Senhorita Aurora
Capítulo 10
“If you say run, I’ll run with you
If you say hide, we’ll hide
Because my love for you
Would break my heart in two
If you should fall
Into my arms
And tremble like a flower”
Let’s dance – David Bowie
— Tem certeza de que vai ficar bem? — Nathy me perguntou na porta de saída da Companhia. Havíamos acabado um dia longo de ensaios.
— É claro que sim, eu já fiquei sozinha antes e me alimentei direitinho. — Empurrei ela com o ombro e sorri.
— Tem certeza de que não quer ir para a casa do meu pai? Podemos sair juntas, se você for.
Nathalia iria passar o feriado em Oxford, na casa do Paul.
— Não, querida, obrigada. Vou dar uma folga para vocês e para as minhas mãos também nesse feriado.
— Mãos?
— Elas não aguentam mais bancar o candelabro.
Nathalia abriu a boca zombeteira e horrorizada.
— Não sabia que você se sentia assim conosco.
— Depois da última briga de vocês há um mês, parece que estão sempre se reconciliando.
— Ahhh, que exagero! E, além disso, tem o Richard, que quase sempre está junto a nós.
— O que só piora a situação, porque enquanto vocês estão trocando beijos — sacudi a cabeça —, aliás, quando vocês se engolem, o Richard me olha com cara de cachorro abandonado.
Ela olhou para baixo.
— Nossa, desculpa, não sabia que era tão ruim.
— Estou brincando, Nathalia... — Suspirei. — Mesmo dividida, a sua companhia jamais me deixaria deslocada.
Ela passou o braço em cima dos meus ombros enquanto caminhávamos em direção ao nosso apartamento.
— Sabia que eu te amo? — Nathy disse sem me olhar. Ela tinha a maior dificuldade em falar sobre qualquer sentimento, mesmo em uma amizade tão simbiótica como a nossa.
— Sabia, mas esse feriado a sós no apartamento eu serei do senhor Darcy e do Fred Astaire.
— Ai, que medo que eu tenho de você com esses dois.
— Shhh... fala baixo — eu pedi com ênfase. — Eles são meus amantes, o balé me mataria se soubesse e nós ainda estamos muito perto do prédio.
Nathalia gargalhou.
— Não ria, o senhor Hunter pode ouvir que temos senso de humor e nos castigar por causa disso.
Ela gargalhou outra vez, ainda mais alto.
— Ele estava quieto hoje, não é? Não abriu a boca durante todo o dia de ensaio, nem um mísero palavrãozinho em francês ele soltou — ela disse.
— Acho que a mãe dele não teve tempo de dar a educação devida.
— Ai, que maldade, Ni.
— Tem razão. — Suspirei com o peso na consciência pelo comentário.
Desde o episódio “eu sei o que você fez no voo passado”, a minha obsessão pela figura do maestro não diminuiu. Ele continuava sendo um pessoa intrigante e continuava mexendo comigo de uma maneira também intrigante. Porém, de um tempo para cá, tentava empurrar a minha curiosidade e as reações estranhas do meu corpo diante dele, para longe da tentativa de compreensão.
Parei de andar de uma vez. Culpa de uma sensação de esquecimento. A Nathy parou também.
— O que foi? — ela perguntou.
— O meu celular. — Eu já mexia dentro da bolsa. — Falei com minha mãe no vestiário e acho que não guardei de novo. — Sentei no chão e comecei a revirar a bolsa. — Ah, meu Deus, que saco, acabei de comprar, inferno!
— Deixa eu ligar pra ele — Nathy sugeriu, já com o celular dela na mão. Parei de procurar e levantei rezando para ouvir o toque da salvação. Coloquei a bolsa no ouvido.
— Nada, né? — minha amiga perguntou.
— Não, com certeza ficou lá... Mas que bosta! — Fechei a bolsa e coloquei no ombro. — Vou ter que voltar para pegar.
— Ah, querida, que droga!
— Pois é.
— Desculpe, nem poder te acompanhar eu vou, senão perco o horário do trem.
— Fica tranquila, Nathy.
— Tem mesmo certeza de que não vai?
— Absoluta, vou deixar vocês se curtirem a sós um pouco. — Encolhi os ombros. — Vai ser bom para mim. Acabei de comprar Razão e sensibilidade naquele sebo, lembra? Estou louca para reler.
— Não esquece de ligar o aquecedor e de se manter bem quentinha, hein?
— Recordes de frio e neve nesse inverno, né?
— É, e você tem mania de andar mal agasalhada.
— Não sou muito friorenta, com exceção das mãos — Mexi os dedos enluvados e concluí, sorrindo: — sempre geladas.
A Nathy me lançou um olhar de repreensão.
— Está bem, mãe.
— Se a dona Silvana estivesse aqui, ela me agradeceria.
— Ela te agradece mesmo sem ver o que você faz por mim. Agora vá, antes que nós congelemos aqui fora.
Nathalia me abraçou e eu corri de volta para o balé.
