Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 50 de 63

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Senhorita Aurora

Capítulo 47

“And all I can taste is this moment

And all I can breathe is your life

Cause sooner or later it’s over

I just don’t want to miss you tonight”

Iris – Goo Goo Dolls

 

— Filha, eu fiz seu bolo favorito, o da vovó.

Estava deitada em minha cama olhando para o teto. Via e revia mentalmente os passos do meu último pas de deux na Bela Adormecida. Essa era outra tortura que eu me infligia diariamente. Era mais um masoquismo inevitável. Quando eu fazia isso, meu corpo chorava em silêncio inconformado e eu implorava a Deus por uma explicação. Mas Deus não explicava.

— A Mariana ligou hoje aqui para saber de você, a tia Lu também.

A Mariana era a diretora da minha escola de balé aqui no Rio. Lembrar dela e de tudo o que já devia estar sabendo, fez meu estômago revirar.

— Ah, que bom. E o que ela queria, saber como está a bailarina inválida?

— Não fala isso, Nicole, você não ficou inválida, muito longe disso.

Eu sabia que era verdade, mas não me sentia nem um pouco aliviada. Era como se o acidente tivesse me deixado inválida: inválida para o meu sonho, inválida para a vida que eu tinha e que acreditei que nada nunca poderia tirar de mim.

— Mas foi isso o que aconteceu, a vida ferrou comigo, uma caixa estúpida matou tudo o que quis e tudo o que eu podia querer... então, não venha me dizer que eu não fiquei inválida. — Senti as lágrimas pararem na garganta. — Você, ninguém sabe de nada.

— Eu sei, Nicole, que há mais de três meses você culpa Deus e todo mundo pelo que te aconteceu. Sim, você tem razão, foi uma grande merda, uma fatalidade, uma crueldade tão absurda que é quase inacreditável. Só que sempre existe uma escolha.

— Ah, existe? Que escolha? — eu gritei com raiva e prossegui: — Eu lutei a minha vida inteira para chegar onde estava, eu tenho dezenove anos e tinha acabado de estreiar o papel de destaque em um dos grandes balés da Companhia, eu tinha um futuro brilhante, eu sonhei e dei meu sangue por ele e cheguei lá — ofeguei de desespero e dor, mas continuei: — E aí, um dia, uma caixa filha da puta destrói tudo o que lutei para construir na minha vida e todos os sonhos que alimentei. — Eu ri irônica. — Eu teria os palcos do mundo, e agora? Tenho que agradecer se um dia puder calçar uma sapatilha de novo.

— Você escolheu a sua vida, lutou por suas escolhas e eu sempre lutei junto com você. — Minha mãe fechou os olhos e disse com choro na voz: — A única coisa que você tem que perceber é que existem outras escolhas, você pode continuar nesse quarto afundando em sua mágoa, em sua raiva pelo que aconteceu, ou você pode abrir a sua janela e ver que tem um mundo de possibilidades lá fora, esperando por você.

Eu fechei os olhos para não gritar ou chorar.

— Nenhuma possibilidade será suficiente para preencher um terço do buraco que aquela caixa abriu.

— Enquanto você continuar acreditando nisso — ela respirou pesadamente e disse: —, não enxergará nada além desse mesmo buraco e dificilmente conseguirá sair dele, por mais que as pessoas ao seu lado estejam estendendo a mão.

— As pessoas querem me ver bem, querem que eu saia... — Eu bati no peito alterada. — e reconstrua minha vida, parece que é uma obrigação ser feliz. Ninguém sabe o que é se sentir destruída para a vida.

— Não, Nicole, ninguém é obrigado a ser feliz e sim, as pessoas que te amam querem te ver bem, mas não te obrigar a isso, querem, pelo menos, te ajudar a tentar.

— Ninguém sabe a dor que eu estou vivendo. — Eu virei o rosto.

— Realmente, minha filha, ninguém sabe e ninguém, exceto você, poderá decidir qual é a hora de começar a curar tudo isso.

Esperei ela sair do quarto para chorar. Não queria que ela me visse chorando, não apenas porque eu quisesse esconder minha dor, e sim porque, naquela noite, eu chorei sabendo que minha mãe tinha razão.

 

Vídeo 26

 

— Oi, minha Aurora, eu melhorei a nossa produção, comprei um microfone profissional, a qualidade do som dos vídeos estava me enlouquecendo. — Ele deu um sorriso torto e continuou: — Resolvi também animar um pouco as coisas e eu te contei que fui guitarrista da banda que toquei? — Ele sacudiu a cabeça com os olhos semicerrados, aquele olhar... Meu Deus, eu sentia falta dele. Ouvi: — Bom, o que eu quero te dizer hoje é...

Ele começou a tocar I’m Yours, do Jason Mraz.

“Eu tentei ficar frio, mas você foi tão quente que me derreteu.”

Minha boca mexia junto com a música.

“Esse é seu direito, pelo amor de Deus! De ser amada, amada, amada.”

Meus dedos começaram a bater de leve contra a coxa.

“Não precisa complicar, o nosso tempo é curto.”

Fechei os olhos.

“Este é o nosso destino, eu sou seu.”

E sem que eu percebesse, um sorriso se formou no canto dos meus lábios acompanhado por um movimento em meu corpo: a cabeça e os ombros se mexiam no ritmo da melodia.

Eu estava dançando.

Meu Deus!

Com sua música, Daniel... me fez dançar.

Passei as costas das mãos nos olhos, respirei ainda sem acreditar e digitei:

 

Obrigada.

 

Nem cinco minutos depois, meu celular vibrou com a resposta do Daniel:

 

Eu te amo.

 

Não respondi, ele respeitou o meu silêncio voluntário e longo, muito longo. Já fazia quase trinta dias que ele mandava vídeos de músicas diariamente e, apesar de esperar por ele como uma pessoa a pé espera encontrar abrigo em uma chuva de granizo, aquele obrigada foi a única palavra trocada entre nós nesses mais de vinte vídeos.