Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 44 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 41

“Lights will guide you home

And ignite your bones

And I will try to fix you”

Fix you – Coldplay

 

Daniel não era mais meu diretor. Estávamos oficialmente namorando. Há um mês, assumimos para o mundo. Pouco mais de uma semana após o término das apresentações. Muito cedo? Sim, com certeza. Mas estávamos muito apaixonados para fingir que não.

Dormíamos todos os fins de semana juntos e durante alguns dias da semana também.

Daniel era... incansável.

Sabem toda aquela fúria que ele colocava no boxe? Tripliquem isso pela potência de um milhão e vocês encontrarão a energia sexual que ele tinha para gastar. Comigo. Ele gastava ela inteira comigo.

Eu não podia reclamar.

Na verdade, nesses quase dois meses desde a nossa primeira noite lá em Bath, eu vinha descobrindo muitas coisas novas.

Entendi, por exemplo, porque que os casais apaixonados pareciam coelhos.

Entendi porque as pessoas engravidavam em idades consideradas inadequadas.

Entendi porque que os homens apaixonados pareciam pensar mais com a cabeça de baixo.

Isso eu entendi na primeira apresentação do balé depois de Bath.

Eu estava no meu camarim me trocando para o próximo ato.

O senhor Hunter entrou de fraque, parecendo um maestro civilizado, e trancou a porta.

— O que você está fazendo?

Ele não respondeu, ao invés disso me encurralou entre a mesa cheia de maquiagens e o corpo enorme dele. Não era um maestro civilizado.

Até tentei trazê-lo a razão naquele dia.

— Daniel, daqui quinze minutos começa o segundo ato.

— Eu sei... Eles precisam de um maestro e de uma solista para isso. — Então, os braços dele envolveram minhas costas e ele me colocou em cima da mesa espalhando as maquiagens com uma das mãos, que caíram no chão.

— Você está lou... — Os lábios dele capturaram os meus, ele exigiu que eu abraçasse o seu quadril com as pernas enquanto sua língua invadiu a minha boca. Pela intensidade do beijo, Daniel queria apenas me possuir com o beijo, mas entrar embaixo da minha pele. Aquele dia ele não removeu nem a casaca e me deixou sem ter a chance de voltar a ser a mesma pessoa que fui até conhecê-lo.

Acho que ele estava tirando o atraso.

E nós estávamos muito felizes.

Talvez, até mesmo irritantemente felizes.

Sabe aqueles casais apaixonados, piegas e irritantes? Sim, éramos nós.

Primeiros da fila.

Fazíamos tudo de mãos dadas, trocando beijinhos pelas ruas, cochichávamos no ouvido um do outro só para fazer cócegas, tínhamos uma lista de, pelo menos, dez músicas nossas. Íamos a cinemas, teatros, restaurantes e nos beijávamos muito em todos eles. Às vezes, a ponto das pessoas ao lado ficarem um pouco... constrangidas.

Eu acompanhava ele em todas as apresentações e ele sempre me pegava depois dos treinos.

Para nos sentirmos mais seguros, ele fez questão de me levar ao infectologista que o acompanhava, decidiu que faria exames mensalmente para controlar a taxa do vírus, ao invés de a cada trimestre.

Porém, mesmo com tudo isso, Daniel tinha dias cinzentos.

Principalmente quando fazíamos amor com a intensidade cabível a uma bailarina e um maestro-boxeador-motoqueiro, como aconteceu naquela madrugada.

Ele me acordou com beijos pelo corpo, quando venci o torpor do sono, a claridade da luz do abajur no quarto me fez perceber a intensidade do seu olhar e meu coração disparou.

— Você confia em mim? — ele perguntou enquanto os lábios brincavam no meu pescoço.

— Sim, hum... — Minha voz falhou, mas espreguicei e disse mais firme: — Sim, confio. — Senti o corpo dele escorregar em direção à lateral da cama e notei ele agarrar duas faixas de tecido brancas.

— O quê? — eu comecei quando ele envolveu uma das faixas em meu pulso direito.

— Eu vou te amarrar — ele confirmou enquanto trabalhava em uma espécie de nó, prendendo o meu pulso à cabeceira da cama.

— São suas gravatas?

Daniel me olhou em silêncio, o peito nu descia e subia em uma velocidade rápida, os olhos escurecidos. O que me fez gelar, não foi o rosto tomado de desejo, pois já tinha me acostumado com isso. Acontece que a expressão dele era uma mistura do desejo conhecido, com uma sede por algo desconhecido que sombreava o seu rosto, quando ele lutava no “lá embaixo”. Eu confiava nele, era ridículo sentir medo, mas... engoli em seco, arrisquei uma risada trêmula e disse enquanto o meu outro pulso era amarrado:

— Eu estou um pouco assustada, devo ficar? — Ele terminou o nó que imobilizou o meu braço em silêncio. Então, me olhou, sacudiu a cabeça negando e me beij... e me deixou sem fôlego com o beijo. Eu lutava pelo ar e o que conseguia era mais dele em mim.

— Não vou fazer nada que você não queira, ok? — A voz de barítono murmurou em meu ouvido.

Eu consenti.

