Senhorita Aurora
Capítulo 1
“How can you see into my eyes
like open doors
leading you down into my core
where I’ve become so numb?”
Bring me to life – Evanescence
O avião era enorme e as pessoas acomodavam as malas e tentavam se ajustar entre as cadeiras.
Por que em um avião gigante sobra tão pouco espaço para os corpos dos passageiros?
Ao menos na classe econômica. Para alguém pequena e flexível, como eu, ok, dava para passar... Mas para pessoas grandes e tensas... Deus, isso devia ser horrível.
Ah sim, desculpe não ter me apresentado. Sou uma menina de cabelos castanhos, presos em um coque alto, e olhos meio amarelos de cor indefinida, vestindo meia-calça fio 70, polainas de lã e moletom enorme! E estou lendo o livro com a história do balé de Nova Iorque e mascando um chiclete como se ele fosse o bem mais vital do universo.
Eu, Nicole Alves, estou indo a Londres para realizar meu sonho.
Parecia tão maravilhoso que ainda não tinha entendido que era de verdade.
Um mês atrás foi a audição mais importante da minha vida, lembram? Eu consegui. Era uma das quinze sortudas indo para o Reino Unido.
Até então, Rio de Janeiro, Teresópolis e Belo Horizonte tinham sido as maiores viagens que já tinha feito. E agora? Nova Iorque e Londres, minha nova casa.
Tinha acabado de passar uma semana em Nova Iorque. Essa visita me deu o direito de participar das aulas e fazer um tour pela cidade, porque fazia parte do prêmio pela conquista da vaga para estudar na escola da Companhia de Ballet de Londres.
Meu telefone tocou e vi no visor que era a minha mãe.
Tinha acabado de falar com ela há dez minutos. Mesmo assim, bufei e atendi.
— Oi.
— Já está dentro do avião? — Revirei os olhos com a sua pergunta.
— Já, mãe.
— Você se lembrou de colocar o agasalho e proteger as pernas com aquela meia de pressão?
Ah, mas que saco!
— Sim, é claro que lembrei, mãe — respondi tentando soar um pouco ríspida para que ela parasse.
— E... você conseguiu conhecer alguém nessa semana, aí no balé em Nova Iorque?
Ela já tinha me feito essa pergunta mais de uma vez e eu sabia o que estava por trás dela: controle. Essa mania insuportável que minha mãe tinha de querer controlar tudo em minha vida e, claro, de julgar tudo como bom ou ruim. Olhei para o lado e vi o grupo de dez bailarinos que viajavam comigo, eles estavam sentados juntos. Eu era a única deslocada da turma e aquilo me irritou.
— Você sabe que eu não ligo para isso, vim aqui pelo balé e não para fazer amigos.
Ela ficou quieta. Acho que respondi de forma grosseira. Eu sacudi a cabeça, arrependida.
— Mãe... só me deixa fazer do meu jeito, ok? Qual o problema que eu não tenha me enturmado ainda? Você acha que não sou capaz nem mesmo de fazer amigos? — murmurei.
Ouvi sua respiração longa do outro lado da linha.
— Ah, que besteira... é isso que você acha de mim, depois de tudo o que fiz e faço por você?.
— Não, mãe, eu... me desculpe, tudo ficará bem e... — Parei tentando enxergar as coisas, como sempre fazia em relação a ela: essa era a maneira como ela lidava com as coisas e expressava o amor: cobrando.
— Tripulação, portas em automático. — O som do alto-falante chamou a minha atenção para o avião.
— Mãe, eu tenho que desligar, acho que vamos decolar logo mais.
— Boa viagem e me ligue chegando lá.
— Ok. — E desligamos sem dizer “eu te amo” uma para a outra.
Era tão raro ouvir essas palavras dela que, com o passar do tempo, se tornou difícil para eu dizê-las também. Por que será que dizer “eu te amo” para as pessoas que mais amamos na vida pode parecer difícil, ou até mesmo desnecessário?
Mergulhada nos pensamentos, acho que demorei mais do que as outras pessoas para reparar no cara que estava quase gritando com alguém no telefone e que naquele instante parou na frente da minha fileira, me olhou com cara de “mastiguei um limão” e disse ao aparelho:
— Eu já ligo de volta, vou tentar colocar minha mala dentro de uma caixa de fósforos.
Então ele começou a empurrar a mala para dentro do bagageiro como se estivesse cometendo um homicídio. Parou, encarando o tal bagageiro como se o mesmo fosse um monstro, com as mãos na cintura e ofegante, voltou a tentar, tentar não, a surrar a porta com porradas para baixo para que a mesma fosse fechada — ou morta. Ele era um cara grande, não do tipo gigante, mas muito forte. A camiseta branca, meio justa, escondia um pouco os músculos nos braços e, conforme ele nocauteava o bagageiro, ela subia e...
