Senhorita Aurora
Capítulo 13
“Wheels are turning
I remember when you were mine
Just to reach you
Baby, I’d stand in line
There’s another world
We’re living in
Tonight”
Here with me – The Killers
Assim que entramos na casa, o meu diretor chamou a esposa do senhor Clark, que era a caseira, e pediu para ela me mostrar o quarto em que eu ficaria. Quase morri de vergonha umas dez vezes. Mas o que eu podia fazer?
Devia ser umas oito da noite quando eu chamei a Nathy no Skype. Lá fora, a neve piorava a cada olhada que eu dava pela janela. Os flocos pareciam bolas de tênis, que caíam juntas aos milhares. Olhar para fora era ver apenas branco. Uma triste confirmação de que talvez eu não conseguisse ir embora amanhã.
— Oi, querida — ela atendeu. — E aí? Como está o senhor Darcy?
— Acho que está bem, talvez se sentindo um pouco abandonado.
— Abandonado?
— Você não vai acreditar no que aconteceu...
Contei passo a passo desde a minha chegada até a entrada no quarto, então peguei meu iPad e desloquei ele pelo ambiente deixando a Nathy ter uma ideia da suntuosidade de tudo por ali. Quando eu voltei a olhá-la, encontrei uma Nathalia com a boca meio aberta, me encarando sem reação nenhuma.
Ela piscou fundo.
— O senhor Hunter? De verdade?
— Não, Nathy, o clone dele. É claro que é ele.
— Meu Deus, tadinha de você, isolada, com um maníaco — ela disse com o tom de voz exageradamente tenso.
— Calma, Nathy, não é bem assim.
— Mas o que deu em você, Ni? Onde você estava com a cabeça para ir devolver a pasta pessoalmente?
Omiti a parte do choro, achei que era algo particular demais para sair falando, mesmo que fosse para a minha melhor amiga que não parava de falar:
— Ir para a casa do homem das cavernas, ou pior, gastar suas economias para isso. Só você mesmo, Madre Nicole de Calcutá, nesse caso, de North York.
Revirei os olhos e ela ignorou.
— Sempre querendo salvar as pessoas, não é? Mas, dessa vez, acho que você foi longe demais, em milhas também. Além dele ser nosso diretor, é o cara mais insuportável que eu já tive o desprazer de conhecer.
— Nathy, manera, vai? — Sem saber o porquê, eu defendia o maestro louco.
— Ah vai, Nicole, desde quando você defende o troglodita esmagador de ossos?
— Sei lá — encolhi os ombros —, nem o conhecemos direito.
— O monstro foi um estúpido com você desde sempre, inclusive hoje, pelo que você me contou. Então pare, pode parar com esse excesso de bondade, está me irritando.
Soltei o ar pela boca um pouco impaciente.
— Depois ele me convidou para ficar pelo tempo que fosse preciso e foi até meio gentil.
Nathy sacudiu a cabeça, descrente.
— E se ele ainda fosse atraente, você podia achar alguma vantagem em estar confinada em uma mansão com a figura? — Ela fez uma pausa pensativa antes de acrescentar: — Está certo, ele parece ser bem gostoso.
— Nathalia! — protestei em voz baixa, como se as paredes tivessem ouvidos. — Para, sua maluca,
ele é nosso diretor.
— E qual o problema? Dá para ver que ele é muito forte e tem uma bundinha ajeitada, mas o
problema é aquela barba. Deus, que horror, quantos metros tem aquilo?
— Não sei. — Ri baixinho.
— Se ele fosse o Conde Drácula, talvez valesse a pena estar presa aí, mas ele está mais para um
lobisomem.
— Chega, Nathy! — pedi sem conter as risadas.
— Não, é sério, às vezes eu penso que deve ter alguma civilização que nunca teve contato com os
homens vivendo dentro da barba desse sujeito.
Não aguentei e gargalhei.
— Agora que já jogou todo o veneno da Inglaterra no senhor Hunter, vai dormir melhor? — Vi ela
abrir as mãos em um gesto de dúvida.
— Acho que sim... e você dê notícias, se não conseguir sair daí até manhã, eu mando o resgate... —
Ela abriu mais os olhos. — E se o senhor Hunter for um psicopata que mata e enterra as mulheres no jardim? Ou um que coleciona esqueletos em um quarto, tipo... tipo o Barba Azul?
