Senhorita Aurora
Capítulo 18
“I was upset you see
Almost all the time
You used to be a stranger
Now you are mine”
Regret – New Order
Tinha acabado de tomar o café da manhã sozinha. Acordei também sozinha, já passava um pouco das dez. Fiquei dividida entre a confusão e a ansiedade. Não tinha certeza se o que eu lembrava foi real ou um sonho. Quando acordei, cheirei o travesseiro ao meu lado para confirmar. Me senti meio ridícula fazendo isso, mas encontrei o cheiro irresistível do senhor Hunter na fronha. Então, ele realmente dormiu parte da noite ao meu lado? Tinha certeza de que sim, eu lembrava muito bem do calor do seu corpo junto ao meu, o ritmo da respiração e o coração dele imprimindo algo dentro do meu peito.
Ouvi o som de um piano tocando.
Respirei fundo antes de entrar na sala de música.
Assim que eu cruzei a porta, ele levantou os olhos das teclas e sorriu.
Meu Deus! O que tinha esse sorriso que fazia o meu coração dar pulos?
— Bom dia, Bela Adormecida. — O meu coração acelerou ainda mais, senhorita Aurora virou Bela Adormecida.
Umedeci os lábios.
— Bom dia, senhor Hunter.
Ele parou de tocar e ficou mudo me olhando com aquela intensidade que desmembraria até um soldado alemão.
— Nicole?
Estava tão afetada que demorei alguns segundos para perceber que ele acabou de me chamar de Nicole. Puro e simples, meu nome de batismo. Sem nenhum senhorita antes. Nunca achei que escutar o meu nome podia causar tudo isso no meu corpo.
— Você dormiu bem? — ele continuou.
— Sim, dormi. E você? — ele respondeu e... ah, Deus, o sorriso outra vez.
— Muito bem — ele respondeu.
— Você dormiu... — parei.
Como eu iria perguntar ao meu diretor se ele tinha dormido comigo? Não podia. O que era meio ridículo, já que eu sentia que estávamos ficando amigos. Amigos podiam dormir uns com os outros sem que isso significasse nada. O problema era que o meu corpo não deixava acreditar que aquilo, isso, o senhor Hunter, significava nada. Talvez o meu coração também não.
— Vamos trabalhar?
Lembrei do pedido dele de ontem, à tarde. Ele queria que eu dançasse a música. Percorri os olhos pela sala e notei que o jogo de sofá, que ficava em frente ao piano, tinha saído dali. Isso deixou um bom espaço livre.
— Sim, claro, o único problema é que estou sem sapatilhas.
— Descalça? — Ele me lançou um olhar sugestivo.
— Ok. Que tipo de música é?
— Você verá.
Ele começou a mexer em umas partituras, eu precisava tirar um pouco da roupa que vestia.
— Me dê um minuto, eu preciso tirar essa quantidade de roupas.
Ele assentiu.
Tirei o casaco de couro, a blusa de lã dele, a calça jeans e fiquei somente com a blusa e a calça térmicas. Eram de um tecido justo e confortável. Daria para me movimentar melhor assim.
— Pronto, senhor Hunter — eu disse após arrumar as roupas descartadas na poltrona à minha frente.
— Me chame de Daniel, Nicole. — Ele encolheu os ombros. — Isso se você quiser, é claro.
Senti a garganta secar. O que devia ser considerado ridículo, porque era só o nome dele.
Eu não mandava mais em porcaria nenhuma dentro de mim.
Meus lábios se moveram em um sorriso bobo.
— Muito prazer, Daniel, eu sou a Nicole, mas acho que você já sabe disso.
Ele concordou com a cabeça parecendo se divertir.
— Pronta?
— Sim. — Respirei fundo e me posicionei no meio da sala. Fechei os olhos e ouvi os primeiros acordes do piano.
Inspirei o ar devagar e deixei a música entrar no meu sistema. Era uma composição intensa, que seguia um ritmo crescente e, então, a progressão voltava a cair. Me deixei levar pela evolução da música. Ela fazia o meu corpo ficar sem tamanho. Não lembro direito em que momento o olhei. Lembro sim, com detalhes, o que aconteceu no meu corpo e no mundo. Ou o que não aconteceu porque...
Que olhar era aquele?
Dizer que ele me encarava com sincera admiração não chegaria nem perto de definir o que acontecia.
Enquanto as mãos do senhor Hunter corriam livres pelas teclas, os olhos dele corriam em mim com mais liberdade ainda. Era tocada em todas as partes pelo olhar dele em cima de mim. O Daniel soltava as notas como o ar e meu corpo pegava, porque respirava o som.
Senti um arrepio percorrer a minha nuca com os olhos dele em meu pescoço.
Então, olhou no meu colo e o ar faltou.
Uma, duas, três piruetas, eu me entreguei a um êxtase sem dimensão. Muito além do olhar, as notas conversavam com meu corpo e ele notava. O Daniel entendia o que estava acontecendo. Nunca uma música falou tanto comigo, de maneira tão íntima e avassaladora.
Nos braços e nas mãos, os músculos perderam parte da sustentação e por pouco os joelhos não me deixaram sem apoio.
