Senhorita Aurora
Capítulo 34
“Love is our resistance!
They keep us apart and won’t stop breaking us down
And hold me, our lips must always be sealed”
Resistance – Muse
Foram vinte minutos de caminho feito em silêncio.
A música era a única companhia do ar condicionado dentro do carro.
Vez ou outra, ele olhava para mim ou segurava a minha mão.
Tinha tantas perguntas na cabeça, muitas delas.
Para onde estaríamos indo?
Eu deveria estar um pouco assustada?
Por que o silêncio no carro parecia obrigatório?
Às vezes, o silêncio entre duas pessoas era confortável. Uma maneira de estar mergulhado em seu próprio mundo, mesmo na companhia do outro. A quietude confortável não era pesada, ela era natural. Essa não era a confortável, era a que antecedia uma conversa séria.
Decisiva. Aguardada. Difícil.
Como se nada mais pudesse ser dito sem ser essa conversa. Não foi um silêncio com ausência total de frases trocadas, mas houve algumas bem espaçadas.
— Você está tranquila com a estreia? — ele perguntou.
— Um pouco ansiosa — respondi.
— Gosta dessa música?
— Hum-hum...
— Não está mais tão frio.
— É verdade.
As trocas existiram, mas o silêncio era maior do que elas. Sabia que nada do que pudéssemos dizer importava, sem ser o que realmente nos dirigíamos para falar.
Entramos no bairro de Highgate. Reconheci o Waterlow Park. Quase nunca vinha para esta região. Senti o coração disparar ao perceber que Daniel diminuiu a velocidade do carro. Era o portão de entrada do Highgate cemetery. Olhei para ele buscando confirmação. Ele encontrou uma vaga. O carro foi desligado.
Minhas mãos tremiam. Acho que minhas pernas também.
— Cemitério?
Ouvi uma respiração longa dele.
— Você vai entender.
Ele virou o rosto e me encarou, os olhos vinham de uma cor azul nova, como se guardassem no fundo algo além do que ele iria me contar.
— Vamos? — Ele abriu a porta do motorista.
Não sabia mais se queria ou não descer do carro. O que ele iria me mostrar ali dentro? Vi Daniel dando a volta e abrindo a porta para que eu descesse. Em seguida, ele estendeu a mão em um gesto de convite. A dele também tremia. Então, percebi que aquilo devia ser infinitamente mais difícil para ele do que para mim. Movida por essa certeza, encontrei a força para segui-lo.
Dizem que era um cemitério histórico, conhecido por suas esculturas vitorianas e egípcias, conhecido por ter pessoas famosas entre as lápides. Havia alguns turistas fotografando.
Meu Deus!
Não conseguia ver nada além dos nossos pés caminhando entre as trilhas, a vegetação sobrepondo-se às lápides e mostrando que a vida seguia e que até mesmo os nomes daqueles que estavam ali eram cobertos.
Daniel parou em frente a uma lápide específica, a minha mão suava frio. Eu já não identificava o que era o chão, os meus pés, o meu coração roubando o raciocínio e a ansiedade que me fazia tremer.
Olhei a lápide. Sentia tanto medo que não consegui unir as letras para ler.
A voz do Daniel chamou a minha atenção:
— A minha mãe morreu quando eu tinha pouco mais de seis anos. A ironia é que ela morreu e, então, anos depois... — ele me olhou —, eu tive que aprender muito cedo a conviver com essa realidade. A fragilidade da vida. A verdade de que ninguém sabe quando será o último dia por aqui. Quando uma criança fica órfã tão cedo como eu, não se aprende pelo amor e sim pela dor, pela falta... por aquilo que nunca ninguém será capaz de preencher ou consertar.
Lágrimas geladas encharcaram o meu rosto. Senti o sopro frio do vento comprovar o molhado da pele.
— Só que, além de todas essas lições que qualquer pessoa órfã tem que aprender, eu também tive que aprender outra coisa mais tarde...
Ele olhou para baixo e, em seguida, para as próprias mãos.
