Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 39 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 36

“I let the melody shine, let it cleanse my mind, I feel free now

 

But the airways are clean and there’s nobody singing to me now”

Bittersweet Symphony – The Verve

 

Estreia.

Ninguém imagina o que é dançar em um dos teatros mais absurdos do mundo em uma das montagens mais extraordinárias já vistas, até fazer isso.

Mais de duas mil pessoas em pé aplaudindo.

Delírio.

Nos dois dias que seguiram depois da conversa com o Daniel, eu tranquilizei meu coração, minha mente e deixei o balé voltar a reger a minha vida. Não foi difícil, porque isso era natural em mim. O que estava acontecendo, toda aquela historia mal explicada, é que vinha me tirando do sério. Ninguém pensa como o coração está batendo, ou como será a próxima batida, a não ser que algo não vá bem com ele.

Essa metáfora cardiológica foi bem próximo ao que rolou comigo.

Eu não estava bem e o balé deixou de ser o meu compasso natural.

Por mais estranho que possa parecer, depois da conversa quando eu entendi tudo, principalmente depois que decidi que isso não mudaria nada. Eu queria tentar o que quer que fôssemos tentar juntos, o balé voltou a circular nas minhas células como oxigênio.

Oxigênio que era respirado através do meu corpo pela música do Daniel, em cima do palco. Eu nunca imaginei que dançar poderia ganhar um outro significado, ainda mais forte e incompreensível que antes. Foi como alcançar uma dimensão inexplicável e quase mística, algo impossível de se colocar em palavras. Dançar através da música que Daniel fazia foi muito mais que isso. Ele regia e meu corpo traduzia em movimentos.

Foi o mais próximo ao estado de perfeição que eu já alcancei enquanto dançava. Os aplausos que recebia e a comoção dos outros bailarinos eram a prova disso.

Era como se Daniel tocasse para eu dançar e foi além, era como se o meu corpo tivesse sido feito para dançar a música que vinha de dentro dele.

Aplausos, lágrimas nos olhos, mais aplausos e assobios e... meu Deus!

Ivo, Nathalia e muitas pessoas me abraçaram e se abraçavam quando as cortinas fecharam.

Flores, eu segurava flores na mão?

Sim, nem me lembro quem as entregou.

Fui cumprimentada por diversas pessoas nos bastidores: diretores, o pessoal do cenário, do figurino e os outros bailarinos, a verdade é que todos se cumprimentavam e se reconheciam — uma entrega ao sucesso.

Entorpecida em meio a uma nuvem de surrealidade e máxima alegria, tinha o maior sentimento de realização da vida.

Me emocionei com cada um dos cumprimentos e elogios, a ponto de não saber quanto tempo havia passado desde que a peça encerrou.

Assim que entrei no camarim, liguei para minha mãe e choramos juntas ao viva-voz no telefone.

Nathy veio me dizer que me esperava na saída.

Eu estava quase pronta para ir embora, quando ouvi duas batidas firmes na porta.

— Entra — disse fechando o casaco de plush que vestia.

Pelo espelho, vi Daniel entrar e ocupar todo o camarim, de fraque e cabelos mais curtos. Acho que ele havia cortado o cabelo mais cedo, antes da estreia. Os fios ainda eram longos, mas o maior deles batia na altura da orelha. Daniel estava lindo. Eu tinha mandado uma mensagem de texto para ele mais cedo, dizendo que queria vê-lo, para conversarmos. Ele respondeu que ficaria em Londres durante os dias de apresentação e que podíamos marcar alguma coisa quando eu achasse mais fácil.

Mergulhei tanto na adrenalina da estreia, que ainda não tinha respondido-lhe que queria conversar hoje, o mais rápido possível.

Teríamos um dia de descanso e só haveria outra apresentação depois de amanhã. Queria conversar agora.

— Parabéns, senhorita Aurora — ele disse. Eu o abracei e ele deu dois beijos tímidos no meu rosto e se afastou com um educado distanciamento. Não entendi o que acontecia, até ver o corpo atarracado e rechonchudo do senhor Evans atrás dele.

— Parabéns, Nicole! — senhor Evans falou e apertou minha mão, entusiasmado. Depois que a soltou, deu dois tapas firmes no ombro do Daniel dizendo:

— Parabéns a você também, meu amigo, já lhe disse o quanto foi extraordinário contar com a sua música nesse balé hoje, não disse?

— Sim, Evans, obrigado mais uma vez.

— Eu é quem agradeço duplamente, porque, afinal, se não fosse a sua insistência, desde o começo, para mantermos a senhorita Alves no papel principal, eu e minha cega teimosia, não permitiria que esse talento brilhante aflorasse no palco... Como ela provou hoje, é mais do que merecido o lugar que ocupa.

Eu perdi o ar e as palavras, acho que o meu coração desviou todo o sangue do corpo para cabeça. Os meus olhos turvaram. Ele? Daniel? Foi ele quem insistiu para me manter e não ao contrário, como dizia? Busquei a confirmação com o olhar, mas o par azul à minha frente desviou da interrogação.

— Imagina, eu não fiz nada além de tentar dar o meu melhor — ele afirmou contendo um sorriso.

— Você pode não ter herdado o talento da sua tia com a dança, mas certamente herdou a capacidade dela em reconhecer jovens talentos.

O homem soltou o ar pela boca e concluiu com expressão divertida:

— Estou ficando velho e cansado, acho que posso me aposentar, além de um maestro genial, você daria um excelente diretor artístico.

— Não, não, não! Nem pense em uma coisa dessas, eu deixei claro que esse seria o único balé que regeria, fiz isso por minha tia e pelo senhor, antes que me enlouquecessem.

— Eu te garanto, meu rapaz, depois do sucesso de hoje, eu, e se conheço a sua tia, além de toda a crítica e público, não lhe deixaremos mais em paz enquanto você não unir de vez esses dois talentos.

— Chega, Evans, estou de muito bom humor para que você o estrague... E, por falar em minha tia — ele olhou para mim —, ela está no lobby do balé e quer conhecê-la.

Eu sentia alguma dificuldade para articular as palavras porque a informação de que foi o Daniel quem lutou para que eu tivesse o papel principal ainda martelava os meus neurônios. A voz do senhor Evans me chamou a atenção:

— Bom, eu vou deixá-los, estou esgotado e já estive com sua tia hoje, se não se importam.

— Boa noite, Evans — eu disse.

— Parabéns, mais uma vez, Nicole. Você foi sublime!

Meus lábios tinham vida própria e sorriam sozinhos a cada cumprimento.

— Vamos? A senhora Scodelario nos aguarda. — O Daniel me ofereceu o braço.

“Sim, com você vou para qualquer lugar”, eu quis responder. Porém, em vez disso concordei em silêncio, porque minha voz ainda estava tomada de tudo que uma pessoa era capaz de sentir.