Senhorita Aurora
Capítulo 2
“I don’t know you
But I want you
All the more for that
Words fall through me
And always fool me
And I can’t react”
Falling slowly – The Swell Season
O voo já acontecia há quinze minutos, por aí. Não contei o tempo, na verdade, a música no meu fone era muito boa para contar qualquer coisa. Tinha ido assistir em Nova Iorque um musical novo, Always, e simplesmente me apaixonei pelas músicas. Tentava me controlar para não cantar em voz alta Falling slowly, quando senti um toque no meu ombro direito.
Era o maestro-motoqueiro.
Tirei só um fone e levantei as sobrancelhas naquela expressão que pergunta em silêncio: Oi?
— Por favor, será que a senhorita se importaria de parar de fazer bolinhas com seu chiclete, que estou tentando me concentrar aqui?
Então ele olhou para um monte de papéis nas próprias mãos e me encarou de novo. Era uma partitura, cheia de uns rabiscos tenebrosos. Nos cantos tinham várias anotações e todos aqueles símbolos, parecia um hieróglifo impossível de traduzir. Virei para o cara e ele já não me olhava mais.
Minha mãe sempre disse que fazer bolas com chiclete era falta de educação, mas pedir para outra pessoa parar de fazer bolas também não me pareceu muito educado. Então, coloquei de volta o fone e esqueci do assunto. A música era muito mais legal do que a necessidade de concentração do cara ao lado.
Um tempo depois senti outra batida no ombro.
Meu Deus, que neurótico! O que seria agora?
Tirei o fone e ele respirou fundo.
— Senhorita, por favor, você poderia ter a educação de mascar de boca fechada? Ou de cuspir esse chiclete? — E terminou com uma careta como se sentisse nojo.
Eu achava que nem estava mascando de boca aberta, achava... Então, me senti muito mais irritada do que envergonhada.
— Me importo, sim, em parar de mascar, porque a pressão do avião entope meus ouvidos. — Bati de leve em cima deles para enfatizar o que dizia e concluí com ironia: — Mas já que você insiste.
Sem pensar em nada, a não ser em dar uma lição no maestro-motoqueiro-grosso, enfiei dois dedos na boca e pincei o chiclete. Estiquei o braço e colei a goma grudenta no monitor ao lado, em cima da TV dele, mais precisamente. Olhei para o cara que encarava o chiclete como se ele fosse uma lesma se contorcendo e enfiei os fones outra vez. Não voltei a encará-lo, mas tive certeza de que se os olhos dele tivessem braços eu estaria apanhando. Aumentei o volume ao máximo. Foi aí que o impensável aconteceu: o cara, o maestro-eu-sou-louco-e-famoso, resolveu brincar de doze anos comigo. Senti a mão dele agarrar a barra do meu moletom folgado e puxar para o lado e para cima com tudo. Resultado: meu corpo meio que foi junto e num movimento rápido de confundir, aquele animal pegou o chiclete com o meu moletom e só então me soltou.
Então, eu explodi. Quando era criança, minha mãe me chamava de pimenta de sapatilhas, ela dizia que quando eu estourava, quem estivesse perto sentia na hora.
— Você é um grosso, seu brutamontes! — gritei emputecida.
— E você, senhorita, não tem educação.
Ri, debochando.
— Aposto que dentro deste avião todos concordariam que é ao contrário... não é verdade? — Apontei para o cara do corredor, aquele que levantou para ele passar e que nos encarava com cara de sei lá o que, e perguntei: — O senhor não o achou um grosso?
— Eu? — O homem quase encolheu na cadeira, o motoqueiro ao meu lado respirava de maneira pesada.
— Eu não disse nada — ele continuou na defensiva.
— Certo, pergunte então para a aeromoça que veio socorrer a porta do bagageiro... ou quer saber?! Que se dane você e a sua grosseria.
Peguei minha bolsa com movimentos atropelados e comecei a tirar todos os objetos de dentro. No nervoso e na emoção da pressa, nem percebi o que saía de lá. Só parei quando minha mão alcançou o que procurava: lenços umedecidos. Então, dediquei a minha atenção a desgrudar a bola de chiclete amassada do meu moletom e... merda! Não foi fácil.
