Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 33 de 63

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Senhorita Aurora

Ato 2 - A Visão

“We feel the love

Sparks will fly

They ignite our bones

And when they strike

We light up the world”

Firestone – Kygo

 

O ensaio de sexta tinha acabado e estávamos em um grupo grande indo para a festa do Ivo. Nós andávamos entre risadas e piadinhas. Alguns abraçados, outros de mãos dadas. O corpo do balé composto por mais de cinquenta bailarinos, mais os seus quatro diretores, caminhando juntos, reforçava o sentido de união que nascia em um trabalho em equipe. A Nathalia vinha ao meu lado abraçada com o Paul. Ele havia nos encontrado na saída do balé. O ar frio entrava e saía fazendo fumaça no nariz. Não estava tão gelado, uns 12 graus mais ou menos. Frio o suficiente para fazer o ar ficar branco.

— O Richard perguntou de você — Paul falou.

— É... estou um pouco sumida, vou ver se ligo para ele.

— A Nicole está namorando o nosso diretor.

— Shhh, Nathalia, cale a boca.

— Ai, desculpa, achei que tinha falado baixo.

— Falou, mas isso não se fala aqui no meio — Olhei ao redor e completei: — nem alto, nem baixo, pelo amor de Deus!

— Qual deles? — Paul perguntou em tom de voz contido e apontou com a cabeça para o grupo de quatro pessoas onde os diretores caminhavam juntos.

— Aquele careca barrigudo — Nathalia brincou. Paul não conseguiu disfarçar e arregalou os olhos.

Eu dei risada, teria achado mais graça se Daniel não tivesse me enviado um pedido de desculpas meio sem graça, dizendo que não conseguiria ir hoje.

— Aquele é o senhor Evans — eu disse —, não é ele.

— Ainda bem, senão eu teria que conversar com o Richard para ele vir te socorrer.

Eu teria achado graça outra vez se não sentisse um incômodo e uma tristeza intrusa muito maior do que deveria sentir pelo motivo do Daniel não ter vindo conosco. Queria um namorado normal. Queria viver essa paixão. Sem medo de ser vista. Sem medo do que ele me contaria. Queria um namoro de verdade. Não era justo. Nada na vida parecia ser muito justo, exceto em alguns momentos. Ponderando: não é que a vida era injusta, é que esse lance de estar completamente à deriva, fora do controle das próprias emoções era sufocante, revoltante e meio alucinante. Por isso, nunca quis essa droga de me apaixonar. E quando aconteceu, quando eu poderia encenar e encarnar todos os clichês piegas e melosos de casais apaixonados, eu não tinha isso. Queria os clichês e queria todos eles. Andar de mãos dadas pelas ruas, ter uma música nossa, dividir o meu apartamento apertado em algumas noites com ele, sexo. Sexo. Sexo.

Pelo amor de Deus, eu tinha dezoito anos, queria muito mais do que tinha e queria já. Imediatista? Sim, isso sempre foi um dos meus defeitos, ou qualidades. Queria, na verdade, para ontem, tudo dele e um pouco mais. Estava disposta a entregar tudo. Acho que eu já tinha entregue mais do que gostaria.

Dane-se o passado, o drama que ele carregava, a porcaria da ética, eu precisava dele mais do que algum dia precisei de qualquer coisa, até do...

Balé?

Acho que é por esse tipo de pensamento louco e exagerado que as pessoas apaixonadas são tachadas de cegas e burras.

Dizem que os jovens quando se apaixonam são ainda mais intensos. Não queria resolver e nem comprovar as teorias do amor e do sexo, eu só queria... estar com ele de verdade.

O que toda pessoa apaixonada quer é ser correspondida, estar junto, porcaria! Não ter que mendigar por um beijo. Fazer valer toda essa loucura elétrica que tomava posse do meu sangue só de pensar nele. Fazer valer a falta de ar, o coração tresloucado todas as vezes em que eu o via, as 24 ou 48 horas por dia em que ele me acompanhava dentro dos meus pensamentos, embaixo da minha pele.

Mas não tinha nada disso. Ia para uma festa onde todos, ou quase todos, sairiam acompanhados e fariam valer. Enquanto eu voltaria para casa sozinha tendo o senhor Darcy e o Fred Astaire para me fazerem companhia. Eles sempre me bastaram. Não mais. Inferno. Eu era feliz sem saber.