Os olhos dele subiram junto a escala — dos pés às pernas e através da barriga e um choque gelado subiu em minha espinha. Enquanto eu dançava, os toques do Daniel moviam as minhas sensações. Ofegante, eu lutava para não me render, ir até lá e cair de verdade em cima dele. Ele também ofegava e o que parecia algo muito além do desejo, desenhava uma expressão quase primitiva em seu rosto. A eletricidade que se instalou entre nós era tão intensa, que qualquer pessoa de fora que nos assistisse morreria eletrocutada. Eu estava a ponto disso. A composição foi diminuindo e meus movimentos lentos, acompanharam o fim da música.
Parei de olhos fechados e com o rosto molhado, encharcado de lágrimas.
No tempo de uma piscada, ouvi o banco do piano ser afastado. Na pausa de uma batida do meu coração, as mãos dele estavam sobre mim, envolvendo a minha cintura e me puxando para o seu corpo. Eu respirava com dificuldade e ele ensaiava o mesmo ritmo da minha respiração. Estávamos tão próximos que eu senti o ar das narinas dele marcarem a minha face.
— Nicole — ele ofegou —, nós não deveríamos fazer isso.
Eu apenas assenti, mas meu corpo não. Umedeci os lábios que pararam entreabertos buscando algo que eu queria mais do que o ar ou do que a música: o beijo do Daniel.
— Foda-se! — ele disse e desceu a boca sobre a minha.
Não tiveram anjos descendo, nem sinos tocando, nem fogos estourando não, porque fora a minha a boca na dele e a boca dele buscando a minha não sobrava espaço para notar mais nada.
Os seus lábios tocavam os meus gentis e suaves indo de um lado a outro reconhecendo e pedindo permissão para avançar. Abri a boca. Antes da invasão física, senti o ar do corpo dele me preencher e algo além disso, como se fosse possível duas pessoas trocarem parte dos seus corações em um beijo.
Podia parecer uma cena cotidiana na Terra, mas não era. Não era nem um pouco comum para mim a língua dele incendiar a minha alma. Nem os lábios que cresciam e diminuíam junto com o ritmo da posse que o senhor... que o Daniel tomava.
Ele levou as duas mãos até a minha nuca e exigiu um mergulho maior. Pegou todo o ar do meu corpo com aquele beijo que ficava a cada instante mais profundo e entregue.
Eu estava entregue, porque não tinha mais um corpo só meu.
Daniel mordeu levemente o meu lábio inferior e o sugou. O pouco de equilíbrio que ainda tinha foi perdido. As suas mãos largaram a minha nuca e me sustentaram pelas costas. E... meu Deus!
O frio no meu estômago aumentou quando perdi o chão dos pés. Estava no colo dele. A boca do senhor Hunter... do Daniel, não parava de se mover sobre a minha pedindo, exigindo, que desse mais. Muito mais.
Será que era possível?
Ele me colocou sentada em algo... O quê? O piano. O Daniel se encaixou no meio das minhas pernas e tomou a minha boca com a mesma insanidade que ele possuía a música. Entendi que sim, era possível dar mais.
Sem respirar, sem razão e fora de mim por completo, me ouvi gemer quando as suas mãos percorreram as minhas costelas com uma força calculada. Ouvi ele gemer quando as minhas mãos enroscaram nos seus cabelos e o trouxeram para um beijo mais profundo.
Depois de ofegos, mordidas, senti o Daniel em todas as partes da minha pele.
— Nicole — ele ofegou —, que loucura... Eu quero tanto... você.
Eu o puxei com força para retomar o beijo. Também o queria, desci minhas mãos da nuca para o peito dele e, então, para a barriga, para o cós da calça e mais abaixo. Senti algo bem diferente da braguilha e ouvi-o gemer com mais vontade e me beijar mais, muito mais. Tudo em mim queria esse mais, em todos os lugares e...
Fomos interrompidos por batidas na porta.
— Senhor Hunter. — Era a voz distante e apagada de um homem. — Oh desculpe, senhor.
Era a mesma voz que se tornava um pouco mais nítida. Parecia a voz do senhor Clark. Percebi os braços dele me envolverem em uma postura protetora.
— Eu sinto muito. É que... hum... eu consegui o telefonema que o senhor pediu, eles estão na linha, senhor, e... hum... desculpe, achei que gostaria de saber.
Sentia o peito dele descer e subir rápido, duas respirações mais longas depois, ele respondeu:
— Peça um minuto, eu já vou falar com eles.
Ouvi a porta se fechar. As mãos dele subiram e desceram pelas minhas costas e ele deu um beijo na minha fronte.
— Nicole, é da empresa que remove a neve das estradas dessa região, eu preciso atender.
A minha respiração ia muito além da sofrida.
— Está bem — eu disse olhando para a sua camiseta. Senti o polegar dele erguer o meu queixo.
— Vou resolver isso e depois... nós... conversamos.
Eu assenti em silêncio.
Conversamos? Isso não era muito bom, era?
Depois nós continuamos seria bom.
Tentei sorrir, mas não consegui.
Vi ele se afastar e sair da sala de música.
Olhei para os lados, ainda sentada sobre o piano. Senti um calafrio que espalhou uma onda de arrepios em meus braços. O calor da dança ia embora e também o calor dos beijos que trocamos. Fechei os olhos e respirei devagar. O cheiro do Daniel estava em todos os lugares. Me abracei com força tentando me manter aquecida, protegida, sei lá. Pisquei lágrimas de confusão e cobri os olhos com as mãos espantando a vontade de chorar. Meu Deus, eu estava ferrada!
Esperei-o por meia hora ali, antes de resolver subir para o quarto, com uma angústia meio inexplicável e uma ansiedade que beirava os limites do suportável.