Senhorita Aurora
Capítulo 5
“There’s a club, if you’d like to go
You could meet somebody who really loves you
So you go, and you stand on your own
And you leave on your own
And you go home, and you cry
And you want to die”
How soon is now? – The Smiths
A Nathy bêbada era alguém que se divertia e que mantinha o mínimo de noção em suas ações, movimentos e palavras, enquanto eu era uma pessoa tonta, lerda e desprovida de senso de consciência. Era uma merda e odiava. Por isso nunca bebia. Depois da conversa em trio, fomos para a pista. Nathy se empolgou bastante com Ivo. Apesar de ele afirmar que gostava mais de meninos do que de meninas, ele também disse que gostava de sair com umas meninas, vez ou outra. Pelo jeito que dançavam, Nathy seria uma dessas meninas. Mais bêbada do que me divertindo, acabei beijando um cara que usava lápis preto na pálpebra inferior e que cheirava a cigarro de cravo. Na metade do segundo beijo, antes que vomitasse, porque estava tonta demais, resolvi ir embora.
— Eu vou com você — Nathalia disse, não demonstrando a menor vontade de ir. Ela queria ficar mais com o Ivo.
— Não. Fica tranquila, Nathy, vou ficar bem, saio e pego um táxi direto.
— Não vou deixar você voltar sozinha.
— Nathy, pelo amor de Deus! — eu disse irritada. Quando bebia, minhas emoções ficavam meio bagunçadas. — Eu posso pegar um táxi e voltar para casa em segurança.
— Deixa, Nathy. — Era o Ivo com as duas mãos na cintura dela. — Ela vai ficar bem.
— Pede um táxi assim que botar os pés na rua, entendeu? — minha amiga exigiu, sacudindo o dedo indicador.
— Sim, senhora.
— Vamos colocá-la em um táxi, Ivo — Nathalia pediu outra vez.
— Tchau, Nathalia, isso daqui está um inferno de cheio, se vocês saírem não vão mais conseguir entrar, e se conseguirem, terão que pagar o couvert duas vezes.
— Ela tem razão — Ivo apontou.
— Me manda uma mensagem assim que chegar, está bem? — ela disse com a voz meio arrastada, ou o mundo todo para mim parecia arrastado?
— Sim, pode deixar e aproveitem.
Eu só queria sair dali, da música alta, pessoas se esfregando pela falta de espaço, brigando pelo pouco de oxigênio que restava embolado com a fumaça de cigarros e gás carbônico.
Uma vez na rua, enchi o pulmão de frescor noturno e liberdade de ar.
Só então, me dei conta de um incômodo que já tinha percebido há tempos, lá dentro: xixi.
Eu me esqueci de fazer xixi.
Mas que merda!
Estava segurando há quase duas horas por preguiça de lutar com bêbados e suor a fim de chegar ao banheiro. Tinha resolvido que iria quando fosse embora, mas, talvez pelo esforço que foi alcançar a saída, esqueci. A dor na bexiga era a certeza de que a falta de espaço não existia somente dentro do bar. Nessas horas, eu odiava quando ficava apertada. Dizem que a bexiga dos homens é muito maior do que a das mulheres. Uma viagem de vinte minutos para casa seria como declarar guerra contra a sanidade e possivelmente, no meio do caminho, teria que pedir ao taxista que parasse em qualquer buraco, a fim de que eu pudesse fazer minha bexiga “calar a boca”.
Olhei a fila enorme da entrada. Mesmo que eu tentasse explicar que tinha acabado de sair e que só queria usar o banheiro, o segurança, se fosse simpático, iria rir da minha cara.
Olhei ao redor. Toda e qualquer espelunca que pudesse oferecer um banheiro de graça devia estar fechada. Notei que a região, tirando o movimento em frente ao bar, parecia bem vazia.
Muito vazia.
Afastei-me da frente do bar na esperança de encontrar um lugar aberto que desse para usar ou... uma rua tipo essa; olhei à direita e encontrei uma viela sem saída, deserta e escura. Aquilo pareceu tão perfeito como morangos com chantilly depois de uma semana em jejum.
Quem achava isso era a bexiga gritando por alívio.
Apesar da minha razão gritar por prudência, ela achava que podia ser perigoso baixar as calças e sentar atrás do latão de lixo em uma viela escura, eu estava bêbeda demais para ouvi-la. No lugar, só conseguia enxergar morangos com chantilly e como o mundo era um lugar mais fácil para bêbados do sexo masculino.
