Senhorita Aurora
Capítulo 6
“I don’t care if Monday’s black
Tuesday, Wednesday - heart attack
Thursday, never looking back
It’s Friday, I’m in love”
Friday I’m in Love – The Cure
Por que, meu Deus? Por quê?
Foi com essa dúvida que eu acordei na manhã seguinte, ao porre de tequila. E não era só por causa do gosto de bode velho na boca que essa pergunta voltava uma e outra vez à minha mente. Havia outro barulho zumbindo na consciência: uma voz que estourava nuvens de chuva.
Andava em direção à sala de ensaio, onde encontraria a prova viva de que maestros podiam sim, quase fazer sexo e rosnar em lugares estranhos. Enchi o pulmão de ar, porque toda vez que eu trazia a figura do senhor Hunter, desde que eu acordei, ela vinha acompanhada da lembrança do som da voz dele e de uma falta de oxigênio incoerente e irritante.
Abri a porta da sala de ensaio. Nathy foi dormir com Ivo e, pelo que tinha visto no quadro de horários logo que cheguei ao prédio, ela teria aula agora. O ensaio nessa sala seria só para mim e para o Ivo. Ele seria o meu príncipe Florimundo no balé. Quando batizou o par da princesa Aurora, a Disney colocou o nome dele de Felipe. Disney esperta!
Ivo já se aquecia.
— Bom dia — disse e fui direto para a barra. Uns quinze minutos depois, a porta da sala abriu e o senhor-rosno-Hunter, entrou junto com o senhor Evans, nosso diretor artístico.
— Bom dia! — senhor Evans cumprimentou.
— Bom dia! — Ivo respondeu.
— Bom dia! — Foi a minha vez de responder ao nosso diretor artístico. Entretanto, eu não olhava para ele e sim para o senhor Hunter.
Ele mexia dentro de uma pasta de couro marrom surrada, retirou de lá um bloco de papel. Abriu, folheou algumas páginas, levantou o olhar, passou pelo meu rosto, depois pelo do Ivo e perguntou:
— Já se aqueceram? — Foi cru e seco, sem nenhum cumprimento antes, nem mesmo aqueles cumprimentos silenciosos feitos com a expressão.
— Sim, senhor — Ivo respondeu.
O senhor Hunter rosnava com aquela voz de tempestade. Só que na minha mente ele rosnava gemendo de prazer.
— Senhorita Aurora? — ele disse em um tom nada fálico. Despertei dos seus gemidos imaginários e voltei à sala.
— Quantas vezes vou ter que repetir a mesma pergunta? — ele indagou em um tom duro e ríspido.
— Desculpe, senhor.
E o senhor grosseria em pessoa era a porcaria do meu diretor.
— E então?
— Oi?
Assisti-o respirar devagar duas vezes e semicerrar os olhos azuis fundos.
— A senhorita já se aqueceu? — o maestro perguntou entredentes.
“Sim, desde ontem”, pensei, mas sacudi a cabeça e respondi:
— Sim, senhor.
— Podemos começar? Ou será que a senhorita prefere continuar me encarando como se no lugar da barba houvessem dedos no meu rosto?
Acho que a minha boca abriu, como se realmente houvessem dedos no rosto daquele homem e como se eles tocassem Bach.
— Em suas posições, por favor — senhor Evans ordenou.
Senti a mão do Ivo tocar o meu ombro. A música preencheu a sala e nós começamos a dançar. Cerca de meia hora depois, senhor Evans havia corrigido alguns dos nossos movimentos enquanto dançávamos e o senhor Hunter seguia em silêncio apenas anotando o que quer que fosse no papel.
— 1, 2, 3, 4 e... mão mais baixa, Ivo — ordenou o senhor Evans. — Outra vez, mais devagar e...
— Pare! — explodiu o senhor Hunter. — 2 Merde! — gritou em francês e continuou soltando fogo pelo nariz. — Quantas vezes o senhor Evans terá que repetir mais devagar nessa entrada, senhor Florimundo? E você, senhorita Aurora, esteja com ele quando te encontrar.
Ficamos parados em silêncio, horrorizados, entreolhando o senhor Evans e o maestro louco.
— Vamos parar de perder nosso tempo — prosseguiu rosnando —, e acertar alguma porcaria de coisa hoje?
Ele bateu palmas três vezes, parecia querer fortalecer o que acabara de dizer ou talvez desejasse espantar as moscas ao seu redor
— Retomar — concluiu.
