Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 14 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 11

“When you are with me

 

I’m free

I’m careless

I believe

Above all the others we’ll fly

this brings tears to my eyes

My sacrifice”

My Sacrifice – Creed

 

Uma mansão coberta de neve estava diante de mim como um sonho. Parecia uma pintura removida de um dos livros que tanto amava da Jane Austen. Em estilo georgiano, logo reconheci pela cor das pedras amareladas, pela simetria das janelas e portas e um portão enorme de ferro oxidado que estava aberto. Fizemos a rotatória e subimos uma ladeira de paralelepípedo. O carro tentou subir, mas, devido à neve forte que caía desde cedo, não conseguiu.

— Pode me deixar aqui que eu subo a pé. Volto em cinco minutos, não se preocupe.

Entretanto, o homem de pele azeitonada e sotaque indiano parecia preocupado. Ele veio rezando e xingando o caminho todo. “Acho que eram xingamentos em hindu”. Bom, não eram em francês, então eu não entendia. Tinha tentado uns vinte táxis antes dele, nenhum aceitou me trazer até aqui. Quando eu mostrava o mapa, eles diziam com toda a polida educação inglesa:

— Não, senhorita, está nevando bastante e não posso arriscar uma viagem dessas.

É claro que arrisquei, afinal, qual era o problema desses motoristas ingleses que tinham medo de um pouco de neve?

Entrei no táxi, que não era um dos pretos tradicionais, e dei graças a Deus por ele ter aceitado a viagem. As duzentas libras que ofereci fizeram toda a diferença.

Tirei o dinheiro das minhas economias para vir até aqui. Duzentas libras era muito dinheiro. Pelo menos, para mim era.

Já me sentia louca antes mesmo de chegar na metade do caminho. Quando entramos na pior parte do trajeto, em uma subida sinuosa e estreita, que fazia o pneu do carro deslizar e cantar junto com a neve a cada cem metros, eu comecei rezar junto com o motorista. Entendi todos os taxistas sensatos que não me trouxeram, meu medo de morrer só acabou quando o quadro da mansão se abriu à minha frente.

Valeu a pena.

Maravilhoso.

Era uma casa no meio da natureza branca, agora no inverno. Na primavera, devia ser o retrato de qualquer coisa dos contos de fadas. Foram mais de três horas de viagem. Que loucura, meu Deus!

O último ponto de civilização foi deixado para trás há mais de vinte minutos.

Depois de várias subidas, me deparei com esse lugar mágico.

— Senhorita... — Ouvi a voz cheia de sotaque do motorista.

Abri porta e disse outra vez:

— Me aguarde, eu já volto.

— Acerte a corrida agora, senhorita.

Fiquei em dúvida, mas não discuti, afinal ele também teve medo de morrer.

— O senhor vai me esperar para voltar, não é?

— Sim, sim, sim, mas volte logo, essa neve está piorando e a descida vai ser pior do que a subida.

— Ah, meu Deus! — Corri para fora do táxi e comecei a subir.

Vi uma fonte de dar alegria a pássaros e toda a família de bichinhos das fábulas infantis, continuei subindo e...

Ai, merda, um escorregão! Apoiei as mãos enluvadas no chão.

Dei graças a tantas roupas. Levantei e continuei andando decidida até a casa, que ficava maior a cada passo. Ela queria engolir minha determinação.

O que estou fazendo aqui?

Por que, Cristo, eu estou aqui?

Na porta principal, a maçaneta e a campainha eram douradas. Fiquei sem fôlego pela subida, sem ar pelo entendimento tardio do ridículo que aquilo seria.

Toquei a campainha.

Toda a minha resolução lógica escorreu como gelo no contato com o fogo.

Pelo amor de Deus, não esteja em casa. Não esteja em casa.

Alguém me tira daqui.

Por que eu fui fazer isso? Ai, meu Deus!

Assim que a porta se abriu vi um senhor de meia-idade, com bigode branco e paletó estilo inglês.

— Bom... — A voz ficou em algum lugar entre a subida e a resolução escorrida.

Limpei a garganta.

— Entre, senhorita, por favor.

Apenas assenti e dei alguns passos tímidos para o interior da mansão.

Meu Deus todo-poderoso.

Um lustre de cristal maior que o Tamisa pairava sobre a minha cabeça. Meus olhos embasbacados percorreram com agilidade o que conseguiram alcançar: cortinas de seda, papel de parede de tecido? Sim, iguais aos do Palácio de Buckingham.

Respira, respira, respira.

Escada circular alta. Portas, corredor, uma sala entreaberta e ouvi o som de um piano.

O mestre estava em casa.

Somente após o tour visual é que lembrei que tinha uma pessoa na minha frente, possivelmente aguardando. Foi só aí que reparei que não tremia de frio e sim de nervoso, porque eu não queria mais estar ali.

Estava me achando meio bipolar.

