Senhorita Aurora
Capítulo 21
“When I look into your eyes
I can see a love restrained
But, darlin’, when I hold you
Don’t you know I feel the same?”
November Rain – Guns N’ Roses
Estava deitada tentando dormir há mais de duas horas, mas era impossível.
Aquela expressão no rosto dele quando viu o sangue.
O horror na voz do Daniel enquanto mandava eu me limpar.
Os olhos vidrados dele analisando os meus braços.
Por quê? Qual seria o problema desse cara?
Será que podia existir alguém tão louco a ponto de quase enlouquecer por causa de um corte?
A reação exagerada poderia ser pela raiva de ter sido ferido? Será?
Ou ele enlouqueceu, diante da possibilidade de que eu tivesse me cortado?
Não aguentava mais criar um milhão de hipóteses. Nós teríamos “a conversa” que ele anunciou desde cedo. Nem que eu tivesse que obrigá-lo a isso. Decidi ir atrás dele e entender, ao menos tentar entender, o que acontecia.
Saí do quarto e fui até a porta que eu sabia ser a do quarto dele.
Olhei ao redor, a porta do banheiro estava entreaberta. Ele não estava ali.
Desci até a cozinha, não tinha nem rastro da nossa tentativa de jantar.
Fui até a sala de música escura e vazia e obviamente sem o senhor-não-me-toque-existe-sangue.
Respirei fundo.
Ele talvez, estivesse no “lá embaixo” outra vez.
As imagens de quando desci lá, há dois dias, me invadiram. Senti o coração bater mais rápido e empurrei a porta de acesso.
No meio da escada, escutei o que tinha certeza: era o Daniel matando no saco de pancadas e uma trilha sonora — The Wolf, do Fever Ray. Sim, ele estava lá, brigando com o quer que fosse que precisasse brigar.
Parei no meio da escada e ponderei se devia mesmo descer e enfrentá-lo ali, enquanto ele parecia possuído por algum tipo de ódio animal. Os degraus eram de cimento queimado como todo o chão do lugar; canos aparentes e uma iluminação de galpão faziam o “lá embaixo” parecer bem frio.
“Suba para o seu quarto, Nicole, agora!”, minha consciência foi tomada pelas últimas palavras dele e a frieza na maneira como mandou eu sair da cozinha.
Dane-se, ele que resolvesse qualquer que fosse o seu problema temperamental e bipolar.
Enchi o pulmão de ar, sabendo que talvez fosse a última respiração profunda que conseguiria dar, enquanto estivesse ali.
Me aproximei do ringue com passos lentos, até entrar na sua linha de visão e... congelei completamente com o que vi.
Não esperava por nada nem parecido com aquilo, não tinha me preparado para... Quem seria o louco que pensaria ser possível, alguém considerado normal fazer tal coisa?
O problema não foi ver o corpo perfeitamente esculpido e os músculos torneando todos os lugares, como da outra vez. Nem o fato dele estar coberto de suor, como se tivesse tomado um banho. O problema é que, junto com o suor, tinha outra coisa que vinha em abundância das suas mãos: sangue!
O louco socava o saco sem luvas ou nenhum tipo de proteção que pudesse amenizar os impactos brutais da pele contra o couro daquele troço pendurado.
Eu soltei um gemido de dor, de choque e de nervoso total pela agonia dele.
Daniel deu mais um e outro soco, enquanto gotículas de suor e sangue espirravam como uma revoada em várias direções. Mais um e outro soco e grunhidos de dor.
Parecia um animal ferido. E o que era pior, se autoflagelando, se punindo por algo.
— Chega! — gritei, horrorizada demais para me dar conta do que fazia. — Pare agora!
Assim que ele deu mais um soco seguido de outro, dei o grito mais alto que fui capaz, junto com alguns soluços que romperam do meu peito:
— Seu louco, pare!
Então, ele me olhou. Continuamos mergulhados no silêncio um do outro por algum tempo. Meus olhos ardiam de lágrimas, minha respiração estava sem ritmo e sentia o corpo inteiro pulsar.
Ele abriu os braços sem parar de me olhar e urrou:
— É isso que eu sou, um monstro, entendeu? Olhe bem para mim... Está vendo isso aqui? — Ele ergueu as duas mãos cheias de sangue na altura do rosto. — É isso que eu sou e ninguém pode mudar. — Ele abaixou os braços em uma postura derrotada e murmurou: — Se mantenha longe de mim, Nicole.
Sem entender como, dei dois passos na direção dele. Eu não queria distância. Apesar de toda a prudência me mandar sair dali, queria entendê-lo, queria estar junto a ele. Nem sei direito o que queria, só sei que não era distância. Quando Daniel percebeu o que eu fazia, ficou ainda mais obcecado de raiva.
