Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 48 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 45

“When your day is long and the night

 

The night is yours alone

if you’re sure you’ve had enough of this life

Well hang on

Don’t let yourself go, ‘cause everybody cries

and everybody hurts, sometimes”

Everybody hurts – REM

 

— A boa notícia é que depois de concluído o período de reabilitação, você poderá ter uma vida praticamente normal, fazer atividades físicas, no início, com acompanhamento, uma vez que sua musculatura estiver restabelecida, poderá até mesmo voltar a dançar...

Eu demorei cerca de um mês para entender a verdade por trás daquelas palavras.

A verdade me foi oferecida em doses homeopáticas. Todos eles, inclusive o Daniel e a Nathalia e a minha mãe, que chegou em Londres dois dias depois ao meu acidente, não tiveram a coragem de escancarar a dura, crua e insuportável realidade: Eu nunca poderia voltar a dançar profissionalmente.

Minha vida virou um drama mexicano de mau gosto.

Eu protagonizava ele.

Sofri fraturas múltiplas nos ossos do pé direito.

Eu passei por duas cirurgias. O maior problema foram as falanges... Malditas falanges.

Os médicos diziam que eu tinha sorte, porque respondia bem aos tratamentos.

Foram dois meses, entre gesso, cirurgias e fisioterapia.

Mais de sessenta dias em clínicas, hospitais e psicólogos.

O bonito disso é que tudo foi pago pelo balé.

Mais bonito ainda: eu continuaria a receber o meu salário integralmente por muitos e muitos anos.

Não tinha nada de bonito nisso.

Eu morria um pouco a cada momento que entendia o que a porra de uma caixa, caída de uma empilhadeira em cima do meu pé, faria em toda a minha vida.

Alguns segundos mudam o rumo de tudo.

Brincando de ser madrasta, a vida pode ser muito, muito, muito filha da puta.

Eu briguei com todos que tentavam me ajudar, queria brigar com a vida.

O Daniel disse que não desistiria de mim.

Durante dois meses, ele vinha me ver quase todos os dias, eu só discutia com ele.

Isso também não curava nada. Voltou à minha mente, a última vez que brigamos ou que briguei com ele: foi há dois dias.

Ele chegou com flores, eu tinha raiva de tudo que podia me lembrar que existia vida, eu tinha raiva de todo o gesto de amor e bondade, eles só me lembravam o que eu perdi.

— Vamos sair — ele disse —, vamos entregar essas flores para as pessoas na rua. — Há dois dias, ele me olhou com a mesma esperança renovada que trazia toda vez que me visitava.

— Você só pode estar me sacaneando — eu respondi com a secura que costumava empregar não só com ele, mas com todos a minha volta.

— Foi você quem disse que isso... te fazia ficar feliz — ele respondeu com os olhos enormes, as pessoas não se acostumavam com a minha grosseria gratuita.

— Você pode mudar o passado?

Ele negou com a cabeça.

— Você pode consertar o meu pé e me fazer voltar a dançar profissionalmente?

— Eu daria o que fosse preciso se existisse algum meio...

— É muito irônico como todos querem e dizem compreender o que eu estou passando, só que ninguém, ninguém mesmo, nem imagina.

— Eu sei o que é lutar contra algo que está fora do seu controle.

Aí eu gargalhei com ironia e desprezo.

— Você, o quê? Me poupe, senhor Hunter, você diz lutar contra a porra de um vírus que nunca nem mesmo afetou a sua saúde.

Então, ele ficou pálido e eu prossegui porque estava conseguindo agredi-lo, expulsá-lo, machucá-lo. Só me satisfazia quando notava que minhas palavras causavam estragos. Eu me sentia estragada e queria demolir tudo o que não fosse destrutivo da minha realidade.

— Durante algum tempo, eu lutei contra os efeitos colaterais dos tratamentos — Daniel estreitou o olhar —, eu sobrevivo dia a dia ao medo de ficar doente, eu finjo que não enxergo o medo nos outros e o preconceito quando sabem o que tenho. Não vou deixar você... você fingir que é a única de quem a vida resolveu tirar alguma coisa, testar a sua capacidade de continuar.

— Dá o fora daqui!— eu gritei.

— Eu vou fingir que não ouvi isso.

— Como sempre, não é? Por que você não desaparece e me deixa em paz?

— Você não desistiu de mim. Você, Nicole, não me deixou desistir de nós, é a minha vez de fazer isso.

— Nós? Que nós? — eu disse agitando os braços no ar. — Você ainda não percebeu que não estamos mais juntos desde que aquela caixa acabou com a minha vida?

— Você é quem está acabando com a sua vida.

Gargalhei de novo, inundada de dor.

— Ai, Daniel, você é ridículo, não sobrou nada na minha vida, a porra de uma caixa me tirou tudo.

