Senhorita Aurora
Capítulo 14
“Don’t need another perfect lie
Don’t care if critics never jump in line
I’m gonna give all my secrets away”
Secrets – One Republic
A sala de música do senhor Hunter era... Nossa, o piano de cauda mais absurdo de toda vida na Terra se exibia lá. Um sofá e duas poltronas de couro caramelo fechavam o ambiente da lareira. Havia uma guitarra encostada em um dos cantos da parede e uma caixa de violino largada em cima da poltrona. Meus pés pisavam em um tapete de lã bege, acho que era um tipo de lã macia que me dava vontade de ter um igual só para poder deitar, dançar, rolar e... pisquei fundo com a imagem do senhor Hunter por cima de mim e eu deitada em cima do tapete.
Que loucura!
Afastei a imagem com uma sacudida de cabeça. Olhei para longe da lã e das cenas que ela trouxe. Vi uma mesa de madeira e um milhão de partituras espalhadas no tampo dela. Em cima da lareira havia algumas fotos.
O senhor Hunter criança, ele tinha um olhar que parecia feito de algodão e gotas de chuva e a tia, Olívia Scodelario, segurava a mãozinha dele; em outro retrato, o senhor Hunter regia uma orquestra.
Vi a parede de tecido verde e enchi o pulmão de ar e de toda a resolução que cabiam. Empurrei-a de uma vez e ela cedeu, abrindo a passagem. Notei uma escada e o acesso para o “lá embaixo do senhor Hunter” me aguardava. Senti o coração na garganta. Desci.
Era um galpão. Um porão de uma fábrica, foi o que me ocorreu. Continuei percorrendo o espaço com atenção. Não haviam mulheres enjauladas, nem camas de tortura sadomasoquistas, ou chicotes, muito menos aparelhos medievais ou esqueletos pendurados na parede. Havia apenas equipamentos de musculação, esteira, bicicleta. Um ringue. Um ringue de boxe? Sim, com um saco daqueles de areia pendurado no meio dele e o senhor Hunter... Meu Deus!
O coração socou meu peito ainda mais rápido com a imagem dele só de calção e luvas de boxe, surrando, não, querendo extrair os órgãos do saco à sua frente. Ele parecia virado em um terremoto de raiva e murros, raiva e mais socos e grunhido de força. Meu coração bombeava no peito, conforme eu me apossava de algo além dos movimentos ríspidos e violentos dele: o seu corpo.
Seus músculos torneavam e contornavam cada pedacinho de pele molhada de... suor.
Não era aquele exagero de força monstruosa, era... sim, perfeito. Ele tinha dois tribais bem grandes fechando os bíceps. Minha respiração ficou presa na garganta. Difícil respirar no “lá embaixo” do senhor Hunter.
Então, ele me viu.
Queria voltar, sair dali, fugir.
Meu instinto autopreservação entendeu a mensagem e me fez dar dois passos para trás.
— Não mexa um único músculo do seu corpo, fui claro? — ele disse isso naquele tom de mágico de OZ: “Quem ousa perturbar o magnifico mágico de OZ?”. E tudo tremeu ao redor. Paralisei como uma presa rendida, só não me fingi de morta porque petrifiquei.
Ele saiu do ringue, passou uma toalha no rosto, jogou-a no chão. Achei que os olhos dele me matariam, antes das mãos me alcançarem. O senhor Hunter parou a escassos centímetros do meu rosto. Senti uma mão enlaçar a minha cintura e me puxar até estar colada nele.
Respirar? Devia ser fora das leis do “lá embaixo”.
Ele também sentia isso, a outra mão cavou meu cabelo por trás. As minhas pernas fraquejaram, mas o braço envolto na minha cintura me manteve em pé.
Ele veio no meu ouvido, segurando com mais força o meu cabelo.
— Com medo? — perguntou ele.
Tive que engolir três vezes para conseguir responder:
— Nã... Não.
— Parece que está. — A voz dele agora era baixa e controlada, quase um sussurro. Ela esmorecia os meus ossos e tudo em mim liquefez.
— Não — disse mais resolvida.
— Você está tremendo?
Estava? Eu já não sabia, nem sentia nada além da voz e do corpo dele que queimava o meu. Nem mesmo lembrava o que eu tinha ido fazer ali.
— Eu... — ofeguei. — não...
— Parece uma menininha amedrontada.
Senti o ar quente da boca dele entrar e sair rápido do meu ouvido, do meu cérebro, da minha alma.
— Não estou — disse com a respiração ainda mais sofrida.
— Você me assusta, senhorita Aurora.
— Eu... eu? — Inspirei o ar com dificuldade. — Por que assusto?
A mão dele torceu um pouco mais o meu cabelo e provocou uma... não chegava a ser dor, era um incômodo, mas não era ruim. Quando percebi, gemi baixinho. Notei o corpo dele enrijecer contra o meu. Os lábios do senhor Hunter contornaram a minha orelha e eu me perdi, acho que gemi de novo, não sei. Não sabia, nada mais fazia sentido. Então, quando acreditei que fosse deixar de existir e me perder nos braços, no corpo, na boca dele colada na minha orelha, as palavras dele me puxaram de volta à realidade:
— Sabe o que faço com meninas assustadas?
Apenas neguei com a cabeça, não tinha mais voz.
— Eu devoro elas no jantar como prato principal e depois as enterro em meu jardim. — Dizendo isso, ele me soltou de forma tão abrupta e seca, que perdi o equilíbrio quando ele se afastou. Caí sentada de bunda no chão.
O senhor Hunter andou até o ringue, segurou a corda com as duas mãos e falou de costas para mim:
— Mantenha-se longe. Se você sente medo, escute os seus instintos, porque eles têm um motivo muito certo para isso.
Então, ele virou com os olhos escurecidos, o rosto transfigurado de emoções que ninguém quer ver, em um misto de ódio e dor.
— Corre, senhorita Aurora, suma daqui! — ele gritou isso com tanta raiva e com tamanha força que eu obedeci. Fiquei em pé sem saber como, encontrei minhas pernas perdidas e corri escada acima, como um coelho fugindo de uma raposa ou de um leão. Cheguei no quarto com a mente em branco. Estava com o corpo trêmulo de pavor, desejo, confusão, incerteza, ansiedade e tristeza. Dormi de roupa por cima da colcha, sem conseguir deixar de pensar um só segundo.
Ele ouviu a conversa que tive com a Nathalia mais cedo e ficou muito, muito bravo. O senhor Hunter conseguia mexer com o meu equilíbrio de bailarina, quase perfeito.