Eu também estava. Quem enfrenta tudo o que eu tinha enfrentado para chegar ali e ser tragada por um buraco e expelida para fora, só pode sofrer de algum transtorno.

Engoli em seco outra vez e resolvi fingir que ainda tinha um pouco de normalidade naquela situação.

— Eu... só... vim entregar... — Estendi a pasta e, merda, minhas mãos tremiam.

— Que bom, Daniel ficará muito feliz em saber que a senhorita... — O senhor ergueu as sobrancelhas, aguardando.

— Alves — eu disse ao mesmo tempo que afirmava com a cabeça.

— Encontrou a pasta dela — ele completou. — Vou pedi-lo para vir recebê-la. A propósito... — Ele estendeu a mão. — eu sou o secretário dele, pode me chamar de Clark.

— Muito prazer — eu disse e apertamos as mãos.

— Agora, vou avisar que a senhorita está aqui e...

— Não! — Quando percebi já tinha gritado. O homem deu um pulinho para trás e tentei corrigir. — Hum... quero dizer, muito obrigada, senhor, mas não incomode seu mestre, quer dizer, o seu sen... o senhor Hunter... Ele parece que está... — Bati no ouvido. — tocando.

— Sim, ele sempre está — ele disse, já se virando de costas e completou: —, mas tenho certeza de que fará questão de lhe agradecer pessoalmente — dizendo isso, o senhor Clark desapareceu.

Fiquei sozinha com o lustre do tamanho do rio sobre a minha cabeça e com o som do piano que parou, porque o senhor Hunter foi interrompido.

E cadê a porcaria do buraco da fuga dos desenhos animados?

Eu também podia fugir pela porta, sair correndo, entrar no táxi e... Não! Seria ainda mais ridículo ser pega fugindo, rolando ladeira abaixo, até o táxi. Não, isso estava fora de cogitação.

Eu olhava para os meus pés, para as botas de neve neles, elas estavam... cheias de folhas e...

— Senhorita Aurora? — Essa voz de barítono que fez o lustre e os cristais, talvez até mesmo a escada tremer, era do senhor Hunter. Então, a desculpa maravilhosa de como havia encontrado a sua pasta e que passei um tempão ensaiando antes de chegar ali me pareceu a coisa mais ridícula que alguém poderia contar. Até mesmo o senhor Hunter, que nunca deve ter rido na vida, gargalharia na minha cara.

Sorri com os lábios trêmulos, não restava o que pudesse ser feito e disse:

— Eu...vim trazer sua pasta.

— Sim, eu soube, o senhor Clark me entregou. — Ele estreitou o olhar. — A senhorita veio de Londres até aqui?

— Não, quer dizer... sim.

O cenho dele franziu ainda mais, se é que isso era possível.

— E onde a senhorita encontrou a minha pasta?

— Bom, eu estava no ensaio... é claro que sim, porque o senhor também estava lá ontem e... quando acabou, eu logo vi que não estava com a minha corrente de ouro.

Por acaso fazia um frio de menos de dez graus lá fora? Por que todos os meus poros suavam, enquanto eu lutava para encontrar as palavras? Os dois homens me encaravam aguardando, eu respirei fundo e prossegui:

— Quer dizer, quando cheguei em casa, me dei conta de que ela devia ter caído em algum lugar do balé, essa daqui, olha. — Enfiei a mão por dentro do blusão e puxei a correntinha...

Sabe a teoria daquele filho da mãe do Murphy? Eu comprovei que ela podia ser real, porque a merda da corrente enganchou na minha blusa e não conseguia puxá-la para fora das dez camadas de tecido que vestia. Tentei, puxei, virei e senti o rosto arder.

— Está bem, senhorita, não precisa se enforcar para mostrar a corrente, eu já entendi.

Eu quis sorrir em uma tentativa inútil de demonstrar simpatia, mas não consegui.

— É uma bailarina de ouro que eu ganhei da minha mãe... É muito importante pra mim. — Encolhi os ombros. — Aí, eu fui até a sala de ensaio procurá-la, que por sorte ainda estava aberta, apesar de não ter quase ninguém no prédio e... voilà, encontrei a corrente e a sua pasta. — Fechei os olhos ao perceber que tinha soltado uma palavra em francês e, ao entender que ele poderia achar que eu fui irônica com a mania dele, abri os olhos e encontrei o senhor Hunter me encarando sem emitir som nenhum, nem em francês, nem em inglês. Tentei me corrigir:

— Não foi uma provocação, senhor, quer dizer... não o fato de estar aqui com a sua pasta que eu sabia que era sua, porque o senhor vive agarrado com ela, mas a última palavra em francês... não foi uma provocação... eu sempre falo voilà. Falo demais, aliás, eu gosto de usar algumas palavras em francês. — Porcaria! Que horror. Nunca, nunca, nunca tentem corrigir um fora, fica muito pior.

— Na sala de ensaio? — o maestro perguntou.

