Senhorita Aurora
Epílogo
Há seis anos danço na principal companhia de balé moderno do Rio de Janeiro. Ninguém nunca disse que eu não poderia mais dançar, me disseram apenas que eu não poderia mais calçar uma sapatilha de ponta por muitas horas seguidas. Mas sabe de uma coisa?! O balé contemporâneo quase não precisa de pontas.
Eu demorei algum tempo para me ligar nisso e o meu corpo para entender que a dança nunca me deixaria por completo. Já a minha alma demorou um tempo para encontrar outro caminho de expressão. Só que eu encontrei. Achava que nunca mais sentiria um palco sobre os pés e agora?! Me arrumava para entrar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em uma apresentação especial, onde comemoraríamos o sexto aniversário da Fundação Senhorita Aurora. Como também, já havia passado pelos principais palcos do mundo, assim como sempre sonhei.
Entendo hoje que os sonhos não nos abandonam nunca, somos nós que desistimos deles. E fazemos isso porque na grande maioria das vezes as coisas não saem como esperamos, como planejamos. Hoje sei que os desvios de caminhos que enfrentamos nos levam exatamente onde devemos chegar. E que Deus, a vida ou o universo, nos entregam aquilo que pedimos e queremos, só que muitas vezes isso acontece de uma maneira um pouco diferente daquela que imaginamos. Entendo também que o que nos mata e nos tira a alegria, não são as coisas inesperadas e os desafios que temos que superar e sim, a nossa dificuldade de encontrar nos caminhos inesperados os sonhos dos nossos corações e os presentes que estão ali, somente esperando por nós.
Olho para a foto da minha família na tela do meu celular, eles, sem dúvida nenhuma, são o maior presente que já recebi: eu, Daniel e nossos dois filhos, a pequena Nathalia e seu irmão Dante, que completaram quatro anos na semana passada. Sorrio ao lembrar que eles estarão sentados em uma das fileiras da frente junto com minha mãe e os padrinhos dos dois: a Nathy e o Paul.
Uma vez por ano, Nathalia vem nos visitar. E como nós também vamos para Londres com frequência, não dá nem tempo de sentir saudades dela.
Olho para o lado e vejo o meu grupo de dança se arrumando para entrar no palco. É uma noite especial, a orquestra sinfônica vai tocar para os alunos da fundação dançarem e o corpo de balé moderno do Rio vai dançar junto com eles. É uma noite de gala, patrocinada pelos nossos investidores e com o apoio do governo da cidade.
Retoco o batom e minhas mãos tremem um pouco. Culpa da adrenalina presente antes de qualquer apresentação. Só que essa em particular faz meu coração disparar mais que normalmente. Daniel estará em cima do palco: ele e uma guitarra acompanhado pela orquestra. O número foi ideia do meu marido e de um amigo que produz o Cirque de Soleil, em Las Vegas. Eu vou dançar While My Guitar Gently Weeps e...
— Mamãe? — Viro em direção à voz conhecida.
É a minha menininha que acabara de entrar no camarim segurando um arranjo de flores maior do que ela.
— Papai mandou para você — ela diz e estende o arranjo.
Pego o buquê sentindo as lágrimas escorrerem por meu rosto.
— No fim, você realmente conseguiu domar a fera — Nathalia, minha amiga, brinca sorrindo.
Coloco o arranjo sobre a mesa e me levanto abraçando as duas.
Nathy segura a mão da minha filha.
— Merda pra você — diz Nathy, antes de sair. — Vamos voltar para os nossos lugares, daqui a pouco a campainha toca e estaremos aqui dentro e...
A voz da minha amiga se perde pelos corredores de trás do palco. Eu vou até a bancada e pego o cartão que veio junto com as flores. Abro o envelope branco com os dedos incertos. Antes mesmo de ler, eu já estou emocionada:
“Senhorita Aurora,
Para te lembrar que você é a mais amada bailarina do mundo. Para te lembrar também que apesar da plateia estar lotada e mesmo com centenas de olhos admirando os seus movimentos, quero que saiba que, mais uma vez, eu cantarei apenas para você.
Para sempre seu,
Daniel Hunter.”