Senhorita Aurora
Capítulo 8
“Cut open my heart right at the scar
And loosen up
Gonna do what I’m told go where I’m told
And loosen up
Take a shot in the rain one for the pain
And loosen up
I tried all the way”
Wait for me – Kings of Leon
— Comportem-se! Hoje o senhor Hunter vem assistir ao ensaio — Nathy disse ao entrarmos na sala.
Depois de nossa última viagem para Oxford, vínhamos treinando seis dias por semana direto e após o ensaio de hoje, teríamos a nossa primeira folga de dois dias seguidos: sábado e domingo, em quatro semanas.
Nathy, que começou a namorar desde que estivemos em Oxford pela última vez, estava muito bem-humorada. Apesar do Paul, o namorado dela, ter vindo vê-la algumas vezes nesses últimos dias, ela parecia eufórica com a folga um pouco maior e eu também. Se eu sentia que estava precisando de descanso, meus músculos sentiam muito mais.
— Viemos mais cedo, temos algum tempo antes do exército alemão chegar — afirmei entre risadas e o Ivo me acompanhou.
Apesar de russo, Ivo era um bailarino experiente e dançava no balé de Londres há mais de cinco anos. Ali a novidade era eu. Sabia que eu era a aposta não somente do senhor Evans, mas também do balé. Por isso, não podia falhar. Não tinha o direito de falhar. Ivo me ajudava muito. Não foram poucos os dias em que ficamos além do horário, repassando uma centena de vezes todos os passos.
Olhei para os meus dois amigos, que brincavam entre si.
Ivo tinha uma mania estranha de estudar o significado do nome de todas as pessoas, disse que a origem do nome Nicole era grega e que significava vitória. Disse também o significado do nome de todo o corpo do balé. Inclusive do grupo de quatro bailarinas que eram as queridinhas do cenário. Antes me olhavam como se eu fosse uma catadora de merda de pombos, mas, depois que consegui o papel principal na peça, passaram a me olhar como se eu tivesse queimado a casa onde os avós delas dormiam. Era engraçado porque o nome de nenhuma dessas meninas significava inveja, veneno ou que queria que você quebrasse a perna. Então, depois de debater sobre nomes e suas possíveis influências com Ivo durante algumas noites, enquanto ensaiávamos, eu entendi que os nomes não tinham poder nenhum sobre o que as pessoas se tornavam.
Nathalia ria de algo que o Ivo falou e, como eu perdi a piada, resolvi fazer a minha própria:
— Fada da alegria! — falei enfática.
Esse era o personagem da Nathy, ela e o Ivo pararam de rir e me olharam. Fiz a cara mais carrancuda que consegui e continuei:
— Lembrou quantos anos tem? — continuei dando ênfase a um sotaque inglês forçado. — E você, senhor Florimundo? — disse sem olhar para o Ivo. — Faça alguma coisa direito, eu tenho mais o que fazer do que assistir a isso... Ninguém aqui parece ouvir uma palavra do que pedimos.
Eles sentaram de frente à porta e começaram a rir.
— É o senhor Hunter — Nathalia me incentivou. — Bom dia, senhor Hunter. — Ela entrou na brincadeira e eu virei a cara fingindo não ter ouvido.
— 3 Cést pas possible, incompétents!
Os meus amigos entraram direitinho na minha, porque me encaravam com os olhos e as bocas meio abertos em uma expressão de... medo? Era isso que o troglodita provocava ao seu redor, ou tentava provocar. Medo!
— Merde, o que vocês estão olhando? Vamos, senhor Florimundo, faça algo de útil no seu dia e tente me provar que todo esse tempo gasto valerá a pena... Você parece que está com dor de barriga e não sofrendo por amor.
Nathalia fez uma negação com a cabeça e olhou para minhas costas e o Ivo continuava me encarando como se eu fosse criar dez pares de tentáculos e o devorar em uma mordida.
— O que, senhor Florimundo, não se lembra como se faz nem ao menos o grand plié4? Ou lembrou que eu sou o único ser do mundo que posso soltar palavrões em francês e ainda assim ser aclamado com bons aplausos ingleses?
Então eu ouvi, em alto e bom som, alguns aplausos às minhas costas. Senti o estômago contrair por puro instinto de sobrevivência, como se ele pudesse prever o que eu encontraria. E, em seguida, me virei.
E lá estavam o senhor Evans, que me olhava como se eu fosse um alien, e o homem que gritava palavrões em francês, que continuava a me aplaudir com os olhos... O que era aquele olhar? Será que eu poderia morrer por efeitos colaterais daquele olhar? Talvez sim. Engoli em seco.
