Senhorita Aurora
Capítulo 27
“But you only need the light when it’s burning low
Only miss the sun when it starts to snow
Only know you love her when you let her go”
Let Her Go – Passenger
As três semanas que seguiram foram cheias de ensaios. Natural, já que faltavam uns vinte dias para a estreia. Eu me sentia um pouco ansiosa. Como não estaria? Era minha primeira peça como profissional, em um papel de destaque. As pressões aumentavam dia a dia. Todos, conforme a estreia se aproximava, ficavam no limite fisico e emocional, assim como eu.
O único que pareceu não alterar a maneira de lidar com as pessoas foi o senhor Hunter. Isso porque ele andava sob o estresse máximo, em qualquer circunstância, longe ou perto da estreia.
Ele continuava a despejar grosserias na cabeça dos outros.
Naquele momento caminhava de volta para casa após o ensaio. O balé tinha alguns prédios residenciais para atender aos seus funcionários. Pagávamos um aluguel quase de mentira para um imóvel em Covent Garden. Só por isso era possível morar ali, ir e voltar a pé até o balé. Olhei para os meus pés: vestia um tênis de cano alto confortável, conhecia tão bem esse caminho que podia fazê-lo de olhos fechados.
— Respira... Um, dois, três e quatro. E expira... Um, dois, três e quatro.
Contar o tempo entre uma respiração e outra era o exercício que eu fazia para tentar manter a ansiedade no lugar dela. Eu tinha que ser justa: o Daniel nunca mais me tratou daquele jeito estúpido e grosseiro que me fez sair chorando da sala. Ele tratava todos assim.
Estalei a língua com o rumo dos meus pensamentos.
Ele não tratava todos assim.
Ele apenas não mudou a forma de lidar com os outros.
O meu problema com ele era por uma insuportável razão: depois daquele noite no carro, não nos vimos mais. Com exceção dos ensaios. Ele passou a me tratar pessoalmente com um distanciamento mais do que profissional.
Entretanto, havia as mensagens que trocávamos todos os dias, onde a intimidade sufocava qualquer profissionalismo. Era como se o Daniel existisse só no mundo virtual. O que era muito frustrante. Eu sabia que não seria fácil, só não imaginei que seria tão difícil.
Em um dia desses, alucinei e comecei a fazer pesquisas sobre pessoas que tinham fobia de sangue, ou que surtavam ao ver sangue ou que enlouqueciam ao sentir o cheiro, até que cheguei em um site que falava sobre vampirismo e pessoas viciadas em sangue. Fiquei tão angustiada com o que li, que achei que corria o risco de nunca mais dormir, sem ter pesadelos. Me convenci que estava ficando louca e desisti de tentar entender qual era o problema dele, antes da conversa que teríamos.
Não podia falar para a Nathy sobre tudo o que aconteceu. Ela mal me dava descanso, sem saber da metade das coisas. A louca da minha melhor amiga seria capaz de acreditar que o senhor Hunter era uma espécie de vampiro moderno. Ela tentaria me convencer de que ele participava de rituais secretos para beber sangue de virgens; e o pior, Nathalia era a única pessoa viva capaz de me colocar em dúvida sobre esse tipo de delírio. E isso seria agravado porque me sentia tão inquieta envolvida nessa relação virtual, esquisita e insatisfatória.
No primeiro fim de semana, depois do carro, eu o convidei para irmos a uma exposição de dança que acontecia em Londres. Ele deu uma desculpa educada, dizendo que tinha que trabalhar. Não entendi que era uma desculpa, e continuei insistindo como uma idiota:
“Ah, tudo bem, podemos ir amanhã ou depois, a exposição fica por quinze dias ainda.”
Dez minutos depois chegou a resposta:
“Ok, se der eu te aviso.”
Mas ele não avisou.
Esse não foi o único convite que fiz nesses mais de vinte dias. Não, infelizmente. A verdade era: tirando as nossas conversas virtuais, ele não queria uma amizade convencional. Porque amigos convencionais convidam uns aos outros e se veem com uma frequência possível, fora da tela do celular.
