Senhorita Aurora
Capítulo 37
“You are the snowstorm
I’m purified
The darkest fairytale
In the dead of night”
Salvation – Gabrielle Aplin
— Ela é ainda mais adorável assim, a pouca distância — disse a senhora Olívia, enquanto segurava um monóculo entre os dedos compridos, herdados da família do Daniel.
— Obrigada — respondi um pouco tímida, ela era um fenômeno no balé e em tudo o que dizia respeito a ele.
— Não, não, eu quem agradeço, minha jovem, e a você, meu sobrinho, é claro, por ter me dado o privilégio e o presente de assistir um balé regido e dirigido por sua maestria.
— Um dia tinha que acontecer, não é? — Daniel respondeu sem tirar os olhos de mim.
Olívia entreolhou-nos e me examinou mais uma vez sem a menor ponderação. Eu me senti uma escultura viva do Godin.
— Qual é seu nome mesmo, senhorita Alves?
— Nicole, senhora.
— Ah, sim, sim, é verdade.
Ela largou os olhos dos meus e se virou para o Daniel.
— E você, graças a Deus que tirou aquela barba horrível. — Ajustou o monóculo como uma personagem de um livro de suspense antes de acrescentar: — Penso se devemos essa mudança a alguém?!
Não era à toa que Olívia Scodelario era temida e admirada, parecia ler tudo nas entrelinhas, uma pessoa que tinha tecla SAP para entender emoções ocultas. O meu rosto esquentou porque ela agora olhava para mim.
— Devemos a alguém sim, devemos a minha incapacidade com a tesoura que ao invés de aparar umas pontas abriu um buraco no meio dela — Daniel respondeu e eu olhei para o chão.
— Hummm... certo — disse ela. — pena que essa incapacidade demorou cinco anos para aparecer.
Eu ainda olhava para o chão, mas sabia que Olívia me encarava. O meu rosto deve ter deixado mais do que claro que a senhora Scodelario tinha razão nas deduções que fazia, porque ele estava ainda mais quente, entende-se: vermelho.
— O balé do mundo tem uma grande sorte em encontrar talentos como o seu, senhorita Alves.
— Obrigada — respondi e encarei-a.
Ela tinha um resquício de sorriso nos lábios.
— E talvez alguém mais tenha muita sorte também — ela terminou olhando para Daniel, que continuou com a expressão inalterada. Ele devia estar acostumado com a tia.
Após nos despedirmos dela, Daniel me olhou com um sorriso torto nos lábios como se soubesse o que eu pensava.
— Ela é assim — ele encolheu os ombros —, sempre opinando e querendo adivinhar sobre tudo e todos.
— Ela acerta?
O sorriso torto ficou mais visível.
— Muitas vezes... É irritante.
— Daniel, nós podemos conversar? — Eu fui direto ao assunto.
Os olhos dele aumentaram por uma fração de segundos. Mas eu o conhecia. Já tinha percebido que o rosto do Daniel, quase sempre impassível, mostrava as emoções com pequenos gestos, tipo aquele. Acho que ninguém nunca conhece outra pessoa totalmente. E quando essa outra pessoa é assolada por implosões de desgraças na vida e tem que manter a fachada de “está tudo bem”, isso pode se tornar um buraco quase sem fim. Eu mesmo carregava a minha cota de traumas. A vida não faz pessoas fortes; ela te joga os desafios e você escolhe se vai deixar que eles te atropelarem, ou se vai passar por cima. No meu caso, quanto mais a vida tentava me mostrar que eu era ferrada, mais eu mergulhava no balé. Acho que para o Daniel esse mergulho veio na música. Ali, enquanto olhava nos olhos dele, me perguntei em silêncio se havia encontrado outro mergulho. Meu coração disparou e contou que sim. Minha decisão em continuar com isso era outro sintoma de que talvez o mergulho já tivesse sido dado.
Daniel estava pensando, ele não esperava pelo meu pedido, talvez, não tão cedo.
— Agora? — A resposta interrogativa era a confirmação de que ele não esperava mesmo.
— Agora... Eu só preciso me despedir da Nathy que está me esperando lá na frente. — Olhei em direção à porta do balé. — Se você puder, é claro.
— Eu, hum... posso... Posso sim.
— Então, você me encontra na frente da minha casa?
— Ok. E para onde você quer ir?
— Não sei... Qualquer lugar tranquilo... Mas deixa eu escolher porque o último lugar tranquilo que estivemos juntos foi meio... bem pesado. — Tentei sorrir, tudo aquilo ainda parecia loucura demais.
— Não... quer dizer sim, tudo bem, você escolhe.
— Seu apartamento?
— Oi?
— Vamos para o seu apartamento. — Ele me olhou com tantas perguntas que eu senti o estômago gelar.
— Ok, em vinte minutos eu passo na frente do seu prédio e te pego.