Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 18 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 15

“Never said I’d lie and wait forever

If I died, we’d be together now

I can’t always just forget her

But she could try”

The Ghost of You – My Chemical Romance

 

Tomava café da manhã no dia seguinte a toda aquela loucura no “lá embaixo”. Comia uma torrada que ficou preta demais e que, sem sucesso, tentei raspar a parte carbonizada com a faca. O senhor Clark me trouxe até aqui e disse que o seu amo — o senhor-maestro-louco — não costumava tomar o café da manhã. Quase agradeci de joelhos. Não, isso era mentira, eu queria sim ver o senhor Hunter, olhar na cara dele e perguntar se ele tinha algum distúrbio de comportamento. Depois pediria desculpa pelo que ele ouviu ontem à noite. Talvez fosse melhor pedir desculpas antes de perguntar do distúrbio.

Mordi o pão seco e duro demais. Dois dedos de geleia não foram suficientes para disfarçar o gosto preto do carvão.

Tinha certeza de que não veria mais o senhor Hunter pelo tempo que ainda fosse obrigada a ficar ali.

Depois que ele me botou para correr do “lá embaixo”, eu apostaria até as pontas dos meus dedos dos pés, que ele sumiria dentro daquela mansão.

Como ele aguentava ficar em uma casa tão grande, a sós?

Agora, por exemplo, o barulho dos ponteiros de um relógio enorme tirava sarro dos meus nervos junto ao eco.

E os vinte lugares dessa mesa, vinte? Acho que sim, porque não contei, eles cresciam a cada tique-taque insistente.

A neve parou durante a madrugada, mas era provável que caísse ainda mais hoje do que ontem, não fiquei acordada olhando para fora contando os flocos. O Weather Channel virou a minha nova compulsão de cliques no celular.

Nada feito.

Hoje eu ainda ficaria por aqui.

Dei um gole no leite quente e tentei tirar o queimado do pão da minha boca.

Teria tempo para ler e...

— Bom dia. — Eu encarei a fatia tostada no pratinho à minha frente, foi um reflexo de defesa, ou talvez algo em mim torcia para que o pão tivesse desenvolvido a capacidade de falar. Respirei fundo e decidi rápida pelo pedido de desculpas. Porque, como as louças tremeram, aquela voz só podia ser dele. Olhei para cima e minha boca abriu. O problema é que o som que devia sair dela ficou preso em algum lugar entre a surpresa, o deslumbramento e o choque que correu em minhas veias.

Por um segundo, cinco ou seis, sei lá, eu não o reconheci. Por mais uns quinze ou vinte, após o reconhecimento, fiquei catatônica, com a boca aberta e os olhos deviam estar arregalados também. Perceber isso fez meu rosto arder de calor.

Ele puxou a cadeira de frente para a minha e sentou.

Continuei olhando-o como se... como se ele fosse o homem mais bonito de todo o universo e era.

Ele se serviu de chá e pegou um pão da cesta.

— Você quer alguma coisa quente da cozinha? — o maestro perguntou com toda a calma, parecia que não havia nada diferente ali, exceto pelos meus órgãos vitais que inverteram todos de lugar.

— E então? — Ele me olhava intensamente. — Quer ovos ou alguma outra coisa? Eu posso pedir.

— Barba. — Foi mais forte que a minha razão.

Ele deu um gole no chá.

— Oi?

— A barba — eu apontei para ele —, você tirou?

— Ah, sim — o senhor Hunter bateu no rosto —, isso aqui... fui aparar hoje de manhã e errei a mão, tive que tirar.

Alguém podia devolver o ar para o mundo, por favor? Aquele rosto, meu Deus! Quadrado, maçãs marcadas e o maxilar firme eram um berço perfeito para a boca. O senhor Hunter tinha boca, afinal. Que calor fazia nessa sala! E ele tinha uma boca realmente, bem, muito... muito mais do que beijável. Eram lábios cheios, mas não eram exagerados ou... eram lábios bons e muito...

Olhei para a torrada, senti o rosto esquentar ainda mais. Se ele pudesse queimar estaria mais preto que o pão rejeitado à minha frente.