— Chega de pirar, Nathalia.
— É sério, Ni, estou preocupada, não é normal o cara se esconder no meio do nada... Ele deve ter
algum motivo sombrio para isso.
— Sombrio vai ficar o meu humor se você não parar com essa brincadeira boba.
Ela ficou quieta, me olhando por um tempo através da tela.
— Ni, eu nunca falei nada porque não queria te deixar ainda mais encucada com o senhor Hunter,
mas o jeito que ele te olha me dá arrepios.
— Não seja tonta, Nathalia, ele olha todo mundo desse jeito intenso.
— Não, amiga, ele te olha como se... como se... quisesse comer você e não digo isso no bom sentido
do sexo e sim como se você fosse a próxima refeição dele... O prato principal, entende?
Por um ridículo segundo senti meu coração disparar com as palavras da Nathy; eu estava sozinha e presa no meio do nada, com um... um... estranho, que sempre fez o meu corpo ter reações tão estranhas quanto.
Meia hora após eu desligar, eu roía as unhas, não de fobia, mas de peso na consciência por ter rido das ofensas dirigidas ao maestro e, principalmente, por ter sentido medo dele. Um pouco, mas senti. Isso era ridículo. Ele podia ser tudo, mas não era um assassino “enterrador” de mulheres. Queria ir procurá-lo para pedir desculpas pelo que falei mais cedo. Se o senhor Hunter me ofendeu, eu retribuí e... não foi certo, eu sempre acreditei que toda agressão é um pedido distorcido de amor, compreensão, e o que eu fiz no lugar? Me senti ofendida, quis atingi-lo da mesma maneira. Esqueci tudo o que me trouxe até essa casa e... duas batidinhas na porta entreaberta me trouxeram de volta.
— Entre — disse e me ergui da cama deixando o livro que eu não lia, na mesinha de cabeceira.
— Senhorita Alves, com licença — disse o senhor Clark. — Minha esposa pediu para eu lhe avisar que tem um prato com o jantar separado para você no micro-ondas, é só apertar o botão iniciar para aquecê-lo.
— Obrigada.
— Boa noite, senhorita.
— Senhor Clark... — O homem se deteve antes de sair.
— Sim, senhorita?
— Onde está o senhor Hunter, eu... é... queria dar uma palavrinha com ele.
— Ahn — o homem pigarreou —, ele está se exercitando.
— Onde?
— No andar de baixo, mas se posso dar um conselho, não vá até lá, deixe-o quieto hoje.
— Por quê? — Curiosidade, esse era o outro motivo da minha ida até aquele fim de mundo. Quem era o senhor Hunter de verdade e o que ele escondia de todos? E por quê?
— Ele... hum, não gosta muito que o interrompam quando se exercita, hum... lá embaixo.
— Mas, e se... — Ele ergueu as duas sobrancelhas fazendo uma curva na testa, eu continuei fingindo não ter visto o gesto. — e se eu quiser falar com ele mesmo assim, onde é lá embaixo?
— Não posso lhe dizer, senhorita, Daniel não ficaria feliz comigo.
— Vamos, vai, senhor Clark, estou presa aqui, isolada por uma tonelada de neve e milhas de qualquer civilização, e o senhor acaba de me dizer que a mansão tem uma espécie de ala secreta do senhor Hunter, onde ele pratica qualquer ato estranho... não sei se dou risada ou se saio correndo e chorando daqui.
Ele ficou em silêncio por um tempo apenas, me encarando como se pensasse se deveria ou não me contar.
— Não é secreto muito menos estranho, é que... é só que... ele apenas se exercita como está se fazendo agora, quando está bravo com algo ou alguém.
Engoli em seco. Será que eu era o motivo da irritação? Respirei fundo e me convenci de que iria de qualquer jeito vê-lo, a minha curiosidade não me deixaria em paz. Além disso, eu não tinha medo do senhor Hunter, claro que não! Pensar assim era ridículo. Assassinos de barba ou seres mitológicos que vivem em mansões só existem dentro dos romances. A teimosia e a obstinação eram dois defeitos ou atributos que me faziam conseguir tudo o que eu queria.
— Ele costuma receber muitas visitas?
— Não, senhorita, quase nunca, para falar a verdade.
