Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 22 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 19

“I don’t mean to run

 

But every time you come around

I feel more alive than ever”

Adore – Paramore

 

Três horas se passaram desde que eu subi para o quarto.

Já tinha olhado pela janela durante um bom tempo, lido parte do livro, liguei para a Nathalia e avisei que estava viva, escrevi para a minha mãe e para o meu pai, o que foi um milagre, porque eu quase nunca tinha paciência de escrever para ele. Isso era o que o resto de tempo fazia.

Agora, eu olhava pela janela outra vez. A neve tinha quase parado de cair. Floquinho, floquinho, floco...

Tinha visto há um tempo um coelhinho preto correndo pela neve, achei aquilo tão...

Oh, que coisa mais bonitinha.

Agora eu procurava as pegadas do coelho na neve. Onde será que era a toca dele? Será que tinham filhotes ali?

Ai, que tédio deprimente.

A neve realmente tinha quase parado de cair.

Então, talvez amanhã eu conseguisse voltar para casa.

Não entendia direito, porque essa ideia passou a vir com um incômodo junto.

Devia estar dando um milhão de piruetas com a possibilidade de sair dali.

Só que não era assim.

Depois do que aconteceu mais cedo, eu não queria voltar para casa amanhã.

Eu queria que...

O que eu queria?

Não saberia nem começar a explicar o que eu queria de verdade.

Só tinha certeza de uma coisa: eu queria mais beijos do senhor Hun... do Daniel.

Era ridículo continuar pensando nele como o senhor Hunter depois dos beijos.

E talvez fosse ainda mais ridículo sentir o coração trocar de lugar com o estômago toda vez em que eu pensava nele, mais precisamente nos beijos.

Como será que ele iria reagir?

Será que fingiria que nada aconteceu? Ou será que eu iria embora daqui amanhã sem nem ao menos vê-lo outra vez?

Ele falou “depois conversamos”, não falou?

Diante do sumiço de mais de três horas, a ideia da conversa que antes tinha parecido ruim... agora parecia ser tudo de bom.

Queria conversar com ele, talvez até precisasse disso para organizar os meus órgãos.

Mesmo que ele não venha me procurar, eu vou atrás dele.

Essa ansiedade era ridícula, nós não éramos mais crianças.

Por que, porcaria, ele demorava tanto a aparecer?

Será que tinha ido retirar a neve da estrada junto com a empresa que fazia o serviço?

Bufei impaciente com o rumo neurótico dos meus pensamentos e ainda mais inconformada, porque todos eles eram dirigidos ao senhor-Daniel-maestro-Hunter.

Peguei o livro para ler. Nada como a leitura para fugir da realidade. Através de um romance perfeito melhor ainda, graças a Deus.

Ouvi uma batida firme na porta.

Era a batida de ontem do sen... do Daniel.

Minhas vísceras contraíram antes que eu confirmasse.

— Oi. — Ouvi a voz dele e fechei o livro.

— Oi — eu disse com o coração nos ouvidos, ele estava parado com o ombro apoiado no batente da porta e o cabelo molhado. Merda, ele era tão lindo! Por quê? Por que ele teve que tirar a barba? As coisas seriam bem mais fáceis se continuasse com aquele cabelo no rosto.

— Desculpe... Depois que eu falei com a empresa que retira a neve, o pessoal da academia de música me ligou e fizemos uma teleconferência, demorou bem mais do que eu imaginava.

— Tudo bem.

— Para mim não.

Eu o olhei sem entender. Ele explicou:

— O senhor Clark me disse que você não almoçou e já é noite.

— Eu — Encolhi os ombros. — vou comer alguma coisa.

— Posso fazer uma massa, o que você acha?

— Sério? — Olhei-o surpresa. — Quer dizer, você não parece o tipo de cara que cozinha.

— Ah, não?

— Não.

— E que tipo de “cara” eu pareço? — Daniel perguntou com uma diversão contida.

— Do tipo que enterra meninas no seu jardim, a não ser que você vá me cozinhar junto com a massa. — Eu forcei a voz em um tom de súplica. — Se você for me enterrar em seu jardim prefiro ser colocada ao lado da fonte, se não se importar, é claro.

Daniel me olhou com a expressão dura e eu senti o estômago gelar quase arrependida da brincadeira e, então, ele gargalhou.

O meu coração riu junto, isso estava ficando óbvio.

— Vamos para a cozinha? — Ele estendeu a mão em um gesto de convite.

Levantei e fui em direção à porta, a poucos passos de distância dele.

— Você está com fome? — Daniel perguntou.

— Sim, um pouco. E você?

— Faminto — ele disse e me olhou intensamente.

Tive quase certeza de que não era da comida que ele falava. Virei o rosto para baixo. Senti os dedos dele erguerem o meu queixo.

— Você não faz ideia.

E ele me beijou até eu estar sem fôlego e sem a menor vontade de nada que não fosse a boca dele na minha. Os lábios que no início se moviam com força, passaram a deixar toques suaves nos meus. Enquanto eu tentava, buscava mais, ele se afastou e colou a testa na minha.

— Nós temos mesmo que conversar — ele disse, sem fôlego.

— Ok — concordei sem capacidade alguma de articular mais de duas palavras.

— Não me olhe assim...

— Como?

— Pare de olhar a minha boca como se quisesse que eu te beijasse outra vez.

— Hum-hum... — murmurei, ainda incapaz de respirar direito.

— Vamos, Nicole, você precisa comer alguma coisa.

— Ok — respondi e aquele lado meu que nem sabia direito que existia me fez continuar olhando para a boca do Daniel.

— Você vai acabar comigo — ele sussurrou e, em seguida, a sua boca estava na minha outra vez, graças a Deus estava. Nossa, como estava!

Conforme o beijo se aprofundou, as mãos dele desceram até meu quadril e com uma vontade possessiva Daniel me pressionou contra o seu corpo. Gememos juntos quando tudo em nós encaixou. Enfiei a mão por dentro da blusa de linho que ele vestia. Eu pressionava os dedos em toda pele que alcançava de suas costas, enquanto Daniel aprofundava mais o beijo, com força, dando tudo de si.

Sem nenhum tipo de aviso, tão abrupto quanto começou, ele rompeu o beijo outra vez.

— Vamos... comer algo e... conversar, antes que eu faça... uma loucura.

Eu queria a loucura. Quase pedi por ela, entretanto, ainda tinha um pouco de razão porque eu fiquei quieta. Ele era o meu diretor, afinal.

Será que era assim que as pessoas apaixonadas se sentiam? Meio idiotas?

O quê?

Por que eu pensei isso? Eu não estava apaixonada, eu nem queria isso. Não, era apenas desejo e olhei pela janela do corredor enquanto o seguia até a cozinha: havia muita neve. O isolamento do mundo estava me confundindo. Seria bom voltar para casa amanhã. Senti o coração pular uma batida. Sim, seria mais do que bom, a volta para casa começava a ser necessária.