Senhorita Aurora
Capítulo 25
“When you cry a piece of my heart dies,
Knowing that I may have been the cause,
If you were to leave, fulfill someone elses dreams,
I think I might totally be lost.”
The Girl – City and Colour
— Por que você saiu de novo com aquele ogro vestindo o corpo de um deus surreal?
A Nathalia me esperava no sofá, possivelmente para torrar minha paciência durante horas.
O Daniel veio me trazer em casa depois do jantar e as coisas esquentaram entre nós.
Esquentaram tanto, que achei que a ordem dos planetas no sistema solar tinha sido alterada: Sol, porta do meu prédio, Mercúrio, Vênus...
Nada de outro mundo, nós nos deixamos levar e quase transamos na frente do meu apartamento. Quase, eu disse, quase.
Foi um amasso na maldita rua, para ser mais precisa.
Absolutamente tudo do outro mundo.
O cara era meu diretor. Porcaria!
Então, antes de perder o controle, o Daniel — entendam, não eu, porque o meu controle estava perdido — se afastou e disse que nós não podíamos mais levar as coisas naquele ritmo. Não até que as noites de apresentações acabassem e antes da conversa que teríamos.
Concordei, não queria, mas concordei. Agora, entrando em casa, depois da cena de sexo com roupas, na rua de Londres, não queria convencer a Nathalia de nada. Mas tinha que responder, porque ela não me deixaria em paz se eu não respondesse.
— Porque ele beija como um deus do sexo — falei tentando dar uma de boba.
Ela me olhou em silêncio por um tempo, parecia pensar o que falar.
— Ele ficou lindo sem aquela cabeleira facial, mas nada, nada, por melhor que seja o beijo, compensa aquela grosseria toda.
Eu sacudi a cabeça.
— Ele só é assim nos ensaios, fora... é diferente, gentil e amigo.
— Pago para ver.
— Na verdade, ele disse que queria sair conosco, nós três.
— Ele? O senhor Hunter disse isso, ou você o induziu?
— Não, quando notou que estava escrevendo uma mensagem para você, ele falou espontaneamente que queria sair conosco — contei e apoiei a bolsa no balcão.
— O que ele imagina com isso?
— Como assim? — Meus olhos aumentaram de tamanho.
— Sei lá, Ni, ele não parece ser o cara sociável e simpático que quer fazer um “H” com a amiga da garota que está pegando, vai ver que ele fantasia com duas bailarinas na cama.
— Eu vou deletar essa sua última frase — disse um pouco irritada.
— Ok, eu vou com vocês, até para ver como o maluco se comporta quando não está gritando.
Suspirei.
— Ele é uma boa pessoa, Nathy, de verdade.
Ela ficou em silêncio outra vez, apenas me olhando.
— Deve ser mesmo, porque para merecer o seu coração, um homem tem que ser alguém incrível.
— Coração, Nathalia? Que exagero!
— Hum-hum, admitir para si mesmo que está de quatro é difícil, eu entendo.
— Não seja ridícula, eu não estou de quatro.
Ela bocejou.
— Se você diz... quem sou eu para contestar — disse irônica. Não respondi, porque sabia que se respondesse, nós iríamos discutir como duas irmãs velhas rabugentas e orgulhosas.
Tinha acabado de pegar no sono e despertei com o barulho do celular. Peguei o aparelho, digitei a senha e li: 02:00 AM.
Danie l: Aurora, vc está acordada? Nicole: Mais ou menos.
Danie l: Como assim? Você escreve dormindo?
Nicole: Não, mas eu estava dormindo.
Danie l: Te acordei?
Nicole: Mais ou menos.
Danie l: Como assim?
Nicole: Eu estava quase dormindo. rs.
Daniel: Não vou pedir desculpas. Fico feliz por você estar me respondendo.
Nicole: Você é meio “mal-educado”, sabia?
Danie l: Você está brincando?
Nicole: Mais ou menos. rs.
Danie l: Não estava conseguindo dormir.
Nicole: Por quê?
Danie l: Sem sono.
Nicole: Quer que eu cante para você dormir?
Danie l: Vou aceitar.
Nicole: Dorme, Daniel, que a Cuca vem pegar.
Danie l: Quem?
Nicole: Haha. É um personagem do folclore brasileiro. Espera, vou dar um print na foto...
Danie l: Um jacaré verde com cabelos? Nicole: A Cuca.
Danie l: Estou um pouco chocado ainda. Que porra é essa?
Nicole: A Cuca, não brinque com o folclore do meu país.
Danie l: Mas é um jacaré loiro.
Nicole: Cuidado, ela é uma bruxa.
Danie l: O jacaré é fêmea? :o
Nicole: Pare! Vocês também têm coisas esquisitas.
Danie l: Tipo o quê?
Nicole: Tipo... tipo... Robin Goodfellow.
Danie l: Ele não é esquisito, ele é um menino travesso.
Nicole: É, com orelhas de fada.
Danie l: Não, não dá para comparar. Robin Goodfellow é um ícone da cultura inglesa.
Nicole: Um Peter Pan endiabrado.
Danie l: rs. Está certo, folclore é uma coisa meio esquisita, em qualquer lugar.
Nicole: Eu acredito.
Danie l: No jacaré?
Nicole: Haha. Não, em fadas e gnomos.
Danie l: Boa noite, Nicole.
Nicole: Oi?
Danie l: Não vou continuar conversando com uma menina que acredita em fadas, vai que isso é contagioso. Nicole: Daniel, sumo senhor da seriedade, tomara que seja.
Danie l: Contagioso?
Danie l: Não vai responder?
Danie l: Nicole?
Danie l: Ei, era brincadeira. Juro...
Nicole: rs.
Danie l: Achei que vc tinha ficado brava... Acho bonitinho você acreditar.
Nicole: Bonitinho?
Danie l: E meiguinho.
Nicole: Meiguinho? Outra vez... Ah, sério, não me enche o saco.
Danie l: Chocolate, onde está o seu chocolate?
Nicole: Haha. Seu insuportável, acho que não gosto de você.
Danie l: Eu... gosto de você, muito.
Nicole: Eu... também.
Danie l: São quase três da manhã.
Nicole: Nossa, que tarde! Boa noite então.
Danie l: Durma com os anjos.
Nicole: Achei que você não acreditava...
Danie l: Acho que é contagioso... Bons sonhos, senhorita Aurora.