— O quê?

— A minha pasta. — Ele me lançou um olhar curto, parecia desconfiado.

— Sim, senhor.

— Tinha certeza de que havia deixado em outro lugar.

— Não, senhor, a não ser, é claro, que ela tenha andado de alguma maneira até lá... Porque, como eu disse — bati no peito para dar força às palavras —, foi na sala de ensaio que a encontrei.

— Por que a senhorita não entregou para alguém ou simplesmente não esperou até o próximo ensaio para me entregar?

— Não tinha mais quase ninguém no balé, e porque imaginei que a pasta fosse importante para o senhor.

— E aí fez uma viagem de três horas, embaixo dessa nevasca, só para me trazer?

— Sim, senhor.

— Senhorita Aurora, eu não sei o que pretende com isso, mas saiba que não foi nada sensato vir dirigindo até aqui em uma condição dessas. — Ele apontou para a janela onde a neve se acumulava.

— Ah não, não — Abanei as mãos no ar em um gesto displicente. — Não vim dirigindo, vim de trem e de táxi.

— A senhorita veio de trem e de táxi? — Ele arregalou os olhos.

Ah, meu Deus, dava para ficar pior? Acho que não.

— Eu não tenho carro.

Ele abriu as duas mãos no ar como se tivessem um milhão de perguntas não respondidas na mente e devia ter. Ao menos, elas estavam na minha. Um milhão de vezes a mesma pergunta repetida. Por que eu estou aqui?

— Então é isso, tenha um excelente dia e feriado e até a próxima.

Até a próxima? Até a próxima o quê? Até a próxima vez que eu vou bancar uma completa idiota na sua frente? Sacudi a cabeça. Olhei para a porta e o senhor Hunter se aproximou.

— Eu vou acompanhá-la até o táxi e olhar a cara do maluco que aceitou te trazer até aqui embaixo dessa neve.

— Não, não precisa.

— Eu quero fazer isso — disse ele —, não estou perguntando se você acha que é preciso.

Engoli em seco e sorri. Acho que metade da minha boca sorriu, porque a outra ficou petrificada por absoluto e puro constrangimento.

 

Após descer parte da rampa sem encontrar o táxi, meus olhos não acreditavam no que viam e meu coração já estava em Londres de tão rápido que surrava o peito.

— Onde ele está? Eu deixei ele bem aqui, pedi que me esperasse... ele, ele... — falei olhando para todos os lados e desci rapidamente a rampa até alcançar o portão.

Ouvi os passos do senhor Hunter atrás de mim. Foquei na estrada, que era visível abaixo uns bons quilômetros, e adivinhem? Nem sombra do táxi-bordo que me conduziu até a maior estupidez da minha vida. Sem saber o que fazer ou falar continuei procurando.

— Senhorita Aurora — senhor Hunter disse com o tom de voz que extrapolava a prepotência. — O táxi não está atrás das árvores... Ele não caberia aí.

O meu rosto deve ter ficado no tom mais vermelho de todo o cosmos. O que eu estava fazendo? Procurava o carro como uma alucinada, como se o táxi, aquele veículo enorme e chamativo, pudesse ter virado um carrinho de brinquedo ou uma joaninha.

— Não, é claro que não, eu sei disso, é somente que...

Parei ao ver o senhor Hunter abaixar no chão e mexer na neve e nas folhas secas.

— Como pode ver, o táxi também não está coberto pela neve, nem embaixo das folhas, sendo assim, acredito que ele foi embora.

Esse cara barbudo aí na minha frente era bem irônico.

— Tudo bem — eu coloquei as mãos na cintura um pouco ofegante —, eu chamo outro.

O maestro estourou em uma gargalhada, mas não achou a menor graça.

— Inferno — ele murmurou —, você não vai conseguir. — E praguejou de novo. — Nenhuma pessoa inteligente se arriscará em dirigir por essa estrada embaixo de uma nevasca dessas.

Ele tinha me chamado de burra, ou foi impressão minha?

— Eu sei que vou conseguir, humpf — bufei, inconformada. — É claro que algum táxi vai poder me buscar...

— Se você não vê ou escuta a previsão do tempo, deixa eu te informar.

Ele, que estava de costas para mim, virou-se para me dizer com os olhos brilhando.

— Há dias, todos os veículos de informação do Reino Unido alertaram para a maior nevasca dos últimos cem anos, e adivinhe qual a área mais atingida? — Ele não esperou pela resposta. — Essa daqui — concluiu e girou o corpo subindo em direção à casa. A neve que caía forte já tinha coberto nossos ombros de branco e...

— O que isso significa? — perguntei zonza de puro nervosismo.

— Eu vou pegar o carro do Clark e te levar de volta.

E subiu grunhindo uma frase que me pareceu: — Puta que pariu, mas que saco!

Engoli a vontade de chorar e o que restava do meu orgulho e fui atrás dele.