Senhorita Aurora
Capítulo 42
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
porque se você parar pra pensar na verdade não há.“
Pais e Filhos – Legião Urbana
Daniel nunca tinha ido ao mercado de Nothing Hill, dá para acreditar? Um londrino não conhecer a maior feira de antiguidades a céu aberto do mundo? Sendo que essa feira ficava na sua cidade?
— Vamos almoçar em Nothing Hill? — ele perguntou enquanto andávamos no meio de turistas fuçando em mesas de velharias: discos de vinis, casacos de pele usados, exemplares de livros antigos.
— Não, não precisa me dar um exemplar de Orgulho e Preconceito, de 1850 — disse enquanto ele já enfiava a mão na carteira.
— É um presente, não estou perguntando se você quer.
— Não, pelo amor de Deus, custa trezentas libras.
O vendedor olhava para ele com esperança e para mim como se eu fosse uma nazista queimadora de livros.
No fim, ele pagou e não adiantou eu continuar negando.
— Obrigada — agradeci e enchi o rosto dele de beijos.
— Achei que você não queria.
— Não disse que não queria, disse que não precisava.
— Olha, eles vendem até paella em barraca de feira? — Daniel comprovou com a expressão incrédula.
— Eles vendem tudo aqui.
Paramos em frente a uma banca de vinis.
Foi demais para ele, o maestro se rendeu.
— É, até que é interessante toda essa mistura.
— Eu sabia que você ia gostar.
Enquanto ele olhava uma pilha de discos clássicos, eu fui fuçar na pilha de rock. Sem que ele notasse, escolhi e comprei um vinil de presente. Escondi nas minhas costas, o que parecia bem bobo porque o vinil era enorme. Sabia que ele colecionava vinis e não tinha visto nenhum dessa banda específica que eu segurava para entregar.
— O que você tem aí atrás? — Ele largou o monte dos clássicos, eu devia estar com aquela cara de surpresa estampada.
Ele tentou enxergar.
— O que você comprou?
— Para você. — Estendi o vinil.
— Queen?
— I was born to love you — comecei a cantar.
Daniel botou a mão em frente à boca imitando um microfone.
— Yes I was born to take care of you, every single day of my life.
Eu o acompanhei e no fim de mais duas estrofes, seguimos abraçados e rindo.
— Sim, eu sei que sim — ele disse junto a minha orelha.
— Oi? — Eu não entendi.
— Você foi feita para mim, você é meu êxtase — ele repetiu parte da estrofe da música que tínhamos acabado de cantar.
Beijei a mão dele em um gesto de carinho e meus olhos pararam em uma banca de flores.
— Você faria uma coisa por mim? — perguntei exagerando na expressão sugestiva.
— O que você quiser — ele respondeu entendendo a sugestão, cheio de malícia.
— Jura?
— Contanto que não te coloque em risco... Tudo o que você quiser.
— Quando eu era criança, toda vez que ficávamos tristes com alguma coisa, eu e minha mãe saíamos na rua e... você vai ver — disse indo em direção à banca de flores. Uma vez lá, comprei cinco lisiantos e entreguei para ele.
— Para mim? — Daniel entreolhou as flores e o meu rosto.
— Agora nós vamos escolher cinco pessoas e você vai dar uma flor para cada uma delas.
— Não, Nicole, nem pensar — ele respondeu com um sorriso tímido.
— Vai, Daniel, é incrível ver a reação das pessoas.
Ele sacudiu a cabeça.
— De jeito nenhum, eu sou homem, vou ser mal interpretado.
— Ah, como você é bobo. E daí?
— Não.
— Você prometeu.
— Eu fui enganado, achei que você estava me oferecendo outra coisa.
— Você prometeu — insisti.
— Não.
— Vai? — Fiz um biquinho de criança mimada. — Por mim.
Ele bufou e negou com a cabeça.
— Você vai ficar ao meu lado.
— Tá bom. — E eu passei o braço pela cintura dele. — Vamos, eu escolho as pessoas.