— Fora daqui, não quero você atrapalhando a minha vida, não quero você acabando com a minha paz, entendeu?
Estaquei paralisada com aquela loucura.
— Fora daqui! — ele repetiu obcecado. — Não quero mais olhar para você.
Tentei me mexer, mas não consegui porque cinco toneladas de cimento caíram em minhas pernas.
Ele deu uma risada horrorosa.
— Por que você não se mexe? Não tem um pingo de amor-próprio e orgulho? Ou... — Ele parou como se finalmente entendesse alguma coisa antes de concluir: — você acha que aquela meia dúzia de beijos que trocamos significou qualquer merda para mim?
— Eu... achei que... — A minha boca se moveu sozinha.
— Que o quê, Nicole? O que você achou?
Notei o ar raspar a garganta. Queria falar algo, mandar ele à merda ou qualquer outro palavrão da lista de um milhão que me cruzaram. Só que o bolo na garganta não deixou.
Ele esticou os músculos dos braços, se alongando.
— Aquilo não foi nada, só uma distração idiota. E me avise se você acha que não tem estrutura emocional para continuarmos trabalhando juntos, porque se não tem, terei que falar com o senhor Evans para te substituir.
Respirei uma dezena de vezes, engolindo o choro, e quando voltei a olhá-lo, ele já socava aquela porcaria de saco outra vez.
Ao vê-lo tão transtornado novamente, se ferindo daquele jeito insano, mesmo depois de todas as grosserias que falou, não sentia nada além de uma dor quase física no peito e uma vontade ainda maior de não permitir que ele me empurrasse para fora de sua vida, vestindo outra vez o papel de monstro. O mesmo que ele usou comigo e usava com todos à sua volta para se manter isolado do mundo. Eu podia não ter muita experiência em psicologia, mas sabia, tinha certeza de que era isso que ele tentava fazer ali embaixo.
Munida dessa coragem, talvez meio suicida, cheguei perto do ringue.
— Você pode continuar fingindo ser esse monstro pelo tempo que quiser — falei decidida. — Até equilibrar o que quer que precise aí dentro. Eu sei bem o que está tentando fazer e, não, não vou sair correndo daqui como da primeira vez ou como todos fazem quando acham que você é um maluco psicótico... Nesses poucos dias, eu vi ao menos uma parte sua e... você não vai me fazer mudar de ideia, seja lá o que isso signifique.
Ele já tinha parado de bater no saco e me encarava com os olhos enormes, como se estivesse surpreso demais para ter qualquer reação.
— Nunca encontrou ninguém que te dissesse isso? — perguntei com as mãos na cintura. — Ferre-se, o problema é seu. E se mesmo assim ainda não aguentar me olhar, acho que é você que deve procurar outro balé para reger, porque eu não vou fugir.
Virei as costas e saí.
Entrei no quarto sombreado, a única luz presente era a da iluminação amarelada do jardim.
Era uma noite escura e fria.
Apesar do aquecedor estar ligado, percebi que os meus dentes estavam batendo. Tive certeza de que era o frio interno, aquele com o qual não podemos brigar.
Deitei na cama, puxei o cobertor e senti as lágrimas no rosto antes mesmo de compreender que chorava. Uma vez que comecei, fiz isso até dormir.
Abri os olhos, sentindo dificuldade de entender que horas eram. Notei um braço envolvendo minha cintura. Fui puxada até o meu corpo estar colado em outro muito maior que o meu. Era o senhor Hunter, o maluco. Mas quem achava isso era a minha razão. O coração, ao contrário, batia como um idiota, enquanto os choques devoravam o meu estômago. Senti a respiração subir e ficar presa na garganta. Paralisei completamente, enquanto ele beijava a minha cabeça. Ainda entorpecida pelo sono, demorei a entender que ele agia como se não tivesse sido possuído por alguma força das trevas, pouco tempo atrás.
Com dificuldade, tentei tirar o braço dele de cima e me afastar.
— Não, por favor. Me perdoa — ele disse com a voz baixa.
Será que o perdoo? Estava confusa e com sono demais para responder ou pensar na resposta. Ele continuou:
— Há três anos, quando nos encontramos naquele avião, eu... — Ele respirou profundamente. — Eu tenho uma dificuldade enorme de dormir. Quando durmo muito, não passa de quatro horas. Duas ou três é a média diária, isso em uma cama confortável...
Sacudi a cabeça. Ele falava sobre média de sono comigo? Meu Deus, o que é isso?