— Não tudo, ela tirou apenas o balé profissional.

— Cale a boca! — eu gritei e avancei para cima dele, comecei a socá-lo no peito. — Cale a merda da boca, faz o seguinte... — Pulei dois passos para trás, me distanciando e cuspi com raiva. — para de tocar, arranca a música da sua vida e me diz se sobraria alguma maldita coisa.

Ele ficou quieto por um tempo, respirando pesadamente.

— Sobraria o que mais importa, sobraria você — falou com a voz embargada.

Ouvir aquilo fez com que eu me sentisse ainda pior, ver como as outras pessoas continuavam a me amar fazia com que eu me sentisse uma merda ainda maior.

— Arrancaram todos os meus sonhos — eu disse de maneira falha.

Há dois meses, eu não conseguia nem mesmo chorar.

— Crie outros sonhos.

Não existiam outros sonhos para mim. Nesse período, eu dormia ouvindo os sons dos aplausos que nunca mais teria e acordava suando frio com o som de caixas de metal que destruíram tudo o que um dia desejei.

— Eu vou embora, estou deixando a Inglaterra, daqui a três dias — confessei de maneira impassível.

Ele levantou os olhos arregalados, cheios de lágrimas.

— Quando... quando você ia me dizer isso?

— Eu não ia dizer. — Era a facada final, eu sabia que era, mesmo assim continuei, enfiei a lâmina e senti o sangue escorrer. Mas era o meu sangue e não o dele, era eu quem sangrava. Porque ali, em algum lugar escondido pela falta de esperança, sabia que ainda o amava, e machucá-lo doía mais em mim do que nele. Entretanto, virei uma psicopata especialista em me autoflagelar.

— Você ia embora sem me... me dizer? — A voz dele, sempre tão forte, sumiu.

— Ia — encolhi os ombros —, estou dizendo agora, acabou, não sobrou nada dentro mim que valha a pena o seu esforço em tentar consertar.

Daniel fechou os olhos e eu vi rastros de lágrimas no rosto dele, rastros que me queimavam, ele abriu os olhos e me deixou entrar, me deixou ver como eu o tinha machucado.

— Antes de você, eu esqueci que tinha um coração, então você me lembrou dele... Mas sabe o quê? — Ele me encarou por um tempo em silêncio antes de responder: — Eu o dei a você e adivinhe?! É impossível viver sem um. Então, só para constar, não vou desistir de nós... Eu não vou desistir de você.

— Divirta-se tentando! — gritei enquanto ele cruzava a porta do quarto em direção à saída.

Nathalia já tinha desistido de tentar. Ela não falava mais comigo há duas semanas, apenas me olhava com lágrimas nos olhos e sacudia a cabeça em silêncio.

Naquela tarde isso mudou, ela entrou em casa encostando o ombro no batente da porta do quarto.

— Só quero que saiba que eu vou te amar, e vou sempre estar aqui para você.

Eu fiquei em silêncio esperando ela acabar, ir embora e me deixar a sós. Não queria me sentir melhor, e todos a minha volta lutavam por isso, sentia que todos lutavam contra mim.

— Quando eu tinha oito anos e minha mãe deixou a casa, me abandonando... durante anos, eu não entendia o porquê de tudo aquilo e porque a vida podia parecer tão injusta com algumas pessoas e tão boa com outras...

Virei o rosto para não ter que olhá-la, era mais fácil assim. Estava cansada de gritar com os outros para que me deixassem, para que parassem de tentar fazer qualquer coisa, eu só queria ficar sozinha.

Ela continuou:

— Eu pedia diariamente por uma irmã, alguém que pudesse dividir as dores e alegrias da vida comigo, alguém que me entendesse e me amasse do jeito que eu sou. — Ouvi-a suspirar. — A vida me deu você, Nicole, e por mais raiva que você sinta de todos e tudo agora, isso nunca vai mudar... eu estarei sempre aqui para você, da maneira que for.

Olhei para ela, que me encarava em silêncio, e só então notei que ela usava a roupa do treino. Senti raiva.

— Me deixa em paz, Nathalia.

Ouvi a porta do quarto fechar. A verdade é que sentia muita raiva de todos que ainda levavam as suas vidas. Da Nathalia por continuar dançando e chegando em casa após os treinos. Do Daniel por continuar tocando e viajando para concertos sendo aplaudido mundo afora. Da minha mãe por continuar tentando me ajudar e por dizer que compreendia. Ninguém compreendia. Nem eu, porque além de raiva, eu sentia inveja de todos que de alguma maneira ainda eram felizes e produziam algo de bonito e verdadeiro, como eu costumava fazer. E depois eu ficava ainda pior, mais arrasada e destroçada por sentir tudo isso das pessoas que eu amava.