Nos dois ensaios semanais junto a ele, toda terça e sexta, eu repetia algum convite, mergulhada no buraco da inconveniência:
“E aí? Vamos tomar alguma coisa depois?
Está passando um filme que eu queria muito ver, vamos?”
Ele não topou nenhuma vez.
Mas eu não era maluca. Não ficava mandando convites negados há três semanas, e nada além disso! Nós também conversávamos muito. Mais de uma hora por dia. Às vezes, eu caía no sono com o celular na mão trocando ideias com ele sobre tudo, tudo mesmo. Viagens, músicas, filmes... Às vezes, na hora do jantar, enquanto eu cozinhava e ele também. Às vezes, vendo uma mesma série na TV; outras, ouvindo uma música. Muitas vezes, durante tudo isso, todas as noites.
Nathalia se irritava e dizia que eu namorava o celular. Depois de vinte dias, eu tinha que concordar, porque eu também me sentia frustrada. Olhei para os lados, próximo ao meu prédio, e percebi que o movimento de bares e restaurantes de Covent Garden diminuía. Era sexta-feira e eu queria muito ver uma apresentação de balé moderno que acontecia no Royal Albert Hall.
Logo que eu saí do ensaio, mandei a mensagem:
“E aí, vamos ver aquele balé que te falei?”
Minutos depois, recebi a resposta:
“Adoraria, mas estou com alguns estudos atrasados, vou direto para casa e possivelmente trabalhar em cima de algumas partituras a noite
inteira.”
“Ah, que pena! Bom, então, tomara que termine logo e não se canse muito.”
“Nos falamos mais tarde, ok?”
“Ok. Bjs.”
Entrei em casa digerindo a frustração de ter uma pessoa tão presente em minha vida, sem realmente ter. Ele podia mesmo estar muito ocupado essas semanas, não podia? Mas nunca disse como seria essa amizade temporária que teríamos. Sentia saudades e isso era tudo. Queria estar com ele mais do que no celular. Queria que ele também quisesse.
Pendurei o casaco e a mochila na chapeleira.
Nathalia recortava revistas, sentada no chão, enquanto o Paul a abraçava por trás. Essa era a mania dela, que só ficava atrás do balé. Gostava de recortar tudo aquilo que considerava valer a pena, desde lugares que queria conhecer, palcos do mundo onde queria dançar e casas nas quais queria morar. Depois de recortar compulsivamente duas, três ou quatro revistas, ela fixava tudo em um diário. Ou colava em um quadro de camurça em cima da cama. Na maioria das vezes, guardava os recortes em um baú. Achava um desperdício de espaço e papel, mas nunca falei nada. Eu mesma tinha minhas esquisitices, colecionava as fitas das minhas sapatilhas velhas. Não de todas, mas daquelas que considerava importantes. Andava com uma foto do Fred Astaire e da Ginger Rogers na carteira e tinha múltiplas variações de valsas do século XIX no meu HD. Isso porque eu ainda acreditava que um tal senhor Darcy poderia me levar para dançar em um baile em 1800, qualquer dia desses. Gostava de sonhar com isso, então não podia falar nada da mania de ninguém.
— Oi, querida — Nathy disse do chão.
— Oi, Nicole — Paul me cumprimentou em seguida.
Se ele estava junto a ela encostado no sofá, isso significava que o mesmo sofá seria a minha cama hoje. Esse era o nosso acordo. Toda vez que alguém levasse o namorado para o apartamento de um quarto, a outra iria para a sala.
Sem problema com isso.
Quer dizer, tinha um problema sim. Um que nunca houve. Eu que nunca quis brigar pelo direito do uso do quarto nos fins de semana, agora eu queria. Queria muito brigar por esse uso. Mas o cara que eu gostaria que dividisse o espaço comigo, não parecia tão disposto a isso. Nem que fosse só para dormirmos, como amigos. A vontade mal resolvida virava uma obsessão e os carinhos explícitos no chão não melhoravam.