Chegando na festa, resolvi ser... jovem. Não gostava de beber, nunca gostei muito. Não era falso moralismo ou excesso de seriedade por causa do balé, não. A Nathalia mesmo vivia enchendo a cara quando saía. Eu é que nunca curti muito. Mas, naquela noite, frustrada, me sentindo colocada de escanteio outra vez pelos monstros do Senhor Sou Louco Hunter... eu bebi: uma cerveja, duas tequilas, três vinhos, quatro cervejas ou tequilas e...

— E aí, o maestro já regeu a sua sinfonia?

Eu gargalhei.

— Não, Nathy, ele não me comeu. — A música tocava alto e eu já nem ligava mais se alguém nos escutasse, estava puta e bêbada demais.

— Qual será o problema dele?

— Acho que ele é um vampiro.

— O quê? — a Nathy perguntou meio abraçada ao Paul que pedia uma bebida no balcão

— Vampiro, ele tem essa coisa de não me toque e pirou diante da possibilidade de ter me cortado um dia. — Ih, caramba, contei... dane-se. Não aguentava mais essa porcaria toda. Tudo rodava e eu ria que nem uma besta.

— Sério, Nicole, qual será o problema dele?

— É sério, Nathy, acho mesmo que ele é um desses vampiros com medo de xoxota.

A Nathalia estourou em uma gargalhada.

— Você fica engraçada bêbada.

Olhei para meus pés, depois para ela, escondendo a vontade de chorar. Não me sentia mais engraçada.

— Seja o que for, é algo tão horrível, que ele disse que acha que vou ter medo dele. Ele quer ter uma conversa séria e...

— Meu Deus, é sério?

— É.

Nathalia abriu a boca e depois fechou. Então, os olhos dela arregalaram.

— Ai, Nicole, será que ele é um tipo de louco, sei lá, psicótico, ou bipolar, será, será que ele pode te machucar?

— Cale a boca, Nathy! — Fechei os olhos e sacudi a cabeça. — Já pensei em tanta coisa.

— Será que ele foi abusado quando era criança? Ou abusado e torturado e agora não consegue fazer sexo sem ser de maneira perversa?

— Meu Deus, Nathy, pare! — Por isso, nunca contei para ela.

— Sei lá, esses romances que andam fazendo sucesso... a vida imita a arte ou...

— Não, acho que não. — Mesmo bêbada alguém tinha que manter a coerência.

— Talvez a conversa seja para propor um contrato e te colocar em uma coleira e te açoitar até tirar sangue ou então... Ele transa com cadáveres e quer que você participe, como é mesmo o nome disso?

— Para! Chega. Credo, se você continuar com esse filme de terror eu não vou dormir ou vou vomitar... Esquece isso, Nathy, vamos aproveitar e...

Começou a tocar uma música que eu sabia que a Nathy adorava.

— Kygo — eu falei.

— Uhuuuu! Firestone — ela vibrou. — Vamos dançar? Vamos, vai! — Nathy já me puxava entre as pessoas. Corpos se movendo, cheiro de fumaça e uma iluminação indireta. Era um desses lugares meio secretos que só entrava com nome na lista e nunca lotava demais. O nome do Daniel estava na lista e ele, idiota, não foi. Senti um toque no meu ombro. Virei e encontrei o Ivo. Ele era um cara bonito. Olhos verdes e intensos. Era um dos melhores bailarinos com quem já dancei e era o aniversariante.

— Dança comigo?

Nem pensei duas vezes, a música tinha um ritmo bem sensual, com uma batida gostosa. Joguei os braços por cima do ombro do Ivo e começamos a nos mover. As mãos dele sustentavam minhas costas e me guiavam. Nossos corpos ondulavam conforme as escalas subiam. Entrei no clima da dança e no que ela pedia. Comecei a cantar olhando nos olhos do meu amigo, poucos centímetros entre nossos rostos, ele também cantava me olhando. Éramos parceiros de dança. Nossos corpos se conheciam e nossos movimentos se encontravam com uma perfeição ensaiada. Entre piruetas e levantamentos que tínhamos experiência em fazer, nem percebi que dávamos um showzinho para a pequena plateia no local. Só entendi isso quando paramos de dançar e muitos bateram palmas e assobiaram empolgados. Dobrei o corpo em um agradecimento exagerado e o Ivo me seguiu.

 

Estava louco de saudades. E foi só por isso que eu saí da academia de música mesmo sem ter

terminado o que precisava fazer. Foi pela vontade que tinha de estar com ela todos os malditos minutos do dia, que larguei alguns músicos antes do ensaio acabar e uma pilha de partituras para revisar. Durante o caminho inteiro até o bar, eu sorria como um adolescente idiota, somente pela expectativa de encontrá-la.