— Então — continuou ele —, tinha certeza de que naquele voo eu não pregaria os olhos. Quando acontece isso, costuma agravar o meu mau humor e me deixa com dificuldade de concentração. Só que algo aconteceu... Você dormiu e... em pouco tempo apoiava a cabeça no meu ombro. Eu ia mexer em você, ou te acordar, para que voltasse ao seu espaço na poltrona, então virei o rosto e te olhei. Você estava com uma expressão tão serena que... não consegui. Não quis te atrapalhar, ao contrário, me vi fitando seu rosto. E só então notei como você é perfeita.
Ele tocou a ponta do meu nariz.
— O nariz arrebitado.
Daniel escorregou os dedos e tocou nos meus lábios.
— Os lábios meio entreabertos e soltos e o contorno perfeito deles.
Minha respiração acelerou junto com a dele.
— Você tem cílios negros que fazem uma curva e ficam mais grossos no final, eles me lembram uma colcheia... e em algum ponto entre o ritmo de seu sono e os traços do seu rosto, eu dormi. E não dormi pouco. Quando acordei, atribuí isso ao cansaço acumulado que sentia... e não pensei mais no assunto. Porém, o seu rosto voltou a mim em algumas noites mais difíceis...
Ele colocou as mãos no meu ombro e me virou para encará-lo, a luz difusa do quarto deixava o rosto dele sombrio, porém ainda assim, notei a intensidade dos seus olhos nos meus.
— Eu te reconheci no momento em que você colocou os pés, as pontas naquele palco, no dia da audição. E quanto mais eu te via nos ensaios, mais difícil era não pensar em você. Aí você apareceu aqui, tão envergonhada e arrependida por ter vindo, que eu me irritei, senti muita raiva quando entendi que teria você aqui por um tempo.
Ele umedeceu os lábios parecendo nervoso.
— Eu queria, quero tanto você, mas, porra, eu sou seu diretor e... não é certo por isso e por motivos que agora não consigo falar... eu não quero que você vá embora porque os beijos, os poucos que trocamos, foram os mais fodas que já dividi com alguém... Eu tentei, eu preciso ficar longe. — A voz dele saiu baixa. — Eu não sou bom para você. Eu sou um monstro por estar aqui e por me sentir incapaz de fazer você sumir da minha vida.
Senti meus olhos molharem. Minha mão subiu até o rosto dele, engoli o choro e a vontade de abraçá-lo.
— Eu não quero ir embora... Então...
Ele me abraçou com tanta força que doeu.
— Que bom — Daniel murmurou e deu vários beijos na minha cabeça.
Ainda sentia uma vontade enorme de chorar. Apesar do aconchego de estar nos braços dele, tinha tanta coisa que eu queria e precisava entender.
Em silêncio, continuamos abraçados por um longo tempo. Ele passava as mãos no meu cabelo. Meu coração queria ficar quieto e fingir que nada tinha acontecido, mas a razão não deixou.
— Por que tudo aquilo?
Senti sua garganta descendo e subindo em minha testa.
— Se eu te pedir um tempo... um tempo para conseguir falar sobre isso, você me daria?
Daria? Será que eu queria dar esse tempo? Sabia que a minha cabeça traçaria as possibilidades mais surreais.
— Enquanto eu não te falar — ele começou —, levaremos as coisas mais devagar entre nós, seremos... hum... amigos... e...
Daniel engoliu outra vez, a voz parecia... embargada? Talvez sim. Ele prosseguiu:
— E quando os ensaios e as dez apresentações acabarem, eu não serei mais seu diretor. Isso também estará resolvido, nós teremos uma conversa franca e depois você decidirá como continuaremos, está bem?
Amigos. Durante quase dois meses. Parecia razoável. Prudente era a palavra. Parecia prudente e... merda! Não queria ser amiga dele. Queria todas as respostas e muito mais, queria os beijos e tudo o que vinha depois deles. Senti vontade de dizer não, mas, como não podia agir dessa maneira, respondi:
— Você faz isso com frequência? — Toquei nas mãos dele, elas estavam envoltas por um tipo de gaze.
— Não, não faço.
— Não faça mais, não tente me expulsar da sua vida daquele jeito horrível por maior que sejam os problemas dessa conversa que teremos... e se você me prometer isso, sim, podemos ser amigos até lá.
— Eu prometo.
Balancei a cabeça concordando com a amizade temporária — bosta, por isso. Senti seus dedos erguerem o meu rosto e a respiração dele na minha boca.
— Posso te dar um último beijo antes de virarmos amigos? — ele perguntou com os lábios quase colados nos meus.
Eu não respondi. Meu peito encheu de ar em um gesto de alívio e minha boca buscou a dele por vontade própria. Queria muito esse beijo. Quando a língua do Daniel invadiu a minha boca e ele gemeu de prazer junto ao beijo, entendi que queria muito esse beijo, muito mais do que devia.