Olhei de novo para o senhor-gato-Hunter, quer dizer, Hunter... Hunter.

Se comporte, Nicole!

Como eu nunca tinha visto o nariz reto e a profundidade desses olhos que não tinham cor? Porque eles mudavam conforme o humor dele.

Como ninguém via que esse homem era... simplesmente perfeito? A barba escondia tudo isso? Ela se misturava com o cabelo, castanho-escuro, que agora estava preso em um coque tipo... ai, meu Deus, tipo aqueles modelos gays maravilhosos — ele usava um coque tipo samurai. Só que o senhor Hunter parecia mais um samurai de tão homem do que um modelo magro e... pisquei fundo e a minha boca secou.

O tique-taque do relógio espremia tudo dentro de mim.

Ele tinha também um vinco no meio das sobrancelhas, acho que era tão sério, tão carrancudo ou tão assustador que o vinco era parte permanente na sua expressão, mesmo enquanto ele parecia relaxado como agora, abrindo um iogurte. Só que ele era jovem, muito mais jovem do que parecia com aquela barba e...

— Você gostou? — A pergunta me fez piscar fundo outra vez.

— Do café?

— Da mudança.

Contudo, parecia ter um sorriso ali, naqueles lábios, que eu nem sabia que existiam.

— Do clima? — Eu não conseguia mais entender nada.

Ele olhou para baixo e negou com a cabeça. Eu peguei a primeira coisa que vi na minha frente e enfiei na boca. Era uma tortinha de rim. Eu odiava torta de rim. Queria cuspir. Senti os olhos encherem de aflição, o estômago revolver. “Cuspa, sua idiota!”, o estômago gritou. Como? Engoli sentindo ânsia e busquei o meu suco, desesperada. Tomei meio copo em um gole.

— Senhorita Alves.

Depois que eu respirei com os olhos cheio de lágrimas pelo gosto ruim que ainda estava na boca, olhei para o senhor Hunter.

— Me desculpe por ontem — ele disse.

Não sabia se o meu horror era maior pelo pedido de desculpa ou se pelo fato de ele ter me chamado de senhorita Alves e não Aurora. Com certeza, era culpa de tudo. Principalmente da boca. Não, eram os olhos sem cor, quer dizer... foi meu nome naquela boca. Inspirei o ar com dificuldade e ele continuou tomando café da manhã, calmo e relaxado, como se nada no mundo estivesse fora do lugar.

Me servi de mais suco e só então vi que as minhas mãos tremiam. Larguei o copo e desisti de beber. Fiquei seca com vontade de molhar a boca... na boca do senhor Hunter. Pisquei e cobri os olhos com as mãos. Sacudi um pouco a cabeça na esperança de colocar as coisas no lugar. Inspirei o ar com força.

Calma, Nicole!

Nada precisa ser tão intenso e insano. Exceto pelo fato de que o senhor Hunter era o irmão gêmeo bom e gentil dele e parecia na mesma medida o homem mais irresistível que os meus hormônios já viram ou sentiram. Olhei para ele.

— Senhor Hunter... eu... é quem peço desculpas, acho que ouviu uma conversa ontem e...

— Conversa? — ele indagou em dúvida.

— Eu disse ontem no Skype com a... ela disse que o... medo do jardim e...

— Senhorita Alves, está tudo bem? — Ele pareceu confuso.

Não, não estava. Mas tinha que fingir que sim, então tentei de novo.

— O senhor sabe... a conversa sobre o medo e o senhor lá embaixo. — Lembrei da maneira que ele me pegou e da forma como tudo em mim reagia a ele e...

Levantei. Ele levantou em um pulo junto comigo.

— Com licença — pedi quase sem voz, tomei impulso para me mover.

— Senhorita Aurora!

Ao menos, voltei a ser o personagem.

— Sente-se e termine o seu café — pediu ele.

— Eu... eu já terminei.

— Não, não terminou. — Apesar da exigência explícita, a voz dele era suave como se eu fosse uma criança pequena. — A senhorita quase cuspiu a torta de rim e deu duas mordidas na torrada queimada. — Ele apontou com os olhos para o pão, culpado. — Então, coma, por favor, é uma bailarina e não pode se alimentar mal.