Engoli em seco, respirei fundo, não queria perder a calma. Se perdesse, com certeza, perderia o emprego. Entendi os rótulos e toda a fama que o senhor Hunter carregava de ser um animal, e não apenas porque a voz dele fazia tudo tremer, e sim porque ele era um ogro estúpido.
No final dos ensaios, eu, Nathy e Ivo saímos juntos do balé. Eles queriam passar em Brick Lane para comprar algumas coisas. Aquele era o lugar certo para isso.
Imagine um bairro cheio de mercados, cafés, pubs, galerias, grafites, gente do mundo inteiro, lojas vintage, modernas, coisas de todos os preços, e para todos os gostos de livros a antiguidades, de móveis a brechós. Brick Lane era um bairro pequeno com uma mistura de comida de todos os cantos e peças para multigostos étnicos. Era uma bagunça deliciosa.
— Você não teve o desprazer de ensaiar com o maestro ainda — Ivo disse para Nathalia. Nathy e ele não estavam mais juntos como ontem. Ela explicou, quando ficamos a sós, que eles conversaram e resolveram parar as coisas em uma noite apenas, mas continuariam sendo amigos.
— Ele passou metade do ensaio anotando tudo em um bloco ridículo — continuou Ivo. — e a outra metade gritando palavrões em francês.
— Em francês? — Nathy perguntou, levando a cabeça para trás em um movimento de incredulidade.
— Sim, acredita? — Ivo bufou. — Se todos os ensaios forem como o de hoje, teremos que ter paciência.
Eu olhava para um grafite incrível que cobria um muro, mas as cores e as formas não tinham o menor sentido, porque a minha cabeça viajava no que aconteceu depois dos primeiros gritos do maestro. Fiquei tão confusa e atordoada que não queria nem comentar.
— A Nicole que o diga. — Ivo não concordava comigo.
— O que aconteceu? — A curiosidade da Nathalia não deixaria passar.
Respirei pela boca.
— Nada de tão impressionante assim que justifique essa expressão do Ivo — falei apontando para a cara passada dele.
— Como não? — Ivo cuspiu sem dar tempo de resposta. — O maestro caminhou em silêncio até Nicole, segurou na cintura dela e murmurou no seu ouvido.
— Murmurou instruções. — Sacudi a cabeça. — E não foi no meu ouvido ele só... falou próximo. — “Tão próximo que a respiração dele ficou gravada no meu tímpano”, pensei.
— Você ficou pálida — Ivo confirmou.
— Não se alimentou direito de novo? — Nathy me salvou.
Isso era verdade, alguns dias eu simplesmente não sentia fome. Quando ficava muitas horas sem comer, às vezes tinha hipoglicemia, principalmente nos ensaios. Era o álibi perfeito.
— É, foi isso — suspirei. — Você me conhece.
— Ah, Nicole, você não pode ir ensaiar sem comer!
— Eu sei, mas estava atrasada para o ensaio e não deu tempo de comer nada.
Ivo nos entreolhava com uma interrogação no rosto.
— Achei que tinha ficado pálida por causa do jeito que ele foi te orientar. — Ele franziu o cenho e completou torcendo a boca: — Meio assustador aquilo.
— E o que ele disse? — Nathy perguntou.
— Ele disse...
Respirei fundo, não queria transparecer o quanto tudo o que vinha acontecendo relacionado à pessoa do senhor Hunter mexia comigo. Forcei uma voz desinteressada:
— Ele disse: Eu não quero perder a paciência, é o nosso primeiro ensaio, então, por favor, senhorita Aurora, entenda e repita o que estamos lhe pedindo. Quando o senhor Florimundo chegar às suas costas assim... Foi aí que ele segurou a minha cintura e completou: A senhorita deve virar e... e logo que finalizar o movimento, não perca o contato visual com ele, entendeu? — Encolhi o ombro. — Aí ele me soltou e acho que acertamos o que estavam pedindo, porque depois da última repetição não fomos mais interrompidos.
— Ou isso, ou porque o senhor Evans ficou tão chocado pelo maestro ter ido chamar sua atenção ao pé do ouvido, que não quis falar mais nada.
— Meu Deus, o cara é louco — minha amiga afirmou e nós entramos em uma loja.
Ela desviou a atenção de mim para a primeira arara de roupas à sua frente.
Graças a Deus por isso.
Eu tinha resolvido que não contaria de ontem, como poderia contar? Esses dois me enlouqueceriam. Possivelmente morreriam de rir e depois a Nathy me enlouqueceria. Como fui inconsequente, como pude fazer uma coisa arriscada dessas? E se o senhor Hunter tivesse me visto? Já estava mexida demais, precisava e queria manter a cabeça longe de qualquer coisa com o maestro estranho.