Senhorita Aurora
Capítulo 23
“And this kind of pain, only time takes away
That’s why it’s harder to let you go
And nothing I can do, without thinking of you
That’s why it’s harder to let you go”
Trying Not To Love You – Nickelback
Entrei na sala de ensaio junto com a Nathalia e mais dois amigos do corpo do balé, o John e o Simon, eles eram meus parceiros nos pas de deux do Adágio da Rosa. Tentei me concentrar a manhã inteira, não pensar no Daniel para não ficar ansiosa sobre como seria a reação dele ao me ver. Ainda tentava, sem conseguir, porque minhas mãos suavam de expectativa e nem preciso mencionar o coração alucinado, né? Isso já estava ficando normal.
Ele entrou junto com o senhor Evans e não cumprimentou ninguém, como sempre fazia.
Nathalia, que estava na minha frente, quando o viu sem a barba, quase perdeu o equilíbrio no movimento de alongamento que fazia. Minha amiga olhou para mim com a boca meio aberta e negou incrédula com a cabeça. Ela moveu os lábios e disse em silêncio:
— Meu Deus do céu!
Dei um sorriso amarelo e disfarcei a diversão que a cara abobada dela proporcionou à minha manhã.
Isso é mentira, não precisei disfarçar, porque me sentia um pouco decepcionada pela falta de qualquer coisa vinda do Daniel.
O que eu esperava? Que ele saísse correndo e me desse um abraço?
Não, com certeza era ridículo imaginar que ele mudaria o jeito de ser nos ensaios, pelo que aconteceu entre nós.
Ele estava certo.
Quem eu queria enganar? Ele não estava certo, podia ao menos ter me olhado, dado um sorrisinho, qualquer coisa que demonstrasse que também se sentia como eu.
Mas, como eu me sentia?
Acho que ansiosa demais e talvez com saudades.
— Senhorita Aurora — a sua voz de trovão me sobressaltou —, se queria nos presentear com a sua ausência de movimentos, por que não ficou em casa dormindo?
Abri minha boca por alguns segundos. Pisquei fundo e assumi a posição do ensaio.
Duas horas depois e mais doze, não, quatorze gritos do senhor Hunter dirigidos a senhorita Aurora, entende-se minha pessoa, eu estava confusa, abalada e com um aperto no peito que dificultava e muito o tempo da minha respiração e da contagem mental entre os espaços dos movimentos e da música. Resultado? Eu errava.
Depois de mais um pequeno erro, ele disse:
— Senhorita Aurora, que merde está acontecendo hoje? Se você não tem condições de ensaiar, faça o favor de sair daqui e vá para qualquer lugar: empinar pipa, alimentar esquilos, ou qualquer outra porcaria que não seja atrapalhar o ensaio dos outros bailarinos.
Paralisei e fiquei encarando-o, incrédula.
Olhei para o lado, a sala agora estava cheia com parte do corpo do balé, quase todos pararam o que faziam e olharam para mim.
O senhor Evans encarou Daniel sinalizando uma negação com a cabeça. Ele pediu calma em um movimento discreto.
— Nicole, vá tomar um copo de água e volte depois para retomarmos o ensaio, está bem?
Eu assenti e saí da sala.
Fui até o vestiário com dor no maxilar de tanta raiva e confusão que sentia. Chorei, me sentindo uma idiota.
— Filho da puta! — eu disse entredentes e joguei água no rosto. Me encarei no espelho. — Eu lutei minha vida inteira para estar aqui e ninguém, muito menos um louco desequilibrado, vai tirar isso de mim. Ele não vai tirar nada de mim. Eu sou uma bailarina profissional. O balé é a minha vida. Esse porco lunático não vai me desestruturar desse jeito. Não vai.
O problema é que, no fundo, eu sabia que já estava desestruturada.
As outras quatro horas do ensaio correram com natural frequência. Os gritos do senhor Hunter continuaram sendo quase exclusivamente para mim. Entretanto, consegui empurrar para o fundo de qualquer lugar toda a confusão que experimentava.
Voltava sozinha para casa, já que o ensaio acabou antes para a Nathy, mas sabia o que me aguardava em casa: um monstro com os poderes da Medusa. Isso porque, toda vez que o senhor Hunter gritou comigo, ela, se pudesse, o teria transformado em pedra. Senti os olhares mortais que Nathy lançava em direção ao maestro. Na verdade, eu mesma também o teria transformado se isso fosse possível. Não, não teria, porque naquele momento eu sufocava uma espécie de dor no peito grande demais para sentir raiva. Ele nunca foi tão grosso comigo. Nunca, em três meses, ele me massacrou desse jeito. Se ele já era um monstro antes, imaginem o que esse louco me fez passar durante o ensaio. O clima ficou tão pesado e desconfortável, que alguns bailarinos vieram me consolar no final do dia:
— Eu sinto muito, Nicole, aquele homem é um troglodita! — Ivo falou.
— Nossa, Nicole, como você aguentou tudo em silêncio, você está bem? — John veio me perguntar, enquanto eu andava para o vestiário.
— Caramba, o que deu no senhor Hunter hoje? Ele parece que resolveu descontar em você todos os problemas da vida, tadinha! — disse a vaca falsa da Marie dentro do vestiário e seguiram mais umas dez condolências, até eu conseguir cruzar a porta do balé. Eu me sentia uma viúva de marido inexistente. Passei o final do dia recebendo os pêsames. Desgraçado!
Entrei na rua estreita que conduzia ao meu apartamento. Tudo igual: os prédios de quatro andares, as portas com maçanetas de cobre, os sons da noite na cidade. O frio, a ausência de pessoas na rua e os postes de luz amarelada sempre deixavam Londres soturna no inverno. Tudo estava igual, exceto por um homem que seguia encostado no batente da porta do meu prédio, com as mãos no bolso. Tudo estaria em paz se esse homem não fosse o Daniel Hunter.