Ele levantou.

Daniel usava só uma calça de malha preta. A visão daquele homem lindo, de cabelos desarrumados e olhos sombrios me fizeram rir pelo volume de tudo o que sentia.

— Dani... Daniel... — Ele mexia no iPad e não me olhou, ouvi uma música preencher o quarto: Old Ways, de Loreena Mckennitt. Nem sabia que ele gostava desse tipo de música.

— World Music — eu arrisquei, ele continuou em silêncio.

Cada vez mais ansiosa, enquanto o via mexer em uma gaveta da cômoda, eu continuei falando:

— Não sabia que você tinha um lado assim, mais... dominador.

Ele não parou o que fazia para responder e o silêncio aumentava as sensações dentro de mim, então prossegui:

— Meu Deus, você está acendendo velas? De verdade? — Sim, é claro que era de verdade. — Eu sempre soube do seu lado mandão, mas amarras de seda e...

Ele virou o corpo em minha direção com um tipo de pote de vidro nas mãos e uma vela dentro. Me olhou daquela mesma maneira insana e toda eficiência do meu sistema nervoso evaporou.

— Vela? Para quê? Você não está pensando em co...

— É uma vela para massagem, ela não queima.

— Você comprou isso? Quando? Você planejou isso? — Na verdade, o que estava acontecendo: eu estava absolutamente tomada por uma excitação sem limites e ela se convertia em perguntas disparadas como uma metralhadora. — Você planeja isso faz tempo? Desde quando?

— Shhhh...

Notei o líquido morno escorrer nas minhas panturrilhas.

— Eu não quero amordaçar você, querida, então fica quietinha — Daniel disse enquanto os dedos dele iniciaram uma espécie de massagem nos meus pés.

— Euu... Hummmm... — Não consegui dizer mais nada.

— Vou tocar você como eu toco o meu piano. — Então, os dedos subiram em movimentos rítmicos e acelerados por toda a minha perna, dentro das coxas e entre as pernas.

— Não, definitivamente muito melhor do que o piano — dizendo isso, ele me beijou com força e de uma maneira tão profunda que todas as palavras do mundo sumiram e renasceram nas voltas da língua dele junto à minha, nas ondas do corpo dele junto ao meu. Daniel prosseguiu me beijando enquanto deslizava os dedos em movimentos alternados em meu sexo excitado. Cada toque dele arrancava um gemido do meu peito. Ele parecia gostar dos sons que estava provocando, porque aprofundava o beijo e grunhia de satisfação junto comigo.

Quando atingi o clímax pela segunda vez, ele afastou os dedos do meio das minhas pernas.

— Eu preciso descansar, me dá um tem...

Só que o maestro estava surdo aquela noite, porque ele voltou a me tocar. A princípio de maneira suave, acalmando a vibração do meu corpo que era varrido pelos choques do prazer alcançado.

— Shhh... calma — ele pediu conforme movia os dedos dentro de mim.

— Eu... eu não aguento — disse com as pernas tremendo.

— Só mais uma vez, eu quero que você chegue junto comigo, agora.

Daniel se colocou entre as minhas pernas. Ouvi o barulho do plástico da camisinha sendo rasgado uma vez e, em seguida, mais uma.

— Duas camisinhas? — perguntei sem fôlego e sem entender.

— Vou amar você com muita força, não podemos arriscar. — E ele me beijou com posse e paixão e, então, deslizou para dentro de mim de uma vez. Eu estava entorpecida, completamente entregue e fiquei assim até Daniel começar a murmurar palavras perdidas no meu ouvido:

— Perfeita... demais... louco... preciso.

Meu corpo obedecia somente ao Daniel, ele tirava de mim tudo o que desejava como um músico experiente enquanto cumpria a promessa de me amar com muita força.

Após o terceiro clímax mais estrondoso do universo, Daniel, que agiu o tempo todo em uma mistura de sutileza e brutalidade, desabou o corpo em cima do meu. Pouco depois, senti os lábios dele nos meus braços e nos meus pulsos conforme os nós que os prendiam foram desfeitos.

— Obrigado — ele disse e somente então notei que ele estava com o rosto coberto de lágrimas.

— Você... chorou? — Eu enxuguei as suas bochechas com as pontas dos dedos.

— Você me deu a melhor experiência, a mais foda e forte de todas. — Ele me abraçou aconchegando a minha cabeça no peito.

Ficamos um tempo olhando para o teto em silêncio enquanto nossas respirações voltavam ao normal.

Apesar de me sentir exausta e completamente relaxada, imaginava o que estava acontecendo: ele devia estar se culpando. Era assim, quanto mais intenso, ou quanto mais prazer ele tinha, mais difícil parecia ser para ele lidar com isso depois. Passados dez minutos de um silêncio estranho, ele levantou e beijou minha testa.

— Durma, meu anjo. Eu já venho.

— Ok. — Às vezes, ele precisava desse espaço só dele para voltar a ser o meu Daniel.

Esperei por uma hora e meia na cama. Quando ele tinha esse tipo de reação, mesmo tentando entender, sentia como se o palco estivesse ruindo embaixo dos meus pés e acabava lutando contra as lágrimas.

