Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 12 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 9

“Cause you’re a good girl and you know it

 

You act so different around me

‘Cause you’re a good girl and you know it

I know exactly who you could be”

Hold on we’re going home – Artic Monkeys

 

Acordei com o calor do sol no rosto. Briguei um pouco com os raios e meus olhos se entregaram à manhã que crescia na janela. Depois do ensaio e da lembrança do episódio do avião, viemos para Oxford. Durante a viagem de trem, eu contei tudo para uma Nathalia chocada e, em seguida, descontraída. Ela riu durante a viagem inteira do que tinha acontecido há três anos e eu acabei rindo junto.

A vida e o mundo podem ser muito loucos. Como esse tipo de coincidência existe? O que faz duas pessoas que nunca se viram, viverem momentos como aqueles dentro de um avião e o que leva essa mesma pessoa, anos depois, a virar seu diretor, e então... o beco, o amasso, a voz, as instruções na orelha...

Contei sobre isso também. Ela quase surtou de tanto rir. Eu tentei rir, fingi que me divertia, só que nessa parte, especialmente quando lembrei tudo o que a presença dele fazia no meu corpo, não consegui achar graça.

Olhei o quarto, estávamos outra vez, na casa do pai da Nathy. Antes de conhecer aqui, achava que Oxford era uma universidade com um prédio único e enorme. Ri por dentro ao entender que a cidade era toda cercada de prédios, que eles chamavam de colleges.

Sabem Hogwarts?

Alguns prédios daqui foram usados nas filmagens da escola de bruxaria.

Nathy ainda dormia. Levantei e abri a porta do banheiro devagar porque não queria acordá-la, a sua noite foi mais longa do que a minha. Eu encontrei o Richard na festa que fomos e conversamos até uma da manhã. Quando eu bocejava mais do que respondia, ele me trouxe em casa. Não vi a hora que a Nathy voltou, mas acho que, pela empolgação que ela demonstrava com Paul, seu novo namorado médico, devia ser muito tarde.

Escovei os dentes e bochechei ainda com o gosto da pasta de hortelã na boca. Penteei os cabelos que viravam uma coisa inominável depois de uma noite de sono sem prendê-los. Vesti uma roupa de ficar em casa. Quando saí do banheiro, minha amiga tinha acordado e passava uma camiseta pela cabeça.

— Bom dia — disse e sentei na beira da cama.

Os pássaros cantavam muito pela manhã, especialmente depois de um cumprimento ignorado.

— Brigou com o Paul?

Um sopro forte pela boca, foi a minha resposta dessa vez. Através da janela, o dia ainda nos lembrava de agradecer à vida. Dentro havia silêncio, mau humor do paraíso e olhos cansados que agora enxergavam nada além do espelho.

— Nathy, se você vai continuar me ignorando, eu vou sair e fazer qualquer coisa.

— Faz o que você quiser. — Eu sabia que ela queria ou precisava brigar. Talvez eu desse isso para ela, porque a Nathalia mal-humorada conseguia irritar até os pássaros depois da janela.

— Quando acorda assim, você só é melhor do que o senhor Hunter.

Pronto, como a boa amiga que era, iria dar a briga que a Nathy queria.

— Vai passear, sua virgem da autocomiseração antiprazer.

Dei uma gargalhada irônica.

— Está de mau humor, né? Mas a criatividade para as ofensas continua igualzinha.

— Melhor mal-humorada pela manhã do que mal comida, ou melhor nunca comida.

— Sabe, Nathalia? Vai à merda! Você é uma grossa quando precisa descontar as suas frustrações, eu não tenho culpa se o Paul te deu um pé na bunda ou dois. Fui! — disse agarrando minha bolsa de cima da estante e, virando em direção à porta, eu senti a mão dela fechar em meu ombro.

— Eu acabei tudo. Desculpe, Ni, eu estou arrasada. — Apesar deles estarem juntos há um mês, já tinha percebido que Paul era um cara muito ciumento.

— Ah, Nathy, o que aconteceu? — Eu virei de frente para olhá-la.

— Ele quase me arrastou para fora do bar, porque um carinha veio me perguntar que horas eram.

Eu a abracei e passei a minha mão nas costas dela, um gesto de apoio e carinho. Os cabelos loiros acobreados da Nathalia entraram nos meus dedos. Ela era uma Barbie bailarina.

— Talvez tenha sido melhor assim, amiga, Ele... bom, você sabe que eu acho que o Paul é muito ciumento e...

O telefone da Nathalia tocou, eu me afastei enquanto ela pegou o aparelho de cima da penteadeira.

O quarto tinha uma decoração romântica provençal. As janelas inundavam tudo de luz. Ela tocava primeiro as cortinas de renda, depois o papel de parede azul com motivos florais e logo todos os móveis brancos estavam contornados pelo sol. Olhei para ela, que encarava o celular com o cenho franzido.

— É ele?

— Hum-hum... — Nathy afirmou com a cabeça.

— Igno... — não consegui terminar.

— O que você quer? — ela disse seca ao telefone, eu suspirei. — Não, nós não vamos voltar.

Em silêncio, eu encarava a Nathy com esperança de que ela me olhasse, mas ela não me olhou. Ao contrário, virou de costas em direção à janela.

— Por que, às vezes, você tem que ser tão idiota? — Agora ela chorava.

Idiota um milhão de vezes. Que raiva sentia de quem deixava minha irmã de coração partido.

— Você sabe que eu disse que seria a última vez, eu te avisei... mas você... O quê? É um descontrolado, não quero.

Sentei na cama outra vez.

A conversa era entremeada de silêncio e soluços.

— Está bem, eu só vou comer alguma coisa e saio.

Ela desligou sem me ver e enfiou um casaco.

— Ele está aí fora, ele... — Nathy suspirou com lágrimas nos olhos. — está chorando muito e eu... O que eu faço?

— O que o seu coração disser que é certo, minha amiga. — Eu queria dizer acaba com ele logo, mas como? Dentro do amor que sentimos uns pelos outros, está também o respeito com as escolhas dessas pessoas e existe um limite até onde a nossa opinião deve e pode ir.

— Que merda estar apaixonada, você não faz ideia como ficamos burros assim.

— Não, eu realmente não faço a menor ideia. Só tenho certeza de que quero ver você feliz. Com ou sem paixão.

Achava que nunca iria me apaixonar, porque o balé sempre foi meu primeiro e único amor. Eu beijei a testa dela.

— Que bom que tenho você, cheia de tanta paixão por um carinha, convivendo comigo; de certa maneira, vivo um pouco isso sem viver.

— Não, não vive — ela disse limpando as lágrimas e dando um sorriso com o nariz franzido.

— Vai logo, senão o Romeu pode cometer uma loucura por amor.

— Quer saber? Sorte sua ser imune a isso.

— É, talvez — disse sem ter muita certeza se era isso mesmo que eu queria. Por mais que a dança ocupasse quase tudo em mim, existia um lado pequeno que insistia em ficar curioso com o tão sonhado amor romântico. Eu enfiava esse lado bem escondido embaixo de uma pilha de fitas de cetim, toneladas de sapatilhas, com litros de pas de bourrée. Os únicos romances que me faziam suspirar eram os livros da Jane Austen e os musicais de Fred Astaire. Esse era todo o romantismo que cabia no meu mundo.