Tinha acabado de entrar, me desloquei tentando chamar o mínimo de atenção possível. Cumprimentei

dois bailarinos e Danielle Voguel, uma das coreógrafas da peça. Nunca gostei de misturar a vida pessoal com a profissional, então eu deveria estar dando risada da minha cara na frente do espelho. Só que não era assim, as coisas dentro de mim estavam uma bagunça filha da mãe, não dava nem para achar graça.

Dei alguns passos com a cabeça baixa, queria chegar logo na frente do balcão do bar e tentar achar

logo Nicole, sair dali o mais rápido possível e ficar com ela.

Filho da puta!

Sim, era isso mesmo que eu sentia ser toda vez que não conseguia manter as mãos longe dela.

Encostei no balcão de madeira e pedi uma cerveja.

Estava com a garrafa a meio caminho da boca quando senti um toque no meu ombro.

— Nossa, você por aqui... que surpresa!

Virei e fiquei de frente para Marie.

— Oi, senhorita Carobasse — disse forçando uma expressão de saco cheio. Como essa mulher é

sem noção!

— Eu adoro quando você me chama assim, a fada má... é tão sugestivo... Acho essa coisa do

senhorita isso, senhorita aquilo super sexy.

Dei um longo gole no chope e ignorei.

— Não esperava te encontrar aqui. — Ela apertou meu braço e se aproximou mais do que devia.

Fechei os olhos e respirei fundo, ela estava bêbada. Merda!

Passei a olhar para frente procurando Nicole.

— A Aurora e o príncipe dela estão dando um showzinho — Marie falou e apontou a pista.

Foi somente aí que reparei que tinha um casal dançando no meio de uma roda aberta de pessoas.

Todos assistiam ao tal “showzinho” entusiasmados. O bar era em uma área mais alta, o que dava uma visão de camarote para a dança do casal.

Aquilo não era uma dança, aquilo era...

O filho da puta do Ivo estava com a mão na bunda e a boca junto à orelha dela, enquanto eles se

moviam colados.

Nicole sorriu e enroscou os dedos nos cabelos daquele puto.

Meu sangue ferveu.

Ele a virou de costas para ele, as mãos nos quadris dela, guiando-a, e então ela esfregava o traseiro

no pau daquele desgraçado!

Minha visão embaçou.

— Nossa, com certeza, se ele não ainda a comeu, vão sair da pista direto pro banheiro. — Alguém

disse ao meu lado, nem vi quem.

— A gente podia fazer igual, só que em um quarto — Marie soprou na minha orelha.

O copo quebrou em minha mão, mas era a cara daquele filho da puta que eu queria quebrar. Senti

alguns cacos entrarem na pele. Um pouco assustado com meu descontrole, olhei para a minha mão.

Merda, eu me cortei!

Eu precisava sair dali, tinha que sumir rápido, antes que machucasse alguém de verdade.

Olhei para o sangue e senti o cheiro de fumaça misturado a confusão do bar.

— Nossa, você está bem? — Marie perguntou.

— A merda do copo já devia estar trincado — respondi, virei de costas para ela e saí.

Acho que Marie tentou falar mais alguma coisa. Não sei, não consegui ouvir.

Olhei outra vez para a pista, as mãos do Ivo estavam embaixo dos seios dela.

Nicole era uma visão com os lábios entreabertos, as maçãs do rosto coradas e os olhos brilhando.

Os mesmos lábios que eu queria beijar, reclamar, possuir. Uma expressão de prazer atravessou o rosto dela e fez meu coração sangrar mais do que o corte na minha mão. Fechei os olhos com força ao entender que aquilo não era errado, era isso que Nicole merecia: alguém como Ivo, cheio de coisas boas a oferecer e não um desgraçado como eu. Meu maxilar travou e os olhos arderam. Mas essa certeza não era o bastante para acabar com a minha loucura por aquela garota. Apertei a mão cortada e nem senti dor. Saí de lá quase correndo com a certeza de que se não saísse, eu faria alguma besteira.

Aproximar-me dela foi a maior besteira que fiz. Sou eu quem estou errado.

Saí o mais rápido que consegui lutando para não matar alguém e para não chorar como uma criança, lutando contra o maior ciúme que já senti na vida e contra a certeza de que eu deveria ir embora da vida da Nicole, não somente hoje, mas para sempre.