Isso porque quando a goma seca, ela gruda e aí acabou. Desiste. Aquilo vira um tipo de fóssil que só gelo pode extrair. Eu esfreguei várias vezes e a prova da anormalidade daquele imbecil continuava ali, estampando o meu moletom. Fechei os olhos resignada, amassei o lencinho com o que saiu dos restos mortais do chiclete e joguei tudo no saquinho de vômito à frente.
A nécessaire voltou para a bolsa, o pacote de lencinhos também, creme hidratante, óculos escuros, pacote de absorvente, escova de cabelo e fechei a bolsa.
— Aham, senhorita.
— Ah, meu Deus, o que é agora? — Me sentia tão brava, que saiu mais como um resmungo do que como uma pergunta.
— Oi? — grunhi e olhei para ele tentando deixar claro que eu não queria mais conversa.
E não queria mesmo. Até que eu vi. Uma coisa facilmente identificável, com uma frase legível para ele, já que era escrita em inglês. Para minha tristeza, eu também entendia e falava muito bem o inglês. E ali estava a besteira das minhas amigas na mão daquele troglodita.
Dias antes de eu ir embora, as meninas da minha turma no balé me deram presentes criativos, a capa do celular da Bela foi um deles e o outro balançava pendurado no indicador do louco ao meu lado exibindo uma frase na parte da frente: “Você vai me ligar, né?”.
— Por que você pegou isso? — Saiu antes que eu pudesse pensar. Agarrei a calcinha e enfiei dentro da bolsa em um tempo tão assustador que o dedo do cara continuou esticado.
— A sua calcinha pulou no meu colo — ele respondeu com uma expressão absurda de tão prepotente.
— Não é minha, quer dizer, é, mas não por escolha minha, eu nunca compraria uma calcinha ridícula dessas. — Ai, meu Deus, eu estava conversando sobre calcinhas com esse... esse... e meu rosto ferveu. Merda! Devia estar vermelha que nem uma pimenta. Pimenta de sapatilhas, era por isso também.
— Ok — ele disse me olhando bem sério, como se isso não fizesse a menor diferença na sua existência intocável; em seguida, virou, pegou aquela bosta de partitura e começou a ler.
Continuei olhando para ele, é claro, ao menos por um tempo. Afinal, não é todo dia que um homem que você nunca viu divide experiências que, às vezes, um... namorado leva muito tempo sem fazer, como... pegar em um chiclete que você mascou e logo em seguida na sua calcinha. Na mais ridícula de todas elas.
— Aceita o café da manhã?
O meu entorpecimento foi se desfazendo conforme as luzes se acendiam, janelas abriam e aeromoças perguntavam, até mesmo para os mortos, se eles queriam tomar os seus cafés.
Respirei fundo, estiquei as pernas, abri os olhos e...
Merda! Meu coração foi parar na cabine do piloto em um segundo.
Mas que porcaria!
Fechei os olhos. Me mexi disfarçando. Abri-os outra vez só para comprovar, horrorizada, se o motoqueiro também dormia.
Ele abriu os olhos, se esticou e tirou o braço que estava em volta dos meus ombros. Virei o corpo em um movimento pouco calculado, de olhos fechados, para fugir da situação mais absurda da minha vida.
Nós dormimos abraçados que nem um casal de pombinhos.
Por quanto tempo?
Será que ele ainda estava acordado quando isso aconteceu?
Não, impossível, ele teria chutado minha bunda até eu pedir perdão por ter tocado nele. Sempre soube que me mexia muito enquanto dormia, mas daí a acordar montada em cima do... do...
— Senhorita, aceita o café?
Sacudi a cabeça em uma afirmativa e abri a mesinha da frente, rezando para que o cara não...
Ouvi o barulho da mesinha ao lado abrindo.
— Senhor, aceita?
— Sim, hum-hum... — o motoqueiro pigarreou. — Aceito, por favor.
Suspirei e peguei a minha bandeja.
Talvez ele nem tivesse sentido ou notado o que aconteceu. É capaz que nem mesmo tenha...
— Senhorita? — O cara tocou no meu ombro, ele encarava a aeromoça.
— O que vai beber? — ela perguntou.
— Ah, desculpa, um... um... suco de laranja.
— Eu também — o troglodita-travesseiro respondeu.
Tomei o café rezando para que nada mais acontecesse entre mim e o motoqueiro até o avião pousar, porque no ritmo que as coisas andavam, se eu tentasse sair para ir ao banheiro, cairia sentada em cima dele, ou sabe Deus o que mais poderia ir parar em cima daquele cara.