Senhorita Aurora
Capítulo 16
“I can be tough
I can be strong
But with you, it’s not like that at all”
Wish you were here, Avril Lavigne
Eu me larguei na poltrona em frente ao som do piano que abraçava o ar.
Com o senhor Hunter tocando, tudo ficou quieto. Nunca tinha escutado uma composição dele e o que eu sentia era difícil de entender. Quando alguém faz algo com a alma, quem percebe é a nossa própria alma, e então, somos tocados pelo outro intimamente de uma maneira profunda.
Demorei uns vinte minutos para conseguir passar do primeiro parágrafo. Sempre me surpreendia com a capacidade que a arte tem de aproximar as pessoas. É uma linguagem universal que entendemos sem perguntas ou respostas. E ali, a alma do senhor Hunter flutuava sobre as teclas e fazia o meu coração entender tudo... Lembrei o porquê viajei horas com uma pasta ridícula embaixo dos braços e porque não me detive antes de chegar até aqui, com essa ideia louca e descabida. O motivo era a música. Foi ela que me contou que a alma do senhor Hunter era linda!
Perceber isso fez um frio cobrir o meu estômago e minhas mãos suarem.
Quase trinta minutos, foi o tempo que levei para arrumar minhas ideias e conseguir me concentrar na leitura. Uma vez dentro do livro, sempre fui eu e as páginas.
“Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente. Coisa que talvez surpreenda muito a você, pois os seus sentimentos são tão guardados que parecem não existir realmente.”
O senhor Hunter tinha medo de mostrar os sentimentos, mas na música não.
Somente quando parei de ler para pensar nisso é que me dei conta de que ele não tocava mais. Levantei os olhos das páginas e encontrei os olhos dele nos meus.
Não sei quanto tempo passou, até ele quebrar o silêncio.
— Você faz caretas enquanto lê.
— Eu?
— Sim, senhorita... morde o lábio, franze o cenho, sorri e lê mexendo a boca.
— Eu não faço nada disso.
— Sim, faz — ele disse isso rindo e o meu coração ficou preso naquela risada.
— Volte ao seu trabalho, senhor Hunter, não quero ser alvo do seu mau humor por não conseguir compor. — Ele ficou mais um tempo em silêncio, apenas me olhando, e eu tive que apertar o livro contra o estômago por causa dos choques que subiram em minha espinha.
Assisti, intrigada, ele levantar e caminhar em direção à porta. Antes de cruzá-la, o senhor Hunter parou e perguntou:
— A senhorita não vem?
Como se tivesse explicado qualquer coisa antes, ele cruzou a porta. Demorei alguns segundos para entender que devia me mexer e ir atrás dele. Tive que correr um pouco para alcançá-lo, ele tinha duas pernas enormes de mil quilômetros e, apesar do meu alongamento de bailarina ajudar, um passo dele devia ser igual a cinco passos meus. Aquele homem de ombros largos e sem barba, parou na frente de uma porta dupla, colocou as mãos nas maçanetas douradas e abriu-as em apenas um movimento.
Então, o mundo ganhou vida e cor. O branco lá de fora não existia mais, tudo era sol e encantamento. Meu Deus, aquilo era a definição de um lugar perfeito.
— Meu Deus! — murmurei e mordi as pontas dos dedos sorrindo como uma criança em uma casa inteira feita de doces. Meus olhos subiam e desciam através dos espelhos enormes, pelo teto abobadado com afrescos, pelas portas duplas francesas que davam acesso ao jardim. Um piano de cauda em um dos cantos da sala e barras de apoio rodeavam todas as paredes. Era uma sala de dança, mas não uma sala qualquer, era uma das coisas mais lindas que eu já havia visto.
— Minha tia transformou o antigo salão de baile em um estúdio de dança. — O senhor Hunter olhou ao redor. — Ela ensaiava horas por dia aqui.
— É lindo, muito obrigada por me mostrar. — Os pelos do meu braço arrepiaram quando entendi que, dentro daquela sala, uma das maiores bailarinas do mundo havia, talvez, aprendido a dançar.
— Você pode usar, se quiser — ele afirmou com um olhar perdido e se virou para deixar o estúdio, sala de ensaios, salão de baile... tudo junto.
— Toca para mim — droga, o que acabei de pedir? Tentei me corrigir rápida —, quer dizer, você
pode ensaiar aqui e eu posso dançar e...
— Não! — ele rugiu de costas.
Eu dei um pulo para trás com o coração acelerado.
— Eu quero ficar sozinho. — E saiu sem olhar para trás.