— Eu tinha dezenove anos e era músico, tocava em uma banda nos primeiros anos de faculdade... Eu sempre gostei de rock... Eu tive uma amiga, na verdade era mais do que uma amiga, ela era alguns anos mais velha e era a vocalista. Nós tocávamos juntos e... também dormimos juntos. E em meio à idiotice da juventude e da bebida, nós transamos sem camisinha algumas vezes.
— Meu Deus! — sussurrei sem perceber.
Ele esfregou os olhos parecendo cansado.
— Então a banda se desfez e algum tempo depois eu... eu namorava outra garota: a Mirela. — Ele apontou com a cabeça para a lápide e eu não tive coragem de olhar.
Daniel estava com os olhos cobertos de lágrimas. Eu sentia a respiração e o corpo tremerem.
— A Mirela tinha dezenove e eu vinte. Nós nos apaixonamos, quer dizer... achávamos que estávamos muito apaixonados. Namoramos durante seis meses... e eu...
O maxilar do Daniel travou, ele fechou os olhos, desolado.
— Nós resolvemos transar sem camisinha. Ela tinha feito todos os exames há um tempo... Eu tinha feito menos de dois anos antes, eu não achei... — A voz dele falhou. — eu não achei que precisava repetir e então... o meu mundo caiu.
Daniel soltou o ar pela boca de uma vez.
— A jovem que eu ficava, a da banda, o nome dela era Eloísa, ela me procurou, assim como todos os seus antigos parceiros.
Ele cavou os próprios cabelos com as mãos enquanto encarava a lapide à nossa frente. Senti como se um buraco abrisse sob os meus pés, tomei coragem e desviei os olhos para ler o que estava escrito na pedra:
Mirela Moore – amada filha e irmã
1990 - 2011
Como um filme acelerado, várias cenas voltaram até a minha memória: ele se aproximando e então se afastando. Todas as vezes que ele recuou, parecendo irritado, nervoso, parecendo estar com medo – minha respiração acelerou – o dia na cozinha, o corte, o sangue. Mordi os lábios por dentro, engolindo um soluço quando a compreensão de tudo me envolveu. Como eu pude ser tão cega? Eu pensei em tantas loucuras exceto na mais humana e provável de todas. Imaginei tudo, eu tinha rondado através de todas as hipóteses fantasiosas e absurdas. Por que isso nunca cruzou a minha mente? Como eu não me dei conta? Tive que buscar o ar com força duas ou três vezes.
— A Eloísa, a menina da banda... era uma jovem incrível, cheia de vida e quem poderia imaginar... nem mesmo ela. Ela ficou doente, e então descobriram que ela tinha o HIV. Quando ela me procurou, eu já estava junto com a Mirela há seis meses.
Ele respirou fundo, devagar, acabado e eu tentei respirar também, mas não consegui... porque começava a entender onde ele iria chegar.
Ele soluçou.
— Nós, eu e a Mirela, fizemos os exames juntos... Foi o pior dia da minha vida. Eu passei esse maldito vírus para a minha ex-namorada. Ela entrou em depressão, largou a faculdade
Ouvi mais um soluço, que agora foi abafado pelas suas mãos.
— Ela era uma flautista brilhante e nunca me perdoou... Como poderia? O fato é que o vírus nunca se desenvolveu no meu corpo, eu sou apenas portador, minha taxa viral é zerada, eu tomo os remédios, levo uma vida normal, controlo a doença... Já com ela não foi assim. Ela não conseguiu se tratar, pois não aguentou a barra, começou a beber demais, todos os dias, largou os remédios... Nós não ficamos juntos, ela morreu quase um ano depois. Como posso não me culpar? — A voz do Daniel desapareceu.
Não cabiam mais lágrimas no meu rosto, busquei a mão dele. De repente, eu queria ser um anjo, não para consolá-lo, nem mesmo para abençoar qualquer porcaria, eu queria ser de um lugar diferente desse mundo. Onde não haveria escapatória para a vida e a morte. Onde as merdas aconteciam e o que restava era a nossa obrigação de continuar lidando com elas. Queria ser de um lugar onde esse tipo de bosta não existisse e não pudesse destruir tudo à sua volta. Encarei o Daniel tentando passar o que sentia com o olhar.