Coloquei a mochila no balcão da cozinha e mexi no celular. Respirei fundo irritada, porque sabia que só mexi no celular para ver se tinha alguma mensagem dele. Outra mania que virava uma compulsão.
— Eu vou pedir comida chinesa para nós, você quer? — Nathy perguntou no intervalo de um dos beijos que eles trocavam.
Mas que droga! Eu estava, o quê? Com inveja da minha melhor amiga? Não, estava é meio irritada com as fugas do Daniel.
Meu celular vibrou.
Danie l: O que você vai jantar hoje?
Nicole: Estou pedindo comida chinesa.
— E aí, quer? Ai! Para, Paul! — disse Nathy depois de alguma gracinha que o Paul soprou no ouvido dela.
— Não. Valeu, Nathy, acho que eu vou sair e comer alguma coisa na rua.
Não aguentava mais comida chinesa. Toda semana acabávamos pedindo a mesma coisa. Na verdade, não era muito fã de comida nenhuma, gostava mesmo era de chocolate.
Os olhos da Nathalia cresceram surpresos.
— Você vai sair com o Daniel? Ele parou de ter medo de mulher?
— Não, Nathalia. Eu... vou com o Ivo.
— Ah, tá!
Menti. Fiquei irritada com a brincadeira dela e se eu falasse que iria comer sozinha, ela ia convencer o Paul a ir junto e íamos acabar os três em algum lugar por aí.
Não que eu não curtisse a companhia deles juntos, mas é que não! Não rolaria continuar assistindo ao episódio quente do mês da novela mexicana ao vivo.
Já estava andando há uns quinze minutos e nenhum lugar parecia bom o bastante para matar minha fome. Em uma sexta, à noite, todos os lugares em Covent Garden ficavam entupidos de gente. Queria comer em algum lugar menos entupido. Me senti meio o Zelig, do Woody Allen, com uma certa fobia social. Não era sempre assim, mas naquela noite queria ficar sozinha e comer em um lugar mais tranquilo. Por isso, eu quis sair.
Pensa, pensa, pensa. Onde é que tem um lugar legal e que não é tão cheio, aqui perto?
Hummm... O The Red.
Era um lugar muito bom. Um desses restaurantes bem cotados, mas que pelo preço nunca lotava e eles tinham um segundo andar. Lembrei que, durante as pouquíssimas vezes em que eu fui lá, sempre ficava mais vazio do que cheio.
Não tinha planejado gastar 150 libras para comer, mas também não estava nos planos eu estar a um passo de abrir um garrafa de conhaque e me embebedar até cair na rua. E sabem o que é pior?
Não fazia a menor ideia do porquê eu queria beber.
Então, seria melhor sentar e gastar todo o dinheiro que eu tinha na bolsa para comer bem, tomar um bom vinho, mas assim que cheguei à porta do restaurante olhei para as minhas roupas — usava uma calça jeans preta e por baixo do casaco uma camiseta branca de malha, informal demais para o ambiente — e dei de ombros.
— Dane-se, vai assim mesmo.
Cruzei a entrada. Por dentro era tudo vermelho e preto. Muito couro e madeira escura. A hostess veio me receber, porque o andar de baixo parecia lotado.
— Oi, boa noite — eu me adiantei.
— Boa noite, senhorita, mesa para...
— Um — eu disse e sorri, tentando parecer simpática.
Ela olhou na tela do tablet.
— Se desse para ser no andar de cima, que é mais vazio... eu prefiro — pedi.
— Só um minuto... — Ela mexeu um pouco mais na tela e disse com um sorriso tão ensaiado que me arrepiou. — Sim, pode ser no andar de cima... eu vou te acompanhar até sua mesa.
— Ok, obrigada.
Subia os últimos degraus, quando ouvi uma risada feminina. Assim que a escada acabou, tracei um scanner visual pelo espaço. Suspirei sinceramente satisfeita ao perceber que, tirando uma mesa grande que estava ocupada, tinha apenas uma mesa a mais com um casal.
A minha mão gelou, o ar deve ter gelado junto porque ficou difícil lidar com ele.
Mas que...
Fiquei tonta.