Depois que o expediente acabava, a área de ensaios me dava um certo calafrio interno idiota, mas involuntário. Acontece que ali era tudo muito maior do que dava para imaginar. Era quase como entrar em uma fábrica ou um shopping durante a noite. O cenário perfeito para um filme de terror ou de suspense. Meu coração bobo tinha certeza disso, porque, apesar da razão falar a todo instante para ele: “Se acalma, para de atropelar as costelas, o Jigsaw não vai se materializar aqui”, nada parecia acalmá-lo, então, eu fingia não sentir medo enquanto cruzava alas, corredores pouco iluminados e sem movimento em passadas rápidas, bem rápidas.
Alcancei o vestiário e encontrei o celular em segurança. Lá dentro com tudo aceso o medo ridículo sumiu e dei risada da minha cara no espelho.
Guardei-o na bolsa e resolvi fazer o retorno com mais tranquilidade. Para espantar os pensamentos ruins, lembrei do ensaio de hoje e de como foi intenso. Havia feito e repetido algumas vezes os principais pas de deux.
Não lembrava mais de psicopatas e nem do medo. Ria satisfeita comigo mesma. Recebi mais de um elogio do senhor Evans, hoje.
Cruzava o local perto do palco montado para os ensaios finais das peças. Nunca deixava de me impressionar com o tamanho e a estrutura de tudo ali. Ia sorrindo entre impressionada e realizada, quando um som me tocou.
Não qualquer som, e sim uma música sendo tocada no piano.
Quando percebi, fui levada em direção a ela.
Conforme os passos estreitavam a distância entre meus ouvidos e a melodia, eu reconhecia aquela que era uma das músicas prediletas da minha mãe — I want hold your hand — sendo colocada sobre a teclas de tal forma, que parecia renascer e... deixar todo o mundo do avesso, em um bom sentido.
Sem que eu soubesse, as lágrimas tocaram meus olhos junto com o som. Sentia saudades de casa e dos braços da minha mãe, saudades até mesmo das nossas brigas e da exigência quase exagerada dela. Tudo era diferente. Mesmo nos falando todos os dias, ela estava longe. Apos três anos fora de casa, eu entendi muitas coisas: é mais fácil criticarmos as pessoas que estão perto e que sempre vão nos amar incondicionalmente. Mãe é uma dessas pessoas que parecem que nunca vão deixar de estar presentes em nossas vidas, como se elas não tivessem o direito a isso, até que você percebe que não. A vida muda, milhares de quilômetros de distância dificultam e afastam. Não foram poucas as vezes em que, nesses três anos, eu me peguei com vontade de ouvir a voz dela, de ir para a casa dela, de recorrer a ela por uma ajuda que só quem está próximo poderia dar, que só uma mãe poderia dar e que ela sempre me deu. Fazia um ano que eu não a via e dois desde que eu visitei o Brasil. Entretanto, a minha saudade era tanta, que naquele momento, eu jurava que havia passado dez anos sem casa e vinte sem mãe. Já estava a dois passos dentro do palco, o piano de cauda ficava em cima dele e o dono daquela alma na música era... Meu Deus!
Retrocedi para fora da área visível, porque o assassino dos Jogos Mortais não estava no teatro, mas o senhor Hunter sim.
Meu coração, que já estava acelerado pela música, quase colapsou quando se deu conta de que minha obsessão particular era quem animava aquela melodia com tamanha entrega, emoção e vida.
Encostei na parede junto a uma das entradas nos bastidores e fiquei ouvindo a conclusão da música. Não perguntem, não saberia responder porque não saí de lá correndo.
A melodia, com certeza, era culpada.
O senhor Hunter estava de costas para mim.
A música entrava e respirava o ar do meu corpo.
Por isso ele era considerado um monstro da música. Eu... não fazia ideia.
Nunca o tinha visto tocar assim.
A respiração acelerada podia entregar minha presença. Me esforcei para manter o oxigênio no lugar dele. Fechei os olhos com um misto de sensações estranhas, chocadas, entre as saudades de casa e a surpresa por me emocionar tanto enquanto os dedos dele tocavam as teclas do piano.
E então, nada no meu mundo, ou no dele, me prepararam para o que ouvi em seguida.
A música foi diminuindo até as últimas notas. Depois veio o silêncio e, logo após, ouvi um soluço seguido de outro mais alto.
Santo Deus!
Abri os olhos confusa e ouvi um urro de dor vindo do peito do senhor Hunter, que apoiou a cabeça sobre as teclas. Ele criava música junto ao piano. Os sons eram regidos pela convulsão do seu corpo em choro.
Tapei a minha boca com as mãos trêmulas.
O senhor Hunter continuou chorando de uma maneira... que nunca tinha visto, principalmente um homem.
Por que eu não saía de lá?
Não sei.
Estava paralisada com a dor daquele ser humano. Não um motoqueiro malvado, nem um monstro ou um gênio, apenas um homem sofrendo muito.
Será que aconteceu alguma coisa? Ou será que ele guardava essa dor dentro de si?
Que tipo de sofrimento fazia alguém se fechar em uma carapaça de grosseria para não mostrá-lo aos outros? Por que o senhor Hunter escondia isso, talvez até dele mesmo? Por que a nossa dor sempre parece maior que a dos outros?