— Essa é a casa da família dele? — Eu olhei para as unhas a fim de disfarçar minha curiosidade estratosférica.
— Sim, essa casa é uma herança de família.
— E a senhora Olívia, a tia dele, que é bailarina, ela não mora aqui?
O senhor Clark abriu um pouco mais os olhos antes de responder:
— Não, senhorita, ela mora em Londres desde que o senhor Hunter completou vinte anos.
— Deve ser bem solitário aqui, não é verdade?
— Ah, bastante.
— Ele, o senhor Hunter, tem amigos?
— Sim, senhorita, ele tem alguns amigos, fico triste que eles se veem pouco... afinal, eles moram em Londres e não é sempre que encontram tempo ou disposição de fazer uma viagem até aqui.
Neguei com a cabeça.
— Como ele aguenta fazer essa viagem todos os dias?
Um fio de sorriso apareceu nos lábios do homem que até então parecia imune a qualquer emoção.
— Eu insisto que ele fique mais em Londres, especialmente quando trabalha até tarde, algumas vezes por semana ele acaba ficando, mas na maioria dos dias vem para cá. Acho que ele só se sente em casa aqui, apesar de ter um apartamento confortável por lá.
Então, ele tinha um apartamento em Londres. Isso me pareceu mais humano, pelo menos mais saudável. Uma viagem tão longa assim de ida e de volta, todos os dias. Quem aguentava isso? É claro que ele era tão mal-humorado.
— O senhor o conhece há tempos?
— Desde que me casei com a senhora Nora, há uns quinze anos.
— E trabalha com ele desde então?
Ele riu outra vez.
— Na verdade, primeiro trabalhei com a tia dele e, desde que ela se mudou, eu ajudo ao Daniel.
Achei que o senhor Clark devia sentir falta de conversar com alguém e isso me animou a continuar. Mentirosa, queria mesmo era matar um pouco da minha curiosidade, já que tinha certeza de que com o dono da história, o senhor-maestro-misterioso-Hunter, não encontraria muitas respostas.
— E ele morou aqui mesmo enquanto estudava em Londres?
— Não, nessa época ele vinha apenas nos finais de semana, ele morava em Londres.
— Quem mais mora aqui, senhor Clark, além da sua esposa?
Muito mais relaxado, ele respondeu:
— Mora aqui também o jardineiro, a senhora Evans, a cozinheira, e mais três mulheres que cuidam da limpeza da casa.
— É uma casa muito bonita, e a sua esposa maravilhosa, mantendo tudo isso funcionando e em ordem há tantos anos... — Fui sincera.
Como o sorriso dele se espalhou por todo o rosto anguloso aproveitei.
— O senhor não acredita que talvez um pouco de boa companhia poderia melhorar o humor do seu patrão?
Então, o impensável ocorreu: o senhor Clark gargalhou.
— Sim, senhorita, tenho quase certeza de que poderia ajudar.
— E ainda é um segredo a posição do “lá embaixo” onde o senhor Hunter está?
— Eu jamais poderia dizer que o acesso é pela sala particular de música dele.
Senti o coração dar um pulo e consenti com uma expressão de fingida seriedade.
— É claro que não, o senhor está apenas cumprindo ordens, não é mesmo?
— Certamente compreendeu... e acho que entenderá também que jamais poderia dizer que a parede forrada de tecido verde-musgo em frente ao piano é, na verdade, a entrada para “lá embaixo” e que, para acessar as escadas, basta empurrar a mesma, um mecanismo bem simples, na verdade.
— Lógico, eu entendo — afirmei, sorrindo. — Bom, então acho que vou descer e jantar e nunca, jamais, encontrar qualquer parede ou entrada secreta.
— Eu sei que não, senhorita.
Já tinha levantado e me dirigia para a saída do quarto quando ouvi a voz do senhor Clark.
— Senhorita Alves — olhei-o —, apesar do mau gênio que demonstra, Daniel é uma pessoa muito bondosa e sensível.
Sorri porque, no fundo do meu coração, eu tinha certeza disso.
— Eu sei, por isso estou aqui hoje, é porque eu já sabia que era verdade o que o senhor acaba de me afirmar... E, senhor Clark, Nicole. Me chame de Nicole.
O homem curvou os lábios para cima.
— Eu sei que você sabe, Nicole.