— Só você para me fazer topar uma coisa ridículas dessas — ele murmurou parecendo mal-humorado de verdade. Eu achei graça, mas ele continuou com um tom de voz seco: — Vamos acabar logo com isso.
Daniel virou e entregou para a primeira mulher que viu. Era uma jovem de uns 15 anos. Ela parou, deu dois passos para trás, olhou para ele e para mim, se fixou na flor e perguntou:
— Para mim?
— Sim — ele respondeu, ainda carrancudo.
Aí o milagre começou: um sorriso tímido apareceu nos lábios dela que voltou a olhar para a flor e, então, um sorriso enorme se destacou no rosto cheio de sardas.
— Obrigada — ela disse corando.
— Tudo bem — ele respondeu na melhor maneira troglodita. Envergonhado, girou o corpo e saiu andando.
Antes de ir atrás dele, ouvi as duas amigas darem um gritinho de alegria e alguns comentários do tipo: “Você viu como ele era lindo? Ah, meu Deus, ganhei o meu dia”.
Isso iria ser infinitamente mais divertido do que quando eu fazia o mesmo com a minha mãe. Corri para alcançá-lo. Ele entregava agora uma das flores para um grupo de quatro senhoras.
A que recebeu o lisianto arregalou os olhos e levou a flor ao coração enquanto perguntava:
— Você está me dando essa flor?
— Sim, senhora.
— Por que, meu jovem?
Ele me buscou com a expressão perdida. Eu abri as duas mãos no ar na típica pose de sei lá.
O Daniel encarou a senhora e respondeu:
— Para... para alegrar o seu dia.
— É sério?
— Sim.
E no mesmo instante as outras três mulheres, que não tinham sido presenteadas, se manifestaram:
— Eu também quero uma.
— Uma para mim também.
— Não se esqueça de mim.
Ele entregou uma a uma até as flores acabarem. Achei que ele fez de propósito, escolheu um grupo com número certo de flores. Mas, com certeza, ele não esperava o sincero entusiasmo que aquelas senhoras demonstraram. Sem avisar, uma delas beijou a bochecha dele. O Daniel deu dois passos para trás assustado e foi cercado pelas outras três mulheres, que agora também o beijavam no rosto e agradeciam. No final do terceiro beijo, ele já havia se rendido e sorria com divertida timidez. Uma delas se manifestou mais entusiasmada:
— É de jovens galantes e educados assim que a Inglaterra precisa.
— Sim, com certeza, vou passar o telefone do meu neto para que você o ensine como se deve tratar uma dama — disse a outra.
— Tira uma foto comigo, meu jovem? — pediu a primeira a receber a flor e logo todas estavam solicitando o mesmo. Eu gargalhava tanto que lutava pelo ar.
— E essa jovem tão bonita e feliz é a sua namorada? — Uma delas perguntou.
— Sim, senhora.
— Sorte sua, senhorita — a mulher respondeu.
— Eu também acho — disse ainda sem fôlego.
Quando nos afastamos do grupo, ou melhor, quando elas largaram o Daniel e nos afastamos do grupo, ele me olhou, cruzou os braços sobre o peito e disse:
— Você vai me pagar.
— Ah, vai... é impossível permanecer triste fazendo isso.
— Sim, você fica sem tempo para pensar em qualquer outra coisa que não seja se desvencilhar das investidas do sexo oposto.
— Convencido.
Ele encolheu os ombros e disse:
— Obrigado, foi estranhamente divertido.
Estávamos sentados no sofá da sala do apartamento do Daniel em Londres. Assistíamos a um concerto de outro grande maestro da atualidade. Tínhamos acabado de chegar da experiência em Nothing Hill. Ele ouvia com tanta atenção, que era como se eu estivesse sozinha, exceto pela mão pousada no meu braço, ela automaticamente desenhava alguns movimentos conforme a música crescia ou abaixava. Ele estava em um mundo à parte, um mundo que eu conhecia muito pouco. Fiquei curiosa para entender, queria entrar nesse local estranho para mim.
— O que realmente um maestro faz?