Mas que filho da puta!
A loira que o acompanhava levantou. Me deu vontade de ser tragada pelo chão e vomitar, não necessariamente nessa ordem.
Ela era uma dessa mulheres irreais, que você acredita que existem só para ferrar com a vida de pessoas normais. A loira passou ao meu lado. Eu só queria sumir.
— Senhorita, a sua mesa é por ali. — A hostess apontou com a cabeça.
— Eu... vocês, fazem comida para... levar?
Ela ficou me olhando como se eu tivesse acabado de desenvolver uma tonalidade verde. Eu devia mesmo estar meio verde de ódio. Tentei dar dois passos para sair do alcance da visão dele. Fiquei na frente da recepcionista.
— Desculpe, senhorita, eu não entendi — ao dizer isso ela se afastou, possivelmente em direção ao lugar que seria a minha mesa. Daniel que até então vinha com o olhar perdido, naquele exato momento, ergueu os olhos e... me viu.
Ele sorriu.
Ele sorria?
As minhas pernas sumiram.
Os olhos dele se estreitaram.
O meu coração ficou enorme e queria sair pela boca.
— Eu... acho que...
Ele levantou.
— Eu desisti de jantar. — Não ouvi o que a hostess murmurou ao meu lado. Virei as costas e fugi. Dei vários passos largos em direção à escada e trombei com a loira.
— Nicole — Daniel disse às minhas costas.
— Desculpe — eu disse para a mulher e alcancei a escada.
Anos de alongamento, treinamento fisico e postural foram por água abaixo diante da confusão que se instalou em segundos dentro de mim. Ou melhor, foram por escada abaixo, eu quase tropecei e caí no final dela.
— Nicole, espere! — Ouvi a voz mais enfática dele atrás de mim.
Mente em branco, porta da saída e rua.
A mente não estava em branco.
Tinha muitos senhores Hunters mortos de maneiras diferentes nela. O ar gelado da noite encheu meu pulmão, mas o que gelou de verdade foi tudo dentro de mim.
Ele mentiu?
Eu já tinha me afastado uns dez metros da frente do restaurante, quando meu passo foi erguido no espaço entre uma pernada e o ar — culpa de uma mão morena e grande fechada em torno do meu braço.
— Nicole, por que você está fugindo?
Respirei fundo. Eu realmente me senti cansada de tudo aquilo, profundamente irritada era mais certo do que cansada. Mas a preguiça de toda aquele situação louca que vivíamos também estava ali. E por causa dela, falei com a voz controlada e baixa.
— Eu não quero que você me explique nada, eu... — Olhei a mão firmemente fechada em torno do meu braço. — Só me solta.
— Meu Deus... como assim? Você não viu a minha mensagem?
— Você disse que iria trabalhar — respondi nervosa.
— Você não está aqui por causa da minha mensagem? — ele repetiu surpreso.
Aí a preguiça virou uma onda eufórica que não consegui entender, até que a onda estourou em uma gargalhada de incredulidade.
— Qual delas?
— Como, qual delas?
— Não perca o seu tempo e vá terminar seu jantar. — Voltei a andar, mas ele me impediu novamente, agora com as duas mãos em meus ombros.
— Eu te chamei para vir para cá, Nicole... Você não viu?
Pisquei fundo, confusa.
— Chamou?
— Olha o seu celular.
Girei de frente para ele, tirei a bolsa do ombro e abri buscando o aparelho. Senti-me meio idiota quando vi a última mensagem do Daniel, enviada há trinta minutos.
“Estou tomando uma bebida com uma amiga no The Red, você não quer vir aqui me encontrar?”
Olhei para ele e, em seguida, para o celular.
Daniel estava um pouco ofegante.
— Você não respondeu.
— Eu nem visualizei. Por que você não me ligou?
Ele olhou para baixo e depois para mim.
— Sei lá, nem passou pela minha cabeça.
Não passou pela cabeça dele?
— Você não ia trabalhar? — perguntei começando a ficar irritada outra vez.