Sacudi a cabeça, rindo, sem achar nem um pinguinho de graça. Ele me trouxe até aqui, não para ser gentil, mas porque queria se livrar da minha companhia. Que idiota! Que homem mais antissocial. Que pessoa complicada.
Bufei e fui até uma das barras de apoio. Tirei as botas de neve, o casaco mais pesado e me entreguei ao meu maior vício. A única coisa capaz de me levar até as nuvens e que nunca, nunca me desapontava: comecei a dançar.
Estava na sala de dança há umas três horas, tentava inutilmente afastar os pensamentos do senhor Hunter e de toda aquela loucura: estar presa ali, na casa dele, as mudanças de comportamento, a barba, ou melhor a falta de barba, a maneira como meu corpo era afetado com a sua presença. Eu já dançava há algum tempo, então estava com o corpo quente. Tentava ensaiar um dos pas de deux da peça, mas não conseguia me concentrar muito nos passos e tive que recomeçar algumas vezes. Culpa do senhor Hunter.
— Culpa dele! — repeti um pouco irritada.
— Senhorita Alves. — Era a voz do senhor Clark, que acabara de entrar na sala de dança. — Hum... — ele pigarreou parecendo um pouco desconfortável. — O senhor Hunter pediu para eu ver se estava tudo bem e também para perguntar por que a senhorita está demorando tanto a voltar para a sala de música.
O quê? Que homem complexo, Jesus!
— Ele espera que eu volte para a sala de música?
— Ahn... acredito que sim, senhorita, ele pediu que eu viesse buscá-la e...
— Eu vou até lá.
O coitado do mordomo não tinha culpa do mestre da casa ser descompensado.
— Obrigada, senhor Clark — agradeci e saí do salão.
Atravessei os corredores decidida a perguntar para o senhor Hunter por que ele era tão louco. Cruzei a porta da sala de música, ele parou de tocar quando me viu e abriu um sorriso que fazia tudo perder ou ganhar sentido.
— Você pediu para me chamar? — perguntei.
— Achei que você fosse morar na sala de dança. — O sorriso que alargou seu rosto aumentou o palpitar do meu coração e a decisão quase morreu. O que mesmo eu queria perguntar para ele?
— Achei que você queria ficar sozinho — disse e cruzei as mãos na frente do corpo.
— Não, não quero mais. — E exalou o ar de maneira audível. — Eu... Aquela sala me traz recordações... muitas recordações. Algumas delas... eu prefiro não lembrar.
— Ahhh... — murmurei entendendo que quanto mais eu o conhecia, mais distante estava de realmente o conhecer.
Ele recomeçou a tocar sem dizer mais nada e fui surpreendida por uma música diferente das que ele tocou durante aquela manhã.
— Kings of Leon? — disse sem esconder minha surpresa.
— Muito bem, senhorita Aurora — ele respondeu com um riso de diversão nos lábios e começou a cantar com uma expressão caricata.
Quando dei por mim estava ao lado dele. Sem que eu pensasse, a música Sex on fire saiu da minha boca e nós dois cantamos juntos.
— Não sabia que gostava desse tipo de...
— Eu gosto de música boa, de qualquer uma, também não imaginei que a senhorita gostasse de...
— Rock? — perguntei e já não estava mais nem um pouco irritada com ele.
— Sim. — Ele encolheu os ombros. — Você parece... meiguinha demais.
— Oi? Meiga?
— É... tipo uma bonequinha de porcelana.
— Hum, tenho certeza de que posso dar aula de rock para você.
— É mesmo, senhorita Aurora? Essa eu pago para ver.
— Paga?
— Sim. — Ele parecia muito convencido de que não precisaria pagar o que quer que fosse.
— Uma pergunta. — Eu lancei o desafio e ele me encarou sério.
— Se você vencer eu respondo, se eu vencer quero lhe pedir algo. — Ele olhou a minha boca e eu senti que perdia as pernas novamente. Será que ele pediria um beijo? Não, não viaja, Nicole.
— Está bem! — aceitei sem pensar e me arrependi em seguida. Aceitei pensando no beijo, quer dizer, não pensando em nada por estar pensando no beijo. E se ele pedisse algo que eu não pudesse cumprir, ou não quisesse? Mas o que ele poderia pedir que pudesse me deixar nervosa? Nada. Afinal, ele era meu diretor e... lógico que não seria um beijo, então o quê? Que estúpida. Como pude lançar um desafio para competir sobre músicas com um maestro?
— Pronta? — ele perguntou.
— Sim. — Já tinha aceitado e minha curiosidade não tinha nenhum senso de autopreservação.
Ele começou a tocar.
— Metallica, Nothing else matters.
