Senhorita Aurora

Babi A. Sette · Capítulo 57 de 63

Páginas do PDF

Senhorita Aurora

Capítulo 54

“You hold me without touch.

You keep me without chains.

I never wanted anything

so much than to drown in your love

and not feel your rain.”

Gravity – Sara Bareilles

 

Logo depois que desligamos, Daniel passou uma mensagem dizendo que me esperaria no bar da piscina e que podíamos almoçar juntos. Almoçar? Como? Meu estômago trocou de lugar com as costelas. Acho que eu seria incapaz de comer qualquer coisa pelos próximo dois meses.

Assim que entrei na área do bar, foi fácil encontrá-lo. Ele era um homem grande, moreno e absurdamente atraente. De camiseta polo e bermuda, ele era um desses caras que parecem existir só para brincar com o imaginário feminino. Eu achava isso, minhas pernas bambas também e a meia dúzia de mulheres babando boquiabertas em cima dele concordavam comigo.

Mas o que quase me incapacitava não era a eletricidade sexual que sempre corria entre nós e foi ativada em meu sistema na entrada do hotel, nem a beleza descomunal dele, mas, sim, ele. A presença dele ali, aqui na minha cidade, de surpresa.

Era toda a saudade que sentia e que sabia que era enorme, entretanto, só me dei conta de que ela era quase insuportável olhando para ele, a dez metros de distância. O Daniel já tinha me visto, levantou da cadeira em que estava sentado, abriu um sorriso acaba-com-a-estrutura-e-com-o-equilíbrio e veio de braços abertos em minha direção.

Eu não sei quem alcançou quem, sei que nos abraçamos antes mesmo de estarmos juntos.

Ficamos em silêncio nos braços um do outro enquanto eu respirava toda a presença dele e minhas células se enchiam de calor e vida. Várias perguntas lotaram a minha mente:

Como eu diria adeus, quando ele fosse embora?

Como consegui dizer adeus em Londres, há nove meses?

Como eu respirei durante tanto tempo sem ele?

Como eu pude ser tão fria?

Eu fiquei mesmo muito louca.

Mas agora estava me recuperando, me reconstruindo dia a dia e a prova de que me sentia melhor era a certeza de que morreria outra vez, quando ele partisse daqui.

Engoli todas as dúvidas quando os lábios dele tocaram minha bochecha esquerda e depois a direita de uma maneira longa e carinhosa.

— Que saudades! — ele disse. — Meu Deus, que saudades eu senti de você!

— Eu também.

Ele segurou o meu rosto entre as mãos.

— Você está linda.

— Obrigada — eu disse ainda respirando com dificuldade.

— Vamos sentar? — Ele apontou a mesa com guarda-sol às suas costas.

— Sim.

Fomos de mãos dadas até lá e não soltamos, mesmo depois que sentamos.

— Como essa cidade é maravilhosa — ele disse.

Olhei a vista que tomava toda a extensão frontal da piscina e suspirei.

— Você não disse que vinha.

— Quis te surpreender.

Sorri e olhei para os meus pés.

— Conseguiu.

Daniel levou minha mão até os lábios e a beijou com ternura.

— Como você está hoje? — ele perguntou após o beijo.

— Surpresa, feliz, meio tonta... E você?

— Agora? Muito bem.

Meu coração deu um pulo, eu disfarcei o calor que sentia nas bochechas.

— Como está tudo em Londres?

— Bem... igual, eu acho. Estou morando somente lá já tem algum tempo.

— É mesmo? Está tão ocupado assim?

— Não, eu vendi a mansão e também o apartamento em Bath... Era muito espaço para uma pessoa sozinha.

— Eu... sinto muito. — Ele apertou um pouco mais a minha mão.

— Ah, sente?

— Quer dizer, eu entendo, mas é que você tinha tanto carinho por aqueles lugares que eu imagino como deve ter sido difícil.

Ele deu um sorriso torto, daqueles que eu amava e que me deixavam sem fôlego.

— Eu só vou sentir se a reunião de hoje não tomar o rumo que eu desejo.

Notei meu coração acelerar tanto que tinha certeza de que Daniel ouvia. Ele era maestro e tinha uma audição supersensível, então tinha certeza de que ele escutava.

— Até... é... quando... — O ar não conseguia cumprir sua função nos pulmões. E, meu Deus, que calor era esse?

— Oi? — ele perguntou.

Respirei fundo e disse:

— Até quando você fica aqui?

— Isso depende.

Ele me olhava profundamente, como costumava fazer.

— Do quê?

— De você.

— De... de mim? — Era isso mesmo? Ele disse que dependia de mim o tempo que passaria no Rio?

— Eu acabei de acertar os termos com a orquestra sinfônica brasileira, eles, quer dizer... eu me ofereci para um cargo e eles aceitaram, fui convidado para ser o primeiro regente. — Seus dedos desceram do meu rosto até o pescoço e pararam em cima da veia onde o coração pulava para fora, e ele prosseguiu: — Fiquei de confirmar hoje no final do dia se concordo ou não com os termos conversados.

Engoli em seco, minha respiração ficou ainda mais rápida. Queria perguntar tantas coisas, mas... ele acabou de dizer o que entendi que disse? A sua mão direita voltou a segurar a minha, ele levou a esquerda até o tampo da mesa, notei que ela tremia. Ou era a Terra que tremia?

— Então, Nicole, você acha que eu devo aceitar a proposta deles?

— Eu? — Depois dessa pergunta-resposta, tive certeza de que acabou, não tinha mais inteligência.

— Sim... para mim, hum... — A voz dele falhou. — só haveria sentido em ficar aqui... — Deu uma risada junto com a respiração antes de concluir: — Qualquer lugar só tem sentido se você estiver junto comigo.

As lágrimas queriam chegar, mas o coração acelerado não deixou.

— Junto, como? — É verdade, eu não raciocinava mais. A boca falava sem que eu comandasse.

Ele tocou no meu rosto e disse:

— Junto, com a mulher que eu amo, com a Aurora da minha vida.

Eu perdi o ar e o que restou de mim se transformou em um sorriso. Meu corpo agiu sem comando, assim como as minhas palavras. Em dois movimentos fui para o colo do Daniel, com a boca na dele, reacendendo a chama que nutria e enchia meu coração de alegria.

Ele demorou alguns segundos para reagir; logo que entendeu o que eu fazia, retribuiu aos beijos devolvendo o ar ao mundo e juntando tudo o que ainda estava quebrado em meu coração.

Eu nem sabia que boa parte dele ficou fora do meu peito até o Daniel estar aqui, na minha frente.

Paramos de nos beijar, ofegantes e alheios a qualquer plateia.

— Você me devolveu tudo, Nicole, você é muito mais do que eu imaginei merecer um dia e... eu te amo tanto que hoje sei... que milagres existem. — Ele limpou as lágrimas dos olhos antes de acrescentar: — Não acreditava mais, só que você, o seu amor, a sua entrega e força me fizeram entender que a vida é muito maior e...

Ele respirou fundo e eu não respirava mais, as lágrimas não deixavam.

— E você é o verdadeiro e maior milagre da minha vida — ele disse e, em seguida, me beijou de maneira profunda, e apenas nossa.

O mar do Rio de Janeiro, de azul pacífico, tornou-se uma testemunha rubra nessa manhã em que fui beijada. Muito mais do que escaldado pelo verão, ele ia iluminado na certeza dos toques que não tivemos pela distância e daqueles nascidos na permissão de que nossas almas se entregaram antes do sim.