Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 53 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 50

“I’m not a perfect person

 

There’s many things I wish I didn’t do

But I continue learning

I never meant to do those things to you

And so I have to say before I go

That I just want you to know.”

The reason – Hoobastank

 

Há tempos eu passava três vezes por semana na frente da minha antiga escola de balé.

Dizia a mim que era mais fácil fazer esse caminho para casa, já que o consultório da minha psicóloga era lá perto. Dizia também que eu me sentia mais segura e confortável fazendo o mesmo caminho que fiz durante anos.

Mas eu sabia porque sempre ia lá.

Eu queria ver. Era como se lá estivesse uma parte minha. Um pedaço da minha alma guardado, esperando por algo para ser resgatado. Nem sabia o que era, nem se um dia seria capaz de encontrá-lo. Mas eu tinha certeza de que se fosse possível encontrar esse pedaço seria ali. Não exatamente naquela escola, mas no balé. Só não entendia como.

Era uma tarde de calor no Rio e quando fazia calor nessa cidade, parecia que todas as fornalhas do centro da Terra trabalhavam juntas e abertas. O céu estava nu de nuvens escancarando um azul de inspirar. Em poucos passos, eu estaria em frente ao meu balé.

Nunca passava na mesma calçada, como se isso representasse um risco que eu não podia correr. Naquele dia eu atravessei a rua alguns metros antes de avistar a casa antiga, onde a escola se instalava. Não entendi o porquê, mas fiz mesmo assim. Uma vez na frente senti meu coração disparar conduzido pela lembrança de anos. Tudo parecia tão igual. Eu me sentia tão diferente.

Engoli o choro que entalava a minha garganta. Ela era quente como a areia das praias aqui do Rio.

Alguns passos foram dados em direção à entrada e, quando percebi o que fazia, estava lá dentro.

Fui tomada pelos sons que fizeram parte de tudo o que eu fui e de tudo o que era. Uma música tocava à minha direita, eu sabia que era horário de aula.

Movidos pelo balé de dentro, meus pés seguiram a música, o cheiro da casa, o gosto das memórias que nunca seriam apagadas do meu sangue.

A porta estava aberta.

Era uma turma de iniciantes. Crianças entre oito e nove anos com coques, meias, collants e sapatilhas, ainda sem ponta.

As barras laterais e os espelhos de teto ao chão, que eram minhas artérias e meus ossos.

— Pas de bourrée — a professora instruiu. Meus olhos fecharam em lágrimas quando tudo o que era vivo acendia em mim como um pavio. O coração vibrava nas veias do pescoço e a pele formigava pela emoção de estar ali, envolvida pelo que movia a minha alma a mais.

Estava de olhos fechados quando ouvi:

— Nicole Alves, é você, não é?

Abri os olhos e encontrei uma garotinha que havia saído da barra, ela estava parada à minha frente.

— Sim — respondi com a voz embargada pelo choro.

— Oh, meu Deus! Eu sabia, você... você me daria um autógrafo?

— Oi? — Notei o sorriso no rosto e no olhar da menina que pareciam cheios de expectativa.

— Você... Eu tenho um pôster seu em cima da minha cama e quando eu crescer quero ser como você, quero dançar tão bem como você.

Levei as mãos à boca e engoli um soluço. As lágrimas desceram totalmente pelo meu rosto, essas foram impossíveis de deter. Notei a professora pedir um momento à turma e vir em minha direção.

— Nicole Alves — ela disse e apoiou as mãos nos ombros da aluna —, que honra ter você aqui. — Em segundos, a sala, que antes estava em silêncio, foi tomada por um burburinho de alunas cochichando e olhando em minha direção. Em pouco tempo fui rodeada por toda a turma de alunas que me cumprimentavam, pediam beijos, fotos, autógrafos.

E ali, cercada uma vez mais pelo balé que eu fui e ainda era, entendi que esse mesmo balé, que parecia morto em mim, estava vivo nos sonhos de outras pessoas.

O meu sonho semeou outros sonhos, inspirava outros sonhos... como um dia eu mesma fui inspirada por anjos a dançar.

Cercada de alunas no meio de sapatilhas e coques, collants e barras de apoio, senti o meu coração voltar a bater e enxerguei além da janela as escolhas que a vida sempre nos daria de presente.