Senhorita Aurora
Capítulo 24
“I walk this empty street
On the boulevard of broken dreams
Where the city sleeps
And I’m the only one and I walk alone
I walk alone I walk alone
I walk alone I walk a...”
Boulevard of Broken Dreams – Green Day
Parei a cinco metros da entrada do prédio. Olhei para ele e para a porta como se ela fosse a salvação e ele um dragão ameaçando a minha segurança.
— Boa noite, Nicole.
Que ridículo esse “boa noite, Nicole”, como se esse imbecil estivesse me vendo pela primeira vez no dia.
Ignorei-o e comecei a procurar a chave dentro da bolsa.
Porcaria de bolsa com oitocentos compartimentos e tudo que uma pessoa precisaria para sobreviver no deserto, durante um ano.
— Quer ajuda? — ele perguntou.
Ignorei outra vez.
Achei. Graças a Deus!
Andei até a porta e parei a pouca distância de onde estava o corpo enorme do Daniel. Não olhei para ele.
— Vai continuar me ignorando? — o louco perguntou novamente.
Com os dedos trêmulos, tentei enfiar a chave na fechadura e a bosta do molho escorregou da minha mão. Passei o olho pelo chão e vi um vulto, com uma velocidade de confundir, engolir as chaves.
Respirei fundo, fechei os olhos e disse:
— Me devolve, por favor. — Abri os olhos e continuei encarando a porta.
— Não enquanto você estiver fingindo não me ver.
— Eu realmente não estou com humor para brincar de adivinhe qual das suas múltiplas personalidades está no seu corpo agora... Então, só me devolva a chave. — Olhei para ele, com raiva, muita raiva. — Por favor, agora.
— Isso é por causa do ensaio de hoje?
— A chave. — Eu estendi a mão.
— Você sabe como eu lido profissionalmente com as coisas, eu notei que hoje, no começo, você estava muito abaixo de suas capacidades.
— A merda da chave! — Ah, se os meus olhos fossem lâminas.
— Eu só quero tirar o melhor de você. Eu sei que você tem muito mais a oferecer do que aquilo que mostrou hoje, no ensaio.
Bufei e estendi a mão outra vez.
— Eu vou pedir pela última vez... me dê a porcaria da chave, por favor.
— Você fica linda quando está com raiva, fica vermelha igual aquela personagem de desenho. — Ele parou como se pensasse em algo e disse: — Como é o nome dela, aquela fada?
— Vai à merda!
— Vamos jantar, Nicole, você se acalma, nós não congelamos aqui fora, conversamos e...
Eu estava tão obcecada de raiva, que nem lembrei que podia pegar o meu celular, ligar para a Nathalia abrir a porta, matar ele e entrar satisfeita em casa.
Fiz aquilo que a minha irritação mandou. Fui para cima do Daniel e passei a tatear os bolsos da jaqueta, da calça e da camisa que ele usava.
— Onde está? Onde você colocou?
Ele tentava me segurar e gargalhava ao mesmo tempo e ainda sem pensar, ou talvez escutando somente a minha parte idiota, eu levei as mãos até os bolsos de trás da sua calça. Mais precisamente, na sua bunda. Na sua bunda muito gostosa. Ao me dar conta do que fazia, Daniel já tinha parado de rir, eu estava com os braços em volta do seu corpo e, claro, estávamos abraçados. Não consegui alcançar o bolo que eu julguei serem as minhas chaves. Ele segurou os meus braços e me empurrou em direção à porta. Vi o rosto dele descer em direção ao meu.
— Não ouse fazer isso!
Mas ele ousou. Sua boca veio na minha e eu tentei lutar. Meus braços subiram para empurrá-lo. O problema eram aqueles lábios duros e insistentes e tudo o que eles despertavam no meu corpo. O idiota parou de lutar muito rápido... e deixou Daniel avançar. E, meu Deus, ele avançou com a língua dentro da minha boca, enquanto suas mãos avançaram na minha cintura e me trouxeram para mais perto do seu calor. As minhas mãos subiram e cavaram a massa de cabelos negros.
— Senti tanta saudades — ele disse e não deu espaço para eu respirar, pois exigiu a minha boca outra vez.
