Senhorita Aurora
Capítulo 55
“If I could, then I would
I’ll go wherever you will go
Way up high or down low
I’ll go wherever you will go”
Wherever you will go – The Calling
Daniel comprou uma casa no Jardim Botânico. Nós morávamos juntos há cinco meses.
Era um imóvel de muro médio e árvores altas, nós tínhamos frutas no quintal e brisa na rede no fim de dia. Retornava para lá com a certeza de ter encontrado não um espaço de janelas e pedras que construíam uma casa, mas, sim, um lar pelo amor que nutria nossos sonhos e que semeavam raízes além do quintal.
Ele era um amante apaixonado, um amigo de qualquer hora e um porto seguro para segurar tempestades.
Daniel mostrou e reacendeu em meu coração, a certeza de muitas janelas abertas e a esperança de tantas outras que os sonhos plantados veem nascer.
Naquela tarde eu cheguei em casa um pouco mais cedo do que normalmente, sabia que era folga dele na orquestra e ele disse que queria aproveitar o dia comigo.
Abri a porta, cruzei a varanda e deixei os sapatos tomando sol no degrau antes da entrada, senti cheiro de alho e azeite. Ele estava cozinhando.
— Bom dia... hum... isso está com um cheiro delicioso — disse, o abraçando por trás.
Ele virou e deixou os lábios nos meus.
— Você é quem tem um cheiro delicioso... Com fome?
— Ainda não.
— Que bom. Então, vamos. — Ele me puxou pela mão em direção à porta. — Eu quero te mostrar uma coisa aqui perto.
— O feijão... — Apontei para o fogão com a cabeça.— vai queimar.
Ele abaixou o fogo.
— Voltamos logo.
— Ok — respondi sem ter ideia aonde iríamos.
Nem perguntei porque sabia dessa mania que ele tinha de fuçar coisas e descobrir lugares. Como bom maestro que era, ou melhor CDF, em cinco meses ele praticamente falava fluente o português. Fazia questão de tomar caipirinha todo domingo e comer feijoada com uma frequência regular. Fazia ainda mais questão de dançar um forró de pé de serra ou uma valsa do século XIX embaixo do nosso pé de manga toda noite em que as estrelas brincavam de acender o Cristo e o céu de janeiro. Eu o amava com todas as minhas forças e com alguma coisa além do explicável.
Duas quadras depois, nós paramos em frente a uma mansão centenária. Conhecia de vista, sempre achei a casa linda.
— É linda, não é? — Eu tinha certeza de que ele nunca tinha reparado na tal casa e por isso me trouxe para vê-la.
— É, é mesmo muito bonita — ele disse batendo nos bolsos de trás da calça. Tirou um molho de chaves, me olhou com um brilho no olhar e um sorriso travesso. — Vamos conhecer?
Não tive tempo de contestar, fui puxada para dentro da casa.
— O que significa isso, Daniel? — perguntei achando graça sem realmente entender, enquanto subíamos os degraus que levavam à entrada principal.
Ele pegou uma espécie de tecido colocado junto à porta de entrada. O pano estava sobre algo quadrado a alguns palmos acima do chão.
Em um movimento rápido, ele puxou o tecido.
— Significa... isso.
Olhei para ele e para a placa de bronze que trazia um entalhe de letras grandes e claras:
— O quê? — Meus olhos se encheram de lágrimas.
— Está tudo aprovado junto ao governo, já temos o apoio de duas empresas grandes e agora só precisamos encher essa casa de música e de crianças a quem você ensinará o amor pela dança.
— Mas, como? — eu perguntei, minhas mãos tremiam enquanto meus olhos estavam turvos de tanta emoção.
— Eu comprei a casa... e achei que você fosse gostar de ensinar alguns anjos que não tem nenhuma oportunidade, a dançar.
Eu o abracei sem dizer nada e o beijei com entrega. Ele aprofundou o beijo com uma ternura infinita e os dedos dos meus pés encolheram. Por reflexo passei as mãos pelos seus ombros e arquejei quando a língua do Daniel foi mais fundo na minha boca. Abri os olhos, me afastando um pouco.
Daniel encostou a testa na minha.
— Você quer conhecer lá dentro?
— Hum-hum... — concordei sem fôlego.
— Eu só preciso usar o banheiro — ele disse se afastando um pouco. — Me espera aqui, eu já volto.
— Ok — disse e fechei os olhos, emocionada.
— Não entre sem mim, hein? — ele frisou antes de sumir no interior da casa.