Sabe aquele V?
Aquele por qual todas as meninas morrem em um homem? Ele estava lá.
Como bailarina, conhecia homens fortes, mas esse cara não era nada parecido com a força que eu entendia. Ele tinha uma aura meio bruta e selvagem!
Talvez fosse a tatuagem: um tribal largo circundando os bíceps que era a causa desse astral bad boy. E se não fosse pela barba tipo Moisés que ele usava, até daria para ver como era o rosto do motoqueiro.
Por que motoqueiro?
Sei lá, estereótipos que a sua mente cria e pronto. Despertei do meu transe em cima do assassino de compartimentos em aviões, com a quarta porrada dele no mesmo e, enfim, uma comissária de bordo com pena da porta, veio interceder:
— Senhor, me deixe fazer isso, está bem?
Ele parou sem dizer nada, nem um “obrigado”. Eu estava na janela e ele ficaria no meio, o cara do corredor teve que levantar para ele passar. E, mais uma vez, não rolou um “obrigado”, nem um “com licença”. Nada. E se ele não tivesse sido tão grosso eu até sentiria pena, porque as pernas dele mal davam naquele microburaco entre as cadeiras, os joelhos esmagavam a mesinha da frente.
— Alô! — Era ele ao telefone de novo. — Você tem alguma maldita ideia do que é ter que fazer uma viagem de oito horas entalado entre duas pessoas que você nunca viu na vida?
Ui, isso foi rude, né? E acho que era só o começo.
— Não, é claro que você não sabe, porque neste momento deve estar sentado na sua poltrona confortável, tomando um cafezinho e olhando a porra de alguma janela, não é verdade?
Silêncio. O cara ao lado do corredor mexeu-se, parecendo desconfortável. Na verdade, eu não me preocupava com o problema do corpo-espaço daquele homem das cavernas.
— Eles alegam a porcaria de overbooking na executiva — o barbudo continuou ao telefone —, e como eu cheguei com a bosta desse avião quase saindo e tenho que estar em Londres amanhã, não tive escolha... fui obrigado a aceitar o último lugar de merda que eles tinham e um pedido de desculpa, dizendo que o valor da diferença da passagem seria reembolsado no meu cartão.
O cara do corredor se encolheu um pouco e eu quase ri — o grandão do meu lado ia viajar de executiva e...
— Eu pago uma fortuna de taxa a vocês, para não ter que lidar com esse tipo de... Faz o seguinte, não peça desculpas... medite, reze, faça qualquer prece e peça para que ninguém fungue no meu cangote a noite inteira e que eu consiga descansar ao menos um pouco... Eu me apresento em uma orquestra amanhã à noite para mais de mil pessoas, que pagaram o dobro do seu salário em um ingresso, e adivinhe? Elas querem uma pessoa na frente da orquestra e não um zumbi. — E desligou.
Meu Deus, não podia ser! O motoqueiro era o quê? Um tipo de maestro ou um músico louco? Eu nem percebi que o encarava, possivelmente com cara de idiota, só notei o que fazia quando ele ergueu as sobrancelhas e me desafiou com o olhar, como quem quer dizer: O quê?
Dei de ombros, desviei o olhar e peguei meu fone de ouvido; item quase tão substancial quanto água e meu iPhone. Era incômodo ter esses aparelhos pequenos e caros, quando eu levava na mala despachada vinte quilos das poucas roupas que juntei na vida, a maioria delas costuradas pelas mãos da minha mãe.
Esse disparate era culpa do meu pai, que vivia em uma mansão e pagava somente a minha escola, meu curso de inglês e mais nada, era o responsável por presentes caros como esse iPhone que segurava. Uma vez por ano ele me visitava e fingia não ver o apartamento de um quarto caindo aos pedaços e minha mãe desmontada de tanto trabalhar para trazer alguma comida em nossa mesa enquanto sustentava meu sonho de dançar. Sonho que meu pai só soube que existia, há pouco tempo, logo depois que venci o concurso pela disputada vaga na Companhia de Ballet de Londres.
O aparelho moderno que segurava, era a prova de como as pessoas podiam ser estranhas e mesquinhas além também de ferrar com a sua cabeça. Meu pai nunca me deu nada além de uma visita por ano, alguns telefonemas impessoais e esse tipo de presente caro, que ele devia julgar ser tudo o que uma menina precisava para crescer.
Olhei a pista de decolagem que era deixada para trás. Ri para a capa da Bela, a princesa da Disney, que vestia meu aparelho caro. Minhas amigas do balé diziam que eu me parecia com ela, então, me deram de presente de despedida.