Sem conseguir dormir desci resolvida a trazer à tona, a falar a verdade. Estava cansada de criar mil teorias sobre o que se passava na cabeça e no coração dele nessas horas.

Encontrei-o tocando a Moonlight, sonata do Beethoven. Acho que era essa música. Era incrível como os músculos dos braços dele trabalhavam enquanto ele tocava de olhos fechados, possuindo a música. Meu estômago gelou sobre o efeito que Daniel sempre provocava em mim, mesmo diante de uma situação chata e desconfortável como essa.

Antes dele perceber minha presença, eu falei:

— Você disse que voltava logo.

Ele tocou mais algumas notas e parou devagar.

— Desculpe, perdi a noção do tempo.

Engoli a vontade de chorar.

— Você me deu os orgasmos mais fortes que já vivi e saiu quinze minutos depois da cama, me deixando sozinha, como se... como se fosse difícil ficar ao meu lado.

— Não. — Ele levantou do banco do piano e ergueu a mão com a intensão de me tocar.

Eu dei dois passos para trás me afastando.

— Fico pensando se fiz algo de errado, ou se você vai se ausentar sempre depois de dividirmos momentos tão intensos.

Ouvi ele respirar fundo.

— Eu fiz alguma coisa de errado? — perguntei.

— Não, meu anjo, não. — Ele voltou a sentar e escorregou as mãos pelo rosto até o cabelo em um único movimento.

— Então é por causa dela, não é? — indaguei sentindo as vísceras contraírem.

Ele me encarou com a boca aberta sem responder.

— Me diz, merda! O que acontece?

— Eu estou tentando, Nicole — ele confirmou com a voz fraca e minhas pernas amoleceram. Então era verdade.

— Você ainda a ama? Vo... Você pensa na Mirela enquanto fazemos amor?

Daniel se levantou em um pulo e a tampa do piano bateu.

— Como você pode dizer uma coisa dessas?

— Até quando o fantasma dela vai estar na nossa cama?

Ele me olhou com a cor do seu rosto fugindo em segundos.

— Ela nunca esteve na nossa cama.

— Então... o que, porcaria, acontece? Por que você se afasta desse jeito?

— Eu tenho medo, Nicole, de perd... Eu tenho muito medo de você se... de você pegar e... de perder você — ele confirmou com a voz embargada.

Então era isso. Medo. Não era culpa, nem falta... Não era comigo o problema.

Eu dei alguns passos até estar na frente dele. Toquei o rosto lindo que amava, as pontas dos meus dedos escorregaram na barba por fazer, ele fechou os olhos.

— Você está sendo incoerente — comecei. — eu me sinto segura, Daniel... Lembra o que o médico falou, mais de uma vez?

— Sim — ele disse olhando para baixo.

Sabia que ele não acreditava, por isso resolvi repetir o que ouvimos do infectologista:

— Você toma os remédios, se cuida, controla a taxa do vírus e nós sempre usamos camisinha Ainda assim, se algum acidente acontecer, tem o tratamento profilático, eu me sinto segura... Só que você não acredita nisso.

Ele negou com a cabeça.

— Eu tenho medo... Olha o que aconteceu com a vida da minha ex-namorada... Eu...

— Nos perdemos um pouco toda vez em que você acredita que pode me perder e se culpa por isso e se afasta de mim, ou se fecha em seus medos. — Vi o peito dele subir e descer com o movimento longo da respiração. O braço do Daniel envolveu minha cintura e me trouxe dentro de um abraço longo.

— Fala comigo, acredita junto comigo que tudo está bem... tudo ficará bem — insisti ainda dentro do abraço, sentindo a respiração dele marcar minha fronte. — E deixa eu entrar nos seus medos, não me tira deles, vamos enfrentá-los juntos.

Senti o polegar dele no queixo puxar o meu rosto para cima. Quando o olhei, vi rastros de lágrimas desenhando linhas nas suas bochechas. Sabia o que precisava, sabia o que ele precisava ouvir para tentar vencer os fantasmas do passado, pelo menos alguns deles, por isso continuei com firmeza:

— Daniel, você não tem culpa porque sua ex-namorada não se tratou... você não entende?! Ela se matou, Daniel... não foi o vírus que fez isso.

— Eu sei. — O rosto dele voltou a ficar branco.

Eu segurei a sua mão.

— Faz muito tempo, você precisa se perdoar e entender que, provavelmente, se ela tivesse se tratado como você faz, ela estaria bem e, talvez, tivesse uma vida longa e feliz...

— Eu sei — ele disse com a expressão triste, os olhos vermelhos e o cenho franzido.

Ficamos nos encarando por um tempo longo em silêncio, com nossas respirações fora de ritmo.

— Eu sei que é uma merda tudo isso que aconteceu, mas você precisa se perdoar... Faça isso por você... faça isso por nós.

Daniel confirmou com a cabeça e os lábios cobriram os meus. Não foi um beijo quente ou sedutor, havia ali entrega, força, um pedido de desculpas e a sensação de que poderíamos tentar vencer os nossos monstros juntos e assim, talvez, construirmos passo a passo a nossa felicidade.