Encostei na grade da varanda e olhei, sorrindo, para a casa centenária de cor mostarda e janelas azuis. Inspirei devagar tentando não voltar a chorar. Eu teria uma escola minha para dar aulas a crianças carentes. Lágrimas encheram meus olhos outra vez. Respirei devagar e ouvi o barulho da fonte colocada junto às árvores no jardim.
Então, outro som preencheu minha percepção: era um piano sendo tocado. Meu coração disparou. Arregalei os olhos quando entendi que o som vinha do interior da casa, tinha certeza. Dei alguns passos nervosos e parei no batente da porta principal.
— Daniel, o que vo...? — Parei ao ver uma centena de flores em jarros e luzinhas penduradas do teto ao chão junto a cortinas de tule que pareciam dançar com o vento criando uma atmosfera de conto de fadas. Cobri a boca com os dedos quando notei que junto às flores e as luzes, havia painéis enormes colocados no hall de entrada da casa montando uma espécie de exposição de fotos. Eram fotos minhas ampliadas e do Daniel: eram fotos nossas.
— Meu Deus! — murmurei incrédula.
Eu criança, calçando sapatilhas e Daniel, criança no piano.
Meus olhos embaçaram.
Eu, na barra um pouco mais velha e Daniel tocando violão.
Minhas mãos tremiam.
Continuei andando pelo caminho de fotos, flores e tules.
Eu, na apresentação que me levou a Londres ao lado de uma foto do Daniel regendo em Nova York.
— Santo Deus! — disse depois de fungar.
Sequei as lágrimas com as costas da mão e respirei o ar de maneira entrecortada. E, em seguida, vi fotos dos ensaios do balé da Bela Adormecida e em todas elas os olhos do Daniel estavam em mim. Continuei seguindo o caminho de fotografias sem conseguir parar de chorar e de rir.
Eram fotos nossas em Londres, depois que assumimos o namoro; no apartamento dele; no teatro; em Nothing Hill. Eu dormindo na cama dele e então vi a última foto antes de uma porta dupla que estava entreaberta; era de lá que vinha o som do piano.
Me aproximei com o coração disparado e as pernas bambas, não era uma foto, mas sim um cartaz com algumas frases escritas. Limpei outra vez as lágrimas dos olhos, respirei fundo e li:
“Oi, meu anjo, entre na sala ao lado. Venha, senhorita Aurora, e encha a minha vida com a luz do seu amor.”
Cobri os olhos com as mãos e solucei junto com uma nova música que começou a ser tocada no piano, a voz do Daniel fez meu coração rodopiar no peito. Com as mãos incertas, abri a porta e lá estava ele ao piano, cantando para mim como sempre fez. Cantando a música que ele sabia, era a que mais amava na vida.
“Homens sensatos dizem que só os tolos se apaixonam,
mas eu não consigo evitar de me apaixonar por você.
Devo continuar?”
Ele sorriu para mim antes de acrescentar:
“Seria um pecado, se eu não puder evitar de me apaixonar por você?”
Daniel levantou do piano e deu alguns passos se aproximando de mim. Eu estava encostada na parede junto à porta, minhas pernas tremiam tanto que eu temia não me manter em pé. Ele se abaixou, ajoelhando à minha frente.
Eu não conseguia falar nada e nem parar de chorar. Nunca em minha vida senti uma emoção como aquela, um amor tão enorme que seria capaz de iluminar o mundo inteiro.
Daniel segurou em minha mão e a beijou com ternura.
— Como um rio flui certamente para o mar, querida, é assim que funciona: algumas coisas estão destinadas a acontecer.
— Eu te amo — sussurrei.
— Nicole — Daniel beijou minhas mãos e tirou uma caixinha de dentro do bolso da calça —, você aceita se casar comigo?
Pisquei na tentativa de afugentar as lágrimas que não deixavam os meus olhos.
— Sim — respondi com a voz falha. — Sim — repeti e gargalhei junto ao choro.
Daniel abriu o estojo e deslizou a aliança no meu dedo.
— Eu te amo, minha Aurora.
E agora eu não conseguia parar de sorrir. Ele levantou e me abraçou, beijando os meus lábios com o maior amor do mundo e eu retribuí com todo o amor que um beijo apaixonado deve ter. Sabia que nossa história, assim como qualquer outra, não seria sempre perfeita, que ainda existiriam desafios a serem superados, momentos tristes com os quais teríamos que aprender a lidar e lições a serem aprendidas, mas que no final nós faríamos tudo valer a pena. Sim, eu tinha absoluta certeza que faríamos.