Eu o encarei em silêncio e consenti. Pela expressão dele, não adiantaria discutir.

— Agora, peço alguma coisa quente da cozinha para a senhorita?

— Ovos. — Saiu em um fio de voz.

— O quê?

— Ovos mexidos.

Ele pegou um aparelho sem fio próximo ao aparador nas costas dele, discou e levou à orelha.

— Oi, senhor Clark, bom dia, traga, por favor, ovos mexidos para mim e para a senhorita Alves, obrigado.

E lá estava o Alves de novo e eu sem ar outra vez.

— Você se alimenta sempre mal desse jeito?

Eu só encolhi os ombros.

Por algum incoerente motivo fiquei com vontade de chorar, como uma criança mimada e repreendida.

— Você não pode fazer isso, tem que pensar em sua saúde, em seu bem-estar... É por isso que, às vezes, fica pálida nos ensaios e precisa respirar com cara de quem vai desmaiar, não é verdade?

Ele notava? Meu Deus, ele notava?

— Eu vou observar — continuou ele — e se acontecer outra vez de você quase desmaiar nos meus ensaios, vou mandá-la sair da sala e se alimentar, entendeu?

Aí aconteceu, culpa da TPM. Ou dos olhos sem cor nenhuma, ou daquele rosto de um deus lenhador falando como se realmente se importasse comigo. Quando notei, as lágrimas rompiam a barreira da autopreservação e desciam pelo rosto.

— Você está chorando?

Cobri os olhos rapidamente e limpei a vergonha das lágrimas com as costas das mãos.

— Não, não estou, está tudo bem.

Voltei a encará-lo e a expressão que encontrei acabou de me desmontar. Era de dor, ele olhava para baixo.

— Eu não — disse ele. — Desculpe, senhorita, eu não... quis, eu peço perdão, eu não tenho nenhum jeito para lidar profissionalmente com as pessoas, sou doente de perfeccionismo, impaciente, perco a cabeça, xingo em francês, não sei lidar com erros, tenho dificuldade em ser calmo enquanto cobro e realmente posso parecer bastante assustador... Entenda, vamos conviver por um tempo e... não quero que você fique assustada. Eu posso ser grosso, eu fui um estúpido ontem e em mais de um momento, mas... — ele bufou. — eu só não quero que você tenha medo ou que ache que não sei falar sem gritar... Agora mesmo, eu... eu tentei ser...

— Educado? — completei por ele.

— Acho que sim, ou pelo menos não deixar você com medo de ser enterrada em meu jardim...

Ele ergueu as sobrancelhas em um arco, isso era a prova de que tinha ouvido a conversa, não era?

— Agora o senhor foi bem educado, eu é que... estou sensível e um pouco confusa, estar aqui é meio... bem estranho e desculpe, senhor Hunter, parece que estou lhe provando que a ideia que faz de mim, da minha falta de maturidade e de controle emocional, é certa.

Ele negou com a cabeça. O senhor Clark entrou trazendo os ovos mexidos em uma baixela. Após a saída do mordomo, nós comemos por um silencioso momento com os garfos tocando nos pratos, o relógio tocando no ar e meus nervos tocando tudo em mim.

Por quê? Por que o senhor-gato-Hunter era o homem mais... era o homem mais... o quê? Irresistivelmente contraditório? Tentadoramente atraente? Perigosamente estranho ou misteriosamente encafifador? Uma mistura de tudo isso junto a dois pares de olhos que pareciam sugar a razão da raça humana e o ar da Terra inteira eram iguais ao novo senhor Hunter que tomava o café junto comigo. E ele era o meu diretor, um deles. Isso... essa confusão de sentidos não era nada boa. Porque ele continuava sendo o meu diretor e eu continuava sendo a senhorita Aurora, Alves para o novo maestro. Era como tinha que ser. Era mais que certo que fosse assim.

Tire essa mistura de coisas da cabeça agora, Nicole, desde quando uma barba tem o poder de mudar tanto as coisas?

