Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 28 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 25

“When you cry a piece of my heart dies,

 

Knowing that I may have been the cause,

If you were to leave, fulfill someone elses dreams,

I think I might totally be lost.”

The Girl – City and Colour

 

— Por que você saiu de novo com aquele ogro vestindo o corpo de um deus surreal?

A Nathalia me esperava no sofá, possivelmente para torrar minha paciência durante horas.

O Daniel veio me trazer em casa depois do jantar e as coisas esquentaram entre nós.

Esquentaram tanto, que achei que a ordem dos planetas no sistema solar tinha sido alterada: Sol, porta do meu prédio, Mercúrio, Vênus...

Nada de outro mundo, nós nos deixamos levar e quase transamos na frente do meu apartamento. Quase, eu disse, quase.

Foi um amasso na maldita rua, para ser mais precisa.

Absolutamente tudo do outro mundo.

O cara era meu diretor. Porcaria!

Então, antes de perder o controle, o Daniel — entendam, não eu, porque o meu controle estava perdido — se afastou e disse que nós não podíamos mais levar as coisas naquele ritmo. Não até que as noites de apresentações acabassem e antes da conversa que teríamos.

Concordei, não queria, mas concordei. Agora, entrando em casa, depois da cena de sexo com roupas, na rua de Londres, não queria convencer a Nathalia de nada. Mas tinha que responder, porque ela não me deixaria em paz se eu não respondesse.

— Porque ele beija como um deus do sexo — falei tentando dar uma de boba.

Ela me olhou em silêncio por um tempo, parecia pensar o que falar.

— Ele ficou lindo sem aquela cabeleira facial, mas nada, nada, por melhor que seja o beijo, compensa aquela grosseria toda.

Eu sacudi a cabeça.

— Ele só é assim nos ensaios, fora... é diferente, gentil e amigo.

— Pago para ver.

— Na verdade, ele disse que queria sair conosco, nós três.

— Ele? O senhor Hunter disse isso, ou você o induziu?

— Não, quando notou que estava escrevendo uma mensagem para você, ele falou espontaneamente que queria sair conosco — contei e apoiei a bolsa no balcão.

— O que ele imagina com isso?

— Como assim? — Meus olhos aumentaram de tamanho.

— Sei lá, Ni, ele não parece ser o cara sociável e simpático que quer fazer um “H” com a amiga da garota que está pegando, vai ver que ele fantasia com duas bailarinas na cama.

— Eu vou deletar essa sua última frase — disse um pouco irritada.

— Ok, eu vou com vocês, até para ver como o maluco se comporta quando não está gritando.

Suspirei.

— Ele é uma boa pessoa, Nathy, de verdade.

Ela ficou em silêncio outra vez, apenas me olhando.

— Deve ser mesmo, porque para merecer o seu coração, um homem tem que ser alguém incrível.

— Coração, Nathalia? Que exagero!

— Hum-hum, admitir para si mesmo que está de quatro é difícil, eu entendo.

— Não seja ridícula, eu não estou de quatro.

Ela bocejou.

— Se você diz... quem sou eu para contestar — disse irônica. Não respondi, porque sabia que se respondesse, nós iríamos discutir como duas irmãs velhas rabugentas e orgulhosas.

 

Tinha acabado de pegar no sono e despertei com o barulho do celular. Peguei o aparelho, digitei a senha e li: 02:00 AM.

 

Danie l: Aurora, vc está acordada? Nicole: Mais ou menos.

 

Danie l: Como assim? Você escreve dormindo?

 

Nicole: Não, mas eu estava dormindo.

 

Danie l: Te acordei?

 

Nicole: Mais ou menos.

 

Danie l: Como assim?

 

Nicole: Eu estava quase dormindo. rs.

 

Daniel: Não vou pedir desculpas. Fico feliz por você estar me respondendo.

 

Nicole: Você é meio “mal-educado”, sabia?

 

Danie l: Você está brincando?

 

Nicole: Mais ou menos. rs.

 

Danie l: Não estava conseguindo dormir.

 

Nicole: Por quê?

 

Danie l: Sem sono.

 

Nicole: Quer que eu cante para você dormir?

 

Danie l: Vou aceitar.

 

Nicole: Dorme, Daniel, que a Cuca vem pegar.

 

Danie l: Quem?

 

Nicole: Haha. É um personagem do folclore brasileiro. Espera, vou dar um print na foto...

 

Danie l: Um jacaré verde com cabelos? Nicole: A Cuca.

 

Danie l: Estou um pouco chocado ainda. Que porra é essa?

 

Nicole: A Cuca, não brinque com o folclore do meu país.

 

Danie l: Mas é um jacaré loiro.

 

Nicole: Cuidado, ela é uma bruxa.

 

Danie l: O jacaré é fêmea? :o

 

Nicole: Pare! Vocês também têm coisas esquisitas.

 

Danie l: Tipo o quê?

 

Nicole: Tipo... tipo... Robin Goodfellow.

 

Danie l: Ele não é esquisito, ele é um menino travesso.

 

Nicole: É, com orelhas de fada.

 

Danie l: Não, não dá para comparar. Robin Goodfellow é um ícone da cultura inglesa.

 

Nicole: Um Peter Pan endiabrado.

 

Danie l: rs. Está certo, folclore é uma coisa meio esquisita, em qualquer lugar.

 

Nicole: Eu acredito.

 

Danie l: No jacaré?

 

Nicole: Haha. Não, em fadas e gnomos.

 

Danie l: Boa noite, Nicole.

 

Nicole: Oi?

 

Danie l: Não vou continuar conversando com uma menina que acredita em fadas, vai que isso é contagioso. Nicole: Daniel, sumo senhor da seriedade, tomara que seja.

 

Danie l: Contagioso?

 

Danie l: Não vai responder?

 

Danie l: Nicole?

 

Danie l: Ei, era brincadeira. Juro...

 

Nicole: rs.

 

Danie l: Achei que vc tinha ficado brava... Acho bonitinho você acreditar.

 

Nicole: Bonitinho?

 

Danie l: E meiguinho.

 

Nicole: Meiguinho? Outra vez... Ah, sério, não me enche o saco.

 

Danie l: Chocolate, onde está o seu chocolate?

 

Nicole: Haha. Seu insuportável, acho que não gosto de você.

 

Danie l: Eu... gosto de você, muito.

 

Nicole: Eu... também.

 

Danie l: São quase três da manhã.

 

Nicole: Nossa, que tarde! Boa noite então.

 

Danie l: Durma com os anjos.

 

Nicole: Achei que você não acreditava...

 

Danie l: Acho que é contagioso... Bons sonhos, senhorita Aurora.