Entrei na viela. Olhei ao redor, não tinha ninguém. Tentaria ser o mais rápida possível. Dei a volta na lata de lixo. Ela devia ter quase a minha altura por uns dois metros de comprimento. Sentindo-me segura com o tamanho que barrava a vista para quem estivesse na frente da rua, abaixei a meia-calça, a calcinha, subi o vestido, agachei e...
Alívio era o meu nome do meio.
Morno e com barulho de torneira.
Alívio total. Estava quase no fim do meu ritual de bêbada quando ouvi passos ecoando na viela.
Merda, merda, merda!
Fiquei sem raciocínio, quem raciocina em uma hora dessas? É impossível. Subi a meia-calça rapidamente, os passos ficaram mais altos e próximos. Entrei em um pulo atrás da lixeira. Só queria me esconder. Colei o corpo na parede às minhas costas e congelei ao perceber que quem quer que fosse, parou a poucos passos da entrada, ou da saída de trás da lixeira, já que o outro lado, o que dava acesso para a rua, vinha bloqueado por umas cinquenta garrafas de vidro. Se tentasse escapar, seria ouvida com certeza.
Comecei a implorar mentalmente: “Saia logo, acabe logo com isso, não me veja”.
Esperava ouvir o barulho de torneira, mas o que eu ouvi não tinha nada a ver com alguém fazendo...
— Você é tão gostoso — afirmou uma voz feminina.
Ouvi respirações rápidas e barulho de... de... beijo. Era um casal se pegando.
Ahhh, nãããããooooo!
O homem gemeu ou rosnou. Que gemido era aquele?
Meu coração disparou.
— Meu Deus, você é tão forte — a mulher disse sem fôlego e ouvi mais sons de beijos.
Minha respiração acelerou.
— Qual o seu nome mesmo? — ela perguntou.
— Daniel — ele respondeu.
Ahhh, meu Deus, vão embora, acabem com isso e vão fazer sexo em casa.
— Sabe, Daniel — disse ela —, eu nunca peguei no pau de um maestro.
O quê? O quê? O quê?
Ouvi um gemido seguido de um rosnado novamente.
Santo Senhor. Será? Minhas pernas amoleceram. Não podia ser. Simplesmente não, entendeu, Deus?
Meu coração pulou em todo o corpo. Impulsiva, olhei para o lado e, apesar da luz meio apagada, comprovei que o homem no beco, em pé ao meu lado, separado por poucos metros, sendo apalpado e comido vivo por uma mulher, era o meu maestro. Não o meu maestro, mas um dos meus diretores e... que merda!
Merda!
Bosta!
Merda!
Ivo não disse algo sobre ele ser um ermitão? Que só era visto nos concertos? Acho que ele se esqueceu de acrescentar ou em becos sem saídas fazendo sexo na rua.
Merda!
— Eu exagerei no uísque... Acho melhor pararmos. — A voz de trovão pediu.
Isso, parem! Parem agora! Agora mesmo.
— Não — a mulher gemeu seguida por um rosnado dele.
Lutava para manter a respiração no lugar dela, devagar e pouco afetada. Quase impossível. Sem perceber mordi os dedos das mãos enluvadas com força, movida por histerismo, vergonha, calor, ridículo de situação descabida.
Ouvi outro grunhido de prazer masculino.
— Você tem camisinha? — a mulher gemeu.
E meu rosto transpirou de calor. Quase murmurei um protesto de horror junto com mais um gemido da mulher ao perceber que o calor das minhas bochechas se espalhou no meu colo, desceu pela barriga e, em seguida — ah, não! —, entre as pernas.
Eu estava excitada. Que bela merda!
— Escute — ele começou sem fôlego —, eu não tenho camisinha, exagerei no uísque e isso não vai rolar.
— Podemos fazer outras coisas... eu posso fazer você gozar.
Não, não, não e não! Por todos os deuses do recato e da moral. Não!
— Não, meu bem, realmente estou muito tonto... E... eu vou para casa, sozinho — o maestro falou.
Graças a Deus. Ele tem bom senso. E vergonha na cara. Agora, apenas deem o fora!
— Eu não acredito — a mulher protestou.
— Acredite — ele disse mais enfático.
Ouvi respirações bruscas.
— Seu... babaca!
Em seguida, ouvi passos rápidos se afastando e uma respiração profunda, provavelmente do meu diretor.
E então, outros passos mais pesados também se afastando.
Estava sozinha. Obrigada, meu Deus! Eles foram embora.
Meu corpo inteiro vibrava de tensão. Fiquei sóbria em cinco minutos.
Cristo!
Voltei para casa abalada, sem conseguir tirar a voz de trovão do meu diretor da cabeça.