— Ia, mas eu encontrei a Jéssica por acaso na saída do balé, não nos víamos há bastante tempo e... ela é uma amiga de muitos anos e...
— Aí sim te deu uma vontade incontrolável de sair com alguém. — Abri as duas mãos na frente do peito fazendo um gesto de pausa, irritada. Irritada. Irritada.
— Ela é somente uma amiga, eu não a via há muito tempo e não ia me atrapalhar tomar alguma coisa rápida com ela.
Foi aí que a irritação saiu de cena e deu lugar à raiva.
— É isso, ela é uma amiga e não sou nada além de uma bailarina descompensada que convida seu diretor para sair sem parar, há uns... vinte dias... Estou cansada disso e vou para casa.
Cheguei a sentir o impulso do meu corpo na intenção do movimento, só que aquele homem insuportável era grande e forte demais. Ele continuou me segurando como se eu não fosse nada.
Daniel respirou pesadamente.
— Nicole, a verdade é que eu tenho evitado sair com você, porque... porque já é difícil demais sem isso.
Minhas bochechas arderam. Ele se apressou:
— Você tem ideia do que é ter que ver você duas vezes por semana, movendo cada músculo do corpo dentro daquelas roupas? Você tem alguma maldita ideia de como eu passo mais da metade dos ensaios, enquanto sou obrigado a analisar os seus passos? — ele continuou sem fôlego. — E quando aqueles bailarinos, filhos da puta, colocam as mãos no seu corpo e os lábios nos seus, eu quero matar cada um deles, mesmo sabendo que quase todos são gays.
— Não tente me confundir, isso não explica nada, aliás, eu nem quero ouvir a explica...
— Eu não insisti para você vir porque... sabia que a conversa de hoje, com essa minha amiga, traria o passado, eu não quero envolver você nisso, não agora. Nicole, eu...
— Ah sim, além de você ser meu diretor e de não poder me comer, porque é antiético... afinal, eu sou sua aluna virgem e tem todo esse mistério que ronda a sua vida... Nós vamos sentar um dia para conversar e você... você vai me dizer que é um vampiro, ou que uiva para a lua ou que seu sangue é ácido e você mata por prazer.
Seus olhos arregalaram e parte da cor do seu rosto sumiu.
Os dedos que me seguravam, fecharam na curva do meu braço com mais força.
— Ai! — gemi pelo desconforto.
— Nunca mais fale isso, entendeu, sua menina insolente e malcriada!
— Está me machucando.
— Não fale mais isso, fui claro, senhorita Aurora? — exigiu entredentes. A pressão exercida pelas mãos dele aumentou um pouco mais.
— O quê? Que você não me come porque é meu diretor? Ou porque eu sou virgem? — Tentei me desvencilhar. — Seu merda, me solta!
— Isso também.
E ele me beijou.
Eu nunca fui beijada com tanta raiva, posse e vontade. Tentei me soltar, lutar, bater. Mas as mãos dele estavam em todos os lugares, me detendo, segurando, me levando até o impossível. A boca do Daniel ainda brigava com a minha. Fechei os dentes com determinação. Senti lágrimas descerem no meu rosto cheia de raiva e desejo com toda essa demência de situação.
— Você acha que pode me beijar e tudo estará resolvido? — tentei dizer com os dentes travados, enquanto os lábios dele corriam, exigiam, buscavam os meus.
Inspirei o ar pela boca de maneira inconsciente e essa pequena abertura foi o suficiente para que sua língua invadisse a minha boca. A mão que me detinha foi até a minha nuca me impulsionando para dentro. Ele gemeu, os meus músculos cederam, amoleceram.
— Entendeu? — Daniel disse ofegante, sem dar espaço para resposta ou para que eu voltasse a lutar contra o beijo que se aprofundou, mais e mais. Os lábios dele soltavam e exigiam como as escalas da música. — Entendeu agora o que você faz comigo?