Os olhos dele estavam cheios de lágrimas.
— A minha mãe sofreu um acidente quando ela era jovem e morreu dois dias depois dos ferimentos, quando eu tinha apenas seis anos... Antes dela partir eu pude vê-la, ela prometeu que não me deixaria... só que a morte não a ouviu e mais tarde, quando a Mirela foi embora, foi que eu entendi que a morte escolhe algumas pessoas para amar e que em seu egoísmo frio, ela não quer que seus escolhidos amem a mais ninguém. — Ele soluçou outra vez.
Olhei para a lápide e reparei que o dia em que encontrei a agenda do Daniel, era o dia do aniversário da Mirela.
Lembrei da frase escrita:
Meu Deus, eu não encontrava a minha voz para dizer qualquer coisa.
Ele me encarou e parecia não haver fim na dor que eu vi dentro daquele olhar.
— A mãe... — A voz dele falhou outra vez, ele inspirou o ar de maneira entrecortada. — Você lembra aquele dia em que eu fiquei supermal, o dia em que você me deu a sua corrente?
Ele tocou no peito ao dizer, notei o colar dourado que entrava dentro da camiseta e concordei com a cabeça.
— Aquele dia eu tinha visto por acaso a mãe da Mirela. Ela... ela me ligou algum tempo depois que eu e a Mirela terminamos, eu não via a filha dela há quase um ano... Nunca vou esquecer daquele telefonema. — Os dedos dele apertaram os meus, senti uma pressão desconfortável, tudo em mim parecia desconfortável, isso não mudou nada.
— A mãe dela disse que eu era um assassino... Falou que eu tinha matado uma jovem brilhante. A Mirela tinha acabado de morrer... Eu... eu fiquei transtornado, fui até o velório sem conseguir me manter em pé direito. Quando cheguei, a mãe dela estava louca, ela gritou, me xingou e me botou para fora. A Jéssica, a minha amiga que você conheceu, era a irmã mais velha dela.
Ele sacudiu a cabeça, agitado.
— Ela foi a única pessoa que amava a Mirela e que não me culpou. A Jéssica veio me ajudar nesse dia e afirmou que não era culpa minha, que nós dois éramos responsáveis por não termos nos protegido, mas que ninguém era culpado. Foi ela que me contou que a Mirela ficou deprimida e que não se tratou. Ela morreu por complicação de uma gripe. Ela ficou muito fraca, o corpo dela não reagiu... Eu e a Jéssica ficamos amigos ao dividir a dor pela morte de uma jovem que amamos, cada um à sua maneira.
Daniel levou as mãos aos olhos.
— Mas como? Como não me culpar?
Foi a minha vez de apertar o ombro dele com força, porque tudo em mim continuava doendo e eu continuava sem voz.
Ele apontou com a cabeça para a lápide.
— Junto com ela eu enterrei toda e qualquer chance de acreditar que poderia me relacionar com alguém, de maneira normal. Enterrei minha esperança e minha confiança na vida, aqui — a luz do sol fazia as lágrimas nos olhos dele parecerem estrelas —, a sete palmos abaixo de toda a culpa que carrego e de toda a dor que tenho que fingir não existir na minha alma.
Daniel ficou em silêncio encarando a lápide e eu queria ajudá-lo a desenterrar o seu coração que, sabia, estava preso embaixo daquela culpa. Se fosse preciso cavar com as minhas mãos e resgatá-lo, eu faria. Acontece que eu também me encontrei despedaçada e algo dentro de mim foi arrancado e enterrado em algum lugar daquele cemitério, embaixo daquela conversa. Então, fiz a única coisa que podia, queria e precisava fazer: eu o abracei com força, com toda a força que consegui. Nós choramos juntos por bastante tempo enquanto os turistas fotografavam lápides de celebridades. Enquanto a vegetação rasteira cobria as pedras, o meu coração era coberto pela cumplicidade da maior dor e culpa que eu já tinha visto em alguém.