Não daria esse poder para a barba do senhor Hunter. Resolvido. Ele era apenas o meu diretor grosso, tendo um ataque de gentileza em uma de suas crises de bipolaridade, e só...

— Foi o aniversário de sua morte.

Ouvi a voz um pouco abafada do maestro que não teria poder algum sobre mim e olhei-o. Ele encarava a parede às minhas costas. Senti que os olhos dele me convidavam a buscar o que olhava com tanta atenção. Virei e encontrei um porta-retrato da mulher de olhar triste, com o senhor Hunter no colo. Era a mesma das outras fotografias, aquela jovem que eu supus ser a sua mãe.

— Anteontem fez dezenove anos que ela morreu.

O senhor Hunter falava isso mesmo? É claro que sim. Meu Deus, ele realmente se abria comigo de maneira espontânea? E se eu achava que nada mais poderia me surpreender ou me abalar, ele acabou de provar que eu era uma inocente e não sabia de nada sobre abalos e surpresas em alta velocidade.

— Eu sempre fico triste no dia da sua morte... — ele continuou. — É algo muito difícil para mim... e não apenas porque foi o dia em que eu perdi minha mãe, mas por tudo que isso me lembra e por toda a realidade que isso traz.

Eu não entendi direito o que ele quis dizer com essa parte de toda a realidade que isso traz, mas decidi rapidamente que não devia forçar perguntas e sim oferecer o apoio que talvez ele estivesse buscando.

— Eu sinto muito.

Ouvi ele respirar longa e lentamente. Não queria acabar com a única conversa que já tínhamos tido tão cedo, tentei não acabar.

— De verdade, imagino como deve ter sido difícil crescer sem uma mãe e... bem... eu não sei o que seria de mim sem a minha, então só consigo dizer: “eu sinto muito mesmo”.

Fui sincera. Só de lembrar o choro que eu presenciei dele aquela noite e de imaginar a dor que eu sentiria em perder minha mãe, toda a vontade que tinha tido de chorar voltou ainda mais forte. Senti que as lágrimas tornaram a encher meus olhos. O senhor Hunter olhava para a toalha e não mais para o retrato às minhas costas.

— O que dói mesmo, além da ausência dela, é algo que eu carrego dentro de mim mesmo quando não penso nisso.

Eu não entendi novamente, só que, dessa vez, não consegui manter a minha fingida imparcialidade.

— O que é? — perguntei.

O maestro piscou fundo e me olhou como se estivesse assustado, como se tivesse despertado de uma espécie de transe. Eu sabia porque também estava envolta nele, porém, diferente dele, não queria acordar antes de ter mais respostas.

— Com sua licença, senhorita, eu vou trabalhar em uma composição.

Ele ficou em pé e as minhas palavras saíram mais rápidas do que a sua intenção de fuga:

— Posso ir com você? Quer dizer... Hum... posso ficar na... na sala de música enquanto o senhor compõe?

Ele me olhou em silêncio e notei o vinco entre as sobrancelhas ainda mais fundo. Me apressei, queria tentar justificar a minha vontade incoerente de estar mais tempo junto a ele.

— Eu quero ler e... acho que seria interessante fazer isso ao som do seu piano.

Silêncio.

— Vou trabalhar, senhorita Aurora, não realizar a trilha sonora do seu romance.

E o cínico, mal-educado, voltou. Sem a barba, é claro, ainda muito irresistível, isso é claro também, mas o distanciamento frio tinha sido erguido outra vez.

— Eu vou ler, senhor Hunter, e não recitar o livro como em um ensaio de dramaturgia.

E então... ele riu.

Riu de verdade. Uma risada macia e quente, que fez a pele da minha nuca arrepiar. O som me fez notar outra coisa também: havia um espaço vazio em meu coração e por algum motivo assustador, parecia que esse espaço só seria preenchido por aquela risada. Respirei fundo a fim de não mostrar o quanto aquilo me afetou.

— O senhor ri?

— Sim, senhorita Aurora... Você pode ler na minha sala de música enquanto eu componho.

Dizendo isso ele virou as costas e saiu.

Me deixou com a sensação de que o espaço recém-descoberto em meu coração me daria muito, muito trabalho.