— Muito bem, você foi rápida.
Ele iniciou outra. Sentia o coração brincar de baqueta contra o peito.
— Pearl Jam, Even Flow.
Ele apenas abriu os olhos em sinal de concordância e iniciou outra.
— Snow Patrol, Open your eyes.
— Certo — ele concordou, fechou os olhos e começou outra.
— 4 Non Blondes... What’s up — eu disse dando um pulinho.
Ele fez uma expressão engraçada com o cenho franzido e eu cantei:
“Twenty-five years and my life is still
Trying to get up that great big hill of hope
For a destination...”
Ele parou de tocar e eu continuei cantando:
— I said hey, what’s going on?
— Muito bem, espertinha... Estava pegando leve, vamos dificultar um pouco as coisas.
Vários minutos depois, já tínhamos passado por Mother Love Bone, Violent Femmes, Nirvana, My Chemical Romance, David Bowie, Fever Ray... E no fim de umas vinte músicas, eu tinha acertado mais ou menos a metade delas.
— Acho que eu ganhei — ele falou com toda a arrogância de maestro que conseguia sustentar.
— Não, senhor, acho que eu ganhei...
Ele abriu as mãos no ar.
— Empate — disse com um sorriso torto.
— Está bem — eu respondi sentindo o rosto esquentar.
O beijo, o beijo, o beijo... As minhas células queriam isso, descontroladas.
— Pergunte — ele disse me puxando de volta para a realidade. Respirei fundo. Tinha não uma, mas um milhão de perguntas, fiz a que passou primeiro à minha cabeça.
— Por que você tocava Beatles naquela noite em que eu te vi no balé?
Ele olhou para as teclas.
— Foi uma das primeiras músicas que eu aprendi no piano. Minha mãe pedia sempre para que eu tocasse.
— Você lembra muito dela?
Ele abriu a boca como se fosse responder e, então, parou.
— Era apenas uma pergunta, senhorita Aurora.
— Tudo bem. — Eu sorri e devo ter feito aquela expressão de “não custava tentar, né?”, porque ele riu junto comigo. Os risos dele estavam ficando frequentes e o meu coração bobamente feliz com esse resultado.
— Agora é a minha vez. — O senhor Hunter olhou os meus lábios, que queriam ser beijados, acho que olhou. Estava meio perturbada com tudo o que vinha sentindo. Respirei, tentei respirar fundo, precisava recobrar a sensação do corpo.
— Se não quiser... tudo bem, eu entendo — ele murmurou.
O beijo, o beijo, o beijo... Todo o meu corpo estava querendo isso.
Eu consenti, porque já não tinha mais voz.
— Eu...
Deus, se ele enrolasse um pouco mais, acho que cairia sentada outra vez.
— Estou trabalhando em uma composição e gostaria de te ver dançar... queria entender como ela vai ficar no corpo de uma bailarina.
Tudo bem, não era o beijo. Ainda bem que não era o beijo. Ainda bem nada, eu queria o beijo. Mas, na verdade, que homem pede um beijo como um pré-adolescente? Homens, homens mesmo, ao menos aqueles que a gente quer que nos beije, eles vêm e tomam o beijo, não pedem por ele. Na verdade, eu adoraria que ele tomasse ou pedisse, contanto que me beijasse. Fechei os olhos. Realmente estava fora de controle e muito ferrada. Que porcaria era essa de querer ser beijada desse jeito pelo senhor Hunter?
— Então? — A voz forte dele me fez abrir os olhos.
— Claro que eu danço.
— Amanhã?
Concordei e não parei de querer os lábios dele depois disso. Olhava fixamente para a boca do senhor Hunter. Ele levantou. Até os elétrons dentro de mim ficaram sem ar. Umedeci os lábios. “Por favor, por favor, me beije”.
Acho que só um imbecil não perceberia a energia estalando entre nós, eu percebia. Queria que ele percebesse e queria tanto ser beijada, que até doía. Entreabri os lábios, ele deu dois passos vencendo a distância entre nós. Fechei os olhos rendida.
— Senhorita... Não faça isso. — A voz dele saiu baixa e rouca.
Não sei quanto tempo demorei para entender que não seria beijada.
— O quê?
— Apenas... não faça.
Abri os olhos e o vermelho do mundo inteiro ardeu em minhas bochechas.
— Eu... eu... preciso, preciso tomar um banho. — E foi com essa frase idiota que eu saí quase correndo da sala de música do senhor Hunter. Nunca quis ser beijada assim por ninguém, acho que eu nunca desejei tanto alguma coisa. Meu Deus, que merda estava acontecendo comigo?