Até que o choro do senhor Hunter veio me lembrar que não. Talvez ele também sentisse que não havia amor o bastante no mundo. E que esse mesmo mundo nunca o entendeu. Todos nós sentimos isso em algum momento de nossa vida.
Ouvi os soluços que diminuíam.
O banco do piano se mexeu. Virei para sair do alcance de sua visão, caso ele tomasse a minha direção. Ouvi passos sobre o palco, que se distanciavam. E de novo veio o silêncio.
Meu Deus! Nem percebi que segurava o ar.
Como fui egoísta e insensível ao julgá-lo pelo monstro que todos diziam que ele era. E o pior, ele fazia questão de provar a todos que estavam certos a seu respeito.
Olhei para o palco outra vez, agora vazio. Dei alguns passos tímidos e confusos até o piano. Toquei no banco que transpirava o calor perdido do corpo dele. Toquei de leve nas teclas e senti meus dedos molharem. Lágrimas. Meu coração encolheu. Engoli o choro. Senti vontade de consolá-lo, ajudá-lo, de entender o porquê daquele choro, daquela dor. Senti uma vontade tão grande que era quase inexplicável. A não ser pelo fato de que sempre me comovi com a dor dos outros. Já ia sair quando vi ao lado do piano a pasta de couro do senhor Hunter, uma que ele carregava para cima e para baixo, como se levasse a vida dele ali dentro.
Guiada pelo segundo impulso mais estapafúrdio da noite, eu peguei a pasta para tentar devolver a ele.
No meu quarto sozinha, encarava uma pasta em cima da poltrona ao lado da cama, como se ela pudesse desenvolver olhos e boca.
Eu corri para tentar devolver a ele, mas o instinto de sobrevivência agiu antes do impulso e me fez parar.
O que eu pensava fazer?
O que diria ao encontrá-lo?
— Oi, senhor Hunter, acabei de presenciar o ataque de choro mais comovente da minha vida e...
Que idiota!
Depois de parar e pensar por um tempo sobre o que devia fazer, resolvi tentar levar a pasta até o achados e perdidos. Logo após resolver, lembrei-me de que o mesmo estaria fechado. Desisti antes de tentar. Não havia quase ninguém na área interna do prédio, só alguns seguranças, que possivelmente nem saberiam onde deixar a tal pasta. Era noite de apresentação de uma ópera enorme e não haveria ninguém na área administrativa.
Quando tentei voltar e deixar a pasta onde estava, adivinhem? Acesso trancado, luzes apagadas e o medo do Jigsaw e do senhor Hunter voltou. Mais do senhor Hunter do que do assassino imaginário, claro!
O que ele falaria se me visse com essa pasta na mão?
Parecia muito importante porque estava cheia de partituras e anotações.
E agora ela descansava na minha casa, no meu quarto, ao lado da minha cama para ser mais precisa.
Não, eu não fui uma boa menina. Quando cheguei em casa, abri todos os compartimentos da pasta.
Além das partituras, encontrei algo que fez meu orgulho e preconceito em relação ao maestro-louco-Hunter desmontar um pouco mais. Era uma foto antiga, dessas que só existiram na minha infância.
Era um menino de cabelos castanhos dourados, no colo de uma mulher que estampava no rosto o amor de mãe. Os olhos dela eram iguais aos do senhor Hunter. Um verde-claro quase azul. Eram os olhos mais bonitos que já tinha visto.
Ele levava na pasta a foto da mãe?
A mãe que morreu quando tinha seis anos.
Isso poderia parecer meio doentio, mas só consegui enxergar a tristeza naquilo.
Essa foto devia ser bem importante para ele, não devia? Assim como as partituras.
Onde o senhor Hunter morava mesmo?
Pesquisei na internet e vi que ele morava na casa da família próximo a Derbyshire, em North Yorkshire.
Isso é longe.
Entrei, fucei, abri, li e reli dez, vinte páginas, até que encontrei um site que mostrava as mansões históricas da região.
Mansão da família Hunter de 1809.
Lá estava o endereço completo do maestro.
Movida pelo terceiro impulso estapafúrdio da noite, me convenci a ir entregar a ele no dia seguinte. Isso porque o senhor Hunter não ficaria nada feliz sem a pasta dele e, claro, isso porque se descobrisse que essa pasta ficou comigo durante dias, ele ficaria muito, muito bravo comigo e rosnaria. Aqueles rosnados imaginários me perseguiam desde a noite no beco.
Um frio ondulou a minha espinha.
Quem eu queria iludir?
Iria devolver a ele porque queria vê-lo, porque o meu coração imbecilizado não sossegaria até entender que ele estava melhor daquela tristeza. Porque o meu coração ainda mais imbecilizado queria poder ajudá-lo de alguma maneira.
Então, movida pela certeza da boa ação e da curiosidade anormal a respeito dele, que antes já era grande, agora foi triplicada depois do que assisti, inventei uma desculpa que me pareceu bem convincente de como aquela pasta tinha ido parar comigo. Fui dormir ouvindo os soluços do senhor Hunter, algo muito diferente dos rosnados da minha imaginação.