Paramos depois de trocar alguns beijos, que roubavam tudo do mundo, com as testas coladas e ofegantes.
— Seu imbecil! — eu ralhei com a respiração sofrida.
— Sim, nunca disse que não era um.
— Não quero que você me trate mais daquele jeito.
— Eu só quero tirar o melhor de você — ele afirmou baixinho.
— Acredite, fazendo aquilo você tira o pior de mim.
— Vou tentar me conter.
Nós ainda respirávamos com dificuldade.
— Consiga, ou esqueça que somos... amigos?
— Esse era o plano, até você colocar as mãos na minha bunda.
Mas que homem insuportavelmente arrogante!
— Eu quero que a sua bunda se dane, não pedi para esconder as minhas chaves nela.
— Não escute ela — ele disse olhando para trás como se falasse com as nádegas.
Eu não consegui não sorrir.
— Vamos jantar? — ele insistiu.
Olhei para ele e depois para a porta.
— Vamos, vai, senhorita Aurora.
— Se você me humilhar de novo daquele jeito, eu juro que chuto a sua bunda na sala de ensaio.
— Está bem, temos outro acordo. Se eu fizer você se sentir mal de novo, eu abaixo e deixo você chutá-la.
Tremi minha boca devido a minha vontade de rir.
— Vamos jantar antes que eu congele... E ah... de sobremesa eu trouxe chocolate para você, está no carro — ele disse e saiu em direção à rua.
Não soube se ficava irritada ou feliz com a lembrança. Segui-o sem ter certeza de que era isso que devia fazer e sem ter ideia se aguentaria lidar com o Daniel e com o senhor Hunter. Eles pareciam pessoas completamente diferentes que habitavam o mesmo corpo.
Daniel escolheu um restaurante mais afastado do balé e durante o jantar falamos sobre música, política, dança e sobre música outra vez. Mas o clima entre nós dois estava longe de parecer normal. A verdade era que eu ainda me sentia incomodada com o que tinha acontecido mais cedo.
A conta tinha acabado de chegar e ele não deixou nem mesmo eu ver o valor. Sem ânimo para me opor e criar um caso — vamos dividir o jantar — deixei ele acertar com o garçom. Só queria ir embora.
— Obrigada! — disse e tentei levantar, mas a mão do Daniel em meu punho e o puxão de leve que ele deu em meu braço não deixaram.
— Nicole, eu... acho que preciso te explicar. — Ele sacudiu a cabeça. — Acho que eu te devo uma explicação mais sincera sobre o que aconteceu hoje, naquela sala.
Eu o encarei surpresa porque não esperava que ele voltasse a esse assunto, espontaneamente.
— Quando eu te vi, tudo o que eu queria era correr até você e te beijar, estava a ponto de explodir de vontade, de saudades e a única coisa que eu pensava era: “Porra, eu não posso ferrar com tudo e dar bandeira...” — o maestro apertou um pouco minha mão antes de acrescentar: —, aí o ensaio começou e você errou, errou e errou mais uma vez... e eu só conseguia pensar: “Merda, a culpa é minha, ela não pode deixar o que aconteceu entre a gente vir para cá, dentro do balé, e mexer com ela desse jeito...”. E, então, eu fiquei tão preocupado em não agir diferente com você, em não piorar as coisas, que exagerei, perdi a linha. Eu só queria te abraçar e dizer que tudo ficaria bem e fiz o contrário. Sou a merda de um pavio curto e não estou sabendo lidar com o que venho sentindo por você.
Senti meus olhos encherem de lágrimas.
— Você fica lindo quando é sincero.
Entendi que Daniel estava confuso e mexido assim como eu e ouvi-lo abrindo o coração dessa maneira me desmontou.
— Prometo que não vou mais fazer nada parecido... Eu vou me controlar.
Respirei fundo e concordei com a cabeça.
Ficamos nos encarando em um silêncio cúmplice e cheio de eletricidade.
— Podemos esquecer que somos amigos, apenas por essa noite? — ele pediu e olhou para minha boca.
Nossas respirações estavam aceleradas.
— Hum-hum... — concordei ansiosa.
Daniel levantou de uma vez, me puxando pela mão.
— Vamos sair daqui. Porra, como eu quero te beijar! — disse antes de cruzarmos a porta para fora.