O beijo voltou ainda mais intenso, sem a pausa necessária para que o pensamento agisse. Sem pausa não era música, era muito maior do que ela. E quando notei, o puxava. Exigia junto, ofegava e gemia. A língua dele brincava com a minha, ia fundo e saía só pelo tempo suficiente para que respirássemos. Uma de suas mãos imobilizava minha cabeça e a outra corria solta pelas minhas costas por baixo da camiseta, distribuindo choques nos meus ossos e cobrindo meu estômago com deliciosas ondas geladas.
Então, ele parou de me beijar.
— Vamos para o restaurante, eu quero te apresentar a minha amiga — Daniel disse ofegante.
Meus músculos enrijeceram outra vez.
— Vamos, Nicole, pare de ser criança.
Respirei fundo. Será que eu estava mesmo sendo criança?
— Vamos, vou só me despedir dela — ele afirmou.
Estávamos com nossas testas coladas, enquanto suas mãos e braços ainda me envolviam, me seguravam.
— Depois nós vamos para a minha casa, levaremos as coisas de um jeito diferente, ok?
— Diferente?
— Não vamos mais ficar sem nos ver, eu sou adulto, você também, podemos nos controlar por três semanas, não podemos?
Quando dei por mim, eu negava.
— Ah, não podemos? — Notei que tinha diversão na voz dele.
Enchi o pulmão de ar e disse tentando disfarçar:
— Sim, podemos, é claro que podemos, só não sei se quero continuar sem saber nada sobre você e essa conversa que teremos, não sei se quero...
— Nicole, eu sou seu diretor, nós nem deveríamos estar falando sobre quando eu vou fazer você minha por inteiro...
O meu estômago gelou. Eu pensando em transar, e ele falando em... Ai, Deus, me fazer dele. Como ele era intenso.
— O meu passado faz parte do que sou e não posso fugir dele... nós teremos essa conversa quando as apresentações acabarem.
Eu continuei em silêncio e ele veio na minha orelha:
— O motivo da gente não fazer amor a noite inteira é que eu estou tentando manter alguma ética aqui, porque essa conversa que nos aguarda, nós teremos que ter de qualquer jeito.
— Tudo bem — eu disse querendo morrer. Na verdade, queria dizer para a porcaria da ética ir se danar. Acho que ele percebeu.
— Você sabe que se vier à tona que estamos nos vendo, a maior prejudicada vai ser você, não sabe?
— Acho que sim.
Ele ainda falava na minha orelha, e minhas pernas viraram uma geleia. Ética idiota, eu te odeio!
— Entenda, esse é seu primeiro papel. Ninguém acreditaria, por mais talento que você tenha e tem, que você o conseguiu por mérito próprio. É pensando nisso também, na sua carreira, que eu tenho feito o sacrifício de me manter afastado, entendeu?
Eu suspirei, ele tinha razão, era ridículo, machista, mas verdadeiro.
— Vamos tomar cuidado e... — ele bufou. — Que se dane, eu também estou morrendo de saudades. Vamos nos ver sempre que for possível.
Mordi o lábio por dentro e assenti sem entender direito qual a diferença de nos vermos sem transarmos, ou transando, de ética e cama ou sem cama e distância. De conversa sem sexo, ou com sexo e com a tal da ética e conversa. Nada fazia sentido e tudo se encaixava, eu estava louca.
Conhecer a amiga do Daniel foi menos estranho do que eu imaginava. Jéssica demonstrou uma simpatia sincera durante o pouco tempo que permanecemos no restaurante. O Daniel não soltou minha mão, como se achasse que eu ainda tentaria fugir de lá a qualquer instante.
Na hora de me apresentar, ele não soube o que dizer, engasgou e eu completei por ele:
— Uma amiga.
Mas os olhos curiosos da Jéssica foram o tempo todo dele para mim e de mim para as nossas mãos dadas. No final da breve conversa que tivemos, após ele pagar o jantar que já tinham comido, a frase que ela falou ficou martelando na minha cabeça todo o caminho até a casa dele:
Eu fico muito feliz, Daniel, por você estar se dando a chance de conhecer alguém outra vez.
Se dar a chance e outra vez.
Essa era a parte da frase que me fez ficar dando voltas nela.
