eu respondi sem nem dar conta.

— Para começar... ele se trata?

— Sim, ele disse... quer dizer, ela disse que ele mantém a taxa do vírus indetectável e que faz exames sempre e nunca manifestou a doença.

— Ótimo, então fale para a sua amiga que se ele continuar com o acompanhamento médico certo e eles transarem sempre com camisinha, ela estará bastante segura.

Nathy respirou fundo e fechou os olhos, mas eu ainda não respirava direito.

— Veja — disse Paul —, a camisinha é um método com segurança superior a 95%, o fato de ele se tratar e se manter indetectável, diminuiu consideravelmente o risco de contágio em caso de acidentes... e mesmo assim, hoje ainda pode se contar com o tratamento profilático, pós ou pré-exposição para a parceira negativa.

— E isso quer dizer? — Nathy perguntou olhando para mim.

— Que a combinação de métodos preventivos torna o sexo com o namorado dela seguro.

Nathy bateu palmas em silêncio, comemorando.

— Mas eles terão que fazer exames regularmente, ele para saber se a taxa do vírus está sob controle e ela para saber se está tudo bem... e sexo com preservativo, sempre — Paul disse com ênfase.

— E sobre a expectativa de vida dele? — perguntei sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.

— Se ele continuar se tratando e manter hábitos saudáveis, provavelmente não morrerá de AIDS... A expectativa de vida de um paciente assim pode ser igual a de qualquer pessoa... Hoje temos que driblar os efeitos colaterais do tratamento a longo prazo, mas isso também varia de caso para caso e as drogas novas estão com efeitos colaterais bem menores... Tem pacientes que não sofrem nada e outros que sentem mais.

— Graças a Deus! — eu disse cobrindo os olhos com os dedos.

— E filhos? — Nathy perguntou, arqueando as sobrancelhas.

Eu sorri e balancei a cabeça.

— Sim, hoje é possível — Paul disse e achei graça da cara de felicidade da minha amiga, ela era uma figura.

— É através da reprodução assistida, tem vários casos de sucesso no mundo... Esse é o método mais aconselhável... Eu mesmo conheço um casal sorodiscordante que estão juntos há mais de quinze anos e têm três filhos saudáveis.

Nathy já me abraçava e chorava de fazer barulho junto comigo.

— Oi, meninas. Está tudo bem? — Paul indagou parecendo surpreso.

— Sim.. é que — ela começou afobada. — eu amo tanto essa minha amiga e quero muito que ela seja feliz, que eles sejam e...

— Ei, mas fala para eles se cuidarem, hein? O sucesso tanto do tratamento como da prevenção depende da responsabilidade deles em fazerem tudo que é indicado, nós não queremos nem que ele fique doente, nem que ela se contagie.

— Não, pode deixar... nós, eles vão fazer tudo direitinho — disse ainda abraçada a Nathy.

— Então, ok. Fala para sua amiga ficar mais tranquila e qualquer coisa, ela pode me ligar.

— Obrigada, Paul — eu disse.

— Um beijo para vocês duas.

— Um beijo, meu amor. — Nathy desligou, envolveu minhas mãos com as dela e perguntou com uma expressão indecifrável:— Sabe o que tudo isso quer dizer?

Neguei com a cabeça.

— Que se o Daniel continuar se cuidando como você diz que se cuida, provavelmente você terá que aturar aquele chato pelo resto da vida.

Eu não aguentei e sorri. Senti os meus olhos encherem de lágrimas outra vez.

— Eu nem namoro com ele ainda e você vem me falar de filhos e resto da vida...

— Eu sempre quis te ver apaixonada... para poder rir da sua cara.

Achei graça e a abracei outra vez

— Obrigada minha amiga, obrigada mesmo.

— Você sabe que eu sempre vou estar ao seu lado, não sabe?

— Sei e eu te amo muito

Essa era a amiga que amava e precisava tanto.