Ele continuou em silêncio ouvindo a música, em transe.
— Daniel! — fui mais enfática. — O que um maestro faz? — Ele me olhou como se tivesse acabado de perceber a minha presença.
— Desculpe, eu estava tão concentrado.
— Sério? — perguntei com ironia.
— Você não tem ideia?
— Do quê?
— Do que um maestro faz?
— Para falar a verdade, não sei o que mais você faz além de estudar o tempo inteiro ou tocar a outra metade do tempo.
Ele abriu um sorriso entusiasmado.
— Assim como a dança, a música é algo vivo.
— Certo.
— Um maestro pega a partitura que aparentemente é uma coisa estática, desmembra parte por parte, nota por nota e remonta a composição sendo o mais fiel possível à verdade dela. Entende?
— E o que vocês fazem na frente da orquestra?
— Tudo — ele respondeu como se fosse óbvio.
— Tudo?
— Estou brincando, nós marcamos o ritmo certo e equilibramos as dinâmicas indicadas para cada grupo de instrumentos, assim eles não se perdem no tempo, nem nas dinâmicas indicadas nas partituras.
— Então, é o maestro quem toca a orquestra?
— Sim, ele quem arranja o conjunto e o conduz a fim de extrair a maior verdade possível daquela composição... isso, claro, pela sua interpretação ou sensibilidade.
— Concentração a ponto de antecipar a entrada de todos os instrumentistas da orquestra. Meu Deus, por isso que você é meio maluco — eu disse em tom de brincadeira.
— Ah, mas não é só isso — ele falou com uma forçada seriedade.
— Ah, não?
— Não — ele confirmou e virou de uma vez me deitando no sofá. Parou com o corpo em cima do meu antes de acrescentar: — O maestro tem que conhecer cada instrumento particularmente — ele disse dedilhando as minhas costelas —, saber como se toca cada um deles... — Desceu a boca no meu pescoço e eu gemi enquanto ele avançou com os lábios desenhando notas na minha clavícula. — Antecipar e entender os sons que cada parte desse instrumento produz. — Mordiscou a minha orelha e eu gemi de novo, baixinho. — Estudar minuciosamente cada partitura... — Os dedos dele subiram por minhas coxas e ele prosseguiu na minha orelha: — Antecipar todas os possíveis movimentos, entradas e saídas de cada grupo... de cordas — Dedilhou os dedos, eu tremi —, de sopro — soprou na minha orelha e eu ofegava, pois todas as minhas terminações nervosas foram acesas —, de percussão. — Arqueei as costas quando senti minha calcinha ser invadida pelos dedos dele. — E, acima de tudo, amar, adorar, idolatrar a resposta dada a cada comando e estímulo da interpretação ou variação de cada uma dos acordes tocados. — Ele ofegou ao se acomodar entre as minhas pernas e disse: — Essa é a melhor regência de todas.
Não ouvi mais nada, nenhuma nota ou acorde, só entendia o Daniel brincando de reger meu corpo com absoluta maestria.
— Eu te amo, eu te amo tanto... — ele disse atingindo o clímax, isso eu consegui ouvir.
Foi a primeira vez que ele falou que me amava. Estava sem ar, trêmula e esmorecida pelo êxtase que dividimos no sofá da sala.
— Minha Aurora — ele segurou o meu rosto entre as mãos e concluiu: —, luz do meu coração.
— Eu te amo. — Essa foi a primeira vez que repeti para ele o que já sabia desde aquele dia no salão de baile da Jane Austen.
Naquela noite eu dormi mais cedo do que o normal. Acordei e briguei contra a barreira do sono e do escuro, busquei o corpo do Daniel espalmando o colchão ao meu lado. Ele não estava na cama. Olhei no relógio na mesa de cabeceira: 02:45 AM.
