Senhorita Aurora
Capítulo 46
“Not really sure how to feel about it
Something in the way you move
Makes me feel like I can’t live without you
It takes me all the way
I want you to stay”
Stay – 30 Seconds to mars
Voltei ao Brasil há quinze dias. Meu pai veio me ver logo que cheguei e quase se engalfinhou com a minha mãe. Queria que eu fosse morar com ele enquanto ainda me tratava.
Eu fazia fisioterapia diariamente e sessões de análise três vezes por semana. Quiseram me medicar contra depressão, mas não aceitei.
Quiseram também que eu frequentasse a droga de um grupo de apoio, onde pessoas com as vidas estropiadas, iguais ou piores que a minha, se lamentavam durante duas horas uns com os outros. Só consegui ir a dois encontros. Não achava que era de nenhuma ajuda ouvir como a vida podia ser desgraçada com os outros. Nunca encontraria consolo em saber que existiam pessoas ferradas como eu.
Abandonei o grupo.
Meu pai desistiu de me levar para Belo Horizonte. Minha mãe chorava todas as noites até dormir e eu não ia oferecer nenhum consolo, como poderia?
Nathalia me escreveu algumas vezes, pedindo perdão por não ter sido o suficiente. Não era culpa dela. Ninguém seria o bastante. E o Daniel cumpria a promessa de não desistir. Ele ligava para casa todos os dias, minha mãe batia na porta do quarto e dizia:
— Querida, o Daniel está ao telefone.
Eu não respondia, ela esperava uns cinco minutos em silêncio, então eu ouvia a voz abafada dela pedindo desculpas. Acho que eles estavam ficando amigos, porque acabavam conversando sobre minha vida depois do pedido de desculpas. Isso não me irritava, não mais. Agora era apenas vazio; sessão de análises e o único amigo ridículo que eu me permitia ter: o caderno que estava no meu colo.
Eu contava para ele coisas que queria falar com os outros, mas não tinha vontade para isso. Estranho, né? Sim, as coisas estavam muito estranhas dentro de mim. Esse lance de escrever ajudava um pouco, foi uma sugestão da analista que eu resolvi tentar. Estava no início da primeira linha quando ouvi o celular tocar a entrada de uma mensagem. Olhei o visor e vi que era do Daniel. Coloquei celular de lado e voltei ao caderno. Ele ligava sempre na minha casa, tinha desistido de mandar mensagens há algum tempo. Olhei novamente para o celular.
Sem pensar muito peguei o aparelho e fui surpreendida pela entrada de um vídeo. Coloquei de lado e voltei para o caderno. Escrevi até ter a mão doendo.
Algumas vezes eu escrevia a mesma frase por páginas e páginas: “Eu odeio o meu pé ferrado ou uma caixa filha da puta que acabou com a minha vida”. Psicótico, né? Quando cansei de bancar a louca do caderno, encarei o celular desprezado por uns cinco minutos.
Peguei o aparelho decidida a ver e deletar o vídeo.
O que quer que fosse, com certeza, não mudaria a forma como eu vinha me sentindo, ver ou não ver, não faria diferença. Eu me convencia disso antes de abrir.
Esperei o tempo de carregar e apertei para começar.
Daniel preencheu a tela do celular.
— Nicole — ele disse —, hoje faz dezessete dias que você deixou Londres. Resolvi fazer esse vídeo, porque precisava de alguma maneira falar contigo. Não sei se você vai ver, espero que sim. Esse é o primeiro vídeo que faço, quero te mandar um por dia. Neles, eu vou usar a música, foi ela que me trouxe você. Tenho esperança de que ela seja capaz, de alguma maneira, de te fazer bem. Não quero te obrigar a se sentir melhor, eu também não sinto bem, não ando muito bem... Penso que os vídeos, as músicas, talvez sejam uma maneira de conseguirmos dar algum significado diferente a tudo o que aconteceu, a tudo o que você tem passado. Tenho esperança de que se for assim, quem sabe, um dia, a música te traga de volta para mim. Vou tocar o que eu quero dizer para você e é isso... Eu te amo.
Ele estava sentado ao piano e começou a tocar. Meu coração disparou, eu coloquei a mão no peito. Isso não acontecia mais sem estar vinculado ao sentimento de frustração e raiva. Mas ali, o meu coração bateu por uma coisa diferente: ele bateu por... expectativa.
Ele tocou as primeiras notas e meu coração disparou. Ele lembrou do que lhe contei. Era a música de Elvis que minha mãe cantava para mim: Bridge Over Troubled Water.
— Quando você estiver exausta. sentindo-se pequena — Daniel cantou a primeira frase.
Cobri os lábios com os dedos.
“Quando lágrimas estiverem em seus olhos, eu irei enxugá-las. Estarei ao seu lado sempre que as coisas ficarem dificeis.”
E conforme a voz do Daniel cantava, ela trazia reações involuntárias ao meu corpo, às minhas emoções.
“E quando não encontrar mais amigos.”
Senti um aperto na garganta.
“Como uma ponte sobre águas turbulentas, eu me estenderei.”
Com o coração ainda mais disparado e a música falando com as minhas células, minha boca mexia em silêncio junto com a letra. Senti um gosto salgado... de lágrimas. Minhas lágrimas.
— Como uma ponte sobre águas turbulentas, eu me estenderei — ele cantou.
Cerca de dois meses depois, eu chorei de verdade.
Abafei meu rosto no travesseiro e fiz isso até dormir.
Vídeo 2
— Olá, Nicole. Essa música é do LP que você me deu em Nothing Hill. Hoje, eu me lembrei daquele dia e de como você me fez feliz, me faz feliz.
Quando ele começou a tocar Who wants to live forever, eu soube logo no início qual era e soube também o que, mais uma vez, a música vindo dele me fazia... sentir.
“Mas toque minhas lágrimas com seus lábios
Toque meu mundo com a ponta dos seus dedos
E poderemos ter para sempre
E poderemos amar para sempre
Para sempre é nosso hoje”
Quando acabou o vídeo, eu chorava outra vez.
Vídeo 9
— Olá, meu anjo, essa música virou uma compulsão nos meus dias, quase a minha trilha sonora particular.
O piano começou e meu coração já tocava alto antes da música. Por algum motivo que eu não tentava entender, as músicas que o Daniel tocava faziam com que eu me sentisse viva outra vez... Reconheci a melodia pouco depois que a voz forte dele cantou a primeira estrofe de Stay, de 30 Seconds to Mars:
“Not really sure how to feel about it
Something in the way you move
Makes me feel like I can’t live without you
It takes me all the way
I want you to stay”
Eu esperava pelos vídeos dele. Quando percebi, aguardava por isso diariamente. Sem saber, Daniel me dava algo pelo qual esperar novamente. Era a única hora do dia em que eu conseguia chorar.