— Muito bem, senhorita Aurora — disse o maestro —, agora que já provou saber falar francês e ser uma ótima palhaça circense, demonstre metade dessa habilidade no ensaio de hoje ou, com certeza, eu lhe darei algumas aulas a mais da língua, para que você continue treinando a sua fluência.
Eu tinha parado de respirar.
Oh, meu Deus, isso realmente estava acontecendo?
Meu coração dançava um pas de deux5 junto com as costelas. Engoli em seco outra vez, quer dizer, tentei engolir. Mas não consegui.
Culpa do chiclete que eu mascava, que pareceu absorver toda a saliva do mundo. E antes que conseguisse me recuperar ouvi:
— E descarte esse chiclete, eu nem deveria estar pedindo tal coisa, afinal não sou sua professora de pré-escola.
Eu assenti muda porque o chiclete também removeu todas as palavras da minha cabeça. Virei em direção ao cesto de lixo que ficava em um dos cantos da sala, ainda não sentia o corpo. Aquele homem conseguia me desestruturar.
Todo o bom humor do início do dia, resolveu se fechar de uma única vez em nuvens cinzentas e pesadas que despencavam na minha cabeça. Tive certeza disso quando a voz do senhor Hunter ecoou em cima de mim:
— Não cole esse troço grudento nas tevês em sua frente, nem nas paredes da sala, faça o favor de lembrar que aqui, na “Inglaterra” — ele fez o favor de dar ênfase na palavra, como se o fato de ser estrangeira fosse uma justificativa para toda a falta de civilidade do mundo e prosseguiu: —, nós jogamos esse tipo de coisa mascada no lixo... Já que não temos a pressão do avião, acredito que seus ouvidos vão sobreviver sem que você precise mastigar isso.
O trovão e o raio da compreensão e da lembrança explodiram.
Meu Deus, esse... esse senhor... o senhor Hunter era... eu mal conseguia me manter em pé. Era o motoqueiro, o selvagem, o ogro que sentou ao meu lado no avião há três anos e que... ai... meu Deus!
Tudo ficou escuro e tive que me apoiar na barra lateral, por sorte estava apenas a dois passos. O senhor Hunter era o motoqueiro que pegou no meu chiclete mascado e na minha calcinha!
Como que eu não lembrei?
Como?
Talvez por isso a minha obsessão por ele. Alguma parte da minha mente devia saber quem ele era e queria me avisar desesperadamente. A outra parte, a consciente ou idiota, deletou por completo todo o episódio do voo. Mas, pelo visto, ele lembrava disso e lembrava com detalhes.
Ai, meu Deus, Cristo amado, eu estava ferrada!
O resto do ensaio aconteceu em total ausência de qualquer normalidade. Não conseguia nem lembrar direito do meu nome, quem dirá que dançava balé há anos e que eu executava os passos melhor do que conseguia andar.
Desastre.
Ensaiávamos o Adágio da Rosa, a parte em que dançava um pas de deux com quatro bailarinos: os quatro príncipes pretendentes. Eu errei muitos passos, e agora, por exemplo: errava de novo. A minha concentração virou um chiclete mascado e o humor sarcástico do senhor Hunter mascava o resto de tudo dentro de mim.
— Ou a senhorita Aurora vai lembrar o porquê dela estar aqui hoje, ou acho que devemos sentar e esperar o próximo número dos palhaços que ela está querendo nos presentear desde que entrei. — Isso, é claro, ele falou em francês, quase rosnando e sem olhar para mim.
O meu futuro seria escuro ao lado do maestro louco.
E ops, merda, ou merde, mais um passo errado.
Olhei para a Nathalia, que me encarava incrédula, a sala já tinha mais de cinco pessoas do corpo treinando. E merde... mais um passo em falso e quase derrubei o John.
— Nicole — Evans falou. — parece que não está em condição de realizar nenhum movimento hoje, sem se colocar em risco ou ao seu parceiro. Sugiro que sente e descanse um pouco para que encontre a sua concentração, por favor. — Em seguida, virou-se para a vaca da Marie, que era a Carobasse da peça, a fada má, e pediu: — Assuma o lugar da Aurora.
Marie era uma das bailarinas mais experientes da companhia, já devia ter dançado no papel da Aurora umas cinco vezes, só na última temporada. Quando eu passei pelo senhor Hunter, ele disse em um tom de voz baixo e controlado, acho que queria que só eu escutasse:
— Da próxima vez que quiser se divertir com seus amigos, acho que deveria mostrar suas roupas íntimas, garanto que dará melhor resultado.
Eu gelei e virei para olhá-lo, bem irritada. Tudo naquele homem me descompensava, odiava isso. Quando o olhei enfurecida, porque queria deixar claro que tinha um limite, ele já não me olhava mais. MERDE!