Ele teve alguém e depois disso, nunca mais. Se dar a chance significava talvez que a experiência não tinha sido muito boa para ele. Que ele precisava, para estar com alguém, superar algum bloqueio. Isso não era novidade para mim, porque era óbvio que ele tinha um ou vários bloqueios com relações. A conversa que teríamos deveria explicar isso também. A curiosidade sobre essa tal conversa não me deixaria em paz.
Ele falou que a Jéssica lembrava o passado dele.
Oh, meu Deus!
Será que era ela a pessoa que ele... Cenas do Daniel com a aquela loira magnífica na cama tomaram minha imaginação. Eu nem precisei abusar da criatividade mental, senti um aperto no estômago e as mãos ficaram úmidas.
Ciúmes.
Ai, que idiotice. Sempre desprezei casais ou pessoas ciumentas demais.
Ali estava eu, ouvindo uma música meio romântica no carro com o Daniel, indo para a casa dele e com a segunda crise de ciúmes da minha vida, pois tive a primeira agora há pouco, no restaurante.
Droga!
— Essa música me lembra o meu ex-namorado. — Ótimo, agora eu voltei a ter doze anos, porque eu queria provocar o mesmo que sentia nele. Queria também tentar extrair outra informação, uma espécie de autotortura admitida.
Ele ficou em silêncio, como se não houvesse escutado. Mas minha criança interna birrenta e insatisfeita, não nos deixaria em paz.
— E você? Tem... quer dizer, teve muitas namoradas?
Música, pneus contra o asfalto, zunido do ar condicionado.
— Uma só.
Aquilo voltou a contorcer meu estômago.
Já notaram como podemos nos tornar seres completamente malucos? Porque naquele momento eu preferia ouvir que ele teve 100 mil mulheres, que ele era um galinha, cafajeste e que... Uma só? Com 26 anos? Porcaria de louca que eu me transformei, culpa desse sentimento que vinha tendo por ele. A verdade é que se ele dissesse muitas, eu também ficaria insatisfeita.
Sorri e tentei digerir o ridículo das minhas emoções.
— Ela deve ter sido especial...
Música, asfalto, minha respiração acelerada.
— Ela foi especial.
Especial. Qualquer um que marca a sua vida poderia ser especial, ou não? Fechei os olhos brava comigo mesma, porque simplesmente não conseguia me segurar.
— Faz tempo que terminaram?
— Bastante tempo. — A voz dele sumiu no final, como se sentisse dor, e aquilo me desmontou. Ele ainda sofria por essa tal namorada e ela podia ser a mulher com quem ele jantava hoje, quando eu cheguei e interrompi.
Ah não, não, não, não! O que estou pensando? Que atrapalhei alguma coisa?
Que se dane, a verdade é que eu odiava todos esses ciúmes que sentia e queria dividir com ele de alguma maneira.
— Eu também tive um namorado só, quer dizer, tive dois, mas o primeiro não conta porque eu era muito nova... O meu ex é professor lá em Oxford, nós também somos muito amigos até hoje...
Música. Ar do carro, minhas bochechas foram esquentando de vergonha pelo meu comportamento infantil. Ignorando todos os alarmes internos da autocensura que já estavam disparados há algum tempo, eu continuei:
— Ele queria ficar noivo em quatro meses de namoro. Eu não me senti pronta para um passo desses, mas é claro que ele é especial e...
Minha voz freou, junto com o carro.
— Chega, Nicole, mas que porra!
Ouvi o meu cinto abrir. Sem entender como, me vi erguida do banco e logo estava sentada no colo do Daniel. As mãos dele cavaram o meu cabelo.
— Você conseguiu me deixar puto de ciúmes, agora chega! — E aí, ele me beijou.
Estávamos na estrada que levava até a casa dele. E ficamos nela até os beijos perderem a conta, até as árvores que nos assistiam pela janela encolherem, até não tocar nada além dos nossos corações sendo um. Paramos antes de levarmos adiante o que eu sabia: que só aconteceria daqui vários dias e depois de uma conversa que começava a me assustar mais do que era saudável e permitido.