Espreguicei e sentei na cama. Sabia onde ele estaria. Estudando. Sabia disso porque ele não estava na cama e porque o piano estava quieto. Eu nunca deixaria de me surpreender com a quantidade de horas que o Daniel estudava. Levantei e senti um arrepio percorrer a minha espinha, culpa do calor perdido da cama e das poucas peças de roupa que vestia: apenas uma regata e a calcinha. Não queria mais roupas, queria o Daniel ao meu lado. Saí do quarto para chamá-lo.
Encontrei ele sentado na poltrona ao lado da janela e estava tão concentrado no monte de papel em suas mãos, que nem percebeu a minha presença. Pude estudá-lo com determinada calma, enquanto ele estudava o que quer que fosse. Ele era um homem impressionante e sem a camiseta, só com a calça do pijama, era ainda mais. Toda vez que ele lia, surgia um vinco profundo entre as suas sobrancelhas. Eu nunca achei que um vinco pudesse ser tão atraente. Mas ali, fazendo uma moldura para os olhos mais azuis que existiam, o vinco ganhava personalidade e brincava de dar choques no meu estômago. Na verdade, olhá-lo de qualquer jeito era o que desencadeava os choques.
Suspirei.
Ele ainda não tinha notado minha presença.
— No lugar de “você é um CDF”, as pessoas deviam dizer “você é tão maestro”.
Antes de levantar os olhos do papel, um sorriso apareceu nos seus lábios.
— É mesmo? — ele disse colocando as partituras em cima da mesa ao seu lado.
— Hum-hum... — Eu concordei enquanto o olhar dele subiu lentamente, desde os meus pés, até os cabelos? Achei que sim. Senti as bochechas esquentarem e outras partes do corpo também.
— Ao invés de dizer “você fica uma delícia de calcinha e regata”, as pessoas deviam dizer “você é tão Nicole” — falou Daniel já de pé, vindo em minha direção.
— É mesmo? — eu o imitei.
— Eu quero dançar com você.
— Agora? — perguntei surpresa.
— Sim, mas quero aquela música que você dançou com o Ivo, no aniversário dele.
— Kygo?
— Sei lá — Ele envolveu minha cintura com os braços. — eu quero a dança, a mesma dança, na verdade.
— Mas eu não lembro.
— Eu lembro — ele soprou no meu ouvido.
— Você realmente ficou com ciúmes daquilo. — Não perguntei, era possível que ele ainda se incomodasse?
— Eu quis arrancar a pele dele e dar para ele vestir ela do avesso, fora isso... nada.
— Você é louco, o Ivo é... não gosta muito de mulher.
— Ele falou no banheiro que queria te comer.
— O Ivo prefere os meninos, ele mesmo me contou.
Ele não respondeu, no lugar disso me beijou e enquanto os lábios dele avançavam nos meus, as mãos desceram até abaixo do meu quadril. Daniel deixou uma trilha de beijos em direção à minha orelha. Chegando lá, passou a murmurar ordens:
— Mexa o quadril assim. — Ele começou a mover o corpo e eu o segui. A música que tocava era Bolero de Ravel.
— Essa não é a música que eu dancei.
— Shhh, apenas me obedeça e me segue.
Senti os braços dele girarem o meu corpo, as mãos pararam em minha cintura e exigiram que eu movesse os quadris em ondas.
— O Ivo ficou de pau duro enquanto você dançava assim com ele? — ele perguntou ainda com boca na minha orelha.
Eu via o nosso reflexo pelo vidro da janela e... meu Deus, o Daniel era quente.
— Não — foi mais um gemido do que uma palavra firme. Isso porque as mãos dele envolveram os meus seios.
— Ele com certeza é gay. — Daniel virou o meu corpo, ficamos de frente outra vez, nariz com nariz. Bocas quase se tocando.
Ele soprou as palavras entre os nossos lábios:
— Eu vou fazer amor com você no ritmo dessa música, não vou acelerar, nem diminuir, não peça por isso.
A boca dele veio sobre a minha novamente, as mãos ainda mandavam na aceleração dos movimentos. Ele inteiro mandava no ritmo, enquanto eu sentia que era um instrumento. Daniel era um dos melhores maestros do mundo, cada dia que passava o meu corpo e minha alma comprovavam isso.